Regeneração Precede Fé? O Uso de 1João 5:1 Como Texto-Prova – O Argumento do Contexto Epistolar para Regeneração Precedendo Fé em 1João 5:1

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O Argumento do Contexto Epistolar para Regeneração Precedendo Fé em 1João 5:1

Não obstante a falácia do argumento gramatical que contra-atacamos, alguém pode tentar argumentar que seu ponto fundamental é resgatado pela presença de outras passagens em 1João indicando os resultados da regeneração (2:29, 3:9, 4:7, 5:4,18).[29] Duas delas usam a mesma construção de 5:1a, πας + particípio presente substantival + perfeito passivo indicativo (2:29, 4:7), com o particípio presente substantival identificando o resultado da regeneração em algum sentido. Mas isto não é convincente em favor de 1João 5:1a indicando fé como resultado da regeneração por diversas razões.

1 – Não segue que por causa de 1João identificar outros fenômenos como resultado da regeneração que todo fenômeno que ele conecta com regeneração é seu resultado. Pode igualmente ser que outro fenômeno associado à regeneração é na realidade a causa da última ou não ter qualquer relacionamento causal com a mesma.

2 – O argumento em questão é um baseado no contexto, mesmo assim ainda existe um fator-chave contextual específico envolvido em cada uma das passagens que sugere alguma espécie de papel causativo para regeneração mas não está presente em 1João 5:1a, a saber, que Deus tenha uma certa qualidade (seja ela qual for em cada caso específico), e que portanto, aquele que nasceu dele, seu filho, será como o seu pai. Este é o caso de semelhança familiar por assim dizer (cf. o antigo refrão, `tal pai, tal filho’). Central a cada uma das passagens indicando regeneração como a causa de alguma qualidade no crente é a noção de semelhança causal entre pai e filho[30]. Este não é o caso em 5:1a. O assunto aqui não é o crente sendo como Deus o Pai em crer em Jesus. O Pai não crê em Cristo de maneira salvífica como os homens o fazem.

3 – Como já notado, a preocupação prioritária na epístola com respeito à regeneração era prover segurança a seus leitores que eram fiéis ao seu ensino que eles eram de fato nascidos de Deus, e portanto eram filhos de Deus em possessão da vida eterna. Portanto, a ênfase nas afirmações `nascidos de Deus’ é sobre dar evidência da regeneração, não particularmente da natureza causativa da regeneração. Os efeitos da regeneração são indicados como tais porque seja se causas de regeneração servem automaticamente como evidência certa de regeneração, dando segurança de filiação e vida eterna para a quele possuindo as qualidades produzidas pela regeneração. Mas como notado antes, a causa da regeneração serviria a mesma função. Este ponto é enfatizado pelo tempo perfeito usado para regeneração nas afirmações `nascidos de Deus’, desde que o tempo perfeito aqui quase certamente enfatiza o estado presente regenerado do crente (um perfeito intensivo ou resultativo)[31], como é reconhecido até mesmo por alguns advogados de 1João 5:1 como texto-prova para a regeneração precedendo fé[32]. Portanto, o tempo perfeito em 1João 5:1a enfatiza o interesse de João em abordar o presente estado dos crentes em vez do relacionamento causal entre fé e regeneração.

4 – Fé é relativamente única entre outros fenômenos relacionados à regeneração na epístola, porque ela também é retratada como causando estas outras qualidades para não mencionar outros adicionais. João retrata fé como resultando justiça, obediência, conhecimento salvífico de Deus, amor, vitória sobre o mundo, e vida espiritual[33]. Mais criticamente, João apresenta fé como o meio pelos qual crentes recebem vida espiritual (1Jo 5:10-13; cf. 2:23-25; 5:20)[34], a iniciação do que seria a regeneração. Este é um tema prevalente da teologia joanina (Jo 3:15-16,36; 4:14; 5:24,40; 6:47,51-54; 20:31), para não mencionar o Novo Testamento em geral. Mas se vida espiritual é recebida pela fé, então isto coloca fé pelo menos logicamente anterior à concessão de vida espiritual, e portanto, logicamente anterior à regeneração, que é a concessão inicial de vida espiritual[35]. Em minha opinião, João teria esperado leitores familiares com seu ensino de que vida espiritual vem pela fé soubessem que regeneração é concedida pela fé, e entender 1João 5:1a de acordo, ainda que sua intenção não fosse especificamente fazer este ponto, mas novamente, dar segurança de filiação e vida eterna para sua audiência de crentes.

5 – Jo 1:12-13 é determinativo em estabelecer fé como anterior à regeneração na teologia de João[36]. Jo 1:12 indica que pessoas se tornam filhas de Deus pela fé. Isto é, mediante o crer, Deus lhes dá o direito de se tornarem algo que eles não eram antes de crerem – filhos de Deus. Jo 1:13 então clarifica que eles se tornam filhos de Deus não de ascendência humana (esta é a significância de `não pelo sangue, nem pela vontade da carne [o que se iguala à desejo sexual que pode levar à procriação]’, nem da vontade de um marido [que poderia estar na questão de atividade sexual/procriação]’), mas de Deus, descrevendo o seu tornar-se filhos de Deus como nascidos de Deus. `Tornar-se filhos de Deus’ e `nascer de Deus’ são expressões paralelas referentes ao mesmo fenômeno. De fato, o mesmo tipo de paralelismo entre ser nascido de Deus e ser filho de Deus ocorre em 1Jo 2:29-3:2 e 3:9-10, enquanto 5:1 (de todos os versos!) usa o ‘aquele que tem nascido dele [Deus]’ (τον γεγεννημενον εξ αυτου) como sinônimo virtual de `filho de Deus’, levando diversas traduções a transformar τον γεγεννημενον εξ αυτου como `o filho nascido dele’ ou algo semelhante[37]. Desde que `tornar-se filho de Deus’ e `ser nascido de Deus’ são expressões paralelas referentes ao mesmo fenômeno, e o anterior é claramente apresentado como contingente à fé, o texto apresenta o ato de Deus em regenerar crentes, fazendo-os seus próprios filhos, cono resposta à sua fé. Seria argumentação ad hoc, e um expediente desesperado, argumentar que tornar-se filho de Deus e ser nascido de Deus são distintos no contexto joanino ou que o texto permitiria que uma pessoa pudesse ser nascida de Deus e ainda assim não ser sua filha. Alguns estudiosos têm sugerido que o texto assume uma distinção entre adoção e regeneração, falando do anterior em 1:12 e do posterior em 1:13[38]. Mas a literatura joanina não faz distinção que seja entre adoção e regeneração[39]. Seria exegética e hermeneuticamente ilegítimo insistir que existe tal distinção em Paulo, e portanto, que João deveria ter em mente a distinção de Paulo.

Primeiro, é questionável se as epístolas de Paulo contêm qualquer distinção segura entre adoção e regeneração. É mais provável que adoção e regeneração no nível individual são simplesmente dois lados da mesma moeda no penamento de Paulo, com adoção focando na concessão formal da situação de eleito e herança, enquanto regeneração foca no elemento de mesma realidade que é a concessão da natureza divina/Santo Espírito, que concretamente confere a situação de eleito e herança. Em outras palavras, Paulo parece ver a fase inicial da adoção como sendo praticamente efetuada pela regeneração, a concessão do Espírito de adoção e herança (cf. Rm 8:9-11,14-17). Claro, tanto no pensamento de João quanto no de Paulo a entrega do Espírito ocorre pela fé e é de acordo precedido por ela logicamente (e.g., John 4:14,7:38-39, Gl 3:1-6,14). Interessantemente, a única instância de uso da palavra `regeneração’ (παλιγγενεσια) no corpus paulino tradicional é em Tito 3:5, onde ela parece ser aproximadamente equivalente à entrega do Espírito ou a algo que é completado pela entrega do Espírito.

Se Paulo distinguia entre adoção e regeneração o suficiente para que houvesse qualquer ordem lógica entre eles, então ele tratava adoção – e portanto a fé que a precede – como precedendo regeneração de acordo com Gálatas 4:6 – `Porque sois filhos, Deus derramou o Espírito de seu filho em vossos corações, que clama, “Aba Pai”. Parece que no pensamento de Paulo adoção e regeneração podem ser geralmente tratados como a mesma realidade, mesmo que mais precisamente, eles possam ser distinguidos de uma maneira complementar ao dizer que a situação de filiação é formalmente conferida mediante o crente pela fé-união com Cristo, simultaneamente levando a uma natureza de filiação sendo comunicada ao crente pela regeneração[40]. Isto é, adoção torna crentes filhos pelo decreto e regeneração torna os crentes filhos por natureza. De fato, adoção vem à sua inaugurada completude em regeneração, e então os dois podem ser naturalmente vistos como um só. Bem como o conceito grego nos ensina, o mesmo evento pode ser visto legitimamente em complementariedade de mais de uma maneira.

Segundo, mesmo se existisse uma distinção clara entre adoção e regeneração em Paulo, não segue que existe uma em João. Não há dica de tal distinção em João, e é completamente concebível que o que Paulo pensava como adoção, João cogitava como regeneração. Ou se João mantinha alguma espécie de distinção entre elas, ele ainda poderia tê-las concebido em conjunto como um só evento. De qualquer maneira, é exegeticamente implausível neste caso ler Paulo em cima do texto de João de tal forma a fazer o entendimento do texto de João se apoiar numa distinção que João nunca menciona. Além disso, a lógica absoluta do texto de João permanece contra qualquer movimento dessa espécie, desde que isto contradiria a óbvia ideia que o próprio ato de ser nascido de um pai faz uma pessoa filho de tal pai. Uma pessoa não pode ser nascida de um pai e mesmo assim precisar de alguma coisa além para ser filho deste pai, mesmo se tal elemento adicional é simultâneo ao nascimento. Não se pode ser nascido de Deus e ainda assim não ser seu filho.

Mesmo que alguém negasse, contra a majoridade dos comentaristas, que a referência a θεληματος σαρκος ou θεληματος ανδρος é sobre ascendência humana especificamente e insistir que ela se refere a vontade humana em geral, isto não faria a ação divina da regeneração menos que a resposta à fé humana e portanto condicional a ela. Nem isto seria inconsistente com a atribuição de João 1:13 do ato da regeneração para Deus. O texto indica que Deus é aquele que concede o direito de se tornar filho de Deus e aquele que regenera. Seu fazer isto em resposta à fé é matéria de sua alçada e não deveria de forma alguma fazer a escolha humana ser fonte da regeneração em vez de Deus não mais que a faria fonte da justificação, que inegavelmente é pela fé. Interessantemente, em seu excelente comentário sobre João, o eminente estudioso calvinista D. A. Carson se esforça para evitar a óbvia implicação de João 1:12-13 que crentes se tornam nascidos de novo / nascidos do alto pela fé[41]. Mas num momento posterior de distração no comentário, o senso exegético de Carson dá o melhor de sua teologia, levando- o à franca admissão enquanto comentando em João 3:3 que `Leitores que seguiram o Evangelho até este ponto irão instantaneamente pensar (como Nicodemus não pôde) de Jo 1:12-13: “nascer de novo” ou “nascer do alto” deve significar a mesma coisa que “se tornar filho de Deus”, “ser nascido de Deus”, crendo no nome da Palavra Incarnada[42]. Isto está exatamente correto.

Regeneração Precede Fé? O Uso de 1João 5:1 Como Texto-Prova – O Argumento Gramatical para Regeneração Precedendo Fé em 1João 5:1

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O Argumento Gramatical para Regeneração Precedendo Fé em 1João 5:1

O argumento gramatical tem a ver com o tempo verbal como ele é usado em 1João 5:1a, e tende a vir em duas formas básicas. A forma 1 mantém que a combinação dos tempos estabelece regeneração como precedendo fé[3]. John Stott faz o argumento em seu comentário de 1João: `A combinação do tempo presente (ο πιστευων `crê’) e o perfeito [γεγεννηται, `nasceu de Deus’] é importante. Ela mostra claramente que crer é a consequência, não a causa, do novo nascimento. Nossa contínua atividade presente de crer é o resultado, e portanto a evidência, de nossa experiência passada do novo nascimento pela qual nos tornamos e permanecemos filhos de Deus[4]. A forma 2 não menciona explicitamente o contraste dos tempos verbais (tempo presente vs. perfeito), mas sem explícita menção do tempo presente do particípio do verso, invoca o verbo no tempo perfeito indicativo de 1João 5:1a (γεγεννηται) como estabelecendo sua ação (regeneração) como anterior à fé (que é afinal a ação indicada no presente particípio do verso)[5]. Robert Peterson e Michael Williams afirmam esta forma de argumento sucintamente: `O verbo no tempo perfeito em 1João 5:1, “nasceu”, indica que o novo nascimento é a causa da fé em Cristo'[6].

Porém, existem problemas fatais com este argumento de qualquer forma que o tornam inválido. Primeiro, alguns gramáticos gregos agora contendem que as formas de tempo gregas não expressam tempo (exceto talvez pelo tempo futuro), mas somente aspecto[7]. Se eles estiverem corretos, isto negaria o argumento gramatical para regeneração precedendo fé {n-sic} em 1João 5:1. Mas esta visão de um sistema de verbos atemporal grego permanece como minoria entre estudiosos[8], e eu estou inclinado a concordar com uma abordagem mais tradicional, perspectiva na qual este artigo é escrito[9].

Segundo, o presente particípio πιστευων é um particípio substantival, que funciona como nome[10]. O elemento de tempo tende a ser diminuído em particípios substantivais e pode ser completamente perdido[11]. De fato, particípios substantivais presentes `identificam por alguma característica ou ação costumeira ou condição, e frequentemente são equivalentes a um nome ou título'[12]. Portanto, ο πιστευων em 1João 5:1a é provavelmente equivalente aproximado a `o crente’, caracterizando seu referente como o crente sem qualquer indicação de quando começou a crença. Isto pode ser vazio de qualquer significado temporal de todo modo[13], o que o que claramente invalidaria o argumento gramatical que estamos criticando. Porém, a caracterização do referente de πιστευων como ação progressiva e função condicional de πας ο πιστευων[14] provavelmente implicam alguma forma de relacionamento temporal com o verbo principal γεγεννηται. Mas se assim for, então o argumento gramatical pra regeneração precedendo fé é invalidado tanto se não mais fortemente.

Se ο πιστευων e γεγεννηται são para serem relacionados temporalmente de alguma forma, como parece provável, então a gramática na realidade sugere que crer e ser nascido de Deus são retratados como contemporâneos (ou talvez que crer precede ser nascido de Deus; veja abaixo). É bem reconhecido pela maioria dos gramáticos que verbos indicativos gregos normalmente indicam o tão-chamado `tempo absoluto’ ou `tempo independente’, isto é, o tempo relativo à própria moldura temporal do autor/falante, o tempo da escrita ou expressão, enquanto particípios normalmente indicam tempo relativo ao tempo do verbo principal[15]. Especificamente, o perfeito indicativo `descreve um evento que, completado no passado… tem resultados existentes no tempo presente (i.e. em relação ao tempo do falante)'[16], enquanto o tempo presente normalmente sugere a ação do particípio como contemporânea à ação do verbo principal[17]. Portanto, exceto se na realidade isto retratar crer como precedendo regeneração (novamente, veja abaixo), a gramática de 1João 5:1a mais naturalmente retrata a ação do particípio substantival do verso (crer) como contemporânea com a ação do verbo perfeito indicativo (regeneração e seu estado resultante).

Mesmo se alguém postulasse que particípios substantivais normalmente transmitem tempo absoluto, ou que eles o fazem ocasionalmente e 1João 5:1a contém uma instância deste fenômeno[18], isto não implicaria que o tempo do particípio e o verbo principal seriam relacionados mediante o ponto de vista do autor de tal maneira que um particípio presente, localizado no presente do autor, seria necessariamente precedido no tempo por um indicativo perfeito, localizado no passado e presente do falante. Pois o tempo presente relacionado ao tempo do autor/falante não limita a ação do tempo presente, mas retrata a ação como tomando lugar no presente sem qualquer indicação de quando a ação começou ou quando ela pode acabar. Consequentemente, se o tempo presente particípio é relativo ao perfeito indicativo em 1João 5:1a ou transmite tempo absoluto, a gramática do texto deixa a ordem de fé e regeneração sem resposta (a não ser que ela sugira que fé precede regeneração; mais uma vez, veja abaixo), nulificando o argumento para regeneração precedendo fé.

Porém, isto não significa que a gramática impede fé ou regeneração precedendo a ordem. Pois como Daniel Wallace observou, a contemporaneidade assinalada pelo particípio presente `é geralmente bastante largamente concebida’, e de qualquer maneira permite prioridade lógica mesmo quando as ações em vista são cronologicamente simultâneas[19]. Mas isto significa que a gramática por si mesma não sugere qualquer prioridade, e que se alguma indicação de prioridade estiver presente no texto, ela deve ser derivada do contexto e não da gramática.

Por outro lado, pode ser que a gramática na realidade sugira que crer precede regeneração. Ernest De Witt Burton observa que com o particípio presente, `A ação do verbo e a do particípio podem ser da mesma extensão (Mc 16:20), mas não necessariamente. Mais frequentemente a ação do verbo cai no período coberto pelo particípio (At 10:44)'[20]. De fato, Wallace observa que o particípio presente `pode ser largamente antecedente ao tempo do verbo principal, especialmente se ele é articular (e portanto adjetival; cf. Mc 6:14, Ef 2:13)'[21]. E um particípio presente articular é exatamente o que temos em 1João 5:1a.

Além disso, ei já havia notado que a construção de 1João 5:1a contendo o particípio (‘Aquele que crer’, πας ο πιστευων) tem uma função condicional. O sentido condicional que ele capitula para a sentença carrega uma ideia genérica que transmite que se qualquer um, seja quem for, crê, então esta pessoa nasceu de Deus[22]. Agora, desde que ideias condicionais mais frequentemente indicam uma relação de causa-efeito entre a prótasis (causa; neste caso, crer) e a apódoses (efeito; neste caso, regeneração), o sentido condicional de 1João 5:1a fortalece ainda mais o caso que a gramática do verso sugere que fé precede regeneração[23].

Mas isto não é definitivo. Wallace faz o importante ponto que a prótasis e apódoses de uma sentença condicional podem se relacionar de outras maneiras além de causa e efeito[24]. Especificamente, elas podem se relacionar como evidência e inferência (i.e. a prótasis serve como evidência para a apódoses) ou como partes semanticamente equivalentes de uma sentença. O relacionamento evidência-inferência é a alternativa que é relevante aqui. Pois é concebível que fé evidencia que alguém nasceu de Deus. Ainda assim mesmo se 1João 5:1a fosse uma condicional evidência-inferência, isto não resolveria a questão da ordem entre fé e regeneração, porque fé poderia servir como evidência da regeneração ou porque fé causa regeneração[25] ou porque regeneração causa fé.

Agora um dos principais temas de 1João é a segurança da salvação, e portanto, evidências de salvação, de vida eterna, de pertencer a Deus (situação de filiação salvífica/nascido-de-Deus), etc[26]. Aparentemente, certos membros da comunidade cristã que João aborda na epístola vieram a comportar visões heréticas, deixando a comunidade, e desafiando a confidência de seus membros na doutrina apostólica e sua permanência como genuínos filhos de Deus (veja p.ex. 1Jo 2:18-3:3, 5:13). Então João identifica diversos fundamentos para segurança pelos quais sua audiência pode conhecer que eles, que continuam no ensino de João, são genuínos filhos de Deus, que portanto têm a divina aprovação e a vida eterna concedida. As várias asserções `nascidos de Deus’ na epístola servem a este propósito de dar segurança para a audiência de João, incluindo 1João 5:1 (veja também 2:29, 3:9, 4:7, 5:4,18). Portanto o sentido implicitamente condicional do verso provavelmente carrega um importe de evidência-inferência.

Porém, isto não elimina que também se possa carregar um sentido de causa-efeito. Como Wallace observa, as categorias de condições podem se sobrepor[27]. De fato, é praticamente auto-evidente que a presença observável de uma causa automaticamente dá evidência do efeito. Em outras palavras, se sabemos que A causa B, então observar A providenciaria evidência para a existência de B. Se fé acarreta regeneração, então alguém poderia estar certo que aqueles que creem foram regenerados. Em balanço, parece que ambos causa-efeito e evidência-inferência estão em jogo aqui, e portanto, todas as coisas estando iguais, a gramática do verso na realidade aponta um tanto fracamente que fé precede regeneração. Quer dizer, a própria gramática de 1João 5:1a dá algum leve suporte para tomar o verso como refletindo a visão que fé precede regeneração. Mas isto está longe de dizer que a gramática demanda fé como anterior à regeneração ou que ela foi intencionada afirmar isto especificamente ou mesmo que ela proíbe a ordem oposta. Mesmo assim, uma coisa é certa: a gramática não dá suporte positivo para a alegação que o verso ensina que regeneração precede fé.

Nós podemos demonstrar ambos, a falsidade da visão que os tempos dos verbos em 1João 5:1a necessariamente indicam que regeneração precede fé e precede fé, e o fato que particípios presentes podem pelo menos ser logicamente antecedentes aos seus verbos principais, olhando apenas nove versos adiante, em 1João 5:10b, onde a mesma combinação básica de tempos é usada: ‘Quem não crê [particípio presente substantival] em Deus tem feito [perfeito indicativo] dele mentiroso, porque ele não tem crido [perfeito indicativo] no testemunho que ele tem testificado [perfeito indicativo] acerca de seu filho'(ο μη πιστευων τω θεω ψευστην πεποιηκεν αυτον οτι ου πεπιστευκεν εις την μαρτυριαν ην μεμαρτυρηκεν ο θεος περι του υιου αυτου). Aqui o particípio presente substantival negado, ‘Quem não crê’, logicamente precede o perfeito indicativo, ‘tem feito’ (Deus mentiroso). No tempo, elas provavelmente são aproximadamente coincidentes. Mas é claro do contexto que alguém faz Deus mentiroso (i.e. faz dele mentiroso, implica que ele é mentiroso) por não crer. A descrença inicia a ação de fazer de Deus um mentiroso e permanece concorrente com ela ao longo da ocorrência. O descrente faz de Deus mentiroso como resultado de não crer nele. A próxima cláusula estabelece esta conexão explicitamente: `porque ele não tem crido…’ (ênfase minha). João 3:18 fornece outro claro exemplo: `mas quem não crê[presente particípio substantival] já está condenado [perfeito indicativo] porque ele não creu [perfeito indicativo] no nome do filho unigênito de Deus’ (ο δε μη πιστευων ηδη κεκριται οτι μη πεπιστευκεν εις το ονομα του μονογενους υιου του θεου). Novamente este texto explicitamente nos diz que a ação do particípio presente (descrer) é a causa da ação do perfeito indicativo (condenação). Mais exemplos podem ser produzidos[28], mas estes devem ser suficientes para provar o ponto que os tempos de 1João 5:1a não necessariamente indicam que regeneração precede fé, e de fato, que a construção usada no verso pode ser usada quando a ação do particípio presente precede a ação do perfeito indicativo de alguma forma.

Como dantes mencionado, uma forma (a forma 2) do argumento que estamos criticando não apela explicitamente para o relacionamento entre o tempo presente particípio e o perfeito indicativo em 1João 5:1a, mas apenas ao verbo no tempo perfeito `tem nascido’ (μεμαρτυρηκεν). É difícil saber cm certeza se existe um apelo implícito aqui à combinação dos tempos em 1João 5:1a. Alguém pode pensar assim, desde que o ponto do argumento é estabelecer um relacionamento particular entre fé  (expresso no particípio presente) e regeneração (expresso no verbo perfeito indicativo). Se for assim, então a forma 2 do argumento é invalidada pelas observações que já fizemos.

Mas se não for o caso, então considerações gramaticais básicas ainda tornam a forma 2 do argumento inválida. Pois, como mencionado acima, se os verbos gregos indicarem tempo afinal (e eu concordo com os muitos estudiosos que pensam que eles tipicamente indicam no indicativo), verbos indicativos indicam tempo relativo ao tempo de escrita/fala do escritor/falante, não tempo relativo a outros elementos da sentença. Além disso, exemplos tais como 1João 5:10b (discutido acima) se aplicam tão justamente quanto à segunda forma do argumento, mostrando que é tão indefensável quanto a forma 1. Pode haver outros argumentos que possam ser empregados para apoiar 1João 5:1 como texto-prova que regeneração precede ou causa fé, mas um apelo à gramática no assunto não é o mais razoável. É completamente sem base afirmar que o tempo perfeito de 1João 5:1a indica que regeneração preceda ou cause fé.

Regeneração Precede Fé? O Uso de 1João 5:1 Como Texto-Prova – Introdução

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Introdução

Calvinistas discordam de arminianos e muitos outros evangelicais não-calvinistas sobre a ordem entre fé e regeneração, argumentando que regeneração precede fé (pelo menos logicamente). Um montante de calvinistas tem apelado para a gramática grega de 1João 5:1 como forte suporte à sua visão. De fato, John Piper, que usa este argumento gramatical, vai longe ao ponto de afirmar `Este é o mais claro texto do Novo Testamento acerca do relacionamento entre fé e novo nascimento'[1]. Mas o argumento gramatical é completamente inválido. Este é de preocupação especial pois apelo à gramática tende a implicar um bais objetivo, e portanto mais pesado, argumento que praticamente decide o assunto de disputa. Os propósitos deste artigo são (1) dar atenção à falsidade do argumento e explicar por que ele não convence, e (2) contra-atacar um argumento não-gramatical correlato que pode ser pensado para resgatar o argumento gramatical, a afirmação que 1João 5:1 implica que regeneração precede fé. Mas antes de prosseguir, será útil colocar a parte relevante do texto grego (1Jo 5:1a) diante de nós: πας ο πιστευων οτι ιησους εστιν ο χριστος εκ του θεου γεγεννηται (Aquele que crer que Jesus é o Cristo nasceu de Deus)[2]

Traduções Crédulas: Cinco Questões sobre Predestinação – Questão No. 4: O Que?

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Cinco Questões sobre Predestinação

Questão No. 4: O Que?

por Christopher Chapman

Tradução: Credulo from this WordPress Blog

 

Questão: O que Deus predestinou para seu povo escolhido?

Resposta: Adotar cristãos como seus filhos

 

Nós discutimos que mediante Cristo Deus predestinou um grupo específico de pessoas para pertencer a ele. Ele também predestinou a maneira pela qual alguém se torna membro deste povo especial (i.e. mediante fé). Agora devemos nos perguntar se a Bíblia ensina o que Deus predestinou para o Corpo de Cristo. Sabemos que Deus determinou de antemão conceder a Terra Prometida como herança especial de Israel; ele também teve uma herança em mente para a Igreja de Jesus Cristo? Se sim, qual era ela?

A Bíblia usa a palavra `predestinou’ seis vezes (At 4:38, 1Co 2:7, Rm 8:29-30, Ef 1:5,11). Atos 4:38 afirma que Deus predestinou como ele provocaria a crucifixão de Cristo; e 1Coríntios 2:7 diz que Deus predestinou a sabedoria para a Igreja. Mas as passagens de Romanos e Efésios nos afirmam exatamente o que Deus predestinou que ele faria para o Corpo de Cristo.

[5] e nos predestinou para sermos filhos de adoção por Jesus Cristo, para si mesmo, segundo o beneplácito de sua vontade, … [11] nele, digo, no qual também fomos feitos herança, havendo sido predestinados conforme o propósito daquele que faz todas as coisas segundo o conselho da sua vontade,{Efésios 1:5,11 Almeida Recebida}

O que foi predestinado, de acordo com estes versos, não foi quem creria em Jesus, mas que bênçãos aqueles que creem herdarão. Verso quatro ensina que o propósito da vontade de Deus que ele predestinou foi adotar como filhos aqueles que receberiam salvalão mediante Jesus Cristo. Podemos sentir a surpresa de João quando lemos 1Jo 3:1, “ Vede que grande amor nos concedeu o Pai: de sermos chamados filhos de Deus. Por isso o mundo não nos conhece; porque não conheceu a ele.”.

Em Romanos capítulo oito Paulo reconfirma o que Deus predestinou para o povo de Cristo.

Porque os que previamente conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos. {Romanos 8:29 Almeida Recebida}

Estes versos nos dizem o que Deus predeterminou para seu povo que foi escolhido em Cristo. Desde toda eternidade ele predestinou que aqueles que se juntam ao povo de Cristo pela graça mediante fé seriam conformados à imagem de Seu Filho. Deus tinha algo ainda maior em mente para aqueles que creem em Jesus que somente serem perdoados por seus pecados. Não apenas os membros do Corpo de Cristo receberiam perdão, eles seriam adotados como filhos do próprio Deus. Que maravilhosa herança! Este foi o eterno plano de Deus para aqueles que creriam em seu Filho, Jesus Cristo. Esta é uma herança infinitamente maior que possuir uma terra, mesmo uma que mana leite e mel!

A Bíblia não ensina que certos descrentes foram predestinados a crer em Jesus Cristo; ela ensina sim que todos os crentes foram predestinados a serem adotados como filhos de Deus.

Traduções Crédulas: 1João 5:1 por Brian Abasciano (INDEX)

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Mais um índice! Neste pequeno artigo, Brian Abasciano discute sobre uma interpretação gramatical e semântica a favor da regeneração anterior à fé, e aponta exaustivamente os problemas contidos na mesma. Mesmo tendo um nível acadêmico mais elevado, o artigo em si é de fácil leitura e bem leve até!

Como estou fazendo a outros artigos grandes, vou colocar este trabalho em formato de índice. Puxe a aba e divirta-se!

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