A Ordem da Fé e Eleição no Evangelho de João: Vós não credes pois não sois das minhas ovelhas – II.B

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B – Pano de Fundo do Antigo Testamento

Quando olhamos no Antigo Testamento, encontramos uma resposta surpreendentemente clara para a questão “Quem pertence a Deus?”: a nação de Israel.  Existem múltiplas referências no Antigo Testamento para o povo judeu como sendo o povo próprio de Deus, seus escolhidos que lhe pertencem. A seguinte lista é representativa mas não necessariamente exaustiva:

Êxodo 3:7,10; 5:1; 6:7; 7:4,16; 8:1,20-23; 9:1,13,17; 10:3-4; 18:1; 22:25; 32:14;
Levítico 25:55; 26:12;
Deuteronômio 14:1-2; 26:18-19; 29:13; 32:9;
Rute 1:6;
1Samuel 2:29; 9:16-17; 12:22; 13:14; 15:1;
2Samuel 3:18; 5:2, 12; 7:7-8, 10-11;
1Reis 6:13; 8:16; 56, 59, 66, 14:17; 16:2;
2Reis 20:5;
1Crônicas 11:2; 14:2; 17:6-7, 9-10; 22:18; 23:25;
2Crônicas 1:11; 2:11; 6:5-6; 7:10, 13-14; 31:8, 10; 35:3; 36:15-16, 23;
Esdras 1:3;
Salmos 50:4, 7; 53:6; 78:20, 62, 71; 81:8, 11, 13; 85:2, 6, 8; 105:24-25, 43; 106:40; 111:6, 9; 116:14, 18; 125:2; 135:12,14; 136:16; 148:14;
Isaías 1:3; 3:12, 14-15; 5:13, 25; 10:2, 24; 11:11, 16; 14:32; 28:5; 30:26; 40:1; 43:1, 20-22; 44:5; 47:6; 49:13; 51:4, 16, 22; 52:4-6, 9, 14; 58:1; 63:8, 11, 14, 18; 65:9-10, 19, 22;
Jeremias 2:11, 13, 31-32; 4:11, 22; 5:26, 31; 6:14, 27; 7:12, 23; 8:7, 11; 9:7; 11:4; 12:14, 16; 15:7; 18:15; 23:2, 13, 22, 27, 32; 24:7; 30:3, 22; 31:1, 14, 33; 32:38; 33:24; 50:6; 51:45;
Ezequiel 13:9-10; 14:8-9, 11; 25:14; 33:31; 34:30; 36:8, 12, 28; 37:12-13, 18, 23, 27; 38:14, 16; 39:7; 44:23; 45:8-9;
Oseias 4:6, 8, 12; 6:11; 11:7; Joel 2:17-18, 26-27; 3:2-3, 16;
Amós 7:8, 15; 8:2; 9:10, 14;
Obadias 13;
Miqueias 2:8-9; 6:2-5;
Sofonias 2:8-9.

Semelhantemente em muitos locais ao longo do Antigo Testamento o povo judeu é chamado filho de Deus. Novamente, esta lista é apenas representativa:

Êxodo 4:22-23;
Deuteronômio 1:31; 8:5; 14:1-2; 32:19-20;
Isaías 1:2-4; 45:11; 63:8, 16; 64:8;
Jeremias 31:9,20;
Oseias 1:10; 11:1,10;
Malaquias 1:6 (cf. Romanos 9:4).

Assim, quando Deus levou os judeus para fora do Egito, sua palavra a Faraó foi “Deixe ir o meu povo” (Ex 5:1). Quando Deus entregou a lei a Moisés, ele proclamou: “Porque os filhos de Israel são meus servos; eles são os meus servos que tirei da terra do Egito. Eu sou o Senhor vosso Deus” (Lv 25:55). Deus prometeu aos israelitas: “Andarei no meio de vós, e serei o vosso Deus, e vós sereis o meu povo.”(Lv 26:16). Semelhantemente, Moisés exortou os israelitas: “Filhos sois do Senhor vosso Deus; não vos cortareis a vós mesmos, nem abrireis calva entre vossos olhos por causa de algum morto.” (Dt 14:1). E na profecia de Isaías, o profeta fala para o povo judeu que enquanto eles clamam a Deus em arrependimento: “[8] Mas agora, ó Senhor, tu és nosso Pai; nós somos o barro, e tu o nosso oleiro; e todos nós obra das tuas mãos. [9] Não te agastes tanto, ó Senhor, nem perpetuamente te lembres da iniquidade; olha, pois, nós te pedimos, todos nós somos o teu povo.”(Is 64:8-9).

Além disso, em numerosos lugares do Antigo Testamento a nação de Israel é comparada a um rebanho de ovelhas (1Rs 22:17, 2Cr 18:16), pastoreadas pelos líderes que Deus colocava diante deles (Nm 27:17, 2Sm 5:2, 1Cr 11:2, Sl 78:71-72, 2Sm 7:7, 1Cr 17:6) ou pelo próprio Deus (Sl 23, 28:9, 74:1-2, 78:52, 79:13, 80:1, 95:7, 100:3; Is 40:11; Jr 3:15, 23:1-6; Ez 34:2; Mq 7:14; Zc 10:3). Portanto, Israel pode dizer a Deus, ” Assim nós, teu povo ovelhas de teu pasto, te louvaremos eternamente; de geração em geração publicaremos os teus louvores. “(Sl 79:13). Deus é chamado o Pastor de Israel, que guia José como rebanho (Sl 80:1). Geralmente os judeus são comparados a um rebanho que foi arruinado pelos inimigos, dissipados entre as nações (uma alusão ao cativeiro, tanto físico quanto espiritual), e necessitando da proteção e cuidado de Deus. Estes inimigos poderiam ser tanto de dentro (se líderes corruptos ou o próprio povo em rebelião, como em Ez 34, Is 56:10-12, e Jr  3, 10:21, 23:1-3, 50:6; Zc 10:2-3), ou de fora (como as nações que assolaram Israel; Sl 74,79 (veja Sl 79:13); cf. Is 3:12-15 para ideias semelhantes acerca do povo de Deus). Deus repetidamente prometeu reunir novamente seu rebanho dissipado, seu povo, referindo-se não somente à restauração física da nação do cativeiro, mas também à restauração espiritual debaixo do vindouro Messias, que seria um novo Davi que viria pastorear o povo de Deus (Is 11:10-12; Jr 3:14-19, 23:1-6, 31:10, 32:38; Ez 11:18-21,34:2,37:21-28; Mq 2:12; Zc 8:7-8).

No Antigo Testamento, portanto, é o povo judeu, a nação de Israel, que é considerada o povo de Deus, o rebanho de Deus. Agora a questão é, esta observação pode nos ajudar a entender melhor o significado intencionado por Jesus quando ele afirma que aqueles que pertencem a Deus como filhos de Deus, e quem são as ovelhas de Cristo, que virão a ele em fé? Em uma primeira consideração, não parece ser que, especialmente quando notamos que os israelitas foram algumas vezes chamados povo de Deus mesmo em seus mais rebeldes momentos (p.ex. Sl 106:40; Is 1:2-4, 5:25, 58:1-2; Jr 2:11-13, 4:22; Ez 33:31). Faz pouco sentido dizer que Jesus intencionava que todos os judeus, mesmo aqueles em meio à rebelião, viriam a ele em fé. De fato, Jesus emite as assertivas em questão (p.ex. Jo 8:47, 10:26) para explicar exatamente o resultado oposto, o fato que muitos dos judeus estravam rejeitando-o como Messias e recusando-se a aceitar seu ensino (Jo 5:40).

Existe outro sentido, mais restritivo, dado para “povo” e “rebanho” de Deus no Antigo Testamento, porém, que faz perfeito sentido quando aplicado às afirmações de Jesus no Evangelho de João. (Eu explicarei na próxima seção como este encaixe pode ser feito; nesta seção eu simplesmente introduzirei o sentido restritivo dos termos em questão e estabelecerei sua ocorrência no Antigo Testamento). A noção que tenho em mente é que o povo (filhos, rebanho)  de Deus são aqueles num reto relacionamento em aliança com ele. Eles são os fiéis, obedientes, arrependidos, que responderam à verdade revelada de Deus e mantém os termos da aliança. Vemos este sentido implicado naquelas passagens que contrastam o povo de Deus com os malignos (p.ex. Sl 125; Is 57:14-21, 65:9-12; Ez 11:19-21, 14:7-8,11) e naquelas passagens que caracterizam o povo de Deus como os piedosos que o temiam (p.ex. Sl 103:13, 148:14, 149:4-5, 65:10; Jr 24:7, 31:33; Ez 36:28; 37:21-28; Zc 13:9). É este sentido mais restritivo do que significa ser o povo de Deus que emerge em Os 1:9, quando Deus proclama aos israelitas impios dos dias de Oseias, “E o Senhor disse: Põe-lhe o nome de Lo-Ami; porque vós não sois meu povo, nem sou eu vosso Deus”. Semelhantemente, em referência às casas desesperadamente infiéis de Israel e Judá, Deus declara em Jeremias 5:10-11 que elas não eram do Senhor. Vemos este sentido do termo, também, quando a identidade dos judeus como povo de Deus é explicitamente ligada à sua boa vontade em serem obedientes à aliança, como em Jr 7:23: ” Mas isto lhes ordenei: Dai ouvidos à minha voz, e eu serei o vosso Deus, e vós sereis o meu povo; andai em todo o caminho que eu vos mandar, para que vos vá bem”(também Jr 11:2-5, Lv  26:3-12). Semelhantemente, em Ex 19:5-6 Deus diz aos israelitas:

[5] Agora, pois, se atentamente ouvirdes a minha voz e guardardes o meu pacto, então sereis a minha possessão peculiar dentre todos os povos, porque minha é toda a terra;
[6] e vós sereis para mim reino sacerdotal e nação santa. São estas as palavras que falarás aos filhos de Israel. {Êxodo 19:5-6}

Note que sua condição como possessão peculiar e reino sacerdotal e nação santa é contingente à obediência e desejo de manter a aliança de Deus. Que esta posição especial de ser a possessão peculiar é equivalente a ser seu povo é confirmado em Deuteronômio 26:18-19, no qual os dois termos são justapostos:

[18] Outrossim, o Senhor hoje te declarou que lhe serás por seu próprio povo, como te tem dito, e que deverás guardar todos os seus mandamentos;
[19] para assim te exaltar em honra, em fama e em glória sobre todas as nações que criou; e para que sejas um povo santo ao Senhor teu Deus, como ele disse.
{Deuteronômio 26:18-19; cf. 7:6 e 14:2}.

Novamente em Malaquias 3:16-18 vemos que apenas aqueles israelitas que eram fiéis à aliança eram considerados como pertencendo a Deus neste sentido mais estrito. Em resposta às repreensões de Israel sobre o pecado generalizado da nação, somos informados:

[16]Então aqueles que temiam ao Senhor falavam uns aos outros; e o Senhor atentou e ouviu, e um memorial foi escrito diante dele, para os que temiam ao Senhor, e para os que se lembravam do seu nome.
[17]E eles serão meus, diz o Senhor dos exércitos, minha possessão particular naquele dia que prepararei; poupá-los-ei, como um homem poupa a seu filho, que o serve.
[18]Então vereis outra vez a diferença entre o justo e o ímpio; entre o que serve a Deus, e o que o não serve. {Malaquias 3:16-18}

Nesta passagem são apenas os israelitas justos, que serviam a Deus e que temiam e honravam seu nome, eram considerados sua possessão particular. Eles são contrastados com os israelitas impios que não responderam em arrependimento à repreensão divina transmitida por Malaquias.

A mesma espécie de distinção entre aqueles israelitas fiéis à aliança e aqueles infiéis pode ser vista no Antigo Testamento acerca dos israelitas como ovelhas de Deus. Relembre-se que Deus prometeu reunir seu rebanho/povo novamente de todas as nações para as quais eles foram espalhados (Is 11:10-12; Jr 3:14-19, 23:1-6, 31:10, 32:38; Ez 11:18-21, 34:2, 37:21-28; Mq 2:12; Zc 8:7-8).

Um elemento central dessas passagens é a promessa de Deus em enviar novos pastores para cuidar de seu rebanho, em particular, o pastor-rei que seria chamado pelo nome de Davi, o Cristo. Como Deus dissera mediante o profeta em Jeremias capítulo 23:

[3] E eu mesmo recolherei o resto das minhas ovelhas de todas as terras para onde as tiver afugentado, e as farei voltar aos seus apriscos; e frutificarão, e se multiplicarão.
[4] E levantarei sobre elas pastores que as apascentem, e nunca mais temerão, nem se assombrarão, e nem uma delas faltará, diz o Senhor.
[5] Eis que vêm dias, diz o Senhor, em que levantarei a Davi um Renovo justo; e, sendo rei, reinará e procederá sabiamente, executando o juízo e a justiça na terra.
[6] Nos seus dias Judá será salvo, e Israel habitará seguro; e este é o nome de que será chamado: O SENHOR JUSTIÇA NOSSA.
{Jeremias 23:3-6}

Semelhantemente, em Ezequiel capítulo 37:

[21] Dize-lhes pois: Assim diz o Senhor Deus: Eis que eu tomarei os filhos de Israel dentre as nações para onde eles foram, e os congregarei de todos os lados, e os introduzirei na sua terra;
[22] e deles farei uma nação na terra, nos montes de Israel, e um rei será rei de todos eles; e nunca mais serão duas nações, nem de maneira alguma se dividirão para o futuro em dois reinos;
[23] nem se contaminarão mais com os seus ídolos, nem com as suas abominações, nem com qualquer uma das suas transgressões; mas eu os livrarei de todas as suas apostasias com que pecaram, e os purificarei. Assim eles serão o meu povo, e eu serei o seu Deus.
[24] Também meu servo Davi reinará sobre eles, e todos eles terão um pastor só; andarão nos meus juízos, e guardarão os meus estatutos, e os observarão.
[25] Ainda habitarão na terra que dei a meu servo Jacó, na qual habitaram vossos pais; nela habitarão, eles e seus filhos, e os filhos de seus filhos, para sempre; e Davi, meu servo, será seu príncipe eternamente.
[26] Farei com eles um pacto de paz, que será um pacto perpétuo. E os estabelecerei, e os multiplicarei, e porei o meu santuário no meio deles para sempre.
[27] Meu tabernáculo permanecerá com eles; e eu serei o seu Deus e eles serão o meu povo.
[28] E as nações saberão que eu sou o Senhor que santifico a Israel, quando estiver o meu santuário no meio deles para sempre.
{Ezequiel 37:21-28}

Crucialmente, porém, as ações de Deus acerca disso são contingentes ao arrependimento de Israel e disposição para retornar a Deus, como vemos em Jeremias capítulo três:

[12] Vai, pois, e apregoa estas palavras para a banda do norte, e diz: Volta, ó pérfida Israel, diz o Senhor. Não olharei em era para ti; porque misericordioso sou, diz o Senhor, e não conservarei para sempre a minha ira.
[13] Somente reconhece a tua iniquidade: que contra o Senhor teu Deus transgrediste, e estendeste os teus favores para os estranhos debaixo de toda árvore frondosa, e não deste ouvidos à minha voz, diz o Senhor.
[14] Voltai, ó filhos pérfidos, diz o Senhor; porque eu sou como esposo para vós; e vos tomarei, a um de uma cidade, e a dois de uma família; e vos levarei a Sião;
[15] e vos darei pastores segundo o meu coração, os quais vos apascentarão com ciência e com inteligência.
[19] Pensei como te poria entre os filhos, e te daria a terra desejável, a mais formosa herança das nações. Também pensei que me chamarias meu Pai, e que de mim não te desviarias.
[20] Deveras, como a mulher se aparta aleivosamente do seu marido, assim aleivosamente te houveste comigo, ó casa de Israel, diz o Senhor.
[22] Voltai, ó filhos infiéis, eu curarei a vossa infidelidade. Responderam eles: Eis-nos aqui, vimos a ti, porque tu és o Senhor nosso Deus.
{Jeremias 3:12-15, 19-20, 22}

Deus afirmou aos israelitas que ele os reuniria novamente em Sião (verso 14), lhes daria novos pastores (verso 15), lhes trataria como filhos (verso 19), e lhes curaria a infidelidade (verso 22) apenas se reconhecessem sua culpa (verso 13) e retornassem a ele em fidelidade (versos 12, 14, 22). Sua participação individual nestas bênçãos era claramente contingente à sua boa disposição em arrepender-se. A mesma contingência é vista no Salmo 95:7f onde os israelitas, o povo do pasto de Deus, o rebanho que ele conduz (verso 7), foi exortado a não endurecer o coração pois nenhuma ovelha desobediente poderia adentrar o descanso de Deus (versos 8-11). Traduzindo em termos usados nas passagens já citadas acima, ovelhas infiéis deste tipo seriam incapazes de participar das bênçãos, purificação e paz que Deus desejou trazer com a vinda dos novos pastores, em particular, o Cristo.

Traduções Crédulas: Eleição em Romanos 9 – Análise de Romanos 9:6-13 – Eleição Incondicional para Salvação Final?

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Eleição em Romanos 9

Análise de Romanos 9:6-13 – Eleição Incondicional para Salvação Final?

Com estas observações em mente, estamos agora numa posição de responder a preponderante questão teológica do que de se os exemplos aduzidos por Paulo em Romanos 9:7-13 representam ou apoiam a concepção de uma eleição individual incondicional para salvação final projetada pelos calvinistas. Para responder esta questão devemos abordar três questões suplementares. Primeiro, devemos perguntar quem são os objetos da(s) eleição(ões) descritas nestes versos? Então devemos perguntar no que a eleição é condicionada (se ela de fato for)? Finalmente devemos nos perguntar qual é o fim da eleição? (P.Ex. a salvação final da pessoa eleita está em vista como fim da eleição, ou há algum outro fim em vista?) Abordarei estas questões aqui.

Respondendo a primeira questão (i.e. quem são os objetos da eleição?) os objetos imediatos da eleição nos exemplos de 9:7-13 são Isaque e Israel (Jacó), apesar de que porque esta eleição se baseia em linhagem física de acordo com a promessa de Deus (i.e. linhagem tipo 2 acima), ela se estende de modo a compreender todos os descendentes físicos de Israel (mesmo que não todos os descendentes físicos de Abraão; veja a discussão acima). A eleição aqui em vista contrasta neste assunto com a eleição discutida por Paulo no capítulo quatro de Romanos e aludida em 9:6b, que é baseada na descendência espiritual pela fé da mesma de Abraão (linhagem tipo 1 acima). No último caso os objetos da eleição são todos e apenas todos os judeus e gentios que têm a mesma fé de Abraão (cf. 4:12; 11:20, 23).

Respondendo à segunda questão acima (i.e. no que a eleição é condicionada), a eleição de Isaque e Jacó foi dita ser ‘não por causa das obras mas por Aquele que chama’ (9:11). Avançando até o verso 16, vemos que essa mesma eleição “não depende do que quer, nem quem corre, mas de Deus que usa de misericórdia”. O desfecho destas assertivas é que o tipo de eleição outorgada a Isaque, Jacó e os descendentes de Jacó (i.e. linhagem tipo 2 acima) não foi baseada em quaisquer fatores volicionais da sua parte que pudessem obrigar Deus a tratá-los diferentemente do que os que não foram eleitos. Em vez disso, a discriminação de Deus entre Jacó e Esaú foi em último caso não restrita a quaisquer fatores externos ao próprio livre arbítrio de Deus em estender misericórdia. Isto se posiciona em contraste com a eleição baseada na linhagem de Abraão pela fé espiritual, que da mesma forma sendo inteiramente pela graça, ainda assim procede de acordo com o decreto auto-imposto de salvar a todos e somente aqueles que creem (Jo 3:15-18, 36, 6:40, 47, 11:25-26, 20:31; At 16:31; 1 Co 1:21; cf. a formulação de Arminius do segundo decreto divino, “Public Disputations,” The Works of James Arminius, London Ed., Vol. 2, trans. James Nichols, Grand Rapids, MI: Baker Books, 1986, Disp. XV, 2, p. 226; “Certain Articles,” ibid., Art. XIV, p. 719). Eleição para salvação é portanto condicionada diretamente pela fé dos recipientes desta eleição, que contrasta neste sentido com os descrentes não eleitos. Como Paulo estabeleceu no capítulo quatro, Abraão foi apontado “o pai de todos que creem o pai de todos os que creem… e  também andam nas pisadas daquela fé de nosso pai Abraão” (4:11-12). A promessa para Abraão (da qual a linhagem espiritual de seus herdeiros-pela-fé é baseada) foi “pela justiça da fé” e é pela fé (4:13,16). Novamente, no capítulo onze Paulo fala de seus contemporâneos judeus descrentes que eles foram arrancados [i.e. excluídos de participação na nova aliança de salvação centrada em Cristo] por incredulidade, enquanto Paulo fala aos cristãos romanos que eles permanecem nesta mesma nova aliança pela fé (11:20). Como discutirei em mais profundidade abaixo, esta eleição condicional não é estática, porém, mas dinâmica, porque Paulo segue afirmando em 11:23 que estes mesmos descrentes judeus que são atualmente não eleitos (no sentido da eleição baseada no tipo 1 de linhagem da fé de Abraão; cf. 11:7 e discussão abaixo) podem de fato se tornar eleitos e ser reenxertados em Cristo e desfrutar participação em sua aliança, “se eles não permanecerem na incredulidade”. Paulo não poderia ter colocado mais claramente: Eleição para participação na linhagem espiritual de Abraão é condicionada pela fé, ao contrário da eleição baseada em descendência física de Jacó (Israel), que é condicionada em nada além do próprio livre arbítrio de Deus para estender misericórdia;[7]

Finalmente, devemos nos perguntar, qual fim tinha a eleição de Isaque e Jacó (e seus descendentes físicos)? Em particular, estava a salvação final deles em vista como fim desta eleição, ou tinha algum outro fim em vista? Já vimos acima que a eleição de Isaque e Jacó estabelecida na linhagem tipo 2 listada acima, a saber a nação de Israel compreendendo todos aqueles descendendo fisicamente de Jacó (Israel). Paulo se refere a este tipo de linhagem em 9:3-4 como “meus parentes segundo a carne; que são israelitas”, e provê uma sucinta descrição de “… a quem é a adoção, e a glória, e as alianças, e a promulgação da lei, e o culto, e as promessas; de quem são os patriarcas; e de quem descende o Cristo segundo a carne” (9:5-6). Vemos também que Paulo notou anteriormente em 3:1-2 que os judeus têm a “vantagem” distinta de terem sido “confiados os oráculos de Deus”. Em resumo, os descendentes físicos de Israel foram escolhidos por Deus para mediar a revelação da Palavra verbal de Deus para a humanidade bem como superintender as outras manifestações externas da presença de Deus entre eles, à vista das nações, de tal modo a preparar o caminho para o Cristo, a Palavra Encarnada, vir ao mundo. Desta forma, aos israelitas físicos foi concedido acesso privilegiado às verdades de Deus como comunicadas mediante as alianças, a Lei, os serviços do templo, as promessas, e o próprio Cristo.

Apesar de esta eleição claramente aumentar as oportunidades disponíveis para qualquer dado indivíduo israelita adentrar uma aliança salvífica com Deus, a eleição não garantia por si só a salvação dos indivíduos judeus. A Bíblia é clara em que cada adulto judeu precisa adentrar pessoalmente em uma aliança salvífica de relacionamento com Deus pelo caminho da fé, lealdade, e resultante obediência a Deus. Não há garantia de tal participação na aliança meramente na base da eleição de acordo com a linhagem tipo 2 acima descrita e referenciada em Romanos 9:7-13. De fato o Antigo Testamento está repleto de exemplos de descendência física de Israel que claramente falharam em participar pela fé em uma aliança de relacionamento salvífica com Deus e que portanto não tinham evidência de terem alcançado salvação espiritual. O livro de Malaquias é instrutivo neste sentido. Ainda que, como dantes notado, Deus reafirmou aos israelitas do dia de Malaquias a natureza irrevogável das suas promessas aos patriarcas (Ml 1:2; 3:6), ao mesmo tempo Deus deixou claro que a salvação espiritual dos israelitas era contingente ao arrependimento pessoal e fé. Apenas os que temiam o Senhor e estimavam Seu nome (Ml 3:16) foram considerados por Deus como sendo dele como sua possessão (3:17), e nenhum dos israelitas que persistiram em impiedade restaria no vindouro dia do julgamento (Ml 3:17-4:3; veja também 2:2-3,9,12; 3:5,9; 4:6).

Além disso, é importante recordar que a possibilidade de salvação espiritual não era limitada aos descendentes físicos de Israel, mesmo nos tempos do Antigo Testamento. A lei mosaica fez acomodações para qualquer gentio que assim desejasse livremente adentrar numa aliança de relacionamento salvífica com Deus ao voluntariamente se colocar nas condições da aliança (em essência, voluntariamente “tornar-se judeu”; cf. Ex 12:48; Lv 19:33-34; Js 8:33; Rt 1:16; Is 14:1; 56:3,6-8). Portanto, a eleição de Isaque, Jacó, e seus descendentes citados em Rêomanos 9:7-13 não tem a salvação pessoal última dos eleitos em vista como seu fim ou garante tal salvação a eles, nem ela impede a salvação última dos não-eleitos (i.e. Esaú, Ismael ou qualquer outro gentio). Em vez disso, esta eleição baseada na linhagem física tipo 2 resultou apenas num acesso privilegiado às verdades salvíficas de Deus e uma oportunidade adicional de interagir com e abraçar estas verdades salvíficas mediante fé (i.e. uma oportunidade maior de escolher participar pela fé da linhagem espiritual tipo 1). Esta era de fato a situação dos judeus nos dias de Paulo, entre os quais mesmo aqueles que estavam naquele tempo mergulhados na incredulidade ainda tinham disponíveis para eles a oportunidade de abraçar a fé em Cristo e serem enxertados novamente na árvore que representa o povo de Deus (11:23).