A Ordem da Fé e Eleição no Evangelho de João: Vós não credes pois não sois das minhas ovelhas – II.F

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F – Os Gentios

Finalmente, como os gentios se encaixam nisto tudo? Isto é, os comentários de Jesus têm relevância para judeus somente, ou eles têm relevância para os gentios procurantes também, incluindo os gentios de nossos dias?

Apesar de até agora neste ensaio eu ter focado inteiramente nas afirmações de Jesus no Evangelho de João enquanto eles são relacionados ao povo judeu (porque parece claro do contexto de suas afirmações que era este o próprio foco de Jesus quando as estava fazendo), é igualmente claro que o próprio Jesus intencionava uma secundária, mais abrangente aplicação aos gentios. Nós vemos isto em João 10:16, onde após ter discutido sua vinda para as ovelhas de Israel, Jesus acrescenta:

Tenho ainda outras ovelhas que não são deste aprisco; a essas também me importa conduzir, e elas ouvirão a minha voz; e haverá um rebanho e um pastor.

Dado o pano de fundo para as notas de Jesus (veja a discussão nas seções B e C acima), o pasto em questão era claramente Israel, a quem Jesus veio como o Messias-Pastor prometido para chamar as ovelhas fiéis do rebanho de Deus. As outras ovelhas que não são deste pasto, então, poderiam referir-se aos gentios, fora do pasto de Israel. Esta visão é apoiada pelas palavras de João no capítulo seguinte, onde, comantando a asserção de Caifás de que “convém que morra um só homem pelo povo, e que não pereça a nação toda” (11:50), o apóstolo diz: “Ora, ele não disse isso por si mesmo; mas, sendo o sumo sacerdote naquele ano, profetizou que Jesus havia de morrer pela nação, e não somente pela nação, mas também para reunir em um só corpo os filhos de Deus que estão dispersos” (11:51-52). Aqui, os “filhos de Deus que estão dispersos” são diretamente contrastados com a nação judaica, sugerindo como em 10:16 que os gentios estavam em vista. Significantemente, estes gentios são chamados “filhos de Deus” em 11:52 e “ovelhas de Cristo” em 10:16, ambos os termos que já vimos em nossa precedente discussão referentes àqueles que cumprem as condições suficientes para vir à fé em Cristo. Adicionalmente, a afirmação de Jesus em 10:16 que estas ovelhas gentias também ouviriam sua voz, indicando que ele, assim como as ovelhas judias descritas nas seções anteriores, certamente reconheceriam-non como o Messias-Pastor e segui-lo em fé. A clara implicação de tudo isso é que existiam gentios tementes a Deus também, que, como os fiéis judeus preparados, responderam favoravelmente à graça preveniente de Deus e que, portanto, pertenciam a Deus e seriam dirigidos para a fé no Filho. O Messias-Pastor veio, então, não apenas para ajuntar as ovelhas fiéis de Israel, mas para ajuntar os fiéis entre os gentios também e fazê-los todos um rebanho, um corpo, leal a ele como Messias-Pastor (cf. Ef 2:11-22, 3:6). (Note o foco paralelo em ambos 10:16 e 11:52 sobre o objetivo de unificar o rebanho/povo de Deus; cf. 17:20-21. Veja também Isaías 56:8, que em seu contexto guarda forte semelhança com João 10:16.)

Alguém poderia propor uma interpretação estreitada de João 10:16 para o efeito que Jesus quis se referir somente àqueles gentios que tinham formalmente se convertido ao judaísmo. Tais gentios são mencionados por exemplo em Atos 13:16,26, que anota a abordagem de Paulo à sinagoga judaica em Antioquia da Pisídia. “Então Paulo se levantou e, pedindo silêncio com a mão, disse: Varões israelitas, e os que temeis a Deus, ouvi: […] Irmãos, filhos da estirpe de Abraão, e os que dentre vós temeis a Deus, a nós é enviada a palavra desta salvação”. Os gentios a que Paulo se referia na sinagoga num dia normal de Sabbath, e portanto eram presumivelmente gentios que acompanhavam regularmente e tinham formalmente se afiliado à fé judaica. Esta suposição é confirmada pelo verso 43, onde nos é dito que após a abordagem de Paulo, “E, despedida a sinagoga, muitos judeus e prosélitos devotos seguiram a Paulo e Barnabé, os quais, falando-lhes, os exortavam a perseverarem na graça de Deus”.

Porém, é improvável que Jesus intencionasse em Jo 10:16 referir-se somente aos prosélitos gentios dentro do judaísmo. Por um lado, é difícil ver por que tais convertidos seriam considerados “não deste pasto [judaico]” (10:16), quando o ponto todo da conversão para o judaísmo era tal que alguém poderia a partir disto ser considerado membro da comunidade da aliança judaica (Is 56:3-8). Além disso, depois na mesma abordagem da visita de Paulo e Barnabé à sinagoga de Antioquia de Pisídia descrita acima (Atos 13), havia evidência que gentios não-prosélitos foram preparados para a mensagem do Evangelho de uma maneira semelhante àquela que nós temos visto antes que era verídica para judeus preparados. No Sabbath seguinte após a primeira apresentação na sinagoga, “No sábado seguinte reuniu-se quase toda a cidade para ouvir a palavra de Deus” [incluindo obviamente muitos gentios não-prosélitos] reunidos para ouvir a palavra do Senhor (verso 44). Porém, “Mas os judeus, vendo as multidões, encheram-se de inveja” e começaram a se opor ao que Paulo falava (verso 45). Considere cuidadosamente o que aconteceu depois:

[46] Então Paulo e Barnabé, falando ousadamente, disseram: Era mister que a vós se pregasse em primeiro lugar a palavra de Deus; mas, visto que a rejeitais, e não vos julgais dignos da vida eterna, eis que nos viramos para os gentios;
[47] porque assim nos ordenou o Senhor: Eu te pus para luz dos gentios, a fim de que sejas para salvação até os confins da terra.
[48] Os gentios, ouvindo isto, alegravam-se e glorificavam a palavra do Senhor; e creram todos quantos haviam sido destinados para a vida eterna.

De especial interesse é a descrição de Lucas dos gentios não-prosélitos que vieram à fé em Cristo. No verso 48 é dito deles que eles foram “destinados à vida eterna”. Calvinistas têm geralmente usado este verso para apoiar a doutrina da eleição incondicional particular para salvação. Porém, como Robert Shank argumenta em uma excelente discussão deste verso (Elect in the Son: A Study of the Doctrine of Election, Minneapolis, MN: Bethany House, 1970, 1989, pp. 183-187), o verbo grego tetagmenoi (masculino, plural, nominativo, perfeito, particípio passivo/médio de tasso, ‘colocar em ordem’) não especifica um agente neste verso, então é uma questão aberta se é Deus ou as pessoas em si que (ou alguma combinação de ambos) que causou estes gentios a serem ‘postos em ordem’ ou dispostos à vida eterna. Como Shank nota (seguindo diversos outros comentaristas), o fato de ser dito dos judeus no verso 46 terem rejeitado o Evangelho e portanto não se considerarem (ou julgarem) a si mesmos dignos da vida eterna (um paralelo negativo com o verso 48b) “fortemente mitiga contra qualquer suposição de agência divina no verso 48) (Shank, ibid., p. 184). Isto é, o paralelo contrastivo entre os versos 46b e 48b sugere que foram os gentios responsivos que se posicionaram em ordem [tetagmenoi] para a vida eterna na base de sua receptividade às palavras de Paulo e Barnabás, assim como os judeus descrentes se dispuseram a si mesmos contra receber a vida eterna por causa de sua resistência à mesma mensagem.

Além disto, Shank astutamente observa:

Todos aqueles que assumem que tetagmenoi em Atos 13:48 implica que aqueles que creram no Evangelho naquele momento e lugar particular o fizeram como a consequência de um decreto eterno de eleição incondicional particular adotam impensadamente uma segunda suposição, completamente absurda: todos os presentes na sinagoga que tenham crido no Evangelho, o fizeram de uma vez só; não houve oportunidade posterior de cogitar o Evangelho, e nenhum homem que falhou em crer naquele momento poderia jamais subsequentemente crer” (Shank, ibid., p. 187).

É claramente melhor, então, ver estes gentios que receberam o Evangelho com alegria em Antioquia de Pisídia naquele dia como gentios que se prepararam a fim de receber vida eterna mediante sua própria disposição para arrependimento e sendo receptivos à palavra de Deus. Neste sentido eles eram semelhantes aos judeus preparados que discutimos nas seções anteriores deste ensaio. Eles responderam favoravelmente à graça preveniente de Deus e netse sentido foram “dispostos”, “postos em ordem”, ou [uma tradução marginal] “apontados” para a vida eterna.

Outro exemplo de um gentio que qualificaríamos como uma das ovelhas de Cristo, preparada de antemão para a chegada de Cristo mediante receptividade voluntária à graça preveniente de Deus, é Cornélio em Atos 10. Em 10:1-2 Cornélio é descrito como um gentio de Cesareia, um “centurião da coorte chamada italiana”, que junto com sua família (ou pelo menos um de seus domésticos; veja o verso 7), era “piedoso e temente a Deus”. Nós somos informados que Cornélio generosamente ajudava os necessitados e orava a Deus regularmente. Em uma visão Cornélio foi informado por um anjo que “…As tuas orações e as tuas esmolas têm subido para memória diante de Deus” (verso 4). Claramente ele era um homem que fora receptivo à graça preveniente de Deus em direção a ele e que em consequência permaneceu, em algum sentido significativo, no favor de Deus. O próprio apóstolo Pedro disse isto quando viu a devoção de Cornélio após ter chegado à casa deste último em obediência a uma visão de Deus. “Então Pedro, tomando a palavra, disse: Na verdade reconheço que Deus não faz acepção de pessoas; mas que lhe é aceitável aquele que, em qualquer nação, o teme e pratica o que é justo” (At 10:34-35). A aceitação por Deus de Cornélio parece ter precedido a fé de Cornélio em Cristo, pois esta aceitação parece ter sido baseado na reverência e devoção expressas mediante as orações e esmolas de Cornélio, atos que foram recebidos como uma oferta memorial ao Senhor antes do tempo que Cornélio ouviu o evengelho de Pedro. Neste sentido, Cornélio paraleliza o caso dos judeus tementes a Deus que eram fiéis à aliança e portanti pertenciam a Deus antes da vinda de Jesus. Como eles, Cornélio foi receptivo à graça preveniente de Deus e portanto estava a postos e pronto para reconhecer Jesus como Messias e Salvador.

Estou eu dizendo que Cornélio iria para o Céu se tivesse morrido antes da vinda de Pedro? A resposta a esta questão depende, penso eu, da relação de Cornélio com a aliança como ela foi revelada ao povo judeu no Antigo Testamento. É possível que ele fosse familiar com a aliança e de forma privada, se não formal e publicamente, tenha se submetido ao termos daquela aliança, a saber, arrependimento e fé obediente em Deus e nas suas promessas, incluindo a promessa de Deus em enviar o Messias-Pastor. Neste caso, sua aceitação por Deus pode ter envolvido uma dispensação da graça salvífica paralela àquela dada aos judeus fiéis debaixo dos termos da aliança. Por outro lado, pode ser que, apesar de sua devoção, Cornélio ainda fosse considerado um gentio não-prosélito e um “estrangeiro às alianças da promessa”, portanto “separado da comunidade de Israel” e “sem esperança, e sem Deus no mundo” (Efésios 2:12). O que é claro é que Cornélio foi receptivo à graça preveniente, e por causa desta receptividade lhe foi concedido adicional graça preveniente e a oportunidade de receber a mensagem de salvação mediante Jesus Cristo. Isto mais uma vez demonstra o princípio descoberto acima, de que Cristo é a única meta do Pai na dispensação da graça preveniente. Deus não estaria contente em deixar Cornélio na ignorância de Cristo, dada a dramática receptividade de Cornélio à graça preveniente. Nesta nova era na qual o Messias chegou e trabalhou a redenção para toda a humanidade, não existe “terceira opção” para gentios mais do que existe “terceira opção” para judeus. Deus não permite que nenhum gentio que é receptivo à graça preveniente continuar em seu favor sem ser direcionado à fé consciente intencional em Cristo. Como com o povo judeu, qualquer gentio que continua aberto à verdade revelada de Deus (i.e. como revelada mediante a criação, a consciência, e a revelação verbal) ultimamente será direcionado por Deus a Cristo, pois Deus não tem outra intenção além de todos na terra e no céu sejam trazidos juntos sobre uma cabeça, Cristo (Ef 1:10).

A consideração acima sobre gentios tementes a Deus, então, leva-nos a afirmar o que é uma visão bem comum nas igrejas evangélicas acerca daqueles que nunca ouviram o Evangelho. Colocando esta visão nos termos nos quais ela é majoritariamente expressa, Deua dá mais luz àqueles que respondem à luz já dada. Arminius essencialmente mantinha esta posição, como visto na seguinte citação na qual ele aborda a situação daqueles que jamais ouviram o evangelho:

… Enquanto eles são destituídos do conhecimento de Cristo, mesmo assim Deus não deixou a Si Mesmo sem testemunha, mas mesmo durante este período ele revelou a eles alguma verdade concernente a Seu poder e bondade; cujos benefícios se eles tivessem usado corretamente, pelo menos de acordo com sua consciência, Ele teria lhes concedido maior graça; de acordo com a tal, ‘Ao que se tem se dará’ [Mateus 13:12] … ‘Todos os homens sao chamados com algum chamado’, a saber, por aquele testemunho de Deus pelo qual eles podem ser trazidos a encontrar Deus sentindo-O, e por aquela verdade que eles mantém, ou detém, em injustiça, isto é, cujo efeito eles guardam em si mesmos; e por aquela escrita da lei em suas mentes, de acordo com a qual eles têm seus próprios pensamentos acusando-os. Mas esta chamada, apesar de não ser salvífica, dao que da tal salvação não pode ser imediatamente obtida, pode ainda ser dita antecedente à graça salvífica pela qual Cristo é ofertado, e se corretamente usada, adquirirá aquela graça da misericórdia de Deus. (“Examination of Perkin’s Pamphlet,” The Works of James Arminius, London Ed., Vol. 3, trans. William Nichols, Grand Rapids, MI: Baker Books, 1986, pp. 483-484, ênfase acrescida)

Nós vemos esta verdade dramaticamente demonstrada no caso de Cornélio. Deus foi bem longe a fim de trazer o Evangelho a Cornélio, que devido à sua favorável resposta à graça preveniente de Deus pode ser considerado uma das ovelhas de Cristo afora do pasto de Israel. Uma vez exposto ao evangelho de Jesus, Cornélio continuou a responder em fé e foi apropriadamente recolhido a ajuntar-se ao restante do rebanho do Messias-Pastor, judeus e gentios de igual forma, que reconhecera a voz do Pastor e o seguira. Cornélio foi dado pelo Pai para o Filho, porque Cornélio persistiu nesta resposta-em-fé à verdade revelada de Deus. O mesmo presumivelmente é verdadeiro hoje em dia para judeus e gentios da mesma forma: Todos que são receptivos à graça preveniente de Deus e que persistem nesta resposta-em-fé terão concedidas mais graça preveniente, levando-os ultimamente à fé deliberada em Jesus, o Messias-Pastor.

A noção de persistência na resposta em fé é importante, pois nenhum dos comentários de Jesus sobre o assunto implica que a graça de Deus sequer se torne irresistível. Ainda que Jesus dissera que “todo aquele que o Pai me dá virá a mim” (Jo 6:37), esta afirmativa supõe que aqueles assim dados estão naquele tempo em um estado de receptividade à verdade revelada de Deus. Em lugar nenhum das de nenhuma passagens exploradas anteriormente encontramos alguma dica que uma pessoa que está resistindo à graça de Deus possa simultaneamente ser recipiente das ações salvíficas de Deus. Nem existe qualquer indicação que uma vez que uma pessoa comece a se alinhar com a verdade e responde favoravelmente à graça preveniente de Deus (portanto pertencendo a Deus neste sentido) ela irá necessária e irresistivelmente continuar a assim agir. As passagens que temos acima explorado apenas ensinam que se uma pessoa pertence a Deus (i.e. mediante receptividade à graça preveniente), Deus ativamente interferirá para direcioná-lo à fé intencional em Cristo. Estas passagens de e por si mesmas não excluem a possibilidade que uma pessoa que era em um certo momento receptiva à graça preveniente possa subsequentemente começar a resistir a tal graça, caso no qual ele não mais pertenceria a Deus e nem cumpriria as condições suficientes para vir à fé em Cristo. Deus neste caso não estaria obrigado a dirigi-lo a Cristo[6].

Traduções Crédulas: As Doutrinas Bíblicas da Graça, por Brian Abasciano (INDEX)

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Mais índices!

Este aqui é recente, está saindo do forno do grupo SEA! Trata-se de um sumário bastante completo da teologia arminiana, com seu acrônimo FACTS. Para quem sentia falta de algo centralizado e com farta argumentação escritural, eis a sua salvação!

Como no estilo de índices, eu não colocarei todos os links de uma vez, apenas os seus títulos. De qualquer forma, puxe a aba e leia com carinho! Continuar lendo

Traduções Crédulas: Eleição em Romanos 9 – Análise de Romanos 9:6-13 – Duas Formas de Graça Preveniente

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Eleição em Romanos 9

Análise de Romanos 9:6-13 – Duas Formas de Graça Preveniente

Então, o que encontramos é que a forma incondicionada da eleição referida por Paulo em Romanos 9:7-13 e encarnada na escolha divina de Isaque, Jacó e (por extensão) seus descendentes não foi uma eleição garantindo sua salvação final afinal, mas em vez disso uma eleição pela qual Deus garantiu-lhes uma oportunidade avantajada de exercer fé salvífica. Podemos dizer que a escolha dos descendentes físicos de Israel constituiu um compromisso por Deus de agressivamente buscar um relacionamento salvífico com eles dando-lhes acesso privilegiado à sua verdade. Note que esta caracterização da eleição por Deus do povo judeu paraleliza fortemente o conceito tradicional de graça preveniente (veja a seção “Definições” acima), que é esta forma de graça resistível estendida por Deus para uma pessoa pela qual tal pessoa pode ser trazida à fé e arrependimento, se a pessoa responder cooperativamente e deliberadamente à graça assim estendida. Sem tal graça preveniente, é impossível para a pessoa natural não-regenerada exercer autêntica decisão em fé em direção a Deus (Jo 6:44). Por meio da graça preveniente, ao descrente está ao mesmo tempo concedido acesso às verdades do Evangelho e habilitada a livremente responder em fé a estas verdades se assim desejar. A graça estendida à descendência física de Israel (linhagem tipo 2 acima) pode ser considerada uma forma da graça preveniente que constitui uma oportunidade que concedia ao povo judeu acesso e interação com as verdades salvíficas de Deus de tal forma que poderia potencialmente levá-los à sua salvação.

Uma vez que a forma de graça preveniente estendida a Isaque e Jacó foi discriminatória (no que Deus discriminou entre Isaque e Ismael, e entre Jacó e Esaú, como recipientes desta graça preveniente), Paulo fala em Romanos capítulo um e dois de outra forma mais básica de graça preveniente que claramente não é discriminatória afinal mas de fato universalmente dispensada. Em 1:19-20 Paulo diz que Deus tem deixado evidente para todos os homens Seus atributos invisíveis, Seu eterno poder e divina natureza mediante o mundo que ele fez. Em 1:21 Paulo diz que por meio desta revelação todas as pessoas conhecem Deus, em 1:25 ele diz que eles têm acesso à verdade de Deus, e em 1:32 ele diz que eles conhecem as ordenanças de Deus. Em 2:15 Paulo diz que mesmo os gentios têm a obra da Lei escrita em seus corações. Esta auto-revelação de Deus a toda humanidade mediante a natureza e a consciência humana é suficiente para deixar as pessoas sem desculpas para seus pecados (1:20; 2:1). Não apenas isto, mas a afirmação de Paulo sugere fortemente que a dispensação divina daquilo que podemos chamar de graça preveniente universal provê todas as pessoas com uma básica habilidade de exercer se elas assim escolherem.[8] Paulo diz “porquanto, tendo conhecido a Deus, contudo não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças, antes nas suas especulações se tornaram vãos, e o seu coração insensato se obscureceu.” (1:21) As atividades mencionadas aqui de honrar Deus e agradecer pressupõem o exercício da fé. A menção por Paulo destas atividades neste contexto implica que todas as pessoas são supridas com uma real capacidade de responder à auto-revelação de Deus destas formas (i.e. responder em fé), mas que elas falham em fazê-lo, escolhendo em vez disso suprimir a verdade em injustiça (verso 18). Como resultado, seu coração insensato é obscurecido (verso 21) e eles trazem para si mesmos a justa condenação e ira de Deus (verso 18a).

Esta interpretação de graça universal preveniente como habilitando uma uma verdadeira resposta em fé para todas as pessoas é adicionalmente confirmado pela escrita de Paulo em Romanos 2:4, em que ele aponta a hipocrisia daqueles que cometem os mesmos pecados dos quais julgam os outros. Paulo os reprova, “Ou desprezas tu as riquezas da sua benignidade, e paciência e longanimidade, ignorando que a benignidade de Deus te conduz ao arrependimento?”. A benignidade, paciência, longanimidade mencionadas aqui são todas expressões de sua graça preveniente universal, pela qual ele adia a total manifestação de sua ira sobre os pecadores a fim de dar-lhes adicional oportunidade para o arrependimento (cf. 2Pedro 3:9). De importância, Paulo diz que esta benignidade da parte de Deus tem intenção em levar tais pecadores ao arrependimento. Esta expressão “conduz ao arrependimento?” no verso 2:4b sugere tanto que tal arrependimento da parte de qualquer pessoa é genuinamente possível – não somente na teoria, mas na realidade, bem como mostram as expressões de fé mencionadas em 1:21 são verdadeiramente possíveis para qualquer pessoa – e que este arrependimento é feito possível somente diante da influência (o “levar”) da bondade de Deus, isto é, pela habilitação advinda da graça preveniente de Deus.

Note que não estou dizendo aqui que pessoas tenham capacidade natural de vir à fé e arrependimento sem divina assistência (o erro dos pelagianos). Em vez disso, de fato estou concluindo que dos capítulos um e dois de Romanos que Deus universalmente estende uma forma básica de graça preveniente (mediante a revelação da criação, e o atraso da ira de Deus para o pecado) pela qual todas as pessoas vêm a entender intuitivamente em alguma medida significativa a glória e perfeição morais de Deus e são dados tanto a oportunidade quanto a capacidade de responder livremente a esta revelação em fé e arrependimento, se assim escolherem. Pessoas não fazem assim, porém, mas preferem em vez disso livremente seguir as tendências de seus corações imprudentes, que mediante os efeitos do pecado de Adão foram tornados propensos a crer nas decepções do pecado (veja meu ensaio “Reflexões sobre Pecado Original”). Como resultado, todas as pessoas trazem a condenação de Deus sobre si mesmas, não porque Deus unilateralmente predeterminara que elas pecariam (um dos erros calvinistas) mas porque eles, devido ao exercício do livre arbítrio autêntico contra-causal (veja meus ensaios “As Vontades de Deus” e “Reflexões Filosóficas sobre o Livre Arbítrio”) suprimem o conhecimento de Deus via sua graça preveniente universal.

A existência da graça preveniente universal deste gênero como descrita por Paulo nos capítulos um e dois de Romanos explica como Deus pode ser justo em dispensar uma graça preveniente discriminatória do tipo descrita em Romanos 9:7-13 (que pelo bem da discussão eu chamarei de graça preveniete particular, como distinguindo da graça preveniente universal). Apesar de Isaque e Jacó serem de fato eleitos para uma posição de acesso privilegiado à verdade de Deus como membros da linhagem física da promessa, não é como se Ismael, Esaú e a outra multidão de gentios na terra foram abandonados a encarar a vida sem qualquer oferta de graça preveniente de Deus. No mínimo, eles todos foram recipientes da mesma graça preveniente universal descrita por Paulo em Romanos capítulos um e dois. Isto por si só é suficiente para torná-los, pelo exercício de seu próprio livre arbítrio, indesculpáveis, e esta dispensação divina da graça preveniente universal apenas é suficiente para provar a verdade da asserção que “Deus deseja que todos os homens sejam salvos e venham ao conhecimento da verdade” (1Tm 2:4; também Ex 18:23, Is 45:22, 2Pe 3:9)[9]. Deus expressou seu desejo seu de que todos sejam salvos não somente concedendo a cada pessoa uma intuição de Deus e de sua Lei justa, mas também concedendo a cada pessoa a capacidade de livremente responder a esta intuição com fé e arrependimento. O desejo de Deus neste assunto segue de sua própria natureza moral como um verdadeiro ser bom que deseja o que é bom para suas criaturas. Não há sentido, porém, que a natureza moral de Deus o obrigue a conceder a qualquer descrente mais que isto; de fato, Deus não está nem mesmo obrigado a estender esta graça preveniente universal para começar (i.e. isto é verdadeiramente graça), exceto enquanto ele estava restrito a fazer isto pela sua própria natureza moral que o causa a verdadeiramente desejar a salvação de todos os criados à sua imagem. Consequentemente, provendo adicional graça preveniente particular da espécie descrita por Paulo em Romanos 9:7-11, Deus está indo além, “andando uma milha a mais” por assim dizer, e pode dispensar esta graça desigualmente sem violações de quaisquer obrigações morais da parte de Deus, seja para si mesmo ou para suas criaturas.

Traduções Crédulas: Eleição em Romanos 9 – Análise de Romanos 9:6-13 – Eleição Incondicional para Salvação Final?

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Eleição em Romanos 9

Análise de Romanos 9:6-13 – Eleição Incondicional para Salvação Final?

Com estas observações em mente, estamos agora numa posição de responder a preponderante questão teológica do que de se os exemplos aduzidos por Paulo em Romanos 9:7-13 representam ou apoiam a concepção de uma eleição individual incondicional para salvação final projetada pelos calvinistas. Para responder esta questão devemos abordar três questões suplementares. Primeiro, devemos perguntar quem são os objetos da(s) eleição(ões) descritas nestes versos? Então devemos perguntar no que a eleição é condicionada (se ela de fato for)? Finalmente devemos nos perguntar qual é o fim da eleição? (P.Ex. a salvação final da pessoa eleita está em vista como fim da eleição, ou há algum outro fim em vista?) Abordarei estas questões aqui.

Respondendo a primeira questão (i.e. quem são os objetos da eleição?) os objetos imediatos da eleição nos exemplos de 9:7-13 são Isaque e Israel (Jacó), apesar de que porque esta eleição se baseia em linhagem física de acordo com a promessa de Deus (i.e. linhagem tipo 2 acima), ela se estende de modo a compreender todos os descendentes físicos de Israel (mesmo que não todos os descendentes físicos de Abraão; veja a discussão acima). A eleição aqui em vista contrasta neste assunto com a eleição discutida por Paulo no capítulo quatro de Romanos e aludida em 9:6b, que é baseada na descendência espiritual pela fé da mesma de Abraão (linhagem tipo 1 acima). No último caso os objetos da eleição são todos e apenas todos os judeus e gentios que têm a mesma fé de Abraão (cf. 4:12; 11:20, 23).

Respondendo à segunda questão acima (i.e. no que a eleição é condicionada), a eleição de Isaque e Jacó foi dita ser ‘não por causa das obras mas por Aquele que chama’ (9:11). Avançando até o verso 16, vemos que essa mesma eleição “não depende do que quer, nem quem corre, mas de Deus que usa de misericórdia”. O desfecho destas assertivas é que o tipo de eleição outorgada a Isaque, Jacó e os descendentes de Jacó (i.e. linhagem tipo 2 acima) não foi baseada em quaisquer fatores volicionais da sua parte que pudessem obrigar Deus a tratá-los diferentemente do que os que não foram eleitos. Em vez disso, a discriminação de Deus entre Jacó e Esaú foi em último caso não restrita a quaisquer fatores externos ao próprio livre arbítrio de Deus em estender misericórdia. Isto se posiciona em contraste com a eleição baseada na linhagem de Abraão pela fé espiritual, que da mesma forma sendo inteiramente pela graça, ainda assim procede de acordo com o decreto auto-imposto de salvar a todos e somente aqueles que creem (Jo 3:15-18, 36, 6:40, 47, 11:25-26, 20:31; At 16:31; 1 Co 1:21; cf. a formulação de Arminius do segundo decreto divino, “Public Disputations,” The Works of James Arminius, London Ed., Vol. 2, trans. James Nichols, Grand Rapids, MI: Baker Books, 1986, Disp. XV, 2, p. 226; “Certain Articles,” ibid., Art. XIV, p. 719). Eleição para salvação é portanto condicionada diretamente pela fé dos recipientes desta eleição, que contrasta neste sentido com os descrentes não eleitos. Como Paulo estabeleceu no capítulo quatro, Abraão foi apontado “o pai de todos que creem o pai de todos os que creem… e  também andam nas pisadas daquela fé de nosso pai Abraão” (4:11-12). A promessa para Abraão (da qual a linhagem espiritual de seus herdeiros-pela-fé é baseada) foi “pela justiça da fé” e é pela fé (4:13,16). Novamente, no capítulo onze Paulo fala de seus contemporâneos judeus descrentes que eles foram arrancados [i.e. excluídos de participação na nova aliança de salvação centrada em Cristo] por incredulidade, enquanto Paulo fala aos cristãos romanos que eles permanecem nesta mesma nova aliança pela fé (11:20). Como discutirei em mais profundidade abaixo, esta eleição condicional não é estática, porém, mas dinâmica, porque Paulo segue afirmando em 11:23 que estes mesmos descrentes judeus que são atualmente não eleitos (no sentido da eleição baseada no tipo 1 de linhagem da fé de Abraão; cf. 11:7 e discussão abaixo) podem de fato se tornar eleitos e ser reenxertados em Cristo e desfrutar participação em sua aliança, “se eles não permanecerem na incredulidade”. Paulo não poderia ter colocado mais claramente: Eleição para participação na linhagem espiritual de Abraão é condicionada pela fé, ao contrário da eleição baseada em descendência física de Jacó (Israel), que é condicionada em nada além do próprio livre arbítrio de Deus para estender misericórdia;[7]

Finalmente, devemos nos perguntar, qual fim tinha a eleição de Isaque e Jacó (e seus descendentes físicos)? Em particular, estava a salvação final deles em vista como fim desta eleição, ou tinha algum outro fim em vista? Já vimos acima que a eleição de Isaque e Jacó estabelecida na linhagem tipo 2 listada acima, a saber a nação de Israel compreendendo todos aqueles descendendo fisicamente de Jacó (Israel). Paulo se refere a este tipo de linhagem em 9:3-4 como “meus parentes segundo a carne; que são israelitas”, e provê uma sucinta descrição de “… a quem é a adoção, e a glória, e as alianças, e a promulgação da lei, e o culto, e as promessas; de quem são os patriarcas; e de quem descende o Cristo segundo a carne” (9:5-6). Vemos também que Paulo notou anteriormente em 3:1-2 que os judeus têm a “vantagem” distinta de terem sido “confiados os oráculos de Deus”. Em resumo, os descendentes físicos de Israel foram escolhidos por Deus para mediar a revelação da Palavra verbal de Deus para a humanidade bem como superintender as outras manifestações externas da presença de Deus entre eles, à vista das nações, de tal modo a preparar o caminho para o Cristo, a Palavra Encarnada, vir ao mundo. Desta forma, aos israelitas físicos foi concedido acesso privilegiado às verdades de Deus como comunicadas mediante as alianças, a Lei, os serviços do templo, as promessas, e o próprio Cristo.

Apesar de esta eleição claramente aumentar as oportunidades disponíveis para qualquer dado indivíduo israelita adentrar uma aliança salvífica com Deus, a eleição não garantia por si só a salvação dos indivíduos judeus. A Bíblia é clara em que cada adulto judeu precisa adentrar pessoalmente em uma aliança salvífica de relacionamento com Deus pelo caminho da fé, lealdade, e resultante obediência a Deus. Não há garantia de tal participação na aliança meramente na base da eleição de acordo com a linhagem tipo 2 acima descrita e referenciada em Romanos 9:7-13. De fato o Antigo Testamento está repleto de exemplos de descendência física de Israel que claramente falharam em participar pela fé em uma aliança de relacionamento salvífica com Deus e que portanto não tinham evidência de terem alcançado salvação espiritual. O livro de Malaquias é instrutivo neste sentido. Ainda que, como dantes notado, Deus reafirmou aos israelitas do dia de Malaquias a natureza irrevogável das suas promessas aos patriarcas (Ml 1:2; 3:6), ao mesmo tempo Deus deixou claro que a salvação espiritual dos israelitas era contingente ao arrependimento pessoal e fé. Apenas os que temiam o Senhor e estimavam Seu nome (Ml 3:16) foram considerados por Deus como sendo dele como sua possessão (3:17), e nenhum dos israelitas que persistiram em impiedade restaria no vindouro dia do julgamento (Ml 3:17-4:3; veja também 2:2-3,9,12; 3:5,9; 4:6).

Além disso, é importante recordar que a possibilidade de salvação espiritual não era limitada aos descendentes físicos de Israel, mesmo nos tempos do Antigo Testamento. A lei mosaica fez acomodações para qualquer gentio que assim desejasse livremente adentrar numa aliança de relacionamento salvífica com Deus ao voluntariamente se colocar nas condições da aliança (em essência, voluntariamente “tornar-se judeu”; cf. Ex 12:48; Lv 19:33-34; Js 8:33; Rt 1:16; Is 14:1; 56:3,6-8). Portanto, a eleição de Isaque, Jacó, e seus descendentes citados em Rêomanos 9:7-13 não tem a salvação pessoal última dos eleitos em vista como seu fim ou garante tal salvação a eles, nem ela impede a salvação última dos não-eleitos (i.e. Esaú, Ismael ou qualquer outro gentio). Em vez disso, esta eleição baseada na linhagem física tipo 2 resultou apenas num acesso privilegiado às verdades salvíficas de Deus e uma oportunidade adicional de interagir com e abraçar estas verdades salvíficas mediante fé (i.e. uma oportunidade maior de escolher participar pela fé da linhagem espiritual tipo 1). Esta era de fato a situação dos judeus nos dias de Paulo, entre os quais mesmo aqueles que estavam naquele tempo mergulhados na incredulidade ainda tinham disponíveis para eles a oportunidade de abraçar a fé em Cristo e serem enxertados novamente na árvore que representa o povo de Deus (11:23).