Traduções Católicas: Feliz o homem a quem o Senhor NÃO PERDOA?

Mais uma das argumentações católicas. Esta é uma espécie de série que vai tratar sobre a doutrina da imputação. Espero que me sobre paciência para tratar dela 🙂

 

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Traduções Crédulas: Há Duas Vontades em Deus?

Bem, primeiro algumas breves mudanças. Este blog servirá definitivamente para postar traduções de artigos exclusivamente sobre teologia, especificamente soteriologia arminiana/molinista. Quanto à parte mais autoral, preferi transferir para o novo blog, Deforming Blindness. Isto inclui a recém-inaugurada seção de perguntas e respostas (que ainda está intacta, com um breve diálogo sobre Cornélio e depravação total :)).

Agora, o texto. Bem, este é o infame argumento do ‘deus doublethinker’, ou da esquizofrenia divina. Dado que todo calvinista (quase sem exceção) usa um argumento semelhante – e me contam as más línguas que isto remonta a Calvino -, é bastante comum ficar confuso com coisas como ‘Deus ordena aquilo que Ele não gosta’ ou coisas do gênero ‘vontade permissiva’, ‘vontade decretiva’ e as coisas todas. Resolvi traduzi e postar esta crítica de William Birch a um artigo de J. Piper sobre as duas vontades contraditórias.

Leiam e reflitam!

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Traduções Soltas: Comentário Rápido Sobre Romanos Nove

Este é um post curtinho. É a resposta do Richard Coords, autor do site ExaminingCalvinism, a um rápido comentário. Ele trata da perspectiva arminiana em Romanos Nove, de uma maneira bem resumida.

Eis:

Você comentou sobre os direitos soberanos do oleiro.

O entendimento arminiano de Romanos 9 é diferente do dos irmãos calvinistas, não apenas no entendimento nações VS indivíduos, mas em termos de com quem Paulo está falando. Arminianos creem que Paulo está persuasivamente argumentando com o judeu não-convertido. (Veja Romanos 2:17 no qual Paulo especificamente interpela o judeu. Paulo torna sua atenção aos gentios em Romanos 11:13, a fim de que não tenham orgulho em seu enxerto. Logo após, Paulo volta sua atenção à Igreja como um todo quando discutindo obediência às autoridades governantes e sua visita à igreja.)

Arminianos creem que em Romanos 9:1-3 Paulo estabelece o tom para o diálogo, com suas melhores intenções no coração, e cogita isto, pelo que ele estará a dizer. Paulo menciona que os judeus pensam que eles são salvos em virtude de serem filhos de Abraão (Rm 9:7) e Paulo imediatamente lhes traz Ismael e Esaú, ambos filhos de Abraão, e mesmo assim não compondo o povo da aliança de Deus, que tinha o efeito de mostrar aos judeus não-convertidos que eles não podem simplesmente confiar em serem filhos de Abraão. Paulo acrescenta que a graça não advém de “querer e correr”. Se Paulo está no diálogo com o judeu não-convertido, então o seu “querer e correr” é referente aos esforços judeus de manter a Lei, e merecer a misericórdia de Deus, ao que Paulo aponta que a misericórdia de Deus não é engatilhada pelo manter a Lei.

Paulo então traz o ponto sobre Moisés e Faraó, que é relativo ao endurecimento. Nenhum judeu poderia rejeitar que Deus foi perfeitamente justo ao endurecer Faraó, já que Faraó era o Hitler da antiguidade. Porém, Deus tem mais justificativa em endurecer os judeus do que no caso de Faraó, porque os judeus receberam mais luz que Faraó. A Escritura alerta Israel em Jeremias 18:1-13 que Deus disse que os endureceria como o oleiro endurece o barro, a não ser que Israel voltasse para Ele. De acordo com Isaías 65:2, Deus estendera Seus braços de graça para Israel todos os dias, mas Israel rejeitou Seus esforços amorosos em reuni-los, como como a galinha que reúne seus pintinhos. Este endurecimenrto foi executado de acordo com Isaías 6:9-10. O endurecimento foi mostrado ser completado em Jo 12.

A fala do endurecimento em Romanos 9 fora em referência a Israel (como parte da continuação do diálogo em Romanos 9:1-3), e é entrelaçado com o conceito de “pedra de tropeço”, o qual é também referenciado em Rm 9. Em Rm 11:25, o endurecimento é mostrado como sendo um endurecimento parcial dos judeus, até o tempo dos gentios se completar. O conceito de endurecimento não é um processo mágico, mas em vez disso tem a ver com o sistema de valores da pessoa.

Os judeus não valorizavam o que Deus valorizava. Então, quando Deus enviou Seu Messias, Ele não O enviou para resgatar os judeus descrentes. Em vez disso, Deus enviou Seu Messias com o mesmo exato sistema de valores que o Seu próprio, sistema este que os judeus rejeitaram. Os judeus valorizavam poder, onipotência e soberania. Deus tem estas coisas, mas elas não O definem. Deus valoriza misericórdica, compaixão, amor, humildade, fé e perdão, e o povo rejeitou a substância de Deus. Então a “pedra de tropeço” é um fator do Messias de Deus, Jesus Cristo, sendo reflexão dos valores de Deus, em completo contraste aos valores da pessoa, e portanto Eles rejeitaram o Filho também. Se eles amassem Deus pelos Seus valores, então eles teriam amado o Filho que espelhava tais valores, e não tropeçariam na pedra de tropeço, e Jesus não seria uma pedra de tropeço afinal.

É disto que se trata Romanos 9: Deus foi paciente com Israel, vasos preparados para destruição, porque eles rejeitaram a graça de Deus dirigida a eles (veja Is 65:2). Em Rm 9:20, Paulo antecipa esta reação por serem endurecidos. A parte do “quem é você, homem” é o mesmo homem de Romanos 2:17, que é parte do diálogo que se prossegue.

Então, arminianos têm um entendimento amplamente diferente dos seus irmãos calvinistas.

LINK para o comentário original.

Traduções Curtas: Guia para Leigos Sobre a Nova Perspectiva em Paulo

Esta foi uma novidade que achei faz um bom tempo. A primeira exegese de Romanos 9 traduzida por aqui (e que eu defino como um divisor de chamas para este blog) faz parte de uma corrente teológica bem importante, que faz uma releitura dos escritos de Paulo.

A ideia é mais ou menos o seguinte: Paulo estava interessado em dois assuntos em suas missivas. Eles eram a doutrina  da justificação pela fé e o outro eram as consequências práticas da ‘entrada definitiva’ de gentios para o Corpo de Cristo, ou melhor, sobre a transição entre as alianças.

Eis aqui uma breve introdução ao assunto, com alguns links ao final. Cortesia do PizzaMan e Credulo!

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Traduções Crédulas: Eleição em Romanos 9 – Análise de Romanos 9:6-13 – Um problema Geralmente Não Reconhecido

Eleição em Romanos 9

Análise de Romanos 9:6-13 – Um problema Geralmente Não Reconhecido

O que eu acabei de descrever é uma interpretação bastante padrão da resposta básica de Paulo ao assunto levantado em 9:6 acerca de se as promessas de Deus aos patriarcas falharam. Esta abordagem acima é, porém, incompleta. Para vermos por que, precisamos começar reconhecendo um aparente problema do raciocínio de Paulo que tem sido largamente abandonado pelos comentaristas desta epístola. Enquanto é verdade que os exemplos de Isaque vs. Ismael e Jacó vs. Esaú demonstram a insuficiência da descendência física de Abraão para assegurar a situação de alguém como filho eleito de Deus (verso 7), estes exemplos em si, estritamente falando, não anulam a possibilidade de que descendência física de Israel (Jacó) garante a situação como membro do Israel eleito. Isto é, não é claro como estes exemplos se enquadram com a afirmação de Paulo que “[…]porque nem todos os que são de Israel são verdadeiros israelitas” (verso 6). Se alguma coisa, os exemplos de eleição de Isaque mas não Ismael, e de Jacó mas não Esaú, podem ser usados para na verdade apoiar um apelo à descendência física de Israel (Jacó), dado que a eleição de Isaque e Jacó foi feita por Deus com o claro propósito de delimitar uma nação de judeus (feira de todos os fisicamente descendentes de Israel/Jacó) que seria o povo da aliança visível de Deus, em distinção a todos os gentios. Enquanto é fácil, então, ver como a eleição de Isaque e Jacó (e a consequente rejeição de Ismael e Esaú) demonstra a verdade do verso 7 (“Nem por serem descendentes de Abraão quer dizer que todos são filhos”), não está claro como estes mesmos exemplos tomados em seu valor literal de face demonstram a verdade afirmada no verso 6 (“porque nem todos os que são de Israel são verdadeiros israelitas”).

O problema acima surge porque nós temos até agora assumido, de acordo com a interpretação padrão destes versos, que a resposta de Paulo à acusação no verso 6 (a qual é, se a palavra de Deus com os patriarcas falhou) consiste de apenas um ponto, a saber, que Deus ainda é fiel às suas promessas porque apenas os membros crentes do Israel físico foram mesmo considerados verdadeiramente eleitos. Sob esta interpretação padrão, a segunda das assertivas gêmeas nos versos 6 e 7 é tomada como sendo essencialmente uma repetição da primeira (isto é, “nem todos os que são de Israel são verdadeiros israelitas.” = “Nem por serem descendentes de Abraão quer dizer que todos são filhos”). A solução para este problema trazido pela interpretação padrão é reconhecer que, de fato, o verso 7 não é simplesmente uma repetição do verso 6, mas de fato um ponto distinto em resposta à questão de se as promessas de Deus falharam (estes dois pontos de resposta nos versos 6 e 7 sendo conectados pela frase interveniente “nem por serem” no início do verso 7). Esta dupla resposta de Paulo à questão da fidelidade de Deus é em si mesma baseada em dois sentidos distintos de promessa feita por Deus aos patriarcas, que por sua vez correlatam não meramente a um mas a dois sentidos igualmente válidos de eleição. Vamos considerá-las aqui por este momento.

Traduções Crédulas: Eleição em Romanos 9 – Análise de Romanos 9:6-13 – A Palavra de Deus Falhou?

Eleição em Romanos 9

Análise de Romanos 9:6-13 – A Palavra de Deus Falhou?

Nesta seção Paulo começa a abordar as principais questões naturalmente levantadas pelas suas observações em 9:1-5, uma questão originalmente iniciada em 3:3, em que ele pergunta, “Então o quê? Se alguns foram incrédulos, sua incredulidade anulará a fidelidade de Deus?” {Romanos 3:3 BLIVRE}. Esta questão ressurge aqui em 9:6a e como notado acima guiará o restante da passagem estendida até o capítulo onze. Em essência, a questão pode ser colocada como se segue: A falha da maioria dos judeus dos dias de Paulo em crer em Jesus significa que a eleição divina deles mediante os patriarcas falhara? Se a maioria deles são de fato malditos e excluídos da salvação por causa de sua rejeição a Cristo (como Paulo implica em 9:3), então como podem eles serem ainda considerados eleitos de Deus, e como podemos evitar a conclusão que Deus falhou em seu propósito expresso mediante sua anterior eleição dos judeus mediante os patriarcas?

No capítulo três a resposta de Paulo a esta sugestão de que Deus falhara em cumprir seus compromissos foi curta e enfática: “De jeito nenhum; antes seja Deus verdadeiro, e todo ser humano mentiroso; assim como está escrito: Para que sejas justificado em tuas palavras, e venças quando tu fores julgado” {Romanos 3:4 BLIVRE} Aqui no capítulo nove Paulo provê uma resposta mais aprofundada baseado numa distinção em 9:8 entre dois tipos distintos de linhagem dos patriarcas; a saber, os descendentes de acordo com a carne (os filhos da carne) e os descendentes de acordo com a promessa (os filhos da promessa). Paulo sugere que os últimos e não os primeiros são os “filhos de Deus” e “descendência de Abraão” (verso 8b). Para provar seu ponto, Paulo trata com os dois exemplos mais pertinentes das vidas dos patriarcas: a escolha/eleição de Isaque (o que implica a não-eleição do outro filho de Abraão, Ismael), e a escolha/eleição de Jacó (contrastada com Sua rejeição a Esaú). O fato de ambos Ismael e Esaú eram descendentes de Abraão e mesmo assim foram contados como gentios em vez de membros da nação eleita forçosamente demonstra o ponto de Paulo que a eleição de Deus não procede meramente por cega descendência física à parte da consideração da promessa de Deus. Isto é importante porque fornece para Paulo uma maneira de explicar como a descrença da maioria dos seus contemporâneos judeus não compromete a legitimidade das promessas de Deus aos patriarcas. Como nem todo judeu é necessariamente um descendente de acordo com a promessa, a descrença de alguns judeus não implica que as promessas de Deus falharam.

Traduções Crédulas: Eleição em Romanos 9 – Análise de Romanos 9:1-5

Eleição em Romanos 9

Análise de Romanos 9:1-5

É imediatamente após o crescendo em 8:28-39 celebrando a segurança dos crentes em Cristo que Paulo volta sua atenção para seus contemporâneos judeus, a maioria dos quais não participando deste relacionamento espiritual com Cristo mediante a fé. É este flagrante contraste entre os eleitos crentes em Cristo e os descrentes judeus dos dias de Paulo que provê o plano de fundo de toda a missiva de Romanos capítulos de nove a onze, um ponto que devemos constantemente manter em mente quando procurando interpretar esta seção da Escritura. Uma preocupação em particular, levantada por Paulo em 9:6 e ecoando a questão dantes levantada em 3:3, fornece a força-motriz por detrás da maior parte da discussão de Paulo nestes capítulos: Como Deus pode ser considerado fiel à sua eleição original dos descendentes físicos de Israel se a maioria de tais descendentes não se voltou a Cristo em fé? É imperativo que Romanos capítulo nove seja lido em termos desta questão, caso contrário faremos o erro que muitos antes de nós fizeram ao forçar todas as assertivas de Paulo em um falso molde como relacionado primariamente à salvação final da Igreja e à reprovação última de todos os outros. De fato, porém, o montante dos comentários de Paulo (e muitas das observações relacionadas no capítulo onze) são primariamente com a intenção de prover uma abordagem do estado de descrença dos judeus contemporâneos de Paulo, tanto em termos de como eles chegaram até aquele ponto em primeiro lugar, quanto em termos do que Deus ainda tinha reservado a eles. Isto não quer dizer que Paulo não lidaria com temas teológicos que teriam implicações para a salvação dos gentios também; de fato, irei traçar algumas destas implicações em meu discurso abaixo assim que elas surgirem. Mas jamais devemos esquecer que são os compatriotas judeus incrédulos de Paulo que permeiam sua visão neste capítulo. Apenas então podemos esperar seguir precisamente este fluxo de pensamento e traçar as lições teológicas apropriadas das palavras de Paulo.

Para começar, então, Paulo primeiro expressa sua severa tristeza em Romanos 9:1-3 sobre o fato que seus compatriotas judeus estavam envoltos em incredulidade. Os favores especiais que Deus lhes dera como descendentes eleitos de Israel (Jacó), enumerados por Paulo em 9:4-5, fizeram sua descrença ser de todo mais trágica. A lista de Paulo destes privilégios pode ser tomada como uma elaboração e extensão de sua anterior observação em 3:1-2 de que os judeus tem “vantagem” em “terem sido confiados os oráculos de Deus”. Note em particular aqui em 9:1-3 a menção de Paulo das promessas dadas aos judeus, sua relação com os patriarcas e seus papéis privilegiados de serem guardiães terrenos da Lei, e de fornecerem a linhagem física para o aparecimento do Cristo. Em resumo, os judeus foram escolhidos/eleitos por Deus mediante os patriarcas Abraão, Isaque e Jacó para receber a Palavra de Deus à humanidade e funcionar como veículo para preparar o mundo para a vinda do Messias, o Salvador tanto de judeus quanto de gentios. Apesar desta posição especial como eleitos de Deus, porém, Paulo claramente via os judeus descrentes de seus dias como sendo amaldiçoados e separados de Cristo (uma posição que ele estava desejoso de trocar com eles, 9:3).

Traduções Crédulas: Eleição em Romanos 9 – O Contexto Precedendo Romanos 9

Eleição em Romanos 9

O Contexto Precedendo Romanos 9

Com os conceitos anteriores em mente, podemos agora iniciar a base preparatória para uma exegese de Romanos capítulo nove considerando o contexto relevante que precede este capítulo. paulo começa nos primeiros dois capítulos de Romanos explorando a base da revelação da ira de Deus “contra toda maldade e injustiça dos seres humanos, que detêm a verdade por causa da injustiça.”{Rm 1:18}. Paulo argumenta que isto é verdade não apenas para os para os gentios como também para os judeus igualmente, porque todos falharam em manter os termos da Lei de Deus (seja a Lei externa, escrita, ou a Lei interna testemunhada pela consciência; 2:12,14-15) caem igualmente debaixo da ira de Deus, seja judeu ou gentio. Disto segue-se que o relacionamento espiritual de alguém com Deus é baseado não em ritos externos ou linhagem física, mas sim na condição interna do coração: “Porque ele não é judeu na aparência, nem é circunciso na carne; Mas ele é judeu no interior, e circunciso de coração, em espírito, e não na letra; cujo louvor não vem dos seres humanos, mas sim de Deus”{2:28-29} É esta radical clarificação aqui em 2:28-29 do que significa ser um “judeu espiritual”, uma definição potencialmente abrangendo ambos judeus e gentios físicos, o que provoca nos versos de abertura do capítulo três certas questões que se tornarão depois o foco central de Romanos capítulo nove até onze. Especificamente, a asserção de Paulo de que gentios e judeus igualmente podem participar em uma verdadeira linhagem judaica espiritual levanta questões acerca da situação dos judeus físicos e seu lugar no plano divino de salvação para a humanidade. Se a linhagem que conta é espiritual em natureza, então não há vantagem nenhuma afinal em em ser descendente físico de Israel? (3:1) A falha de alguns fisicamente judeus em participar da linhagem judaica da qual Paulo fala significa que Deus tem falhado em manter suas promessas aos patriarcas judeus (3:3)?

Paulo oferece apenas uma resposta superficial a estas questões na primeira parte do capítulo três (veja 3:2,4) por causa de sua avidez em prosseguir rapidamente em uma discussão mais completa da fé em Jesus Cristo como sendo a base da verdadeira linhagem judaica espiritual. O assunto urgente desta seção de Romanos é mostrar que é fé, não quaisquer obras de mérito baseadas na manutenção da Lei, que resulta em nossa justificação diante de Deus e consequente participação na verdadeira linhagem espiritual (3:28, 4:2-5). Esta discussão de fé como base toma a maior parte dos capítulos três até cinco, após os quais Paulo discute nos capítulos seis até oito como nossa identificação com Cristo mediante fé resulta não apenas uma liberdade legal da penalidade do pecado, mas também uma liberdade ativa do poder e tirania do pecado em nossas vidas. A chave para essa vitória ativa sobre o pecado é dependência do Santo Espírito, o qual Deus dá a todos os Seus verdadeiros filhos (8:12-14).

Nesta discussão dos privilégios aos filhos de Deus (8:14f), Paulo está inevitavelmente prosseguindo na consideração do fim e propósito último de seus filhos, a saber, sua participação na glória de Cristo (8:17). Em um sentido, os filhos de Deus já possuem uma medida desta glória, ainda que no presente está escondida e não de todo revelada (8:19; cf. 2Co 4:6-11; 5:1-5; veja meu devocional “Glória Escondida”). A revelação completa desta glória espera o futuro dia da adoção quando os filhos de Deus receberem a redenção de seus corpos (8:23). É dentro desta consideração do propósito último de Deus que Paulo pela primeira vez nesta missiva toca no conceito de eleição em 8:28-30:

[28] E sabemos que todas as coisas contribuem para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito.
[29] Porque os que previamente conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos.
[30] E aos que predestinou, a estes também chamou; e aos que chamou, a estes também justificou; e aos que justificou, a estes também glorificou.{Romanos 8:28-30 Almeida Recebida}

Paulo deixa claro aqui que a glorificação dos filhos dele é realizada por eles serem conformes à imagem de Cristo, seu irmão mais velho. Este “propósito” de Deus (8:28) surge apenas mediante a intencional intervenção de Deus. Falando daqueles “que amam Deus” (8:28), Paulo afirma que Deus já os “dantes conhecera” (isto é, amou e escolheu de antemão), “predestinou-os” (isto é, agiu com o objetivo previamente arranjado de conformá-los à imagem de Cristo), “chamou-os” (isto é, convidou-os para participação na aliança da salvação), “justificou-os” (isto é, declarou-os irrepreensíveis e santos mediante a obra redentora de Cristo), e finalmente “glorificou-os” (isto é, em referência à sua presente e futura participação na glória de Cristo mediante sua união nEle e conformação à Sua imagem). Esta extensão da ação intencional de Deus para o propósito de trazer a salvação e glória aos seus amados filhos leva Paulo a rejubilar na sua segurança e vitória em Cristo. Nenhuma acusação pode ser levantada contra estes “eleitos” (8:33) e nenhum poder externo pode separá-los do amor de Deus em Cristo (8:38-39).

A efusão de Paulo em graça e rejúbilo em 8:31-19 nos leva ao próximo passo no capítulo nove, aonde Paulo dramaticamente muda de direção e retorna ao assunto originalmente iniciada em 3:1f, uma questão que se tornou mais urgente agora em vista de tudo que Paulo havia dito no ínterim acerca do estado glorioso dos crentes em Cristo, os verdadeiros “judeus espirituais” que conhecer “o amor de Deus, que está em Cristo Jesus Nosso Senhor” (8:39). Esta questão, a saber, é “Aonde isso tudo deixa os judeus físicos, a quem Deus fez promessas mediante os patriarcas? Deus abandonou inteiramente seus acordos com os descendentes físicos de Israel?” (conf. 9:1-6a). Antes de começarmos considerando a resposta completa de Paulo a esta questão no capítulo nove, porém, precisamos parar primeiro e olhar mais de perto as afirmações de Paulo em 8:29-30. Muitos intérpretes têm visto nestes versos apoio substancial à doutrina calvinista de eleição incondicional particular de indivíduos para salvação, dado que Deus é dito “pré-conhecer” e “predestinar” Seus filhos, todos os quais são igualmente “chamados”, “justificados” e “glorificados”. Isto pode parecer se referir a um certo número e identidade dos indivíduos os quais Deus têm eleito de antemão para participar na salvação.

Existe uma alternativa viável, porém, que não acarreta a conclusão acima. A saber, podemos ver a eleição aqui em Romanos 8:28-29 como corporativa em vez de individual em natureza. Da perspectiva corporativa, eleição não tem em vista a seleção de indivíduos per se (nem mesmo um agregado de indivíduos na medida que são tratados como indivíduos). Em vez disso, do ponto de vista corporativo a eleição tem em vista o estabelecimento de um Corpo, família, nação ou outro grupo cuja identidade corporativa é determinada estritamente em relação a uma dita Cabeça, patriarca, ou outro antecedente. A eleição dos israelitas para uma posição privilegiada na economia divina pode ser vista dessa luz. A identidade corporativa dos israelitas foi estabelecida na base de sua descendência física do patriarca Jacó (Israel), a quem as promessas de eleição foram feitas. No caso da Igreja (que é quem está em vista aqui em Romanos 8:28-29), o Cabeça de quem a Igreja ganha sua identidade corporativa é Cristo, e Seu corpo é composto de todos que estão em união espiritual com Ele mediante a fé (Ef 1:4-6, 22-23; Jo 15; 1Pe 2:9-10). Considerado deste ponto de vista corporativo, a eleição não determina em si mesma a identidade específica dos indivíduos que participarão do corpo corporativo; em vez disso, a eleição estabelece apenas as bases nas quais o Corpo será formado em relação à Cabeça (isto é, mediante a descendência física no caso de Israel, mediante união espiritual contingente à fé do indivíduo no caso da igreja; veja as discussões de Romanos capítulo quatro e onze abaixo).

É neste nível corporativo que Deus é dito decretar eleição de antemão, desde toda a eternidade. Isto é verdade tanto da eleição mediante Jacó para o Israel físico (que são ditos “dantes conhecidos” como povo; isto é, corporativamente escolhidos de antemão por Deus; Romanos 11:2) e da eleição mediante Cristo de Seu Corpo, que são semelhantemente ditos serem “dantes conhecidos” aqui em Romanos 8:29 e “escolhidos nEle [isto é, em Cristo], desde a fundação do mundo” em Efésios 1:4. Note que esta eleição anterior de crentes é dita ser “nEle” (isto é, em Cristo). Como argumentado acima, isto não é uma eleição primária de indivíduos em si, mas de fato aplica-se a indivíduos apenas enquanto eles são considerados em união a Cristo, como membros de um Corpo corporativo (cf. Robert Shank, Elect in the Son: A Study of the Doctrine of Election, Minneapolis, MN: Bethany House, 1970,1989, pp. 45-55). Existe uma ênfase corporativa semelhante em outro termo escritural referente a uma determinação prioritária acerca dos crentes: predestinação. Crentes são ditos a ser “predestinados para ser conformes à imagem do Filho de Deus” (Romanos 8:29). Enquanto o termo “pré-conhecido” enfatiza a escolha anterior ou eleição de crentes corporativamente para ser aqueles que irão participar das bênçãos de Cristo, o termo “predestinado” reforça esta determinação anterior do objetivo da eleição, a saber, que crentes virão a corporativamente compartilhar o caráter de Cristo em amor, santidade, e verdade (serem “conformes à Sua imagem”). Esta natureza corporativa da eleição, geralmente ignorada em discussões teológicas, pode ser claramente vista em Efésios 4:11-16, em que é o “corpo de Cristo” considerado como um todo (isto é, não meramente crentes individuais) é dito crescer “em homem maduro, à medida da estatura da plenitude de Cristo”. A “plenitude de Cristo” aqui mencionada é a mesma conformidade a Cristo mencionada em Romanos 8:29 como sendo o objetivo da predestinação. (Espero explorar mais completamente esta natureza corporativa da predestinação à imagem de Cristo em um futuro ensaio.)

Meu ponto, então, acerca de Romanos 8:28-30 é que a passagem inteira faz referência ao Corpo Eleito de Cristo da perspectiva corporativa acima descrita, não de uma perspectiva individual. Paulo não diz que Deus determinou de antemão os indivíduos específicos que seguirão os estágios descritos nos versos 29-30. Em vez disso, Paulo está enfatizando a fidelidade de Deus em intencionalmente realizar Seu propósito de estabelecer um Corpo glorificado de crentes assumindo a imagem de Seu Filho. Paulo não aborda nestes versos a questão de em que base a participação em tal Corpo se constitui, ou se esta base para participação pode ser relacionada a fatores contingentes ao exercício do livre arbítrio humano. Estas questões Paulo responde em outros locais no capítulo quatro e novamente no capítulo onze; a saber, que a união com Cristo para qualquer dado indivíduo é contingente ao exercício livre do indivíduo e perseverança em fé (veja discussão dessas passagens abaixo).