Salvação e Soberania de Deus: A Grande Comissão como a Expressão da Vontade Divina (III)

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III. AS TERCEIRA E QUARTA OPÇÕES: DEUS TEM DUAS VONTADES

A maioria dos teólogos, reformados ou não, reconhece que, nas palavras de John Piper, “A intenção de Deus não é simples mas complexa”[26], ou se a vontade de Deus é simples, ela é “fragmentada”[27]. Se o soberano Deus deseja a salvação de todos, provê redenção suficiente para todos, mas nem todos são eventualmente salvos e mesmo assim a vontade de Deus é ultimamente efetuada, então a vontade de Deus exibe uma complexidade que requer um entendimento em fases ou estágios. Teólogos têm empregado um contingente de categorias para descrever as duas vontades de Deus: a vontade divina de preceito, comando, ou permissão é geralmente contrastada com sua vontade decretal, soberana, ou eficaz. A maioria das posições são variações de um dos dois paradigmas: ou a abordagem das vontades oculta e revelada (opção três), ou a visão das vontades antecedente e consequente (opção quatro). Geralmente, teólogos reformados optam pelo paradigma das vontades revelada/oculta, enquanto teólogos não-reformados tomam a última.


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Salvação e Soberania de Deus: A Grande Comissão como a Expressão da Vontade Divina (II-B)

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B. Opção Dois: Deus é Soberano e Isto É Expresso Em Sua Vontade De Salvar Os Eleitos

Teólogos reformados como Louis Berkhof, Herman Hoeksema e David Engelsma são chamados de teólogos decretais porque eles veem os decretos eternos como o ponto inicial para estudar as obras de Deus[14]. Como Truesdale e Talbott, teólogos decretais afirmam uma única vontade em Deus, mas por causa de eles verem a soberania de Deus como característica definitiva do ser de Deus, eles chegam em conclusões bastante diferentes do que aqueles abordados na seção anterior. Teólogos decretais ensinam que Deus, na eternidade, decretou a salvação de um número seleto e definido. Aqueles escolhidos são os eleitos enquanto os rejeitados são os reprovados. Esta abordagem de estudar salvação produz os distintivos da teologia reformada: eleição e reprovação, expiação limitada, graça irresistível, e fé como evidência em vez de condição para salvação.

Alguns teólogos decretais mantêm que a escolha de salvar alguns e danar outros como sendo logicamente inicial e primária. Eles veem a decisão de ordenar todos os outros eventos – a Queda, a Expiação, e por aí vai – como sendo os meios pelos quais Deus cumpre seu primeiro decreto de eleger e reprovar. Esta posição é chamada supralapsarianismo porque ela ensina que Deus decretou dupla predestinação “antes da Queda”. É válido apontar que os reformadores originais – Zwinglio, Lutero e Calvino – eram todos supralapsarianos.

A maioria dos teólogos decretais subsequentes não seguiu os reformadores no caminho do supralapsarianismo mas em vez disso optaram pelo infralapsarianismo. Como o rótulo indica, esta posição mantém que Deus primeiro decretou permitir a Queda e então da raça humana caída elegeu aqueles que ele salvaria. Infralapsarianismo tenta evitar alguns dos óbvios dilemas éticos inerentes no supralapsarianismo. No infralapsarianismo Deus não dana os reprovados antes de sua queda, mas os dana porque são caídos. Nem neste esquema Deus ativamente ordena a danação dos reprovados. Em vez disso, quando Deus escolhe um número seleto para salvação, ele simplesmente ignora o restante da humanidade.

Infralapsarianos não creem que o reprovado é ordenado para o inferno; em vez disso, eles veem o reprovado como omitido do céu. Infralapsarianos adotam um decreto simples de eleição, enquanto supralapsarianos ensinam um duplo decreto de eleição e reprovação. Teólogos geralmente concordam que surpalapsarianismo tenha menos problemas lógicos enquanto o infralapsarianismo tenha menos problemas morais[15]. Mas no fim, seja supra ou infra, teologia decretal ensina que Deus tem apenas uma vontade salvífica e que este intento é salvar apenas seus escolhidos.

Teologia decretal produz um conjunto distintivo de corolários. Primeiro, tal visão de soberania divina requer uma negação do amor universal de Deus. Teólogos como Hoeksema e Engelsma não se restringem em declarar o “eterno ódio” de Deus pelos reprovados. Engelsma declara,

Não é de todo surpreendente que advogados da livre oferta se opoem ao ensino reformado da reprovação, pois a reprovação é a negação explícita exata da negação que Deus ama todos os homens, deseja salvar todos os homens, e condicionalmente lhes oferece salvação. Reprovação estabelece que Deus eternamente odeia alguns homens; imutavelmente decretara sua danação; e determinara bloquear para eles Cristo, graça, fé, e salvação. [16]

Segundo, teologia decretal necessita uma reinterpretação dos textos bíblicos que parecem ensinar que Deus ama toda humanidade e deseja a salvação de todos. Por exemplo, Francis Turretin (1623-1687), um estudioso reformado e um dos primeiros proponentes claros do infralapsarianismo, insiste que o amor expresso em João 3:16 “não pode ser universal para todos e cada um, mas especial para alguns”. Ele se refere a “apenas aqueles escolhidos deste mundo” [17].

Um teólogo decretal moderno, James White, toma uma abordagem semelhante para outros textos universais[18]. Ele entende o “todos” de 1Tm 2:4 como significando que Deus deseja a salvação de “todos os tipos de homens” ou “para todas as classes de homens”. Semelhantemente, 2Pe 3:9 significa que Deus não deseja que nenhum de nós, i.e., os eleitos, pereça.

Se Deus ama somente os eleitos, deseja salvação apenas para seus escolhidos, e providenciou expiação somente para os objetos de seu amor, então um terceiro corolário é inevitável: não existe oferta genuína do Evangelho. David Engelsma devota um livro inteiro para a tese que ainda que o Evangelho seja pregado “promiscuamente” a todos, ele é ofertado apenas aos eleitos. De fato, ele não se preocupa muito com a palavra “oferta” afinal. Pregar não oferece o Evangelho. Pregar opera como o instrumento pelo qual fé é ativada no eleito. Os reprovados podem ouvir o Evangelho, mas a mensagem não é para eles. Engelsma contende que sua posição não é hipercalvinismo, mas calvinismo consistente.

Teologia decretal tem efeitos definidos em como se entende e obedece a Grande Comissão e há consequências para tal sistema de pregação e missão. Primeiro, teologia decretal historicamente tem tido o efeito de causar muitos pastores reformados a restringir quem são os candidatos a ouvir o Evangelho. No século 17 muitos teólogos escoceses argumentaram que o Evangelho deve ser apresentado indiscriminadamente apenas a membros da igreja visível [19]. Muitos batistas ingleses do século 18 contavam as Boas Novas apenas a homens cujas vidas davam evidência de graça divina [20]. Seguindo o hipercalvinismo de Daniel Parker, muitos batistas americanos do século 19 rejeitaram o “dever de ter fé”, isto é, a crença que descrentes têm o dever de se arrepender e crer no Evangelho [21]. Teologia decretal levou estes batistas primitivos “casca-grossa” a se oporem a todos os métodos de evangelismo, missão, ou convocação. Esforço evangelístico organizado eram vistos como “disposições forjadas pelo homem” que presumivelmente faziam a obra de Deus. Mesmo hoje em dia as Igrejas Evangélicas (Batistas) Padrão rejeitam qualquer responsabilidade de pregar o Evangelho a todos [22].

Segundo, mesmo enquanto a maioria dos teólogos decretais de hoje têm se afastado das posturas restritivas dos hipercalvinistas anteriores, eles ainda não veem pregação como um apelo com intenção de persuasão. Para eles, pregação é uma proclamação ou anúncio que ativa fé nos eleitos. Pregar indistintamente instrui todos, mas a chamada interna do Espírito é dada somente àqueles que Deus escolheu. Engelsma afirma que diversas coisas no sermão evangélico típico estarão ausentes de uma mensagem verdadeiramente reformada:

Existe, diversas coisas que não serão encontradas em uma pregação reformada para os não-convertidos. Pregação reformada não abordará a audiência com a declaração: ‘Deus ama todos vocês, e Cristo morreu por todos vocês’. Ela não dirá a cada homem: ‘Deus te ama e tem um maravilhoso plano para sua vida'[23]

Terceiro, como James Daane aponta em sua examinação do efeito da doutrina da reprovação na pregação, teologia decretal eviscera o Evangelho de seu significado[24]. Para muitos ouvintes, talvez a maioria, o anúncio é que Deus decidiu permanecer em guerra com eles e ele tomou eta decisão na eternidade passada. O Evangelho é para ser boas novas, mas de acordo com a doutrina da reprovação, a mensagem certamente não é nova e não é necessariamente boa.

Ultimamente, reprovação é um ensino impregável. Pregação é proclamar a verdade com o propósito de chamar os ouvintes a responder. Daane aponta que isto não pode ser feito com a doutrina da reprovação; ela é uma mensagem que não tem resposta [25]. O ensino não se aplica aos eleitos e, para os reprovados, não há resposta ao anúncio de que se é rejeitado. A doutrina da reprovação declara que não existe chamado interno salvífico para o não-eleito. Nenhum chamado implica nenhuma resposta e certamente isto implica nenhuma pregação. Reprovação pode ser contemplada, estudada, e discutida, mas não pode ser pregada.

Para sumarizar esta seção: se a vontade de Deus é singular, então ou ele deseja a salvação de todos ou não deseja. Como temos visto, começar com a premissa de uma vontade salvífica universal poderá levar alguém à fantasia do universalismo. Postular uma negação de qualquer espécie de vontade salvífica universal poderá levar alguém à gangrena da reprovação. Por tais razões a maioria dos teólogos, reformados ou não, optaram em vez disso por uma abordagem de duas vontades.


Traduções Católicas: Um Esboço da Visão Católica da Salvação

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Calma! Este blog ainda é `agnóstico acerca de denominações’ (acho que a palavra é `ecumênico’, mas enfim…)

Existem algumas gemas interessantes nos círculos católicos romanos (doravante em futuros artigos, simplesmnete católicos). Tenho visto algumas ótimas argumentações católicas acerca de soteriologia, em especial depravação total (a qual eles não creem – mas sim na incapacidade total) e expiação ilimitada, além de ataques à expiação penal, imputação, Sola Fide etc.

Assim sendo, vou postar algumas coisas interessantes sobre catolicismo aqui. Divirta-se ou afaste-se!

O post de hoje é um esboço sobre como os católicos tratam a salvação – e é algo bem óbvio: relacionamento com Deus…

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Traduções Crédulas: Perseverança dos Santos (10 de 13)

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Olá, leitores!

Eu quase ia pular este post da série, quando notei que estava traduzindo a parte 11 em vez da 10! De todo modo, este post fecha uma ponta solta bem interessante. Outra argumentação calvinista um pouco mais elaborada é aquela que o texto é comparado com a geração peregrina dos israelitas no tempo de Números. Assim sendo, se coloca a dúvida se os peregrinos eram de fato fiéis a Deus (e aí se joga toda aquela conversa de ‘parece santo mas não é’, ‘nunca foram santos para começo de conversa’ etc.) – e por associação se lança dúvida sobre o caráter dos leitores da carta.

O mais incrível é que este argumento, na verdade, dá uma dupla confirmação à perseverança condicional. Primeiro, porque o paralelo incentiva a interpretação de verdadeiros crentes regenerados e em iminência de queda. Segundo, porque de fato os israelitas não se encaixam na teoria do ‘jamais teve fé de verdade’.

Enfim, leiam e reflitam!

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