Traduções Crédulas: João 6 por Christopher Chapman (INDEX)

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Mais índices, mais índices, mais índices!

Já faz um bruta tempo que estou com esta e muitas outras séries engavetadas. De fato, penso que há pouco que eu possa traduzir de relevante nessa área. Os principais versos-prova já foram cobertos, e os argumentos mais usados pelos apologistas de décima há muito não têm o mesmo efeito (exceto em mentes viciadas).

De qualquer modo, esta série vale a leitura. É uma perspectiva mais ampla, analisando o livro como um todo. Vale o investimento!

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A Ordem da Fé e Eleição no Evangelho de João: Vós não credes pois não sois das minhas ovelhas – II.F

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F – Os Gentios

Finalmente, como os gentios se encaixam nisto tudo? Isto é, os comentários de Jesus têm relevância para judeus somente, ou eles têm relevância para os gentios procurantes também, incluindo os gentios de nossos dias?

Apesar de até agora neste ensaio eu ter focado inteiramente nas afirmações de Jesus no Evangelho de João enquanto eles são relacionados ao povo judeu (porque parece claro do contexto de suas afirmações que era este o próprio foco de Jesus quando as estava fazendo), é igualmente claro que o próprio Jesus intencionava uma secundária, mais abrangente aplicação aos gentios. Nós vemos isto em João 10:16, onde após ter discutido sua vinda para as ovelhas de Israel, Jesus acrescenta:

Tenho ainda outras ovelhas que não são deste aprisco; a essas também me importa conduzir, e elas ouvirão a minha voz; e haverá um rebanho e um pastor.

Dado o pano de fundo para as notas de Jesus (veja a discussão nas seções B e C acima), o pasto em questão era claramente Israel, a quem Jesus veio como o Messias-Pastor prometido para chamar as ovelhas fiéis do rebanho de Deus. As outras ovelhas que não são deste pasto, então, poderiam referir-se aos gentios, fora do pasto de Israel. Esta visão é apoiada pelas palavras de João no capítulo seguinte, onde, comantando a asserção de Caifás de que “convém que morra um só homem pelo povo, e que não pereça a nação toda” (11:50), o apóstolo diz: “Ora, ele não disse isso por si mesmo; mas, sendo o sumo sacerdote naquele ano, profetizou que Jesus havia de morrer pela nação, e não somente pela nação, mas também para reunir em um só corpo os filhos de Deus que estão dispersos” (11:51-52). Aqui, os “filhos de Deus que estão dispersos” são diretamente contrastados com a nação judaica, sugerindo como em 10:16 que os gentios estavam em vista. Significantemente, estes gentios são chamados “filhos de Deus” em 11:52 e “ovelhas de Cristo” em 10:16, ambos os termos que já vimos em nossa precedente discussão referentes àqueles que cumprem as condições suficientes para vir à fé em Cristo. Adicionalmente, a afirmação de Jesus em 10:16 que estas ovelhas gentias também ouviriam sua voz, indicando que ele, assim como as ovelhas judias descritas nas seções anteriores, certamente reconheceriam-non como o Messias-Pastor e segui-lo em fé. A clara implicação de tudo isso é que existiam gentios tementes a Deus também, que, como os fiéis judeus preparados, responderam favoravelmente à graça preveniente de Deus e que, portanto, pertenciam a Deus e seriam dirigidos para a fé no Filho. O Messias-Pastor veio, então, não apenas para ajuntar as ovelhas fiéis de Israel, mas para ajuntar os fiéis entre os gentios também e fazê-los todos um rebanho, um corpo, leal a ele como Messias-Pastor (cf. Ef 2:11-22, 3:6). (Note o foco paralelo em ambos 10:16 e 11:52 sobre o objetivo de unificar o rebanho/povo de Deus; cf. 17:20-21. Veja também Isaías 56:8, que em seu contexto guarda forte semelhança com João 10:16.)

Alguém poderia propor uma interpretação estreitada de João 10:16 para o efeito que Jesus quis se referir somente àqueles gentios que tinham formalmente se convertido ao judaísmo. Tais gentios são mencionados por exemplo em Atos 13:16,26, que anota a abordagem de Paulo à sinagoga judaica em Antioquia da Pisídia. “Então Paulo se levantou e, pedindo silêncio com a mão, disse: Varões israelitas, e os que temeis a Deus, ouvi: […] Irmãos, filhos da estirpe de Abraão, e os que dentre vós temeis a Deus, a nós é enviada a palavra desta salvação”. Os gentios a que Paulo se referia na sinagoga num dia normal de Sabbath, e portanto eram presumivelmente gentios que acompanhavam regularmente e tinham formalmente se afiliado à fé judaica. Esta suposição é confirmada pelo verso 43, onde nos é dito que após a abordagem de Paulo, “E, despedida a sinagoga, muitos judeus e prosélitos devotos seguiram a Paulo e Barnabé, os quais, falando-lhes, os exortavam a perseverarem na graça de Deus”.

Porém, é improvável que Jesus intencionasse em Jo 10:16 referir-se somente aos prosélitos gentios dentro do judaísmo. Por um lado, é difícil ver por que tais convertidos seriam considerados “não deste pasto [judaico]” (10:16), quando o ponto todo da conversão para o judaísmo era tal que alguém poderia a partir disto ser considerado membro da comunidade da aliança judaica (Is 56:3-8). Além disso, depois na mesma abordagem da visita de Paulo e Barnabé à sinagoga de Antioquia de Pisídia descrita acima (Atos 13), havia evidência que gentios não-prosélitos foram preparados para a mensagem do Evangelho de uma maneira semelhante àquela que nós temos visto antes que era verídica para judeus preparados. No Sabbath seguinte após a primeira apresentação na sinagoga, “No sábado seguinte reuniu-se quase toda a cidade para ouvir a palavra de Deus” [incluindo obviamente muitos gentios não-prosélitos] reunidos para ouvir a palavra do Senhor (verso 44). Porém, “Mas os judeus, vendo as multidões, encheram-se de inveja” e começaram a se opor ao que Paulo falava (verso 45). Considere cuidadosamente o que aconteceu depois:

[46] Então Paulo e Barnabé, falando ousadamente, disseram: Era mister que a vós se pregasse em primeiro lugar a palavra de Deus; mas, visto que a rejeitais, e não vos julgais dignos da vida eterna, eis que nos viramos para os gentios;
[47] porque assim nos ordenou o Senhor: Eu te pus para luz dos gentios, a fim de que sejas para salvação até os confins da terra.
[48] Os gentios, ouvindo isto, alegravam-se e glorificavam a palavra do Senhor; e creram todos quantos haviam sido destinados para a vida eterna.

De especial interesse é a descrição de Lucas dos gentios não-prosélitos que vieram à fé em Cristo. No verso 48 é dito deles que eles foram “destinados à vida eterna”. Calvinistas têm geralmente usado este verso para apoiar a doutrina da eleição incondicional particular para salvação. Porém, como Robert Shank argumenta em uma excelente discussão deste verso (Elect in the Son: A Study of the Doctrine of Election, Minneapolis, MN: Bethany House, 1970, 1989, pp. 183-187), o verbo grego tetagmenoi (masculino, plural, nominativo, perfeito, particípio passivo/médio de tasso, ‘colocar em ordem’) não especifica um agente neste verso, então é uma questão aberta se é Deus ou as pessoas em si que (ou alguma combinação de ambos) que causou estes gentios a serem ‘postos em ordem’ ou dispostos à vida eterna. Como Shank nota (seguindo diversos outros comentaristas), o fato de ser dito dos judeus no verso 46 terem rejeitado o Evangelho e portanto não se considerarem (ou julgarem) a si mesmos dignos da vida eterna (um paralelo negativo com o verso 48b) “fortemente mitiga contra qualquer suposição de agência divina no verso 48) (Shank, ibid., p. 184). Isto é, o paralelo contrastivo entre os versos 46b e 48b sugere que foram os gentios responsivos que se posicionaram em ordem [tetagmenoi] para a vida eterna na base de sua receptividade às palavras de Paulo e Barnabás, assim como os judeus descrentes se dispuseram a si mesmos contra receber a vida eterna por causa de sua resistência à mesma mensagem.

Além disto, Shank astutamente observa:

Todos aqueles que assumem que tetagmenoi em Atos 13:48 implica que aqueles que creram no Evangelho naquele momento e lugar particular o fizeram como a consequência de um decreto eterno de eleição incondicional particular adotam impensadamente uma segunda suposição, completamente absurda: todos os presentes na sinagoga que tenham crido no Evangelho, o fizeram de uma vez só; não houve oportunidade posterior de cogitar o Evangelho, e nenhum homem que falhou em crer naquele momento poderia jamais subsequentemente crer” (Shank, ibid., p. 187).

É claramente melhor, então, ver estes gentios que receberam o Evangelho com alegria em Antioquia de Pisídia naquele dia como gentios que se prepararam a fim de receber vida eterna mediante sua própria disposição para arrependimento e sendo receptivos à palavra de Deus. Neste sentido eles eram semelhantes aos judeus preparados que discutimos nas seções anteriores deste ensaio. Eles responderam favoravelmente à graça preveniente de Deus e netse sentido foram “dispostos”, “postos em ordem”, ou [uma tradução marginal] “apontados” para a vida eterna.

Outro exemplo de um gentio que qualificaríamos como uma das ovelhas de Cristo, preparada de antemão para a chegada de Cristo mediante receptividade voluntária à graça preveniente de Deus, é Cornélio em Atos 10. Em 10:1-2 Cornélio é descrito como um gentio de Cesareia, um “centurião da coorte chamada italiana”, que junto com sua família (ou pelo menos um de seus domésticos; veja o verso 7), era “piedoso e temente a Deus”. Nós somos informados que Cornélio generosamente ajudava os necessitados e orava a Deus regularmente. Em uma visão Cornélio foi informado por um anjo que “…As tuas orações e as tuas esmolas têm subido para memória diante de Deus” (verso 4). Claramente ele era um homem que fora receptivo à graça preveniente de Deus em direção a ele e que em consequência permaneceu, em algum sentido significativo, no favor de Deus. O próprio apóstolo Pedro disse isto quando viu a devoção de Cornélio após ter chegado à casa deste último em obediência a uma visão de Deus. “Então Pedro, tomando a palavra, disse: Na verdade reconheço que Deus não faz acepção de pessoas; mas que lhe é aceitável aquele que, em qualquer nação, o teme e pratica o que é justo” (At 10:34-35). A aceitação por Deus de Cornélio parece ter precedido a fé de Cornélio em Cristo, pois esta aceitação parece ter sido baseado na reverência e devoção expressas mediante as orações e esmolas de Cornélio, atos que foram recebidos como uma oferta memorial ao Senhor antes do tempo que Cornélio ouviu o evengelho de Pedro. Neste sentido, Cornélio paraleliza o caso dos judeus tementes a Deus que eram fiéis à aliança e portanti pertenciam a Deus antes da vinda de Jesus. Como eles, Cornélio foi receptivo à graça preveniente de Deus e portanto estava a postos e pronto para reconhecer Jesus como Messias e Salvador.

Estou eu dizendo que Cornélio iria para o Céu se tivesse morrido antes da vinda de Pedro? A resposta a esta questão depende, penso eu, da relação de Cornélio com a aliança como ela foi revelada ao povo judeu no Antigo Testamento. É possível que ele fosse familiar com a aliança e de forma privada, se não formal e publicamente, tenha se submetido ao termos daquela aliança, a saber, arrependimento e fé obediente em Deus e nas suas promessas, incluindo a promessa de Deus em enviar o Messias-Pastor. Neste caso, sua aceitação por Deus pode ter envolvido uma dispensação da graça salvífica paralela àquela dada aos judeus fiéis debaixo dos termos da aliança. Por outro lado, pode ser que, apesar de sua devoção, Cornélio ainda fosse considerado um gentio não-prosélito e um “estrangeiro às alianças da promessa”, portanto “separado da comunidade de Israel” e “sem esperança, e sem Deus no mundo” (Efésios 2:12). O que é claro é que Cornélio foi receptivo à graça preveniente, e por causa desta receptividade lhe foi concedido adicional graça preveniente e a oportunidade de receber a mensagem de salvação mediante Jesus Cristo. Isto mais uma vez demonstra o princípio descoberto acima, de que Cristo é a única meta do Pai na dispensação da graça preveniente. Deus não estaria contente em deixar Cornélio na ignorância de Cristo, dada a dramática receptividade de Cornélio à graça preveniente. Nesta nova era na qual o Messias chegou e trabalhou a redenção para toda a humanidade, não existe “terceira opção” para gentios mais do que existe “terceira opção” para judeus. Deus não permite que nenhum gentio que é receptivo à graça preveniente continuar em seu favor sem ser direcionado à fé consciente intencional em Cristo. Como com o povo judeu, qualquer gentio que continua aberto à verdade revelada de Deus (i.e. como revelada mediante a criação, a consciência, e a revelação verbal) ultimamente será direcionado por Deus a Cristo, pois Deus não tem outra intenção além de todos na terra e no céu sejam trazidos juntos sobre uma cabeça, Cristo (Ef 1:10).

A consideração acima sobre gentios tementes a Deus, então, leva-nos a afirmar o que é uma visão bem comum nas igrejas evangélicas acerca daqueles que nunca ouviram o Evangelho. Colocando esta visão nos termos nos quais ela é majoritariamente expressa, Deua dá mais luz àqueles que respondem à luz já dada. Arminius essencialmente mantinha esta posição, como visto na seguinte citação na qual ele aborda a situação daqueles que jamais ouviram o evangelho:

… Enquanto eles são destituídos do conhecimento de Cristo, mesmo assim Deus não deixou a Si Mesmo sem testemunha, mas mesmo durante este período ele revelou a eles alguma verdade concernente a Seu poder e bondade; cujos benefícios se eles tivessem usado corretamente, pelo menos de acordo com sua consciência, Ele teria lhes concedido maior graça; de acordo com a tal, ‘Ao que se tem se dará’ [Mateus 13:12] … ‘Todos os homens sao chamados com algum chamado’, a saber, por aquele testemunho de Deus pelo qual eles podem ser trazidos a encontrar Deus sentindo-O, e por aquela verdade que eles mantém, ou detém, em injustiça, isto é, cujo efeito eles guardam em si mesmos; e por aquela escrita da lei em suas mentes, de acordo com a qual eles têm seus próprios pensamentos acusando-os. Mas esta chamada, apesar de não ser salvífica, dao que da tal salvação não pode ser imediatamente obtida, pode ainda ser dita antecedente à graça salvífica pela qual Cristo é ofertado, e se corretamente usada, adquirirá aquela graça da misericórdia de Deus. (“Examination of Perkin’s Pamphlet,” The Works of James Arminius, London Ed., Vol. 3, trans. William Nichols, Grand Rapids, MI: Baker Books, 1986, pp. 483-484, ênfase acrescida)

Nós vemos esta verdade dramaticamente demonstrada no caso de Cornélio. Deus foi bem longe a fim de trazer o Evangelho a Cornélio, que devido à sua favorável resposta à graça preveniente de Deus pode ser considerado uma das ovelhas de Cristo afora do pasto de Israel. Uma vez exposto ao evangelho de Jesus, Cornélio continuou a responder em fé e foi apropriadamente recolhido a ajuntar-se ao restante do rebanho do Messias-Pastor, judeus e gentios de igual forma, que reconhecera a voz do Pastor e o seguira. Cornélio foi dado pelo Pai para o Filho, porque Cornélio persistiu nesta resposta-em-fé à verdade revelada de Deus. O mesmo presumivelmente é verdadeiro hoje em dia para judeus e gentios da mesma forma: Todos que são receptivos à graça preveniente de Deus e que persistem nesta resposta-em-fé terão concedidas mais graça preveniente, levando-os ultimamente à fé deliberada em Jesus, o Messias-Pastor.

A noção de persistência na resposta em fé é importante, pois nenhum dos comentários de Jesus sobre o assunto implica que a graça de Deus sequer se torne irresistível. Ainda que Jesus dissera que “todo aquele que o Pai me dá virá a mim” (Jo 6:37), esta afirmativa supõe que aqueles assim dados estão naquele tempo em um estado de receptividade à verdade revelada de Deus. Em lugar nenhum das de nenhuma passagens exploradas anteriormente encontramos alguma dica que uma pessoa que está resistindo à graça de Deus possa simultaneamente ser recipiente das ações salvíficas de Deus. Nem existe qualquer indicação que uma vez que uma pessoa comece a se alinhar com a verdade e responde favoravelmente à graça preveniente de Deus (portanto pertencendo a Deus neste sentido) ela irá necessária e irresistivelmente continuar a assim agir. As passagens que temos acima explorado apenas ensinam que se uma pessoa pertence a Deus (i.e. mediante receptividade à graça preveniente), Deus ativamente interferirá para direcioná-lo à fé intencional em Cristo. Estas passagens de e por si mesmas não excluem a possibilidade que uma pessoa que era em um certo momento receptiva à graça preveniente possa subsequentemente começar a resistir a tal graça, caso no qual ele não mais pertenceria a Deus e nem cumpriria as condições suficientes para vir à fé em Cristo. Deus neste caso não estaria obrigado a dirigi-lo a Cristo[6].

Salvação e Soberania de Deus: A Grande Comissão como a Expressão da Vontade Divina (III-B)

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B. Opção Quatro: O Paradigma das Vontades Antecedente/Consequente

Ao longo da história da igreja tanto as Igrejas Ocidentais quanto as Orientais têm ensinado que Deus deseja a salvação de todos, mas ele requer a resposta em fé da parte do ouvinte [50]. Esta abordagem das vontades oculta/revelada não vê conflito entre as duas vontades de Deus. Deus antecedentemente quer que todos sejam salvos. Mas para aqueles que se recusam a se arrepender e crer, ele consequentemente deseja que eles sejam condenados. Desta maneira Deus é compreendido como sendo semelhante a um justo juiz que deseja que todos vivam mas que relutantemente ordena a execução do assassino [51]. Os desejos antecedente e consequente são diferentes mas não estão em conflito.

A posição das vontades oculta/revelada parece ser o claro ensino da Escritura. Deus antecedentemente “amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito,” para que consequentemente “todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna”. Cristo antecedentemente ordena que o Evangelho seja pregado a toda criatura, mas ele consequentemente decreta que aquele que não crê seja danado. O paradigma das vontades antecedente/consequente se ajusta muito bem com a Grande Comissão.

Oden lista quatro características da vontade antecente de Deus [52]. Primeiro, ela é universal. Salvação é desejada para todos, providenciada para todos, e ofertada a todos. Esta atitude omnibenevolente incondicional é verdadeiramente antecedente no que ela é direcionada a toda humanidade antes de sua aceitação ou rejeição. Segundo, a vontade antecedente é imparcial. Cristo morreu pelos pecados do mundo todo. Amor universal logicamente requer expiação ilimitada. Terceiro, a vontade de Deus em salvar todos é sincera. Não existe vontade oculta; nenhum decreto secreto de reprovação. E quarto, a vontade antecente é uma vontade ordenada. É impossível para o desejo de Deus permanecer impotente ou não-cumprido. A vontade antecedente de Deus de salvar todos é a base de suas ações para prover os meios da graça para pecadores mediante Cristo.

A vontade consequente de Deus possui três componentes [53]. Primeiro, ela é consistente com as qualidades com as quais ele dotou suas criaturas. Humanos estão caídos, mas ainsda são à imagem de Deus, não obstante. A graça de Deus não é coercitiva e pode ser recusada. Quando o ouvinte encontra o Evangelho, ele é graciosamente habilitado pelo Espírito a responder livremente. A decisão do ouvinte de aceitar ou rejeitar o Evangelho é genuína e apavorantemente dele. Admitidamente, por que alguns rejeitam o Evangelho é um mistério. Mas no paradigma antecedente/consequente, o mistério da iniquidade reside no homem e não em Deus.

O segundo aspecto da vontade de Deus segue do primeiro. Se Deus quer que a salvação seja consequente à nossa escolha, então sua vontade é condicional. Terceiro, a vontade consequente é justa. A concessão de salvação por Deus para aqueles que creem é perfeitamente consistente com sua santa natureza por casua da obra propiciatória de Cristo (Rm 3:21-26). Sua danação de todos que não creem está de completo acordo com sua justiça. A vontade antecedente é perfeitamente graciosa; a vontade consequente é perfeitamente justa.

Geralmente, teólogos reformados acham a abordagem das vontades antecedente/consequente inaceitável. Eles dão um tanto de objeções das quais três figuram mais proeminentemente. Primeiro, o paradigma das vontades antecedente/consequente parece tomar a decisão de Deus como sendo contingente à escolha humana. Eles contendem que esta abordagem sutilmente coloca o homem no trono de Deus. Berkhouwer argumenta que uma salvação que dependa da decisão do homem torna Deus “impotente e esperançoso” [54]. Robert Shank replica que Deus pode estar esperançoso, mas ele não é impotente [55]. De fato a lustração de um Deus à espera é um tema rico encontrado ao longo da Bíblia (Is 1:18-20 por exemplo). A abordagem das vontades antecedente/consequente entende Deus como sendo o soberano Iniciador e opgracioso Consumador da redenção. Se o homem está para escolher entre céu e inferno, é porque o Senhor da Criação colocou tal escolha diante dele.

Uma segunda objeção que a abordagem das vontades antecedente/consequente é que ele aparenta tocar a noção de mérito. Se todos os ouvintes estão igualmente habilitados pela graça a receber o Evangelho, e uma pessoa aceita a Mensagem enquanto a outra rejeita, então isto não implica de alguma forma que a primeira pessoa foi mais virtuosa que a segunda? [56] Esta é uma objeção difícil, mas duas coisas devem ser mantidas em mente. Primeiro, esta objeção parece ver fé como alguma espécie de obra enquanto a Bíblia consistentemente contrasta fé de obras (Rm 3:21 – 4:8). Fé, por sua própria natureza, é o oposto de obras porque é uma admissão de uma completa falta de mérito ou capacidade. O clemente não incorrem em mérito quando abre suas mãos para receber um presente gratuito [57]. Segundo, o mistério não é por que alguns creem, mas sim por que nem todos creem. Isto mais uma vez aponta para o mistério do mal. Não existe mérito em aceitar o Evangelho mas existe culpa em rejeitá-lo.

Uma terceira objeção feita pelos teólogos reformados é que o paradigma das vontades antecedente/consequente dá “destaque de orgulho” para o livre arbítrio humano acima da glória de Deus [58]. John Piper argumenta que as visões das vontades oculta/revelada e antecedente/consequente são basicamente as mesmas exceto por uma importante diferença [59]. Ambas as visões contendem que Deus genuinamente deseja a salvação de todos, ambas as visões mentêm que este desejo é sobrescrito por uma vontade ainda maior, mas as duas visões discordam em que maior vontade é essa. Piper estabelece que a posição oculta/revelada vê a maior vontade como sendo um desejo de glorificar a si mesmo enquanto a posição antecedente/consequente entende a maior vontade como sendo dar a liberdade de auto-determinação para os homens. Piper conclui que o paradigma oculto/revelado faz mais justiça à glória de Deus.

Porém, na sua resposta a Piper, Walls e Dongell enfatizam que proponentes da posição das vontades antecedente/consequente não afirmam uma habilidade humana de auto-determinação graciosamente habilitada por si só. Em vez disso, a preocupação é em retratar fielmente o caráter de Deus. Deus coloca o descrente por responsável porque ele não creu no evangelho. Aqueles condenados por Deus são condenados justamente porque receber Cristo foi uma escolha genuinamente disponível. Aderir a uma doutrina de auto-determinação humana não é um fim em si mesmo. Manter a integridade do caráter de Deus é. Em vez de falhar em magnificar a glória de Deus, a posição das vontades antecedente/consequente glorifica Deus mantendo que suas deliberações são justas e consistentes com sua santa natureza [60]. Se a maior maneira para os humanos darem glória a Deus é escolhendo-o livremente, então a visão das vontades antecedente/consequente cumpre melhor este objetivo.

Interessantemente, Piper utiliza a analogia do justo juiz para fazer seu caso a favor do cenário das vontades oculta/revelada [61]. Ele dá a instância específica de quando George Washington encarou o difícil dilema de ter um de seus oficiais favoritos culpado de um crime capital. Apesar de sua afeição pelo jovem, Washington deu a ordem para sua execução. A ilustração de Piper na verdade é um exemplo do paradigma das vontades antecedente/consequente, pois de acordo com o modelo das vontades oculta/revelada, Whashington secretamente desejou o crime do oficial e inclinou a vontade do jobvem para cometer o delito.


Traduções Crédulas: Eleição em Romanos 9 – Análise de Romanos 9:6-13 – Duas Formas de Graça Preveniente

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Eleição em Romanos 9

Análise de Romanos 9:6-13 – Duas Formas de Graça Preveniente

Então, o que encontramos é que a forma incondicionada da eleição referida por Paulo em Romanos 9:7-13 e encarnada na escolha divina de Isaque, Jacó e (por extensão) seus descendentes não foi uma eleição garantindo sua salvação final afinal, mas em vez disso uma eleição pela qual Deus garantiu-lhes uma oportunidade avantajada de exercer fé salvífica. Podemos dizer que a escolha dos descendentes físicos de Israel constituiu um compromisso por Deus de agressivamente buscar um relacionamento salvífico com eles dando-lhes acesso privilegiado à sua verdade. Note que esta caracterização da eleição por Deus do povo judeu paraleliza fortemente o conceito tradicional de graça preveniente (veja a seção “Definições” acima), que é esta forma de graça resistível estendida por Deus para uma pessoa pela qual tal pessoa pode ser trazida à fé e arrependimento, se a pessoa responder cooperativamente e deliberadamente à graça assim estendida. Sem tal graça preveniente, é impossível para a pessoa natural não-regenerada exercer autêntica decisão em fé em direção a Deus (Jo 6:44). Por meio da graça preveniente, ao descrente está ao mesmo tempo concedido acesso às verdades do Evangelho e habilitada a livremente responder em fé a estas verdades se assim desejar. A graça estendida à descendência física de Israel (linhagem tipo 2 acima) pode ser considerada uma forma da graça preveniente que constitui uma oportunidade que concedia ao povo judeu acesso e interação com as verdades salvíficas de Deus de tal forma que poderia potencialmente levá-los à sua salvação.

Uma vez que a forma de graça preveniente estendida a Isaque e Jacó foi discriminatória (no que Deus discriminou entre Isaque e Ismael, e entre Jacó e Esaú, como recipientes desta graça preveniente), Paulo fala em Romanos capítulo um e dois de outra forma mais básica de graça preveniente que claramente não é discriminatória afinal mas de fato universalmente dispensada. Em 1:19-20 Paulo diz que Deus tem deixado evidente para todos os homens Seus atributos invisíveis, Seu eterno poder e divina natureza mediante o mundo que ele fez. Em 1:21 Paulo diz que por meio desta revelação todas as pessoas conhecem Deus, em 1:25 ele diz que eles têm acesso à verdade de Deus, e em 1:32 ele diz que eles conhecem as ordenanças de Deus. Em 2:15 Paulo diz que mesmo os gentios têm a obra da Lei escrita em seus corações. Esta auto-revelação de Deus a toda humanidade mediante a natureza e a consciência humana é suficiente para deixar as pessoas sem desculpas para seus pecados (1:20; 2:1). Não apenas isto, mas a afirmação de Paulo sugere fortemente que a dispensação divina daquilo que podemos chamar de graça preveniente universal provê todas as pessoas com uma básica habilidade de exercer se elas assim escolherem.[8] Paulo diz “porquanto, tendo conhecido a Deus, contudo não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças, antes nas suas especulações se tornaram vãos, e o seu coração insensato se obscureceu.” (1:21) As atividades mencionadas aqui de honrar Deus e agradecer pressupõem o exercício da fé. A menção por Paulo destas atividades neste contexto implica que todas as pessoas são supridas com uma real capacidade de responder à auto-revelação de Deus destas formas (i.e. responder em fé), mas que elas falham em fazê-lo, escolhendo em vez disso suprimir a verdade em injustiça (verso 18). Como resultado, seu coração insensato é obscurecido (verso 21) e eles trazem para si mesmos a justa condenação e ira de Deus (verso 18a).

Esta interpretação de graça universal preveniente como habilitando uma uma verdadeira resposta em fé para todas as pessoas é adicionalmente confirmado pela escrita de Paulo em Romanos 2:4, em que ele aponta a hipocrisia daqueles que cometem os mesmos pecados dos quais julgam os outros. Paulo os reprova, “Ou desprezas tu as riquezas da sua benignidade, e paciência e longanimidade, ignorando que a benignidade de Deus te conduz ao arrependimento?”. A benignidade, paciência, longanimidade mencionadas aqui são todas expressões de sua graça preveniente universal, pela qual ele adia a total manifestação de sua ira sobre os pecadores a fim de dar-lhes adicional oportunidade para o arrependimento (cf. 2Pedro 3:9). De importância, Paulo diz que esta benignidade da parte de Deus tem intenção em levar tais pecadores ao arrependimento. Esta expressão “conduz ao arrependimento?” no verso 2:4b sugere tanto que tal arrependimento da parte de qualquer pessoa é genuinamente possível – não somente na teoria, mas na realidade, bem como mostram as expressões de fé mencionadas em 1:21 são verdadeiramente possíveis para qualquer pessoa – e que este arrependimento é feito possível somente diante da influência (o “levar”) da bondade de Deus, isto é, pela habilitação advinda da graça preveniente de Deus.

Note que não estou dizendo aqui que pessoas tenham capacidade natural de vir à fé e arrependimento sem divina assistência (o erro dos pelagianos). Em vez disso, de fato estou concluindo que dos capítulos um e dois de Romanos que Deus universalmente estende uma forma básica de graça preveniente (mediante a revelação da criação, e o atraso da ira de Deus para o pecado) pela qual todas as pessoas vêm a entender intuitivamente em alguma medida significativa a glória e perfeição morais de Deus e são dados tanto a oportunidade quanto a capacidade de responder livremente a esta revelação em fé e arrependimento, se assim escolherem. Pessoas não fazem assim, porém, mas preferem em vez disso livremente seguir as tendências de seus corações imprudentes, que mediante os efeitos do pecado de Adão foram tornados propensos a crer nas decepções do pecado (veja meu ensaio “Reflexões sobre Pecado Original”). Como resultado, todas as pessoas trazem a condenação de Deus sobre si mesmas, não porque Deus unilateralmente predeterminara que elas pecariam (um dos erros calvinistas) mas porque eles, devido ao exercício do livre arbítrio autêntico contra-causal (veja meus ensaios “As Vontades de Deus” e “Reflexões Filosóficas sobre o Livre Arbítrio”) suprimem o conhecimento de Deus via sua graça preveniente universal.

A existência da graça preveniente universal deste gênero como descrita por Paulo nos capítulos um e dois de Romanos explica como Deus pode ser justo em dispensar uma graça preveniente discriminatória do tipo descrita em Romanos 9:7-13 (que pelo bem da discussão eu chamarei de graça preveniete particular, como distinguindo da graça preveniente universal). Apesar de Isaque e Jacó serem de fato eleitos para uma posição de acesso privilegiado à verdade de Deus como membros da linhagem física da promessa, não é como se Ismael, Esaú e a outra multidão de gentios na terra foram abandonados a encarar a vida sem qualquer oferta de graça preveniente de Deus. No mínimo, eles todos foram recipientes da mesma graça preveniente universal descrita por Paulo em Romanos capítulos um e dois. Isto por si só é suficiente para torná-los, pelo exercício de seu próprio livre arbítrio, indesculpáveis, e esta dispensação divina da graça preveniente universal apenas é suficiente para provar a verdade da asserção que “Deus deseja que todos os homens sejam salvos e venham ao conhecimento da verdade” (1Tm 2:4; também Ex 18:23, Is 45:22, 2Pe 3:9)[9]. Deus expressou seu desejo seu de que todos sejam salvos não somente concedendo a cada pessoa uma intuição de Deus e de sua Lei justa, mas também concedendo a cada pessoa a capacidade de livremente responder a esta intuição com fé e arrependimento. O desejo de Deus neste assunto segue de sua própria natureza moral como um verdadeiro ser bom que deseja o que é bom para suas criaturas. Não há sentido, porém, que a natureza moral de Deus o obrigue a conceder a qualquer descrente mais que isto; de fato, Deus não está nem mesmo obrigado a estender esta graça preveniente universal para começar (i.e. isto é verdadeiramente graça), exceto enquanto ele estava restrito a fazer isto pela sua própria natureza moral que o causa a verdadeiramente desejar a salvação de todos os criados à sua imagem. Consequentemente, provendo adicional graça preveniente particular da espécie descrita por Paulo em Romanos 9:7-11, Deus está indo além, “andando uma milha a mais” por assim dizer, e pode dispensar esta graça desigualmente sem violações de quaisquer obrigações morais da parte de Deus, seja para si mesmo ou para suas criaturas.

A Ordem da Fé e Eleição no Evangelho de João: Vós não credes pois não sois das minhas ovelhas – II.E

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E. São Todos Dados para o Filho: A Meta da Graça Preveniente

A discussão acima levanta um importante conjunto de questões. Lembre-se que estabelecemos antes de um exame das palavras de Jesus no Evangelho de João (vide Seção A) que aqueles que pertencem ao Pai são do mesmo conjunto que aqueles considerados como as ovelhas de Cristo, todas as quais são dadas pelo Pai para o Filho e que portanto achegam a Cristo em fé (6:37). Se, como argumentado nas seções precedentes, as ovelhas de Cristo que pertencem a Deus (Jo 8:47, 10:26) se referem especificamente àqueles israelitas que tinham respondido favoravelmente à graça preveniente de Deus e estavam portanto em um relacionamento correto de aliança com Deus nos tempos da aparição de Jesus para Israel, como devemos agora interpretar as condições suficiente acompanhantes de Jesus que o Pai dá todos dos mesmos arrependidos a Jesus (Jo 6:37, 17:2,6,9,24)? Em que sentido eles são dados? E por que isto é verdadeiro para todos eles?

A resposta para estas questões toca no próprio âmago do relacionamento entre o Pai, o Filho e aqueles que pertencem a Deus. Após a chegada de Jesus em Israel, era necessário que estes que foram fiéis à aliança anterior à apresentação de Jesus para Israel agora fizessem a transição para a nova era anunciada pela chegada do Messias-Pastor. Porque estes judeus preparados continuamente eram receptivos à graça preveniente resistível de Deus (o “trazer” e o “conceder” de Deus; Jo 6:44,65), estes mesmos poderiam agora ser levados por Deus para fé em Cristo, não porque tal chamado à fé em Cristo é irresistível, mas precisamente porque os corações destes judeus preparados já estavam num estado receptivo. Eles já haviam feito a escolha livre de estar ao lado da verdade (18:37) e de se render em arrependimento e lealdade a Deus. Consequentemente, Deus poderia, pela obra interior do Santo Espírito em seus corações, dirigir todos os seus fiéis que já lhe pertenciam para abraçar Jesus, o Messias-Pastor, como novo ponto-focal de sua fé e lealdade. Mediante as obras que Jesus falou (que eram as palavras do próprio Pai; veja acima) e a obra do Santo Espírito em seus corações, Deus assegurou que estes judeus receptivos que Jesus e fato foi enviado pelo Pai como ele afirmava, confirmando em seus corações a identidade messiânica de Jesus como o verdadeiro pastor e direcionando-os à fé nele. Estes filhos de Deus debaixo da Antiga Aliança não propuseram resistência final em seus corações quando Deus os dirigiu ao Filho desta forma, pois seus corações estavam já abertos à verdade revelada de Deus. Eles não precisaram ser determinados ou compelidos a aceitá-lo. Eles vieram livremente ao Filho.

É completamente esperado que Deus os dirigiria a Jesus desta forma, dada a natureza do relacionamento entre o Pai e o Filho como apresentada no Evangelho de João. Este relacionamento é um dos principais temas (senão o maior)de todo o livro. Talvez será útil tomar um momento e considerar a relacionamento mais cuidadosamente aqui. Como dantes notado, Jesus repetidamente identifica-se como aquele que foi enviado ou que veio do Pai (1:9,14; 3:2,13,17,19,31,34; 4:25-26,34; 5:23-24,36,38,43; 6:29,32-33,44,46,51,57,62; 7:16,18,28-29,33; 8:14,16,18,23,26,29,38,42; 9:4; 10:36; 11:27,42; 12:44-46,49; 13:3,20; 15:21; 16:5,28,30; 17:8,18,21,23,25; 20:21; cf. também 9:16, 29; 19:9). De forma semelhante, Jesus disse que quando ele deixasse este mundo retornaria ao Pai (13:1, 3; 14:2, 12, 28; 16:5, 10, 17, 28; 17:11, 13; 20:17). Em tudo que ele fez, Jesus desejou fazer não agindo de si mesmo, mas em vez disso debaixo da específica direção e aprovação do Pai (5:24,37; 6:27; 7:18). Portanto, as obras de Jesus eram as obras do Pai e Jesus fez apenas o que o Pai lhe mostrou para fazer (5:17,19; 8:28-29; 9:4; 10:25,32,37-38; 14:10). Semelhantemente, as palavras de Jesus eram as do Pai, e Jesus falava apenas o que o Pai lhe dissera para dizer (3:34; 7:16; 8:26,28,40; 12:49-50; 14:10,24; 15:15; 17:7-8,14). Em todas as coisas Jesus foi completamente dependente do Pai (5:30; 6:57; 8:28, 42; 17:7), e Jesus sempre buscou agradar o Pai fazendo a sua vontade (5:30; 6:38; 8:29,55; 10:18b; 14:31; 15:10; 18:11). Desta forma Jesus sempre trabalhou para a honra do Pai (7:18, 8:49).

As ações de Jesus acerca disso não se desenvolve meramente a partir de uma escolha funcional de sua parte, porém (apesar de que claramente tal escolha funcional estava envolvida), mas de uma unidade ontológica mais profunda entre ele e o Pai. O Evangelho de João abre com uma profunda afirmação de unidade (1:1-2), e a unicidade do Pai e do Filho é um tema recorrente ao longo do livro (8:29; 10:30,38; 12:44; 14:10-11,20; 16:32; 17:11,21-23). Por causa dessa unidade, apenas o Filho pode ser dito ter verdadeiramente visto e conhecido o Pai (6:46; 7:29; 8:38,55; 10:15; 17:25), e apenas o Filho revela a verdadeira natureza do Pai (1:18; 12:45; 14:9; 17:26). Não apenas o Filho divide o nome do Pai (17:11-12), mas o Filho pode ser dito ser igual com Deus e de fato ser o próprio Deus (1:1-2,18; 5:18). O Pai tanto glorifica o Filho quanto é glorificado pelo Filho (8:54; 11:4; 13:31-32; 14:13; 17:22,24; cf. também 8:50). Tudo que pertence ao Pai pertence ao Filho, e tudo que pertence ao Filho pertence ao Pai (16:15, 17:10). O Pai ama o Filho, e o Filho ama o Pai (3:35; 10:17; 14:31; 15:9-10; 17:23-24,26). O Pai e o Filho mutuamente residem no crente (14:23). Adicionalmente, o Pai coloca todas as coisas sob poder do Filho (13:3), incluindo poder de levantar pessoas da morte (5:21,26). Semelhantemente, o Pai concedeu ao Filho autoridade sobre todas as pessoas (17:2) e confiara todo julgamento ao Filho (5:22,27,30).

Em todas estas formas, nós vemos um relacionamento íntimo mútuo entre Jesus, o Filho, e Deus, seu Pai. Crucialmente, este relacionamento se estende para o caminho que pessoas vêm para conhecer Deus. Jesus afirmou, “Eu sou o caminho, a verdade, e a vida; ninguém vem ao Pai, senão por mim” {Jo 14:6 AR}. De acordo, deve-se honrar o Filho a fim de verdadeiramente honrar o Pai (5:23). A resposta a Jesus reflete ultimamente a resposta para Deus também, seja esta resposta conhecê-lo e aceitá-lo, ou odiá-lo (8:19, 13:20, 14:7, 15:23-24, 16:3). O Pai, de sua parte, promete amar todos os que amam seu Filho (14:21,23; 16:27).

Era precisamente esta união íntima entre o Filho e o Pai que foi questionada pelos líderes judeus e por muitos do povo judeu (veja p.ex. 7:25-52). Isto é especialmente significativo quando relembramos o significado histórico da aparição de Jesus a Israel: Jesus foi o Messias-Pastor prometido que veio para ajuntar as ovelhas de Israel e pastoreá-las em justiça, retidão, e paz. E ainda, em seu surgimento, os próprios líderes, de quem era esperado que fossem os sub-pastores para aquele povo, rejeitaram-no como o Messias (e.g. 7:47-49). Isto levantou uma importante dúvida nas mentes de muitos dos outros judeus: A rejeição de Jesus por parte dos líderes indica que ele, de fato, não foi enviado por Deus para pastorear o rebanho de Israel? Talvez a rejeição de Jesus por parte dos fariseus e escribas, de quem o povo normalmente teria considerado autoritativo em tais assuntos religiosos, indicava que Jesus não possuía, afinal, o relacionamento íntimo com Deus que ele alegava.

Jesus contra-respondeu estas dúvidas provendo uma explicação para a descrença dos líderes judeus (e a descrença de muitas das pessoas comuns também), a saber, que eles falharam em cumprir as condições necessárias e/ou suficientes para vir à fé nele (i.e. as condições que temos considerado neste ensaio). Estas condições, em certo sentido, são o recíproco do princípio supracitado de João 14:6, pois não apenas é Jesus o único caminho para o Pai, mas o Pai é o único caminho para Jesus. Esta é a essência das várias condições para vir à fé em Cristo expressas no evangelho de João. A não ser que se seja trazido e habilitado pelo Pai, não se pode vir a Jesus (as condições necessárias), e se alguém pertence a Deus como ovelha de Cristo e ouviu e aprendeu do Pai, então este certamente será “dado” pelo Pai para Cristo (as condições suficientes). Em cada caso, uma pessoa virá à fé em Cristo mediante a agência do Pai, portanto refletindo a união íntima do Pai e Filho.

Deve não ser surpreendente, portanto, que todos os judeus que pertenciam ao Pai seriam “dados” pelo Pai para o Filho. O relacionamento íntimo entre o Pai e o Filho obrigava que fosse desta forma. Não existia “terceira opção” disponível pela qual aqueles fiéis debaixo da aliança como foi revelada no Antigo Testamento de alguma forma poderiam continuar em favor com Deus mas falham em aceitar Jesus como Messias-Pastor de Israel. Uma vez que o Filho de Deus apareceu, não poderia haver relacionamento com o Pai sem um relacionamento com o Filho também, porque o Pai e o Filho eram um (10:30,38; 12:44; 14:10-11,20; 17:11,21-23) e compartilham todas as coisas em comum (16:15, 17:10). Se uma pessoa verdadeiramente buscou Deus, então ela aceitaria o testemunho do Pai acerca de seu Filho (5:37; 8:18). Não se pode ser um verdadeiro seguidor do Pai sem ser seguidor de Jesus (cf. At 3:23).

Podemos considerar as tentativas dos judeus resistentes de alegar Abraão e então Deus como seus pais como sendo uma tentativa de buscar uma “terceira via” (8:33,39,41). Eles buscavam obter um relacionamento com Deus sem ter que aceitar um relacionamento com Jesus. Jesus enfaticamente rejeitou sua tentativa de burlá-lo desta forma, argumentando que sua rejeição dele traía sua alegação que eles eram eles eram filhos de Abraão e de Deus. Os verdadeiros filhos de Abraão, como Abraão, teriam regozijado por terem visto o dia de Jesus (8:56), o dia da chegada do Messias prometido, pois Abraão foi homem de verdadeira fé e o pai de todos os que têm fé (Romanos 4:16-17). Os filhos de Deus, igualmente, teriam amado Jesus da mesma forma que o próprio Deus ama Jesus (3:35; 8:42; 10:17; 15:9; 17:23-26). O fato que estes judeus estarem indispostos a adotar os ensinos de Jesus (verso 31) ou amá-lo (verso 42) mostrou, então, que eles nem antes e nem naquele momento estavam entre os filhos de Deus (i.e. entre os que pertenciam a Deus).

As observações acima trazem uma importante lição teológica acerca da intenção de deus em sua dispensação da graça preveniente. As asserções de Jesus de que todos os judeus preparados sem falha seriam direcionados por Deus para receber Jesus como seu esperado Messias-Pastor (i.e. eles foram dados pelo Pai; 6:37, 10:29, 17:2,6,9,24) nos mostram que o Pai não tem outra meta final em sua dispensação da graça preveniente que a meta de levar o fiel até seu Filho. Mais sucintamente:

Cristo é a única meta do Pai na dispensação da graça preveniente.[4]

Deus não tem outra alternativa para os judeus fiéis. Todo e qualquer um que respondeu à oferta divina de graça preveniente foi direcionado por Deus para Cristo, precisamente porque o Pai e o Filho existem em íntima união, e o Filho é a culminação e pináculo do plano redentivo do Pai para a humanidade (Ef 1:9-10). Não podia haver resíduo do fiel que de alguma maneira desprezasse Cristo, pois Deus não permitiria tal resultado. Ele ativamente intervém para levar a Cristo todos os receptivos que pertencem a ele. Não existe “terceira opção”.

Traduções Crédulas: A Extensão da Morte Espiritual

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Chris Chapman traz um texto bastante elucidativo acerca da morte espiritual, e da fraca analogia feita pelos calvinistas acerca da sua teoria de incapacidade total – a ideia de que uma graça resistível (ou, como eu costumo afirmar, ‘extrinsecamente eficaz’) é incapaz de trazer o homem para perto de Deus, e serve para/tem como propósito somente aumentar sua condenação – um nonsense tipicamente calvinista.

É apenas o velho argumento de ‘morto não fala, morto não ouve’, que já comentei doutras vezes 🙂 Enfim, leiam e reflitam!

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