Traduções Crédulas: O Uso de Oseias 11:1 em Mateus 2:15 – Soluções Inadequadas: Exposição no Judaísmo

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Exposição no Judaísmo

 

Alguns tentam explicar o uso por Mateus de Oseias 11:1 argumentando que Mateus usou o mesmo método hermenêutico empregado no judaísmo do primeiro século. Um tal método é conhecido como Midrash. Longnecker oferece a seguinte definição:

Interpretação midráshica, em efeito, ostensivamente toma seu ponto de partida do próprio texto bíblico (ainda que psicologicamente motivada por outros fatores) e procura explicar os significados escondidos contidos nele por meio de uma concordância sob regras hermenêuticas a fim de contemporaneizar a revelação de Deus para o povo de Deus. Ela pode ser brevemente caracterizada pela máxima “isso tem relevância para isto”; i.e. o que está posto na Escritura tem relevância para nossa situação.[52]

Bloch afirma que Midrash “designa um gênero edificante e explanatório fortemente ligado à Escritura, no qual o papel da amplificação é real mas secundário e sempre permanece subordinado ao fim religioso, que é para mostrar a importância da obra de Deus, a Palavra de Deus”[53]

Porém, nem todos os estudiosos estão confortáveis com a noção de que Mateus está usando Midrash. Por exemplo, parece haver algumas diferenças entre as citações mateanas e a Midrash contemporânea. Prabhu observa que Midrash é “literatura sobre a literatura” que comenta em cima de um texto bíblico[54]. France nota como esta descrição de Midrash contrasta com os Evangelhos quando ele diz: “Em nenhum lugar dos Evangelhos … encontramos um comentário substancial de uma dada passagem bíblica”[55]. Ademais, em Midrash, as palavras da profecia são primárias e servem como fundação da qual a Midrash depende. Ela toma como base textos que deseja tornar mais inteligíveis. Porém, em Mateus, as palavras da profecia parecem ser secundárias e apenas apontam para as palavras de Mateus. mateus acrescenta citações a uma narrativa já existente. Então, as narrativas de mateus sobre a infância não foram compostas para o propósito de tornar citações do Antigo Testamento mais inteligíveis mas de fato para fazer Jesus mais inteligível[56]. Cunninghan e Bock semelhantemente observam que uma composição pode ser nomeada Midrash apenas quando o novo trabalho existe para o fim do antigo texto e a atenção do leitor é focada no texto anterior[57].

Outra metodologia hermenêutica empregada no judaísmo do primeiro século é conhecida como Pesher. Esta metodologia tenta explicar textos incluindo um comentário corrido escrito no documento[58]. Pesher se refere à exposição de textos que os veem como cumprimentos escatológicos na era corrente[59]. A comunidade do Qumram cria que estava vivendo nos últimos dias e portanto interpretava o Antigo Testamento à luz dos eventos do primeiro século. Alguns creem que Mateus também empregou Pesher porque Antigo Testamento à luz dos eventos do primeiro século e continuamente fazia uso da fórmula de cumprimento. Porém, outros são menos confortáveis com a noção que mateus usou Pesher porque a fórmula de cumprimento encontrada no Novo Testamento não tem equivalente na literatura Qumram[60]. Também, interpretação Pesher tem uma tendência a desconsiderar o contexto da citação do Antigo Testamento[61].

Stendahl combina essas categorias argumentando que Mateus empregou um procedimento hermenêutico conhecido como Midrash-Pesher. Stendahl mantém que o uso por Mateus de Oseias 11:1 lembra a técnica exegética empregada pelo comentário Qumram de Habacuque (1QpH5)[62]. Longnecker também adotou a abordagem Midrash-Pesher de Stendahl[63]. Midrash-Pesher tem os dois elementos. Primeiro, cada seção principal d comentário dos Rolos do Mar Morto de Habacuque começa com uma semelhante introdução hebraica formal significando “sua interpretação profética” ou “a interpretação da palavras profética”, que significa ουτοζ (εστιν) em grego. Segundo, esta característica formal é acompanhada de uma perspectiva escatológica encontrada na comunidade Qumram[64]. Esta perspectiva escatológica tece conjuntamente as seguintes ideias: Deus revelou mistérios aos profetas particularmente acerca do tempo em que os propósitos divinos seriam cumpridos, estes significados não podiam ser entendidos até seu significado ser transmitido ao Mestre da Justiça, os mistérios escondidos nos livros bíblicos pertenciam à história de sua comunidade, todas as obras dos profetas tinham referência ao fim e o tempo do fim estava às mãos, a interpretação destes mistérios foi revelada ao Mestre da Justiça e os intérpretes selecionados que o seguiam, aos discípulos do Mestre da Justiça foram ensinados os princípios da instrução que algumas vezes incluíam a deliberada manipulação do texto para adequar-se melhor ao novo contexto[65].

Porém, parece haver algumas diferenças entre o método exegético praticado por Mateus e aquele da Midrash-Pesher. Primeiro, as características formais são dissemelhantes entre o comentário Qumram de Habacuque e Mateus. As citações formais em Mateus seguem a fórmula de cumprimento ινα πληρωθη. Fitzmeyer aponta que este tipo de fórmula introdutória está ausente dos textos Qumram[66]. Fitzmeyer observa, “As famosas fórmulas de cumprimento ou realização que são frequentemente encontradas no Novo Testamento não têm praticamente nenhuma fala equivalente na literatura Qumram”[67].

Segundo, como a comunidade Qumram se via ela própria como estando nos últimos dias para os quais todas as profecias apontavam, a comunidade tinha a tendência de desconsiderar o contexto original quando realizando exegese de passagens proféticas[68]. Tal exegese forçada pode ser observada na tentativa da comunidade em igualar os caldeus nos Manuscritos do Mar Morto com os kittim ou os romanos[69]. Após pesquisar 42 citações explícitas, Fitzmeyer encontrou somente sete citações que a comunidade considerou em seu contexto original. as restantes foram modernizadas (11), acomodadas (12), e aplicadas no novos eschaton (10)[70].

Terceiro, parece também haver uma diferença entre o método de Mateus de anotar uma história sobre Jesus usando citações do Antigo Testamento para demonstrar seu cumprimento e a técnica Pesher, que é uma análise linha-por-linha do Antigo Testamento[71]. Ademais, em Mateus, a citação do Antigo Testamento é subserviente ao evento. Mateus faz seu ponto sobre Cristo e então emprega a citação do Antigo Testamento para reforçar seu caso. A metodologia de Mateus tenta explicar a vida de Jesus em vez de a citação escritural. Em Pesher, o texto escritural representa o fundamento em volta do qual a explanação é trabalhada[72].

Finalmente, existe um paralelo inadequado entre Cristo e o Mestre da Justiça. Estabelecer tal paralelo é central em direção à tese de Stendahl. Ele argumenta que bem como as citações da fórmula de Mateus são interpretadas como sendo cumpridas em Cristo, o comentário de Habacuque se aplica de uma maneira verso a verso os dois primeiros capítulos de Habacuque para o Mestre da Justiça[73]. Porém, Gartner argumenta que o Mestre da Justiça não ocupa a mesma posição central como Cristo o faz no evangelho de Mateus. Enquanto Mateus se concentra em Cristo e procura na Escritura estabelecer Sua identidade, a comunidade Qumram concentrou-se em períodos de tempo e diferentes eventos que deixaram sua marca na comunidade[74].

NOTAS DE RODAPÉ

[52] Richard N. Longenecker, Biblical Exegesis in the Apostolic Period (Grand Rapids: Eerdmans, 1975), 37.
[53] Renee Bloch, “Midrash,” in Approaches to Ancient Judaism, ed. trans. Mary Howard Callaway (Missoula, MO: 1978), 29.
[54] George Soares-Prabhu, The Formula Quotations in the Infancy Narrative of Matthew: An Inquiry into the Tradition History of Mt 1-2, Analecta Biblica (Rome: Biblical Institute Press, 1976), 15.
[55] R. T. France, “The Formula Quotations of Matthew 2 and the Problem of Communication,” New Testament Studies 27 (January 1981): 235.
[56] Raymond E. Brown, The Birth of the Messiah (Garden City, NY: Doubleday, 1977), 560-61.
[57] Scott Cunningham and Darrell Bock, “Is Matthew Midrash?,” Bibliotheca Sacra (April-June 1987): 169.
[58] David Noel Freedman, ed., Anchor Bible Dictionary, 6 vols. (New York: Doubleday, 1992), 5:244.
[59] Darrell Bock, “Use of the Old Testament in the New,” in Foundations for Biblical Interpretation (Nashville: Broadman & Holman, 1994), 101.
[60] Joseph Fitzmyer, “The Use of Explicit Old Testament Quotations in Qumran Literature and in the New Testament,” New Testament Studies 7 (1961): 303, 331.
[61] Ibid., 297-333.
[62] Krister Stendahl, The School of St. Matthew and its Use of the Old Testament (Lund: G. W. K. Gleerup, 1954), 35.
[63] Longenecker, Biblical Exegesis in the Apostolic Period, 144-45.
[64] Howard, “The Use of Hosea 11:1 in Matthew 2:15,” 47-48.
[65] F. F. Bruce, Biblical Exegesis in the Qumran Texts (Grand Rapids: Eerdmans, 1960), 9; Fitzmyer, “The Use of Explicit Old Testament Quotations in Qumran Literature and in the New Testament,” 331.
[66] Fitzmyer, “The Use of Explicit Old Testament Quotations in Qumran Literature and in the New Testament,” 303, 331.
[67] Ibid., 303.
[68] Howard, “The Use of Hosea 11:1 in Matthew 2:15; An Alternative Solution,” 318-19.
[69] Horan, Pesharim: Qumran Interpretation of Biblical Books, 8, 26.
[70] Fitzmyer, “The Use of Explicit Old Testament Quotations in Qumran Literature and in the New Testament,” 305-
333.
[71] Brown, The Birth of the Messiah, 102, n. 13.
[72] W. D. Davies, The Setting of the Sermon on the Mount (Cambridge: University Press, 1964), 208-209; Hill, The Gospel of Matthew, 36.
[73] Stendahl, The School of St. Matthew and its Use of the Old Testament, 183.
[74] Bertil Gartner, “The Habakkuk Commentary (DSH) and the Gospel of Matthew,” Studia Theologica 8 (1954): 8.

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