Traduções Crédulas: Deus e o Mal por Christian ThinkTank

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Eis que eu, pesquisando sobre textos bíblicos desnecessariamente polêmicos por causa de gente que curte uma SSE (não é o formato de instrução para aqrquiteturas SIMD, mas sim Extremistas do Sola Scriptura), eis que me deparo com um texto de um blog que me encheu os ohos

 

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Traduções Crédulas: Por Que Eu Rejeito o Determinismo && Um Modelo da Perspectiva Atemporal de Deus Em Relação à Escolha Contrária

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Este é um dos meus textos preferidos! Ele mostra um modelo bem viajado de como funcionaria o conhecimento divino, de modo que Deus pode ‘prever’ com absoluta precisão e certeza eventos contingentes – como as escolhas humanas. Veja que este é um modelo perceptualista, quase antropomórfico, e é bem distinto do modelo conceptualista (que afirma, pura e simplemente, que o conhecimento divino é inato).

Leiam e divirtam-se!

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Bicicletas Divinas, Analogias Ruins e Justiceiros por Necessidade – Uma Rápida Resposta a Mais um Post da Apologética Calvinista

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Pois bem, me interessei por um post do 5Calvinistas de novo. Esse é mais divertido que o anterior porque o autor comete erros filosóficos muito fortes para se passarem despercebidos. E dado que o autor fala mais de senso comum calvinista do que de textos-prova (coisa esta que eu realmente odeio), não precisarei de alfarrábios antigos pra alguma coisa aqui. Apenas um pouco de filosofia mesmo!

Já é o segundo domingo consecutivo que estamos estudando sobre a doutrina da predestinação na escola dominical em nossa congregação. E, apesar de se tratar de uma congregação presbiteriana, as dificuldades em torno da doutrina ainda persistem nos corações e mentes de alguns – tanto a dificuldade em entendê-la quanto (principalmente!) em aceitá-la.

Entender é fácil: Deus carimbou cada pessoa como salvo e condenado. Um salvo jamais será condenado – e pior, um condenado jamais será salvo.

Aceitar? É, eu não aceito este elitismo. E vou mostrar o porquê durante o artigo…

Conversando sobre o assunto com minha esposa em casa, ela me lembrou de um ex-pastor nosso, o qual gostava de explicar a eleição da seguinte maneira: imagine que eu tenho uma bicicleta, e vejo dois garotos na rua. Resolvo, então, dar minha bicicleta a um deles. Alguém poderia me questionar por que eu dei a um e não ao outro, ao que eu responderia dizendo que a bicicleta é minha, e a dou a quem quiser. Não levei em conta quaisquer méritos ou deméritos nas crianças, simplesmente escolhi uma para ser agraciada. Assim, pois, é com a salvação: Deus a dá a quem Ele quer e ninguém pode reclamar disso, pois é algo que pertence a Ele.

Uma analogia até que interessante, mas muito ruim! Há uma distância monstruosa entre não ter ganho uma bicicleta e entre estar fadado a ser um churrasquinho eterno. Uma pessoa pode muito bem viver sem bicicleta – mas e quanto à vida eterna?

Fiz questão de levar a ilustração para a classe, mas com a seguinte pergunta: tudo bem, mas… teria Deus apenas uma bicicleta? Na realidade, levantei a questão como que me colocando no lugar de alguém que não aceita a doutrina da eleição incondicional tal como é explanada pela fé reformada. E, com isso, acabei aguçando ainda mais a polêmica que já estava sendo travada ali, mas com a intenção de dar uma resposta depois, obviamente.

Respostas? Há, se levarmos em conta, dentre outras coisas, a relação suficiência-eficiência. Encontramos um bom exemplo disso nos Cânones de Dort, no capítulo que trata sobre a morte de Cristo e a salvação do homem por meio dela:

Esta morte do Filho de Deus é o único e perfeito sacrifício pelos pecados, de valor e dignidade infinitos, abundantemente suficiente para expiar os pecados do mundo inteiro.

Cânones de Dort, II.3. Ênfase minha.

Ou seja, embora a morte de Cristo seja “abundantemente suficiente para expiar os pecados do mundo inteiro”, ela é eficiente apenas nos eleitos, como o próprio documento diz em seguida:

Pois este foi o soberano conselho, a vontade graciosa e o propósito de Deus o Pai, que a eficácia vivificante e salvífica da preciosíssima morte de seu Filho fosse estendida a todos os eleitos. Daria somente a eles a justificação pela fé e por conseguinte os traria infalivelmente à salvação. Isto quer dizer que foi da vontade de Deus que Cristo por meio do sangue na cruz (pelo qual Ele confirmou a nova aliança) redimisse efetivamente de todos os povos, tribos, línguas e nações, todos aqueles e somente aqueles que foram escolhidos desde a eternidade para serem salvos, e Lhe foram dado pelo Pai.

Um uso ruim de certas passagens bíblicas – mas não vou brincar de exegese aqui! Aliás, apelar para os cânones de Dort, concílio o qual eu abomino e repudio, é algo que nem irá ajudá-lo.

Idem, II.8. Ênfase minha.

Isto posto, podemos voltar à nossa ilustração da bicicleta: Deus até teria mais para dar, mas resolveu não fazê-lo. E por que não o fez, sendo Ele mesmo bom? Penso ser justamente aí que reside boa parte do problema quando falamos da exclusiva soberania de Deus na salvação do homem. Aliás, a própria pergunta em si já apresenta um grave problema de perspectiva. Já disse algumas vezes que todo e qualquer queixume contra a doutrina da eleição incondicional reside no fato de que o homem se acha bom por natureza e, por conseguinte, merecedor da graça (a “bicicleta”) de Deus. Na realidade, Cristo morreu por mim porque eu merecia ser salvo. É quando o homem passa, então, a confundir a justiça de Deus com a sua própria.

É sempre a mesma ladainha calvinista. Sinceramente, esse papinho de ‘ui, se você não aceita o calvinismo então você é um herege humanista pelagiano finneyita arminiano que acha que o ser humano é bonzinho e merece ser salvo e etcetera e tal’ enche os cornos! Ficar todo dia repetindo que a depravação total não implica graça irresistível é por demais enfadonho…

Mas, vamos brincar com o calvinista… Pensa: Deus ordenou todas as coisas para a Sua glória. Logo, se Deus resolveu me salvar e não ao meu irmão gêmeo, é porque de alguma maneira eu salvo dou mais glória a Deus do que meu irmão gêmeo! Logo eu sou bem mais importante pra Deus que meu irmão reprovadinho…

Me diz aonde isso não é motivo para se gloriar?

Minha resposta à pergunta por que Deus, mesmo sendo bom não quis Se valer da suficiência da Sua graça para alcançar a todos os que jazem nas trevas é justamente porque a Sua justiça seria ofuscada pelo seu amor, visto que não seria manifesta.

Rapaz, essas falas são comprometedoras demais! Ele acaba de dar um tiro de doze em Deus e nem percebeu!

A justiça divina seria ofuscada pelo amor? Mas, para todos os efeitos, a justiça já foi demonstrada, da maneira mais clara possível: na Cruz! E pior ainda – o autor aqui não é gomarista, logo ele vai ter que concordar comigo que Jesus levou todos os pecados, até mesmo os dos ‘reprovados’.

Ademais, qual a definição de justiça do autor? Será que justiça realmente implica punição?

Ora, o pecado não poderia passar impune. Se passasse, Deus, que odeia o pecado, deixaria de ser justo e santo.

Ainda que eu concorde, este é um cenário contingente – Deus poderia muito bem criar um mundo sem pecado, ou não poderia? Ou alguém aqui quer limitar a onipotência?

Pior ainda: por que afinal Deus não salva todos irresistivelmente e usa o sacrifício de Jesus para todos?

Assim sendo, o amor de Deus não pode ser dissociado do seu corolário, que é a Sua ira, a qual Paulo diz que “se revela do céu contra toda impiedade e perversão dos homens que detêm a verdade pela injustiça” (Rm 1.18).

E daí? Pior que isto, a justiça já foi demonstrada!

E aonde ódio é corolário de amor? Fala isso para um casal apaixonado…

E quando o amor sacrifica a justiça, o que temos não pode ser o amor bíblico e divino, mas um amor defeituoso e totalmente incapaz de redimir aquilo a que se propõe.

Então o amor precisa de punição? Que interessante! Para amar, tem que punir? Aonde ódio é corolário de amor? Aliás, amor esquisito esse, que diz ‘não desejo a morte do impio’ mas por debaixo dos panos planeja e executa morte e destruição…

Poderíamos afirmar, ainda com base nessa passagem paulina, que privar Deus de Sua ira santa é suprimir a verdade (justiça) para que a mentira (injustiça) prevaleça.

E privar Deus do Amor, é o que?

Acho que deveríamos pensar duas vezes antes de querermos sobrepor nossos “trapos de imundícia” (Is 64.6) à pureza do Senhor.

E não é o que o autor acaba de fazer? Colocar as suas teorias imundas como esparadrapos vencidos em frente da pureza divina?

E antes de reclamar qualquer “bicicleta” a Deus, que déssemos uma atenção especial às palavras do profeta Jeremias: “por que, pois, se queixa o homem vivente? Queixe-se cada um dos seus próprios pecados” (Lm 3.39). Mas isso, quantos querem?

É interessante como o calvinista lida de maneira não-intuitiva com imperativos. Já tentei discutir isso antes, mas acho difícil discutir coisas básicas. De todo modo, qual o valor do imperativo – queixe-se dos seus pecados – se nos bastidores Deus faz com que as pessoas se queixem dos pecados alheios?

E mais uma coisa: se queixar dos pecados, vai trazer salvação?

Soli Deo Gloria!

Não que sua teologia chegue perto disso…