Traduções Crédulas: Eleição em Romanos 9 – Análise de Romanos 9:6-13 – Duas Formas de Graça Preveniente

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Eleição em Romanos 9

Análise de Romanos 9:6-13 – Duas Formas de Graça Preveniente

Então, o que encontramos é que a forma incondicionada da eleição referida por Paulo em Romanos 9:7-13 e encarnada na escolha divina de Isaque, Jacó e (por extensão) seus descendentes não foi uma eleição garantindo sua salvação final afinal, mas em vez disso uma eleição pela qual Deus garantiu-lhes uma oportunidade avantajada de exercer fé salvífica. Podemos dizer que a escolha dos descendentes físicos de Israel constituiu um compromisso por Deus de agressivamente buscar um relacionamento salvífico com eles dando-lhes acesso privilegiado à sua verdade. Note que esta caracterização da eleição por Deus do povo judeu paraleliza fortemente o conceito tradicional de graça preveniente (veja a seção “Definições” acima), que é esta forma de graça resistível estendida por Deus para uma pessoa pela qual tal pessoa pode ser trazida à fé e arrependimento, se a pessoa responder cooperativamente e deliberadamente à graça assim estendida. Sem tal graça preveniente, é impossível para a pessoa natural não-regenerada exercer autêntica decisão em fé em direção a Deus (Jo 6:44). Por meio da graça preveniente, ao descrente está ao mesmo tempo concedido acesso às verdades do Evangelho e habilitada a livremente responder em fé a estas verdades se assim desejar. A graça estendida à descendência física de Israel (linhagem tipo 2 acima) pode ser considerada uma forma da graça preveniente que constitui uma oportunidade que concedia ao povo judeu acesso e interação com as verdades salvíficas de Deus de tal forma que poderia potencialmente levá-los à sua salvação.

Uma vez que a forma de graça preveniente estendida a Isaque e Jacó foi discriminatória (no que Deus discriminou entre Isaque e Ismael, e entre Jacó e Esaú, como recipientes desta graça preveniente), Paulo fala em Romanos capítulo um e dois de outra forma mais básica de graça preveniente que claramente não é discriminatória afinal mas de fato universalmente dispensada. Em 1:19-20 Paulo diz que Deus tem deixado evidente para todos os homens Seus atributos invisíveis, Seu eterno poder e divina natureza mediante o mundo que ele fez. Em 1:21 Paulo diz que por meio desta revelação todas as pessoas conhecem Deus, em 1:25 ele diz que eles têm acesso à verdade de Deus, e em 1:32 ele diz que eles conhecem as ordenanças de Deus. Em 2:15 Paulo diz que mesmo os gentios têm a obra da Lei escrita em seus corações. Esta auto-revelação de Deus a toda humanidade mediante a natureza e a consciência humana é suficiente para deixar as pessoas sem desculpas para seus pecados (1:20; 2:1). Não apenas isto, mas a afirmação de Paulo sugere fortemente que a dispensação divina daquilo que podemos chamar de graça preveniente universal provê todas as pessoas com uma básica habilidade de exercer se elas assim escolherem.[8] Paulo diz “porquanto, tendo conhecido a Deus, contudo não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças, antes nas suas especulações se tornaram vãos, e o seu coração insensato se obscureceu.” (1:21) As atividades mencionadas aqui de honrar Deus e agradecer pressupõem o exercício da fé. A menção por Paulo destas atividades neste contexto implica que todas as pessoas são supridas com uma real capacidade de responder à auto-revelação de Deus destas formas (i.e. responder em fé), mas que elas falham em fazê-lo, escolhendo em vez disso suprimir a verdade em injustiça (verso 18). Como resultado, seu coração insensato é obscurecido (verso 21) e eles trazem para si mesmos a justa condenação e ira de Deus (verso 18a).

Esta interpretação de graça universal preveniente como habilitando uma uma verdadeira resposta em fé para todas as pessoas é adicionalmente confirmado pela escrita de Paulo em Romanos 2:4, em que ele aponta a hipocrisia daqueles que cometem os mesmos pecados dos quais julgam os outros. Paulo os reprova, “Ou desprezas tu as riquezas da sua benignidade, e paciência e longanimidade, ignorando que a benignidade de Deus te conduz ao arrependimento?”. A benignidade, paciência, longanimidade mencionadas aqui são todas expressões de sua graça preveniente universal, pela qual ele adia a total manifestação de sua ira sobre os pecadores a fim de dar-lhes adicional oportunidade para o arrependimento (cf. 2Pedro 3:9). De importância, Paulo diz que esta benignidade da parte de Deus tem intenção em levar tais pecadores ao arrependimento. Esta expressão “conduz ao arrependimento?” no verso 2:4b sugere tanto que tal arrependimento da parte de qualquer pessoa é genuinamente possível – não somente na teoria, mas na realidade, bem como mostram as expressões de fé mencionadas em 1:21 são verdadeiramente possíveis para qualquer pessoa – e que este arrependimento é feito possível somente diante da influência (o “levar”) da bondade de Deus, isto é, pela habilitação advinda da graça preveniente de Deus.

Note que não estou dizendo aqui que pessoas tenham capacidade natural de vir à fé e arrependimento sem divina assistência (o erro dos pelagianos). Em vez disso, de fato estou concluindo que dos capítulos um e dois de Romanos que Deus universalmente estende uma forma básica de graça preveniente (mediante a revelação da criação, e o atraso da ira de Deus para o pecado) pela qual todas as pessoas vêm a entender intuitivamente em alguma medida significativa a glória e perfeição morais de Deus e são dados tanto a oportunidade quanto a capacidade de responder livremente a esta revelação em fé e arrependimento, se assim escolherem. Pessoas não fazem assim, porém, mas preferem em vez disso livremente seguir as tendências de seus corações imprudentes, que mediante os efeitos do pecado de Adão foram tornados propensos a crer nas decepções do pecado (veja meu ensaio “Reflexões sobre Pecado Original”). Como resultado, todas as pessoas trazem a condenação de Deus sobre si mesmas, não porque Deus unilateralmente predeterminara que elas pecariam (um dos erros calvinistas) mas porque eles, devido ao exercício do livre arbítrio autêntico contra-causal (veja meus ensaios “As Vontades de Deus” e “Reflexões Filosóficas sobre o Livre Arbítrio”) suprimem o conhecimento de Deus via sua graça preveniente universal.

A existência da graça preveniente universal deste gênero como descrita por Paulo nos capítulos um e dois de Romanos explica como Deus pode ser justo em dispensar uma graça preveniente discriminatória do tipo descrita em Romanos 9:7-13 (que pelo bem da discussão eu chamarei de graça preveniete particular, como distinguindo da graça preveniente universal). Apesar de Isaque e Jacó serem de fato eleitos para uma posição de acesso privilegiado à verdade de Deus como membros da linhagem física da promessa, não é como se Ismael, Esaú e a outra multidão de gentios na terra foram abandonados a encarar a vida sem qualquer oferta de graça preveniente de Deus. No mínimo, eles todos foram recipientes da mesma graça preveniente universal descrita por Paulo em Romanos capítulos um e dois. Isto por si só é suficiente para torná-los, pelo exercício de seu próprio livre arbítrio, indesculpáveis, e esta dispensação divina da graça preveniente universal apenas é suficiente para provar a verdade da asserção que “Deus deseja que todos os homens sejam salvos e venham ao conhecimento da verdade” (1Tm 2:4; também Ex 18:23, Is 45:22, 2Pe 3:9)[9]. Deus expressou seu desejo seu de que todos sejam salvos não somente concedendo a cada pessoa uma intuição de Deus e de sua Lei justa, mas também concedendo a cada pessoa a capacidade de livremente responder a esta intuição com fé e arrependimento. O desejo de Deus neste assunto segue de sua própria natureza moral como um verdadeiro ser bom que deseja o que é bom para suas criaturas. Não há sentido, porém, que a natureza moral de Deus o obrigue a conceder a qualquer descrente mais que isto; de fato, Deus não está nem mesmo obrigado a estender esta graça preveniente universal para começar (i.e. isto é verdadeiramente graça), exceto enquanto ele estava restrito a fazer isto pela sua própria natureza moral que o causa a verdadeiramente desejar a salvação de todos os criados à sua imagem. Consequentemente, provendo adicional graça preveniente particular da espécie descrita por Paulo em Romanos 9:7-11, Deus está indo além, “andando uma milha a mais” por assim dizer, e pode dispensar esta graça desigualmente sem violações de quaisquer obrigações morais da parte de Deus, seja para si mesmo ou para suas criaturas.

Traduções Crédulas: Eleição em Romanos 9 – Análise de Romanos 9:6-13 – Eleição Incondicional para Salvação Final?

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Eleição em Romanos 9

Análise de Romanos 9:6-13 – Eleição Incondicional para Salvação Final?

Com estas observações em mente, estamos agora numa posição de responder a preponderante questão teológica do que de se os exemplos aduzidos por Paulo em Romanos 9:7-13 representam ou apoiam a concepção de uma eleição individual incondicional para salvação final projetada pelos calvinistas. Para responder esta questão devemos abordar três questões suplementares. Primeiro, devemos perguntar quem são os objetos da(s) eleição(ões) descritas nestes versos? Então devemos perguntar no que a eleição é condicionada (se ela de fato for)? Finalmente devemos nos perguntar qual é o fim da eleição? (P.Ex. a salvação final da pessoa eleita está em vista como fim da eleição, ou há algum outro fim em vista?) Abordarei estas questões aqui.

Respondendo a primeira questão (i.e. quem são os objetos da eleição?) os objetos imediatos da eleição nos exemplos de 9:7-13 são Isaque e Israel (Jacó), apesar de que porque esta eleição se baseia em linhagem física de acordo com a promessa de Deus (i.e. linhagem tipo 2 acima), ela se estende de modo a compreender todos os descendentes físicos de Israel (mesmo que não todos os descendentes físicos de Abraão; veja a discussão acima). A eleição aqui em vista contrasta neste assunto com a eleição discutida por Paulo no capítulo quatro de Romanos e aludida em 9:6b, que é baseada na descendência espiritual pela fé da mesma de Abraão (linhagem tipo 1 acima). No último caso os objetos da eleição são todos e apenas todos os judeus e gentios que têm a mesma fé de Abraão (cf. 4:12; 11:20, 23).

Respondendo à segunda questão acima (i.e. no que a eleição é condicionada), a eleição de Isaque e Jacó foi dita ser ‘não por causa das obras mas por Aquele que chama’ (9:11). Avançando até o verso 16, vemos que essa mesma eleição “não depende do que quer, nem quem corre, mas de Deus que usa de misericórdia”. O desfecho destas assertivas é que o tipo de eleição outorgada a Isaque, Jacó e os descendentes de Jacó (i.e. linhagem tipo 2 acima) não foi baseada em quaisquer fatores volicionais da sua parte que pudessem obrigar Deus a tratá-los diferentemente do que os que não foram eleitos. Em vez disso, a discriminação de Deus entre Jacó e Esaú foi em último caso não restrita a quaisquer fatores externos ao próprio livre arbítrio de Deus em estender misericórdia. Isto se posiciona em contraste com a eleição baseada na linhagem de Abraão pela fé espiritual, que da mesma forma sendo inteiramente pela graça, ainda assim procede de acordo com o decreto auto-imposto de salvar a todos e somente aqueles que creem (Jo 3:15-18, 36, 6:40, 47, 11:25-26, 20:31; At 16:31; 1 Co 1:21; cf. a formulação de Arminius do segundo decreto divino, “Public Disputations,” The Works of James Arminius, London Ed., Vol. 2, trans. James Nichols, Grand Rapids, MI: Baker Books, 1986, Disp. XV, 2, p. 226; “Certain Articles,” ibid., Art. XIV, p. 719). Eleição para salvação é portanto condicionada diretamente pela fé dos recipientes desta eleição, que contrasta neste sentido com os descrentes não eleitos. Como Paulo estabeleceu no capítulo quatro, Abraão foi apontado “o pai de todos que creem o pai de todos os que creem… e  também andam nas pisadas daquela fé de nosso pai Abraão” (4:11-12). A promessa para Abraão (da qual a linhagem espiritual de seus herdeiros-pela-fé é baseada) foi “pela justiça da fé” e é pela fé (4:13,16). Novamente, no capítulo onze Paulo fala de seus contemporâneos judeus descrentes que eles foram arrancados [i.e. excluídos de participação na nova aliança de salvação centrada em Cristo] por incredulidade, enquanto Paulo fala aos cristãos romanos que eles permanecem nesta mesma nova aliança pela fé (11:20). Como discutirei em mais profundidade abaixo, esta eleição condicional não é estática, porém, mas dinâmica, porque Paulo segue afirmando em 11:23 que estes mesmos descrentes judeus que são atualmente não eleitos (no sentido da eleição baseada no tipo 1 de linhagem da fé de Abraão; cf. 11:7 e discussão abaixo) podem de fato se tornar eleitos e ser reenxertados em Cristo e desfrutar participação em sua aliança, “se eles não permanecerem na incredulidade”. Paulo não poderia ter colocado mais claramente: Eleição para participação na linhagem espiritual de Abraão é condicionada pela fé, ao contrário da eleição baseada em descendência física de Jacó (Israel), que é condicionada em nada além do próprio livre arbítrio de Deus para estender misericórdia;[7]

Finalmente, devemos nos perguntar, qual fim tinha a eleição de Isaque e Jacó (e seus descendentes físicos)? Em particular, estava a salvação final deles em vista como fim desta eleição, ou tinha algum outro fim em vista? Já vimos acima que a eleição de Isaque e Jacó estabelecida na linhagem tipo 2 listada acima, a saber a nação de Israel compreendendo todos aqueles descendendo fisicamente de Jacó (Israel). Paulo se refere a este tipo de linhagem em 9:3-4 como “meus parentes segundo a carne; que são israelitas”, e provê uma sucinta descrição de “… a quem é a adoção, e a glória, e as alianças, e a promulgação da lei, e o culto, e as promessas; de quem são os patriarcas; e de quem descende o Cristo segundo a carne” (9:5-6). Vemos também que Paulo notou anteriormente em 3:1-2 que os judeus têm a “vantagem” distinta de terem sido “confiados os oráculos de Deus”. Em resumo, os descendentes físicos de Israel foram escolhidos por Deus para mediar a revelação da Palavra verbal de Deus para a humanidade bem como superintender as outras manifestações externas da presença de Deus entre eles, à vista das nações, de tal modo a preparar o caminho para o Cristo, a Palavra Encarnada, vir ao mundo. Desta forma, aos israelitas físicos foi concedido acesso privilegiado às verdades de Deus como comunicadas mediante as alianças, a Lei, os serviços do templo, as promessas, e o próprio Cristo.

Apesar de esta eleição claramente aumentar as oportunidades disponíveis para qualquer dado indivíduo israelita adentrar uma aliança salvífica com Deus, a eleição não garantia por si só a salvação dos indivíduos judeus. A Bíblia é clara em que cada adulto judeu precisa adentrar pessoalmente em uma aliança salvífica de relacionamento com Deus pelo caminho da fé, lealdade, e resultante obediência a Deus. Não há garantia de tal participação na aliança meramente na base da eleição de acordo com a linhagem tipo 2 acima descrita e referenciada em Romanos 9:7-13. De fato o Antigo Testamento está repleto de exemplos de descendência física de Israel que claramente falharam em participar pela fé em uma aliança de relacionamento salvífica com Deus e que portanto não tinham evidência de terem alcançado salvação espiritual. O livro de Malaquias é instrutivo neste sentido. Ainda que, como dantes notado, Deus reafirmou aos israelitas do dia de Malaquias a natureza irrevogável das suas promessas aos patriarcas (Ml 1:2; 3:6), ao mesmo tempo Deus deixou claro que a salvação espiritual dos israelitas era contingente ao arrependimento pessoal e fé. Apenas os que temiam o Senhor e estimavam Seu nome (Ml 3:16) foram considerados por Deus como sendo dele como sua possessão (3:17), e nenhum dos israelitas que persistiram em impiedade restaria no vindouro dia do julgamento (Ml 3:17-4:3; veja também 2:2-3,9,12; 3:5,9; 4:6).

Além disso, é importante recordar que a possibilidade de salvação espiritual não era limitada aos descendentes físicos de Israel, mesmo nos tempos do Antigo Testamento. A lei mosaica fez acomodações para qualquer gentio que assim desejasse livremente adentrar numa aliança de relacionamento salvífica com Deus ao voluntariamente se colocar nas condições da aliança (em essência, voluntariamente “tornar-se judeu”; cf. Ex 12:48; Lv 19:33-34; Js 8:33; Rt 1:16; Is 14:1; 56:3,6-8). Portanto, a eleição de Isaque, Jacó, e seus descendentes citados em Rêomanos 9:7-13 não tem a salvação pessoal última dos eleitos em vista como seu fim ou garante tal salvação a eles, nem ela impede a salvação última dos não-eleitos (i.e. Esaú, Ismael ou qualquer outro gentio). Em vez disso, esta eleição baseada na linhagem física tipo 2 resultou apenas num acesso privilegiado às verdades salvíficas de Deus e uma oportunidade adicional de interagir com e abraçar estas verdades salvíficas mediante fé (i.e. uma oportunidade maior de escolher participar pela fé da linhagem espiritual tipo 1). Esta era de fato a situação dos judeus nos dias de Paulo, entre os quais mesmo aqueles que estavam naquele tempo mergulhados na incredulidade ainda tinham disponíveis para eles a oportunidade de abraçar a fé em Cristo e serem enxertados novamente na árvore que representa o povo de Deus (11:23).

Traduções Crédulas: Eleição em Romanos 9 – Análise de Romanos 9:6-13 – A Promessa Como Escolha Unilateral de Deus

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Eleição em Romanos 9

Análise de Romanos 9:6-13 – A Promessa como Escolha Unilateral de Deus

Quando Paulo faz a primeira assertiva acima em 9:6b, ele assume que seus leitores concordarão com ele na base do argumento já fornecido em 4:11-16. Por esta razão, Paulo procede sem mais comentários diretamente à segunda assertiva distinta no verso 7, “nem por serem descendência de Abraão são todos filhos”. Esta segunda assertiva, bem como a primeira acima discutida, é enraizada no conceito da promessa de Deus aos patriarcas, mas aqui no verso 7a Paulo considera a promessa não em termos de uma segurança dada por Deus para ser crida, mas em termos de ser uma escolha unilateral de Deus para determinar a linhagem física do povo escolhido de Deus (isto é, os judeus, em contraste a todos os gentios). Citando os versos 7b e 9b (de Gênesis 21:12 e 18:10) as várias manifestações da promessa enquanto relacionadas a Isaque, e no verso 13 (de Malaquias 1:2-3) a promessa como relacionada a Jacó, Paulo traça a promessa de Deus mostrando que a eleição seria transmitida mediante Isaque (e não Ismael) e subsequentemente mediante Jacó (e não Esaú) e seus descendentes físicos. Destes exemplos Paulo conclui que a eleição dos judeus como “filhos” de Deus (verso 8a) não pode ser baseada em descendência física cega somente. (No que diz respeito aos judeus físicos serem considerados “filhos” de Deus, note que os judeus descrentes, que são “israelitas” [9:4] e patrícios de Paulo “de acordo com a carne” [9:3], são, apesar de sua descrença, ditos possuir “a adoção como filhos [de Deus]” em 9:4.)[6] Os judeus, então, são considerados “filhos” de Deus não meramente “porque eles são descendentes de Abraão” (verso 7a); caso contrário, Ismael e Esaú, sendo descendentes de Abraão, seriam parceiros iguais com os judeus como recipientes do favor especial de Deus. O fato de Ismael e Esaú terem sido contados fora da família eleita de Deus indica que os judeus participavam desta eleição como “filhos, descendência” de Deus (literalmente, semente, verso 8) não simplesmente porque são “filhos da carne” mas porque são “filhos da promessa”(verso 8b). Isto é, eles são eleitos de acordo com a promessa discriminadora de Deus distinguir entre Isaque e Ismael, e entre Jacó e Esaú no estabelecimento da linhagem do povo eleito de Deus.

É crítico neste momento entender que a afirmação de Paulo aqui no verso 8 não significa que a eleição divina dos judeus não pode ser sensível à descendência física fluindo de Jacó, o cabeça do corpo corporativo da Israel física. Numerosos pontos da Escritura atestam a validade da eleição divina dos descendentes físicos de Jacó. Um verso é Malaquias 1:1-3, citado por Paulo aqui em Romanos 9:13. É claro que na passagem de Malaquias o “amor” de Deus pode Jacó foi uma eleição de todos os descendentes físicos de Jacó e não meramente do próprio Jacó, como visto em Malaquias 1:2 em que estes descendentes (i.e. a nação de Israel) são referidos como sendo recipientes do mesmo amor divino dado a Jacó. Que esta eleição de Jacó e seus descendentes era irrevogável (cf. Romanos 11:29) mesmo em face da descrença de Israel é mostrado pelas palavras de Deus a Israel em Malaquias 3:6, “Porque eu o SENHOR, não me mudo; por isso que vós, filhos de Jacó, não sois consumidos.”. Apesar da pervasiva hipocrisia dos judeus nos dias de Malaquias, Deus não os consumira (isto é, destruir completamente) porque ele estava ligado por suas promessas aos patriarcas, as quais, como o próprio Senhor, “não mudam”. Mais adiante em  Romanos o próprio Paulo se refere à mesma obrigação de eleição dos descendentes físicos de Jacó. Em acréscimo a várias passagens já mencionadas acima (Romanos 3:1-3, 9:4-5), note 11:1,11,16 e especialmente 11:28-29, aonde Paulo afirma aos Judeus, que eram naquele tempo inimigos dos cristãos, são mesmo assim quanto à eleição amados por causa dos pais. É claro de tais passagens que Paulo não despreza o valor da posição dos judeus como descendentes físicos de Jacó, porque sua descendência física apesar de sua descrença lhes permitiu permanecer na abrangência da soberana eleição de Deus como aqueles a quem “foram confiados os oráculos de Deus”(3:2). A insistência de Paulo em 9:8, então, que “os filhos da promessa são tratados por descendência”, não invalida toda a consideração da linhagem física; em vez disso simplesmente distingue entre descendência física cega de um lado, e descendência física que está de acordo com a promessa de Deus do outro lado, em que “descendência de acordo com a promessa” se refere à linhagem física que recebe o favor e escolha soberanos de Deus. Ismael e Esaú são exemplos da primeira forma de descendência física; Isaque e Jacó são exemplos da última.

Dado tudo que foi dito acima acerca dos dois aspectos distintos da promessa de Deus dada aos patriarcas, podemos agora distinguir entre as seguintes variedades possíveis de linhagem ou descendência dos patriarcas abordadas por Paulo em Romanos. Considere cuidadosamente:

  1. Descendência espiritual de acordo com a promessa de Deus (isto é, todos que são da fé de Abraão, seja judeu ou gentio
  2. Descendência física de acordo com a promessa de Deus (isto é, todos os descendentes físicos de [Isaque e ] Jacó)
  3. Descendência física sem referência à promessa de Deus (isto é, todos os descendentes físicos de Abraão, incluindo seus descendentes gentios; no caso, Ismael, Esaú, e seus descendentes)

De acordo com Paulo, somente as duas primeiras formas de linhagem são reconhecidas por Deus como formas válidas de eleição divina. O primeiro tipo de linhagem é sujeito de Romanos 4:11-16 e da assertiva de Paulo em 9:6b. Este tipo de linhagem é associado com eleição para salvação contingente à fé. O segundo tipo de linhagem é o assunto da segunda asserção de Paulo, aquela encontrada em Romanos 9:7a e discussão subsequente de Paulo em 9:7b-13. Este tipo de linhagem é associado à eleição divina do Israel físico para serem recipientes das bênçãos descritas por Paulo em 3:2 e 9:4-5.

Isto nos leva ao núcleo da segunda resposta de Paulo (em 9:7-13) ao desafio contra a fidelidade de Deus aludida no verso 6a. Não apenas Deus ainda é fiel à sua promessa aos patriarcas considerada no primeiro sentido da promessa acima discutida (isto é, ele é fiel ais eleitso para salvação e permite participar no verdadeiro Israel espiritual todos aqueles que como Abraão colocam sua fé na promessa de Deus), Deus também permanece fiel à sua palavra acerca do segundo aspecto de tal promessa, a saber, unilateralmente continuar a estender favor divino especial aos descendentes físicos de Israel confiando-lhes o ser recipientes tanto da verbal quanto da encarnada Palavra de Deus. Em vez de ter rejeitado sua anterior eleição dos judeus (como em geral, mas erroneamente, assumido sobre o ensino de Paulo aqui), Paulo sugere em 9:7-13 que apesar de sua descrença (conforme 9:2-3, 11:28-29) Deus permanece fiel a sua anterior eleição dos descendentes físicos de Jacó, todos eles considerados “filhos de Deus” (confira a Nota 6), não por mera descendência cega de Abraão, mas no sentido de ser “filhos da promessa” (isto é, a promessa de Deus pela qual Isaque e Jacó foram escolhidos para transmitir a linhagem física divinamente favorecida; linhagem tipo 2 acima). Como argumentarei abaixo, é precisamente a fidelidade divina à Sua eleição dos descendentes físicos de Israel desta maneira que O motiva a continuar buscando os judeus a virem ao arrependimento e fé, um objetivo que Paulo ensina em 11:26 será definitivamente completado. (De fato, esta eleição continuada deve ser reconhecida para entender propriamente os planos presentes e futuros de Deus para os descendentes físicos de Israel. Veja a discussão do capítulo onze abaixo.)

Eu notei acima que enquanto a primeira assertiva de Paulo em Romanos 9:6b é baseada em uma consideração da promessa de Deus considerada como uma segurança dada por Deus requerendo fé, a subsequente asserção no verso 7a é baseada na consideração da promessa de Deus como uma escolha unilateral de Deus. Por tal afirmação, eu quero dizer que a escolha de Deus por Isaque e Jacó para transmitir a linhagem física favorecida de Israel não foi condiciona a nenhum ato volicional dos próprios Isaque ou Jacó que os pudesse distinguir de Ismael ou Esaú. Paulo nota acerca de Jacó e Esaú que a escolha de Deus fora feita entre eles enquanto “não tendo ainda nascido, nem tendo praticado bem ou mal” (verso 11), então eliminando a possibilidade de que a eleição de Jacó e seus descendentes físicos pudesse ser baseada em obras de mérito de sua parte de alguma forma ausentes em Esaú e seus descendentes. Paulo descreve a natureza incondicionada desta eleição em termos ainda mais amplos no verso 16, onde ele afirma que não depende do homem que quer nem do que corre. Esta afirmação pode ser tomada como eliminando quaisquer fatores adicionais de diferenciação surgindo do exercício da vontade humana, tais como fé ou sua ausência. De fato, a eleição de Jacó e seus descendentes físicos foi obtida antes de e à parte de qualquer consideração de fé da parte de Jacó ou Esaú.

Traduções Crédulas: Eleição em Romanos 9 – Análise de Romanos 9:6-13 – A Promessa Como uma Segurança a Ser Crida

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Eleição em Romanos 9

Análise de Romanos 9:6-13 – A Promessa Como uma Segurança a Ser Crida

Primeiro, Paulo considera a promessa de Deus em termos de ela sendo uma garantia dada por Deus na qual era requerido de Abraão colocar sua fé. E este sentido de promessa que determina a natureza da linhagem espiritual possuída pelos verdadeiros filhos de Abraão, o que por sua vez consiste a eleição para a salvação do verdadeiro Israel espiritual do qual Paulo se refere em 9:6. Paulo discutira os aspectos da promessa anteriormente no capítulo 4, onde ele argumenta que Abraão fora creditado com justiça na base da sua fé na promessa de Deus, não na base de quaisquer obras da Lei (incluindo circuncisão), com o propósito de “[…] que fosse pai de todos os que creem, não estando na circuncisão, para que também a justiça lhes seja considerada”, bem como “pai da circuncisão, daqueles que não somente são da circuncisão, mas que também andam nos passos da fé de nosso pai Abraão” (4:11-12). Em todo caso, seja gentio ou judeu, é a fé de alguém que o faz descendente espiritual de Abraão. Paulo então relacionou este fato à promessa: “Pois, a promessa de que ele seria herdeiro do mundo, não veio a Abraão, ou à sua descendência, pela lei, mas pela justiça da fé.” {Romanos 4:13 Almeida Recebida} A promessa “Portanto é pela fé, para que seja pela graça; a fim de que a promessa seja firme a toda a descendência, não somente à que é da Lei [ou seja, aqueles fisicamente descendentes de Israel e que portanto participam da promessa no sentido a ser logo discutido], mas também à que é da fé de Abraão, o qual é pai de todos nós [ou seja, aqueles que participam da promessa no sentido sendo agora considerado]”{Romanos 4:16 Almeida Recebida}. Portanto, no pŕimeiro sentido a promessa de Deus é condicionada à fé dos sucessores de Abraão, no que apenas aqueles que têm a fé de Abraão são considerados como sua linhagem espiritual em fé.

Portanto, quando Paulo fala em 9:6 que “nem todos os que são de Israel são verdadeiros israelitas”, ele está tomando o ponto já desenvolvido no capítulo quatro e aplicando-o especificamente ao caso da nação judaica (isto é, os descendentes físicos de Jacó/Israel), os quais Paulo trouxe a foco em 9:1-6. Baseados nos argumentos em 4:11-16, Paulo pode agora concluir acerca dos judeus que a eleição para participação na verdadeira nação espiritual de Israel não é baseada em mera linhagem física do patriarca Israel (Jacó). Em vez disso, eleição para salvação é condicionada à fé somente, sem respeito à linhagem judaica ou gentílica. Esta verdade fornece a primeira das respostas de Paulo ao desafio aludido no verso 9:6 que as promessas de Deus deveriam necessariamente ter falhado em vista da descrença da maioria judaica. A este desafio pode-se corretamente responder que nunca foi a intenção de Deus que aqueles em descrença, sejam judeus ou gentios, fossem numerados entre os eleitos para salvação, sendo isto demonstrado em Abraão, que obteve justiça na base de sua fé. Consequentemente, a descrença dos judeus contemporâneos a Paulo não acarreta que Deus tenha sido infiel à sua promessa.

Traduções Crédulas: Eleição em Romanos 9 – Análise de Romanos 9:6-13 – Um problema Geralmente Não Reconhecido

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Eleição em Romanos 9

Análise de Romanos 9:6-13 – Um problema Geralmente Não Reconhecido

O que eu acabei de descrever é uma interpretação bastante padrão da resposta básica de Paulo ao assunto levantado em 9:6 acerca de se as promessas de Deus aos patriarcas falharam. Esta abordagem acima é, porém, incompleta. Para vermos por que, precisamos começar reconhecendo um aparente problema do raciocínio de Paulo que tem sido largamente abandonado pelos comentaristas desta epístola. Enquanto é verdade que os exemplos de Isaque vs. Ismael e Jacó vs. Esaú demonstram a insuficiência da descendência física de Abraão para assegurar a situação de alguém como filho eleito de Deus (verso 7), estes exemplos em si, estritamente falando, não anulam a possibilidade de que descendência física de Israel (Jacó) garante a situação como membro do Israel eleito. Isto é, não é claro como estes exemplos se enquadram com a afirmação de Paulo que “[…]porque nem todos os que são de Israel são verdadeiros israelitas” (verso 6). Se alguma coisa, os exemplos de eleição de Isaque mas não Ismael, e de Jacó mas não Esaú, podem ser usados para na verdade apoiar um apelo à descendência física de Israel (Jacó), dado que a eleição de Isaque e Jacó foi feita por Deus com o claro propósito de delimitar uma nação de judeus (feira de todos os fisicamente descendentes de Israel/Jacó) que seria o povo da aliança visível de Deus, em distinção a todos os gentios. Enquanto é fácil, então, ver como a eleição de Isaque e Jacó (e a consequente rejeição de Ismael e Esaú) demonstra a verdade do verso 7 (“Nem por serem descendentes de Abraão quer dizer que todos são filhos”), não está claro como estes mesmos exemplos tomados em seu valor literal de face demonstram a verdade afirmada no verso 6 (“porque nem todos os que são de Israel são verdadeiros israelitas”).

O problema acima surge porque nós temos até agora assumido, de acordo com a interpretação padrão destes versos, que a resposta de Paulo à acusação no verso 6 (a qual é, se a palavra de Deus com os patriarcas falhou) consiste de apenas um ponto, a saber, que Deus ainda é fiel às suas promessas porque apenas os membros crentes do Israel físico foram mesmo considerados verdadeiramente eleitos. Sob esta interpretação padrão, a segunda das assertivas gêmeas nos versos 6 e 7 é tomada como sendo essencialmente uma repetição da primeira (isto é, “nem todos os que são de Israel são verdadeiros israelitas.” = “Nem por serem descendentes de Abraão quer dizer que todos são filhos”). A solução para este problema trazido pela interpretação padrão é reconhecer que, de fato, o verso 7 não é simplesmente uma repetição do verso 6, mas de fato um ponto distinto em resposta à questão de se as promessas de Deus falharam (estes dois pontos de resposta nos versos 6 e 7 sendo conectados pela frase interveniente “nem por serem” no início do verso 7). Esta dupla resposta de Paulo à questão da fidelidade de Deus é em si mesma baseada em dois sentidos distintos de promessa feita por Deus aos patriarcas, que por sua vez correlatam não meramente a um mas a dois sentidos igualmente válidos de eleição. Vamos considerá-las aqui por este momento.

Traduções Crédulas: Eleição em Romanos 9 – Análise de Romanos 9:6-13 – A Palavra de Deus Falhou?

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Eleição em Romanos 9

Análise de Romanos 9:6-13 – A Palavra de Deus Falhou?

Nesta seção Paulo começa a abordar as principais questões naturalmente levantadas pelas suas observações em 9:1-5, uma questão originalmente iniciada em 3:3, em que ele pergunta, “Então o quê? Se alguns foram incrédulos, sua incredulidade anulará a fidelidade de Deus?” {Romanos 3:3 BLIVRE}. Esta questão ressurge aqui em 9:6a e como notado acima guiará o restante da passagem estendida até o capítulo onze. Em essência, a questão pode ser colocada como se segue: A falha da maioria dos judeus dos dias de Paulo em crer em Jesus significa que a eleição divina deles mediante os patriarcas falhara? Se a maioria deles são de fato malditos e excluídos da salvação por causa de sua rejeição a Cristo (como Paulo implica em 9:3), então como podem eles serem ainda considerados eleitos de Deus, e como podemos evitar a conclusão que Deus falhou em seu propósito expresso mediante sua anterior eleição dos judeus mediante os patriarcas?

No capítulo três a resposta de Paulo a esta sugestão de que Deus falhara em cumprir seus compromissos foi curta e enfática: “De jeito nenhum; antes seja Deus verdadeiro, e todo ser humano mentiroso; assim como está escrito: Para que sejas justificado em tuas palavras, e venças quando tu fores julgado” {Romanos 3:4 BLIVRE} Aqui no capítulo nove Paulo provê uma resposta mais aprofundada baseado numa distinção em 9:8 entre dois tipos distintos de linhagem dos patriarcas; a saber, os descendentes de acordo com a carne (os filhos da carne) e os descendentes de acordo com a promessa (os filhos da promessa). Paulo sugere que os últimos e não os primeiros são os “filhos de Deus” e “descendência de Abraão” (verso 8b). Para provar seu ponto, Paulo trata com os dois exemplos mais pertinentes das vidas dos patriarcas: a escolha/eleição de Isaque (o que implica a não-eleição do outro filho de Abraão, Ismael), e a escolha/eleição de Jacó (contrastada com Sua rejeição a Esaú). O fato de ambos Ismael e Esaú eram descendentes de Abraão e mesmo assim foram contados como gentios em vez de membros da nação eleita forçosamente demonstra o ponto de Paulo que a eleição de Deus não procede meramente por cega descendência física à parte da consideração da promessa de Deus. Isto é importante porque fornece para Paulo uma maneira de explicar como a descrença da maioria dos seus contemporâneos judeus não compromete a legitimidade das promessas de Deus aos patriarcas. Como nem todo judeu é necessariamente um descendente de acordo com a promessa, a descrença de alguns judeus não implica que as promessas de Deus falharam.

Traduções Crédulas: Eleição em Romanos 9 – Análise de Romanos 9:1-5

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Eleição em Romanos 9

Análise de Romanos 9:1-5

É imediatamente após o crescendo em 8:28-39 celebrando a segurança dos crentes em Cristo que Paulo volta sua atenção para seus contemporâneos judeus, a maioria dos quais não participando deste relacionamento espiritual com Cristo mediante a fé. É este flagrante contraste entre os eleitos crentes em Cristo e os descrentes judeus dos dias de Paulo que provê o plano de fundo de toda a missiva de Romanos capítulos de nove a onze, um ponto que devemos constantemente manter em mente quando procurando interpretar esta seção da Escritura. Uma preocupação em particular, levantada por Paulo em 9:6 e ecoando a questão dantes levantada em 3:3, fornece a força-motriz por detrás da maior parte da discussão de Paulo nestes capítulos: Como Deus pode ser considerado fiel à sua eleição original dos descendentes físicos de Israel se a maioria de tais descendentes não se voltou a Cristo em fé? É imperativo que Romanos capítulo nove seja lido em termos desta questão, caso contrário faremos o erro que muitos antes de nós fizeram ao forçar todas as assertivas de Paulo em um falso molde como relacionado primariamente à salvação final da Igreja e à reprovação última de todos os outros. De fato, porém, o montante dos comentários de Paulo (e muitas das observações relacionadas no capítulo onze) são primariamente com a intenção de prover uma abordagem do estado de descrença dos judeus contemporâneos de Paulo, tanto em termos de como eles chegaram até aquele ponto em primeiro lugar, quanto em termos do que Deus ainda tinha reservado a eles. Isto não quer dizer que Paulo não lidaria com temas teológicos que teriam implicações para a salvação dos gentios também; de fato, irei traçar algumas destas implicações em meu discurso abaixo assim que elas surgirem. Mas jamais devemos esquecer que são os compatriotas judeus incrédulos de Paulo que permeiam sua visão neste capítulo. Apenas então podemos esperar seguir precisamente este fluxo de pensamento e traçar as lições teológicas apropriadas das palavras de Paulo.

Para começar, então, Paulo primeiro expressa sua severa tristeza em Romanos 9:1-3 sobre o fato que seus compatriotas judeus estavam envoltos em incredulidade. Os favores especiais que Deus lhes dera como descendentes eleitos de Israel (Jacó), enumerados por Paulo em 9:4-5, fizeram sua descrença ser de todo mais trágica. A lista de Paulo destes privilégios pode ser tomada como uma elaboração e extensão de sua anterior observação em 3:1-2 de que os judeus tem “vantagem” em “terem sido confiados os oráculos de Deus”. Note em particular aqui em 9:1-3 a menção de Paulo das promessas dadas aos judeus, sua relação com os patriarcas e seus papéis privilegiados de serem guardiães terrenos da Lei, e de fornecerem a linhagem física para o aparecimento do Cristo. Em resumo, os judeus foram escolhidos/eleitos por Deus mediante os patriarcas Abraão, Isaque e Jacó para receber a Palavra de Deus à humanidade e funcionar como veículo para preparar o mundo para a vinda do Messias, o Salvador tanto de judeus quanto de gentios. Apesar desta posição especial como eleitos de Deus, porém, Paulo claramente via os judeus descrentes de seus dias como sendo amaldiçoados e separados de Cristo (uma posição que ele estava desejoso de trocar com eles, 9:3).