A Ordem da Fé e Eleição no Evangelho de João: Vós não credes pois não sois das minhas ovelhas – II.C

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C– Transição entre o Antigo e o Novo

Isto nos leva à transição entre o Antigo e o Novo Testamentos. Temos visto no breve estudo das passagens do Antigo Testamento que o povo e as ovelhas de Deus no Antigo Testamento eram o israelitas, e num sentido ainda mais restritivo aqueles israelitas que eram fiéis aos termos da aliança de Deus com eles. Estes eram os arrependidos que temiam o Senhor e o serviam; eles pertenciam a Deus como sua preciosa possessão (Ml 3:17). Eles seriam os membros do rebanho de Deus, a quem Deus os purificaria e curaria do desvio debaixo do reino do rei e pastor, aquele chamado pelo nome de Davi (Ez 37:22-24).

É neste fluxo de antecipação histórica que Jesus caminhou como o tão esperado Messias, aquele que iria mais uma vez tomar o trono de Davi e governar o povo de Deus (Is 9:6-7). Bem como o anjo anunciou a José, Jesus salvaria seu povo de seus pecados (Mt 1:21). Igualmente, o pai de João o Batista, Zacarias, profetizou sobre Jesus: “Bendito, seja o Senhor Deus de Israel, porque visitou e remiu o seu povo, e para nós fez surgir uma salvação poderosa na casa de Davi, seu servo;”{Lucas 1:68-69}. De seu próprio filho, Zacarias profetizou: “E tu, menino, serás chamado profeta do Altíssimo, porque irás ante a face do Senhor, a preparar os seus caminhos; para dar ao seu povo conhecimento da salvação, na remissão dos seus pecados”{Lucas 1:76-77}. Não apenas Zacarias mas outros também entenderam que o ministério de Jesus tinha seu foco nos judeus como povo de Deus, como visto pela sua reação aos milagres de Jesus: “ O medo se apoderou de todos, e glorificavam a Deus, dizendo: Um grande profeta se levantou entre nós; e: Deus visitou o seu povo. ”{Lucas 7:16}. O próprio Jesus parecia ter tomado tal visão também. No começo de seu ministério Jesus enviou seus discípulos a pregar às ovelhas perdidas de Israel a mensagem do reino de Deus que se aproximava (Mt 10:26). Semelhantemente, sua primeira resposta à mulher cananita procurando sua assistência foi que ele só havia sido enviado para as ovelhas perdidas de Israel (Mt 15:24). Apesar de isto não acarretar que Jesus não estava preocupado ou não tinha missão para os gentios (veja discussão acerca dos gentios abaixo), isto de fato indica que a missão primária de Jesus naquele tempo era cumprir as promessas de Deus a Israel feitas mediante os patriarcas e profetas (Lc 1:70-75; cf. At 3:26, Rm 1:16,2:9)

A identidade de Jesus como o Pastor de Israel é adicionalmente confirmada pela aplicação da profecia de Miqueias ao nascimento de Jesus em Mateus 2:6. Nas palavras de Miqueias,

Mas tu, Belém Efrata, posto que pequena para estar entre os milhares de Judá, de ti é que me sairá aquele que há de reinar em Israel, e cujas saídas são desde os tempos antigos, desde os dias da eternidade.
Portanto os entregará até o tempo em que a que está de parto tiver dado à luz; então o resto de seus irmãos voltará aos filhos de Israel.
E ele permanecerá, e apascentará o povo na força do Senhor, na excelência do nome do Senhor seu Deus; e eles permanecerão, porque agora ele será grande até os fins da terra. {Miquéias 5:2-4, cf. Mateus 2:6}

Este é o contexto próprio para entender as afirmações de Jesus no capítulo dez de João. Fazemos um sério erro se abstrairmos as palavras de Jesus fora do fluxo da expectativa escatológica judaica no qual elas foram articuladas. Quando Jesus declara que ele é o bom pastor (10:11) que entra pala porta do aprisco (10:1-2) e chama suas ovelhas pelo nome e as conduz para fora (10:3), ele estava declarando que era o esperado Messias-Pastor anunciado no Antigo Testamento que viria para o rebanho de Israel a fim de trazer purificação e paz àquelas ovelhas (i.e. aos judeus) que são arrependidos e tementes a Deus (veja discussão de jeremias capítulo três e passagens correlatas na Seção B acima). As ovelhas que ouvem e reconhecem sua voz, e portanto o seguem (versos 4,5,14) são justamente aqueles israelitas que já estavam numa correta relação de aliança com Deus e portanto pertencem a Deus como suas ovelhas, povo e possessão preciosa no sentido restritivo discutido na seção B acima. Eles receberam Jesus como o Messias-Pastor (i.e. eles ouviam, reconheciam seguiam Jesus) precisamente porque seus corações já estavam preparados mediante arrependimento e fé em Deus de acordo com os termos da aliança como revelado no Antigo Testamento). Aquelas ovelhas que pertenciam a Deus (e portanto pertenciam a Cristo; cf. Jo 16:15) permanecem em contraste com todas as outras ovelhas no pasto de Israel que não pertenciam a Deus e que portanto não estavam abertos a receber Jesus como Messias-Pastor. (Mantenha em mente que na cultura daquele tempo mais de um rebanho poderia ser mantido num mesmo pasto. cada pastor entraria para guiar apenas as suas próprias ovelhas para pastorear. Compare a entrada de João 10:3-4 no The Bible Knowledge Commentary, Editors, John F. Walvoord & Roy B. Zuck, Wheaton, IL: Victor Books, 1983-1985).

O ministério de João o Batista foi significante neste quesito. Note cuidadosamente o propósito do ministério de João como expresso pelo anjo Gabriel ao pai de João, Zacarias:

converterá muitos dos filhos de Israel ao Senhor seu Deus; irá adiante dele no espírito e poder de Elias, para converter os corações dos pais aos filhos, e os rebeldes à prudência dos justos, a fim de preparar para o Senhor um povo apercebido.
{Lucas 1:16-17}

João o Batista veio com este expresso propósito: intensificar as ordenações daqueles em Israel que seriam preparados mediante arrependimento para aceitar seu Messias-Pastor quando ele aparecesse. Foi neste sentido que o batismo de arrependimento de João  (Mc 1:4, Lc 3:3, At 19:4) foi intencionado a fim de endireitar o caminho do Senhor (John 1:23; cf. Is 40:3; Mt 3:3, Mc 1:2-3, Lc 3:4-5,7:27). O ministério de João foi intencionado a trazer tantos israelitas quanto possível de volta para o correto relacionamento de aliança com Deus antes de Cristo aparecer. O caminho de retorno para este relacionamento direito (antes da vinda de Cristo) era mediante arrependimento e fé debaixo dos termos da aliança dado como ela foi revelada no Antigo Testamento. Somente depois que eles se arrependeram seus corações seriam restaurados e em ponto de receber o Cristo que Deus estava por enviar ao seu meio. Os resultados desta função preparatória do ministério de João são refletidos na resposta ao ensino de Jesus descrito em Lucas capítulo sete:

E todo o povo que o ouviu, e até os publicanos, reconheceram a justiça de Deus, recebendo o batismo de João. Mas os fariseus e os doutores da lei rejeitaram o conselho de Deus quando a si mesmos, não sendo batizados por ele.
{Lucas 7:29-30}

O batismo de arrependimento de João preparava os corações de todos que o aceitavam para reconhecerem a verdade do ensino de Jesus, aumentando portanto o número daqueles que reconheceriam a voz de Jesus como o Messias-Pastor e estariam dispostos a segui-lo.

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A Ordem da Fé e Eleição no Evangelho de João: Vós não credes pois não sois das minhas ovelhas – II.B

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B – Pano de Fundo do Antigo Testamento

Quando olhamos no Antigo Testamento, encontramos uma resposta surpreendentemente clara para a questão “Quem pertence a Deus?”: a nação de Israel.  Existem múltiplas referências no Antigo Testamento para o povo judeu como sendo o povo próprio de Deus, seus escolhidos que lhe pertencem. A seguinte lista é representativa mas não necessariamente exaustiva:

Êxodo 3:7,10; 5:1; 6:7; 7:4,16; 8:1,20-23; 9:1,13,17; 10:3-4; 18:1; 22:25; 32:14;
Levítico 25:55; 26:12;
Deuteronômio 14:1-2; 26:18-19; 29:13; 32:9;
Rute 1:6;
1Samuel 2:29; 9:16-17; 12:22; 13:14; 15:1;
2Samuel 3:18; 5:2, 12; 7:7-8, 10-11;
1Reis 6:13; 8:16; 56, 59, 66, 14:17; 16:2;
2Reis 20:5;
1Crônicas 11:2; 14:2; 17:6-7, 9-10; 22:18; 23:25;
2Crônicas 1:11; 2:11; 6:5-6; 7:10, 13-14; 31:8, 10; 35:3; 36:15-16, 23;
Esdras 1:3;
Salmos 50:4, 7; 53:6; 78:20, 62, 71; 81:8, 11, 13; 85:2, 6, 8; 105:24-25, 43; 106:40; 111:6, 9; 116:14, 18; 125:2; 135:12,14; 136:16; 148:14;
Isaías 1:3; 3:12, 14-15; 5:13, 25; 10:2, 24; 11:11, 16; 14:32; 28:5; 30:26; 40:1; 43:1, 20-22; 44:5; 47:6; 49:13; 51:4, 16, 22; 52:4-6, 9, 14; 58:1; 63:8, 11, 14, 18; 65:9-10, 19, 22;
Jeremias 2:11, 13, 31-32; 4:11, 22; 5:26, 31; 6:14, 27; 7:12, 23; 8:7, 11; 9:7; 11:4; 12:14, 16; 15:7; 18:15; 23:2, 13, 22, 27, 32; 24:7; 30:3, 22; 31:1, 14, 33; 32:38; 33:24; 50:6; 51:45;
Ezequiel 13:9-10; 14:8-9, 11; 25:14; 33:31; 34:30; 36:8, 12, 28; 37:12-13, 18, 23, 27; 38:14, 16; 39:7; 44:23; 45:8-9;
Oseias 4:6, 8, 12; 6:11; 11:7; Joel 2:17-18, 26-27; 3:2-3, 16;
Amós 7:8, 15; 8:2; 9:10, 14;
Obadias 13;
Miqueias 2:8-9; 6:2-5;
Sofonias 2:8-9.

Semelhantemente em muitos locais ao longo do Antigo Testamento o povo judeu é chamado filho de Deus. Novamente, esta lista é apenas representativa:

Êxodo 4:22-23;
Deuteronômio 1:31; 8:5; 14:1-2; 32:19-20;
Isaías 1:2-4; 45:11; 63:8, 16; 64:8;
Jeremias 31:9,20;
Oseias 1:10; 11:1,10;
Malaquias 1:6 (cf. Romanos 9:4).

Assim, quando Deus levou os judeus para fora do Egito, sua palavra a Faraó foi “Deixe ir o meu povo” (Ex 5:1). Quando Deus entregou a lei a Moisés, ele proclamou: “Porque os filhos de Israel são meus servos; eles são os meus servos que tirei da terra do Egito. Eu sou o Senhor vosso Deus” (Lv 25:55). Deus prometeu aos israelitas: “Andarei no meio de vós, e serei o vosso Deus, e vós sereis o meu povo.”(Lv 26:16). Semelhantemente, Moisés exortou os israelitas: “Filhos sois do Senhor vosso Deus; não vos cortareis a vós mesmos, nem abrireis calva entre vossos olhos por causa de algum morto.” (Dt 14:1). E na profecia de Isaías, o profeta fala para o povo judeu que enquanto eles clamam a Deus em arrependimento: “[8] Mas agora, ó Senhor, tu és nosso Pai; nós somos o barro, e tu o nosso oleiro; e todos nós obra das tuas mãos. [9] Não te agastes tanto, ó Senhor, nem perpetuamente te lembres da iniquidade; olha, pois, nós te pedimos, todos nós somos o teu povo.”(Is 64:8-9).

Além disso, em numerosos lugares do Antigo Testamento a nação de Israel é comparada a um rebanho de ovelhas (1Rs 22:17, 2Cr 18:16), pastoreadas pelos líderes que Deus colocava diante deles (Nm 27:17, 2Sm 5:2, 1Cr 11:2, Sl 78:71-72, 2Sm 7:7, 1Cr 17:6) ou pelo próprio Deus (Sl 23, 28:9, 74:1-2, 78:52, 79:13, 80:1, 95:7, 100:3; Is 40:11; Jr 3:15, 23:1-6; Ez 34:2; Mq 7:14; Zc 10:3). Portanto, Israel pode dizer a Deus, ” Assim nós, teu povo ovelhas de teu pasto, te louvaremos eternamente; de geração em geração publicaremos os teus louvores. “(Sl 79:13). Deus é chamado o Pastor de Israel, que guia José como rebanho (Sl 80:1). Geralmente os judeus são comparados a um rebanho que foi arruinado pelos inimigos, dissipados entre as nações (uma alusão ao cativeiro, tanto físico quanto espiritual), e necessitando da proteção e cuidado de Deus. Estes inimigos poderiam ser tanto de dentro (se líderes corruptos ou o próprio povo em rebelião, como em Ez 34, Is 56:10-12, e Jr  3, 10:21, 23:1-3, 50:6; Zc 10:2-3), ou de fora (como as nações que assolaram Israel; Sl 74,79 (veja Sl 79:13); cf. Is 3:12-15 para ideias semelhantes acerca do povo de Deus). Deus repetidamente prometeu reunir novamente seu rebanho dissipado, seu povo, referindo-se não somente à restauração física da nação do cativeiro, mas também à restauração espiritual debaixo do vindouro Messias, que seria um novo Davi que viria pastorear o povo de Deus (Is 11:10-12; Jr 3:14-19, 23:1-6, 31:10, 32:38; Ez 11:18-21,34:2,37:21-28; Mq 2:12; Zc 8:7-8).

No Antigo Testamento, portanto, é o povo judeu, a nação de Israel, que é considerada o povo de Deus, o rebanho de Deus. Agora a questão é, esta observação pode nos ajudar a entender melhor o significado intencionado por Jesus quando ele afirma que aqueles que pertencem a Deus como filhos de Deus, e quem são as ovelhas de Cristo, que virão a ele em fé? Em uma primeira consideração, não parece ser que, especialmente quando notamos que os israelitas foram algumas vezes chamados povo de Deus mesmo em seus mais rebeldes momentos (p.ex. Sl 106:40; Is 1:2-4, 5:25, 58:1-2; Jr 2:11-13, 4:22; Ez 33:31). Faz pouco sentido dizer que Jesus intencionava que todos os judeus, mesmo aqueles em meio à rebelião, viriam a ele em fé. De fato, Jesus emite as assertivas em questão (p.ex. Jo 8:47, 10:26) para explicar exatamente o resultado oposto, o fato que muitos dos judeus estravam rejeitando-o como Messias e recusando-se a aceitar seu ensino (Jo 5:40).

Existe outro sentido, mais restritivo, dado para “povo” e “rebanho” de Deus no Antigo Testamento, porém, que faz perfeito sentido quando aplicado às afirmações de Jesus no Evangelho de João. (Eu explicarei na próxima seção como este encaixe pode ser feito; nesta seção eu simplesmente introduzirei o sentido restritivo dos termos em questão e estabelecerei sua ocorrência no Antigo Testamento). A noção que tenho em mente é que o povo (filhos, rebanho)  de Deus são aqueles num reto relacionamento em aliança com ele. Eles são os fiéis, obedientes, arrependidos, que responderam à verdade revelada de Deus e mantém os termos da aliança. Vemos este sentido implicado naquelas passagens que contrastam o povo de Deus com os malignos (p.ex. Sl 125; Is 57:14-21, 65:9-12; Ez 11:19-21, 14:7-8,11) e naquelas passagens que caracterizam o povo de Deus como os piedosos que o temiam (p.ex. Sl 103:13, 148:14, 149:4-5, 65:10; Jr 24:7, 31:33; Ez 36:28; 37:21-28; Zc 13:9). É este sentido mais restritivo do que significa ser o povo de Deus que emerge em Os 1:9, quando Deus proclama aos israelitas impios dos dias de Oseias, “E o Senhor disse: Põe-lhe o nome de Lo-Ami; porque vós não sois meu povo, nem sou eu vosso Deus”. Semelhantemente, em referência às casas desesperadamente infiéis de Israel e Judá, Deus declara em Jeremias 5:10-11 que elas não eram do Senhor. Vemos este sentido do termo, também, quando a identidade dos judeus como povo de Deus é explicitamente ligada à sua boa vontade em serem obedientes à aliança, como em Jr 7:23: ” Mas isto lhes ordenei: Dai ouvidos à minha voz, e eu serei o vosso Deus, e vós sereis o meu povo; andai em todo o caminho que eu vos mandar, para que vos vá bem”(também Jr 11:2-5, Lv  26:3-12). Semelhantemente, em Ex 19:5-6 Deus diz aos israelitas:

[5] Agora, pois, se atentamente ouvirdes a minha voz e guardardes o meu pacto, então sereis a minha possessão peculiar dentre todos os povos, porque minha é toda a terra;
[6] e vós sereis para mim reino sacerdotal e nação santa. São estas as palavras que falarás aos filhos de Israel. {Êxodo 19:5-6}

Note que sua condição como possessão peculiar e reino sacerdotal e nação santa é contingente à obediência e desejo de manter a aliança de Deus. Que esta posição especial de ser a possessão peculiar é equivalente a ser seu povo é confirmado em Deuteronômio 26:18-19, no qual os dois termos são justapostos:

[18] Outrossim, o Senhor hoje te declarou que lhe serás por seu próprio povo, como te tem dito, e que deverás guardar todos os seus mandamentos;
[19] para assim te exaltar em honra, em fama e em glória sobre todas as nações que criou; e para que sejas um povo santo ao Senhor teu Deus, como ele disse.
{Deuteronômio 26:18-19; cf. 7:6 e 14:2}.

Novamente em Malaquias 3:16-18 vemos que apenas aqueles israelitas que eram fiéis à aliança eram considerados como pertencendo a Deus neste sentido mais estrito. Em resposta às repreensões de Israel sobre o pecado generalizado da nação, somos informados:

[16]Então aqueles que temiam ao Senhor falavam uns aos outros; e o Senhor atentou e ouviu, e um memorial foi escrito diante dele, para os que temiam ao Senhor, e para os que se lembravam do seu nome.
[17]E eles serão meus, diz o Senhor dos exércitos, minha possessão particular naquele dia que prepararei; poupá-los-ei, como um homem poupa a seu filho, que o serve.
[18]Então vereis outra vez a diferença entre o justo e o ímpio; entre o que serve a Deus, e o que o não serve. {Malaquias 3:16-18}

Nesta passagem são apenas os israelitas justos, que serviam a Deus e que temiam e honravam seu nome, eram considerados sua possessão particular. Eles são contrastados com os israelitas impios que não responderam em arrependimento à repreensão divina transmitida por Malaquias.

A mesma espécie de distinção entre aqueles israelitas fiéis à aliança e aqueles infiéis pode ser vista no Antigo Testamento acerca dos israelitas como ovelhas de Deus. Relembre-se que Deus prometeu reunir seu rebanho/povo novamente de todas as nações para as quais eles foram espalhados (Is 11:10-12; Jr 3:14-19, 23:1-6, 31:10, 32:38; Ez 11:18-21, 34:2, 37:21-28; Mq 2:12; Zc 8:7-8).

Um elemento central dessas passagens é a promessa de Deus em enviar novos pastores para cuidar de seu rebanho, em particular, o pastor-rei que seria chamado pelo nome de Davi, o Cristo. Como Deus dissera mediante o profeta em Jeremias capítulo 23:

[3] E eu mesmo recolherei o resto das minhas ovelhas de todas as terras para onde as tiver afugentado, e as farei voltar aos seus apriscos; e frutificarão, e se multiplicarão.
[4] E levantarei sobre elas pastores que as apascentem, e nunca mais temerão, nem se assombrarão, e nem uma delas faltará, diz o Senhor.
[5] Eis que vêm dias, diz o Senhor, em que levantarei a Davi um Renovo justo; e, sendo rei, reinará e procederá sabiamente, executando o juízo e a justiça na terra.
[6] Nos seus dias Judá será salvo, e Israel habitará seguro; e este é o nome de que será chamado: O SENHOR JUSTIÇA NOSSA.
{Jeremias 23:3-6}

Semelhantemente, em Ezequiel capítulo 37:

[21] Dize-lhes pois: Assim diz o Senhor Deus: Eis que eu tomarei os filhos de Israel dentre as nações para onde eles foram, e os congregarei de todos os lados, e os introduzirei na sua terra;
[22] e deles farei uma nação na terra, nos montes de Israel, e um rei será rei de todos eles; e nunca mais serão duas nações, nem de maneira alguma se dividirão para o futuro em dois reinos;
[23] nem se contaminarão mais com os seus ídolos, nem com as suas abominações, nem com qualquer uma das suas transgressões; mas eu os livrarei de todas as suas apostasias com que pecaram, e os purificarei. Assim eles serão o meu povo, e eu serei o seu Deus.
[24] Também meu servo Davi reinará sobre eles, e todos eles terão um pastor só; andarão nos meus juízos, e guardarão os meus estatutos, e os observarão.
[25] Ainda habitarão na terra que dei a meu servo Jacó, na qual habitaram vossos pais; nela habitarão, eles e seus filhos, e os filhos de seus filhos, para sempre; e Davi, meu servo, será seu príncipe eternamente.
[26] Farei com eles um pacto de paz, que será um pacto perpétuo. E os estabelecerei, e os multiplicarei, e porei o meu santuário no meio deles para sempre.
[27] Meu tabernáculo permanecerá com eles; e eu serei o seu Deus e eles serão o meu povo.
[28] E as nações saberão que eu sou o Senhor que santifico a Israel, quando estiver o meu santuário no meio deles para sempre.
{Ezequiel 37:21-28}

Crucialmente, porém, as ações de Deus acerca disso são contingentes ao arrependimento de Israel e disposição para retornar a Deus, como vemos em Jeremias capítulo três:

[12] Vai, pois, e apregoa estas palavras para a banda do norte, e diz: Volta, ó pérfida Israel, diz o Senhor. Não olharei em era para ti; porque misericordioso sou, diz o Senhor, e não conservarei para sempre a minha ira.
[13] Somente reconhece a tua iniquidade: que contra o Senhor teu Deus transgrediste, e estendeste os teus favores para os estranhos debaixo de toda árvore frondosa, e não deste ouvidos à minha voz, diz o Senhor.
[14] Voltai, ó filhos pérfidos, diz o Senhor; porque eu sou como esposo para vós; e vos tomarei, a um de uma cidade, e a dois de uma família; e vos levarei a Sião;
[15] e vos darei pastores segundo o meu coração, os quais vos apascentarão com ciência e com inteligência.
[19] Pensei como te poria entre os filhos, e te daria a terra desejável, a mais formosa herança das nações. Também pensei que me chamarias meu Pai, e que de mim não te desviarias.
[20] Deveras, como a mulher se aparta aleivosamente do seu marido, assim aleivosamente te houveste comigo, ó casa de Israel, diz o Senhor.
[22] Voltai, ó filhos infiéis, eu curarei a vossa infidelidade. Responderam eles: Eis-nos aqui, vimos a ti, porque tu és o Senhor nosso Deus.
{Jeremias 3:12-15, 19-20, 22}

Deus afirmou aos israelitas que ele os reuniria novamente em Sião (verso 14), lhes daria novos pastores (verso 15), lhes trataria como filhos (verso 19), e lhes curaria a infidelidade (verso 22) apenas se reconhecessem sua culpa (verso 13) e retornassem a ele em fidelidade (versos 12, 14, 22). Sua participação individual nestas bênçãos era claramente contingente à sua boa disposição em arrepender-se. A mesma contingência é vista no Salmo 95:7f onde os israelitas, o povo do pasto de Deus, o rebanho que ele conduz (verso 7), foi exortado a não endurecer o coração pois nenhuma ovelha desobediente poderia adentrar o descanso de Deus (versos 8-11). Traduzindo em termos usados nas passagens já citadas acima, ovelhas infiéis deste tipo seriam incapazes de participar das bênçãos, purificação e paz que Deus desejou trazer com a vinda dos novos pastores, em particular, o Cristo.

Traduções Crédulas: Há Duas Vontades em Deus?

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Bem, primeiro algumas breves mudanças. Este blog servirá definitivamente para postar traduções de artigos exclusivamente sobre teologia, especificamente soteriologia arminiana/molinista. Quanto à parte mais autoral, preferi transferir para o novo blog, Deforming Blindness. Isto inclui a recém-inaugurada seção de perguntas e respostas (que ainda está intacta, com um breve diálogo sobre Cornélio e depravação total :)).

Agora, o texto. Bem, este é o infame argumento do ‘deus doublethinker’, ou da esquizofrenia divina. Dado que todo calvinista (quase sem exceção) usa um argumento semelhante – e me contam as más línguas que isto remonta a Calvino -, é bastante comum ficar confuso com coisas como ‘Deus ordena aquilo que Ele não gosta’ ou coisas do gênero ‘vontade permissiva’, ‘vontade decretiva’ e as coisas todas. Resolvi traduzi e postar esta crítica de William Birch a um artigo de J. Piper sobre as duas vontades contraditórias.

Leiam e reflitam!

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