Salvação e Soberania de Deus: A Grande Comissão como a Expressão da Vontade Divina (IV)

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IV. CONCLUSÃO

Este artigo considerou quatro opções acerca da voltade salvífica de Deus: Deus tem uma vontadce que que todos sejam salvos; Deus tem uma vontade que alguns sejam salvos; Deus tem duas vontades – uma oculta e a outra revelada; e Deus tem duas vontades – uma antecedente para a salvação de todos e a outra consequente de que fé é condição para salvação. Nenhuma das quatro posições está livre de dificuldades. Porém, o paradigma das vontades antecedente/consequente parece ser o que tem os menores problemas teológicos e ser mais próximo ao testemunho da Escritura.

A Grande Comissão é expressão da vontade divina. Seu desejo é que o mundo inteiro ouça as Boas Novas tal que aqueles que recebem o Evangelho possam ser salvos.


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Salvação e Soberania de Deus: A Grande Comissão como a Expressão da Vontade Divina (III-B)

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B. Opção Quatro: O Paradigma das Vontades Antecedente/Consequente

Ao longo da história da igreja tanto as Igrejas Ocidentais quanto as Orientais têm ensinado que Deus deseja a salvação de todos, mas ele requer a resposta em fé da parte do ouvinte [50]. Esta abordagem das vontades oculta/revelada não vê conflito entre as duas vontades de Deus. Deus antecedentemente quer que todos sejam salvos. Mas para aqueles que se recusam a se arrepender e crer, ele consequentemente deseja que eles sejam condenados. Desta maneira Deus é compreendido como sendo semelhante a um justo juiz que deseja que todos vivam mas que relutantemente ordena a execução do assassino [51]. Os desejos antecedente e consequente são diferentes mas não estão em conflito.

A posição das vontades oculta/revelada parece ser o claro ensino da Escritura. Deus antecedentemente “amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito,” para que consequentemente “todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna”. Cristo antecedentemente ordena que o Evangelho seja pregado a toda criatura, mas ele consequentemente decreta que aquele que não crê seja danado. O paradigma das vontades antecedente/consequente se ajusta muito bem com a Grande Comissão.

Oden lista quatro características da vontade antecente de Deus [52]. Primeiro, ela é universal. Salvação é desejada para todos, providenciada para todos, e ofertada a todos. Esta atitude omnibenevolente incondicional é verdadeiramente antecedente no que ela é direcionada a toda humanidade antes de sua aceitação ou rejeição. Segundo, a vontade antecedente é imparcial. Cristo morreu pelos pecados do mundo todo. Amor universal logicamente requer expiação ilimitada. Terceiro, a vontade de Deus em salvar todos é sincera. Não existe vontade oculta; nenhum decreto secreto de reprovação. E quarto, a vontade antecente é uma vontade ordenada. É impossível para o desejo de Deus permanecer impotente ou não-cumprido. A vontade antecedente de Deus de salvar todos é a base de suas ações para prover os meios da graça para pecadores mediante Cristo.

A vontade consequente de Deus possui três componentes [53]. Primeiro, ela é consistente com as qualidades com as quais ele dotou suas criaturas. Humanos estão caídos, mas ainsda são à imagem de Deus, não obstante. A graça de Deus não é coercitiva e pode ser recusada. Quando o ouvinte encontra o Evangelho, ele é graciosamente habilitado pelo Espírito a responder livremente. A decisão do ouvinte de aceitar ou rejeitar o Evangelho é genuína e apavorantemente dele. Admitidamente, por que alguns rejeitam o Evangelho é um mistério. Mas no paradigma antecedente/consequente, o mistério da iniquidade reside no homem e não em Deus.

O segundo aspecto da vontade de Deus segue do primeiro. Se Deus quer que a salvação seja consequente à nossa escolha, então sua vontade é condicional. Terceiro, a vontade consequente é justa. A concessão de salvação por Deus para aqueles que creem é perfeitamente consistente com sua santa natureza por casua da obra propiciatória de Cristo (Rm 3:21-26). Sua danação de todos que não creem está de completo acordo com sua justiça. A vontade antecedente é perfeitamente graciosa; a vontade consequente é perfeitamente justa.

Geralmente, teólogos reformados acham a abordagem das vontades antecedente/consequente inaceitável. Eles dão um tanto de objeções das quais três figuram mais proeminentemente. Primeiro, o paradigma das vontades antecedente/consequente parece tomar a decisão de Deus como sendo contingente à escolha humana. Eles contendem que esta abordagem sutilmente coloca o homem no trono de Deus. Berkhouwer argumenta que uma salvação que dependa da decisão do homem torna Deus “impotente e esperançoso” [54]. Robert Shank replica que Deus pode estar esperançoso, mas ele não é impotente [55]. De fato a lustração de um Deus à espera é um tema rico encontrado ao longo da Bíblia (Is 1:18-20 por exemplo). A abordagem das vontades antecedente/consequente entende Deus como sendo o soberano Iniciador e opgracioso Consumador da redenção. Se o homem está para escolher entre céu e inferno, é porque o Senhor da Criação colocou tal escolha diante dele.

Uma segunda objeção que a abordagem das vontades antecedente/consequente é que ele aparenta tocar a noção de mérito. Se todos os ouvintes estão igualmente habilitados pela graça a receber o Evangelho, e uma pessoa aceita a Mensagem enquanto a outra rejeita, então isto não implica de alguma forma que a primeira pessoa foi mais virtuosa que a segunda? [56] Esta é uma objeção difícil, mas duas coisas devem ser mantidas em mente. Primeiro, esta objeção parece ver fé como alguma espécie de obra enquanto a Bíblia consistentemente contrasta fé de obras (Rm 3:21 – 4:8). Fé, por sua própria natureza, é o oposto de obras porque é uma admissão de uma completa falta de mérito ou capacidade. O clemente não incorrem em mérito quando abre suas mãos para receber um presente gratuito [57]. Segundo, o mistério não é por que alguns creem, mas sim por que nem todos creem. Isto mais uma vez aponta para o mistério do mal. Não existe mérito em aceitar o Evangelho mas existe culpa em rejeitá-lo.

Uma terceira objeção feita pelos teólogos reformados é que o paradigma das vontades antecedente/consequente dá “destaque de orgulho” para o livre arbítrio humano acima da glória de Deus [58]. John Piper argumenta que as visões das vontades oculta/revelada e antecedente/consequente são basicamente as mesmas exceto por uma importante diferença [59]. Ambas as visões contendem que Deus genuinamente deseja a salvação de todos, ambas as visões mentêm que este desejo é sobrescrito por uma vontade ainda maior, mas as duas visões discordam em que maior vontade é essa. Piper estabelece que a posição oculta/revelada vê a maior vontade como sendo um desejo de glorificar a si mesmo enquanto a posição antecedente/consequente entende a maior vontade como sendo dar a liberdade de auto-determinação para os homens. Piper conclui que o paradigma oculto/revelado faz mais justiça à glória de Deus.

Porém, na sua resposta a Piper, Walls e Dongell enfatizam que proponentes da posição das vontades antecedente/consequente não afirmam uma habilidade humana de auto-determinação graciosamente habilitada por si só. Em vez disso, a preocupação é em retratar fielmente o caráter de Deus. Deus coloca o descrente por responsável porque ele não creu no evangelho. Aqueles condenados por Deus são condenados justamente porque receber Cristo foi uma escolha genuinamente disponível. Aderir a uma doutrina de auto-determinação humana não é um fim em si mesmo. Manter a integridade do caráter de Deus é. Em vez de falhar em magnificar a glória de Deus, a posição das vontades antecedente/consequente glorifica Deus mantendo que suas deliberações são justas e consistentes com sua santa natureza [60]. Se a maior maneira para os humanos darem glória a Deus é escolhendo-o livremente, então a visão das vontades antecedente/consequente cumpre melhor este objetivo.

Interessantemente, Piper utiliza a analogia do justo juiz para fazer seu caso a favor do cenário das vontades oculta/revelada [61]. Ele dá a instância específica de quando George Washington encarou o difícil dilema de ter um de seus oficiais favoritos culpado de um crime capital. Apesar de sua afeição pelo jovem, Washington deu a ordem para sua execução. A ilustração de Piper na verdade é um exemplo do paradigma das vontades antecedente/consequente, pois de acordo com o modelo das vontades oculta/revelada, Whashington secretamente desejou o crime do oficial e inclinou a vontade do jobvem para cometer o delito.


Salvação e Soberania de Deus: A Grande Comissão como a Expressão da Vontade Divina (III-A)

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A. Opção Três: O Paradigma das Vontades Oculta/Revelada

Em suas discussões acerca da soberania divina e da responsabilidade humana, os reformadores regularmente apelavam para a posição das vontades oculta/revelada, apesar de Lutero adotar o conceito mais prontamente que Calvino. Para Lutero, as duas vontades de Deus são funções das duas maneiras que Deus se relaciona com sua criação. Por um lado, como deus revelatus, Deus se manifesta a si mesmo em Jesus Cristo. Por outro lado, Deus como deus absconditus se esconde da criação e desde que nada mais pode ser conhecido sobre o Deus escondido então nada mais deve ser dito. A vontade revelada de Deus, i.e., Jesus Cristo, proclama as Boas Novas que Deus graciosamente é por nós. O Deus escondido, com sua soberana e secreta vontade de eleição e reprovação, permanece terrivelmente inacessível.

Calvino é menos consistente em seu uso do paradigma das vontades oculta/revelada. Em obras teológicas tais como sua resposta ao controversialista católico Albert Phigius, Calvino nega uma oferta universal genuína do Evangelho. Ele estabelece, “É uma ficção pueril pela qual Phigius interpreta graça como sendo que Deus convida todos os homens à salvação apesar de serem perdidos em Adão. Pois Paulo claramente distingue os dantes conhecidos dos outros a quem Deus não se comprouve observar”[28]. Calvino denuncia a noção que Deus tenha duas vontades como “blasfêmia”[29].

Porém, os comentários de Calvino apresentam uma história diferente. Nestas obras, ele afirma que 1Tm 2:4, 2Pe 3:9 e Ez 18:23 claramente ensinam que Deus deseja a salvação de toda humanidade[30]. Calvino aqui apela para a explicação de vontades oculta/revelada para reconciliar sua interpretação dos textos universais com sua doutrina de dupla predestinação. Neste assunto pelo menos, alguém pode se perdoar por pensar se Calvino o teólogo já se encontrou alguma vez com Calvino o exegeta.

Hoje em dia, John Piper argumenta pelo paradigma das vontades oculta/revelada[31]. Ele se afasta de muitos de seus colegas reformados quando aceita que aqueles textos tais como 1Tm 2:4, 2Pe 3:9 e Ez 18:23 na realidade estão expressando um desejo da parte de Deus para a salvação de toda a humanidade. Ele reconhece que a exegese reformada tradicional destes versos convence somente aqueles que já estão persuadidos.

Piper argumenta que Deus genuinamente quer a salvação de todos, mas seu desejo é vencido pelo desejo ainda maior de ser glorificado [32]. A fim de que sua graça receba a mais completa expressão de sua glória, é necessário que ele também mostre sua justa ira contra o pecado. A completa glória de sua graça é propriamente percebida somente quando vista ao lado de seus santos julgamentos. Alguns foram selecionados por Deus para ser troféus da graça enquanto outros são escolhidos como exemplos de sua justa danação. Por que Deus seleciona alguns para salvação enquanto consigna outros à perdição é um mistério oculto nos conselhos secretos de Deus.

Existem pelo menos seis sérios problemas com a versão oculta/revelada da explanação das duas vontades. Primeiro, como Carson aponta, muitas vezes teólogos usam a vontade oculta para negar a vontade revelada [33]. Lutero certamente parecia fazer isto. Em sua discussao sobre o lamento de Jesus sobre Jerusalé [34], a resposta de Lutero é apelar para a vontade oculta de Deus.

Aqui, Deus Encarnado afirma: ‘Eu quis e vocês não’. Deus Encarnado, eu repito, foi enviado com este propósito, querer, dizer, fazer, sofrer, e oferecer-se por todos os homens, tudo que é necessário para salvação; apesar disso Ele ofende muitos que, sendo abandonados ou endurecidos pela vontade secreta da Majestade de Deus, não O recebem assim querendo, falando, fazendo e oferecendo. [35]

Lutero aponta para o Deus revelado em Cristo mas então prontamente nulifica a mensagem do Salvador apelando ao Deus oculto [36].

Por definição uma vongtade oculta é desconhecida, então como podemos falar sobre ela? Como podemos utilizar algo desconhecido como fundação teológica? Quem tem o direito de declarar que a vontade revelada de Deus não é sua vontade definitiva e basear esta asserção em algo admitidamente desconhecido? Quem ousa nulificar a vontade de Deus? Se a vontade oculta existe, então poderia ela ser escondida por que Deus não quer que a abordemos?

Um segundo problema com o paradigma das vontades oculta/revelada é tão sério quanto o primeiro. Cristo manifesta a vontade revelada de Deus, mas a vontade revelada nem sempre é efetuada porque ela é suplantada pela vontade oculta de Deus que permanece escondida no Pai. Isto leva à perturbadora conclusão que Jesus não representa o Pai como ele realmente é. Em sua discussão sobre as duas vontades em Deus, Lutero deixa isto bem claro:

Agora, Deus em Sua própria natureza e majestade é para ser deixado de lado; acerca disso, temos nada a tratar com Ele, nem Ele deseja que lidemos com Ele. Temos que trarat com Ele como mostrado e vestido em Sua Palavra, pela qual Ele apresenta-Se a nós. [37]

No cenário das vontades oculta/revelada, Cristo não mais revela o Pai.

O segundo problema leva naturalmente a um terceiro. Lutero descrfeve a vontade secreta de Deus como “macabra” e então insta seu leitor a olhar para Cristo somente[38]. Mas assim como Barth apontou, não se pode ensinar a vontade oculta de Deus e então falar às pessoas para não pensarem sobre ela[39]. Exortaçõies para não dar atenção ao homem por detrás da cortina apenas elevam suspeitas e preocupações. A dificuldade que o paradigma das vontades oculta/revelada apresenta ao ministério pastoral é bem comentada[40]. Se nossa eleição reside no propósito secreto, então que segurança o Cristo revelado nos dá? Barth conclui que não olhar Jesus com a devida atençao é olhar para o desconhecido [41].

Um quarto problema com a solução das vontades oculta/revelada é que ela faz o pregador parecer hipócrita. Engelsma realça este problema quando ele repreende o pastor reformado que prega a vontade revelada enquanto silenciosamente adere a uma vontade oculta.

Você pode agora pregar a todos os homens que Deus os ama com um amor redentivo e que Cristo morreu por eles para salvá-los de seus pecados, mas ao mesmo tempo sussurra para si mesmo, ‘Mas ele na realidade salvará apenas alguns de vós e Ele não salvará outros de acordo com Sua própria vontade soberana’. O que você sussurra para si mesmo torna a mensagem do amor universal, expiação universal, e desejo universal de salvar, que você audivelmente proclama, uma fraude. [42]

Se aquilo que sussurramos para nós mesmos torna aquilo que proclamamos uma fraude, então de fato somos culpados de dissimulação.

Pior ainda, a abordagem das vontades oculta/revelada aparenta tornar Deus um hipócrita, o que é um quinto problema. Deus universalmente oferece uma salvação que ele não tem intenção que todos recebam. Soteriologia reformada ensina que Deus é oferecido a todos, mas graça eficaz é dada apenas aos eleitos[43]. Os limites da salvação são estabelecidos pela soberana e secreta vontade de Deus. Numerosas vezes – mediante os profetas, o Salvador, e os apóstolos – Deus publicamente revelou um desejo para a salvação de Israel enquanto secretamente vê que eles não se arrependerão. Calvino, citando Agostinho, afirma que desde que nós não sabemos quem são os eleitos e quem são os reprovados nós devemos desejar a salvação de todos [44]. Shank retruca, “Mas por quê? Se não é este o desejo de Deus, por que deveria ser o de Calvino? Por que Calvino deseja ser mais gracioso que Deus?” [45]

O que nos traz à sexta e fundamental objeção ao paradigma das vontades oculta/revelada: ele falha em encarar os próprios problemas que intende abordar. Ele evita o próprio dilema que a teologia decretal cria. Peterson, em sua defesa da posição reformada sobre as duas vontades, afirma: “Deus não salva todos os pecadores, pois ultimamente ele não intende salvar todos eles. O dom da fé é necessário para salvação, mesmo assim por razões além de nosso entendimento, o dom da fé não é dado a todos” [46]. Mas então ele conclui, “Enquanto Deus comanda a todos o arrependimento e não toma prazer na morte do pecador, nem todos são salvos porque não é a intenção de Deus dar sua graça redentiva a todos” [47]. Devo ser cândido e confessar que esta citação não tem sentido nenhum para mim.

Vamos lembrar que não há discórdia sobre responsabilidade humana. Agostinianos, calvinistas, arminianos e outros cristãos ortodoxos concordam que os perdidos são perdidos por causa de seus próprios pecados. Mas esta não é a questão em pauta. A questão não é “Por que os perdidos são perdidos?” mas sim “Por que os perdidos não são salvos?”. O desagradável, terrível, “profundo, obscuro, imundo segredinho” do calvinismo é que ele ensina que existe uma e apenas uma resposta à segunda questão, e ela é: Deus não quer que eles sejam salvos [48]. Outros sistemas teológicos podem ter problemas semelhantes [49] mas a teologia reformada temn a distinção de fazer desta dificuldade a pedra fundamental de seu entendimento da salvação.


Salvação e Soberania de Deus: A Grande Comissão como a Expressão da Vontade Divina (III)

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III. AS TERCEIRA E QUARTA OPÇÕES: DEUS TEM DUAS VONTADES

A maioria dos teólogos, reformados ou não, reconhece que, nas palavras de John Piper, “A intenção de Deus não é simples mas complexa”[26], ou se a vontade de Deus é simples, ela é “fragmentada”[27]. Se o soberano Deus deseja a salvação de todos, provê redenção suficiente para todos, mas nem todos são eventualmente salvos e mesmo assim a vontade de Deus é ultimamente efetuada, então a vontade de Deus exibe uma complexidade que requer um entendimento em fases ou estágios. Teólogos têm empregado um contingente de categorias para descrever as duas vontades de Deus: a vontade divina de preceito, comando, ou permissão é geralmente contrastada com sua vontade decretal, soberana, ou eficaz. A maioria das posições são variações de um dos dois paradigmas: ou a abordagem das vontades oculta e revelada (opção três), ou a visão das vontades antecedente e consequente (opção quatro). Geralmente, teólogos reformados optam pelo paradigma das vontades revelada/oculta, enquanto teólogos não-reformados tomam a última.


Salvação e Soberania de Deus: A Grande Comissão como a Expressão da Vontade Divina (II-B)

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B. Opção Dois: Deus é Soberano e Isto É Expresso Em Sua Vontade De Salvar Os Eleitos

Teólogos reformados como Louis Berkhof, Herman Hoeksema e David Engelsma são chamados de teólogos decretais porque eles veem os decretos eternos como o ponto inicial para estudar as obras de Deus[14]. Como Truesdale e Talbott, teólogos decretais afirmam uma única vontade em Deus, mas por causa de eles verem a soberania de Deus como característica definitiva do ser de Deus, eles chegam em conclusões bastante diferentes do que aqueles abordados na seção anterior. Teólogos decretais ensinam que Deus, na eternidade, decretou a salvação de um número seleto e definido. Aqueles escolhidos são os eleitos enquanto os rejeitados são os reprovados. Esta abordagem de estudar salvação produz os distintivos da teologia reformada: eleição e reprovação, expiação limitada, graça irresistível, e fé como evidência em vez de condição para salvação.

Alguns teólogos decretais mantêm que a escolha de salvar alguns e danar outros como sendo logicamente inicial e primária. Eles veem a decisão de ordenar todos os outros eventos – a Queda, a Expiação, e por aí vai – como sendo os meios pelos quais Deus cumpre seu primeiro decreto de eleger e reprovar. Esta posição é chamada supralapsarianismo porque ela ensina que Deus decretou dupla predestinação “antes da Queda”. É válido apontar que os reformadores originais – Zwinglio, Lutero e Calvino – eram todos supralapsarianos.

A maioria dos teólogos decretais subsequentes não seguiu os reformadores no caminho do supralapsarianismo mas em vez disso optaram pelo infralapsarianismo. Como o rótulo indica, esta posição mantém que Deus primeiro decretou permitir a Queda e então da raça humana caída elegeu aqueles que ele salvaria. Infralapsarianismo tenta evitar alguns dos óbvios dilemas éticos inerentes no supralapsarianismo. No infralapsarianismo Deus não dana os reprovados antes de sua queda, mas os dana porque são caídos. Nem neste esquema Deus ativamente ordena a danação dos reprovados. Em vez disso, quando Deus escolhe um número seleto para salvação, ele simplesmente ignora o restante da humanidade.

Infralapsarianos não creem que o reprovado é ordenado para o inferno; em vez disso, eles veem o reprovado como omitido do céu. Infralapsarianos adotam um decreto simples de eleição, enquanto supralapsarianos ensinam um duplo decreto de eleição e reprovação. Teólogos geralmente concordam que surpalapsarianismo tenha menos problemas lógicos enquanto o infralapsarianismo tenha menos problemas morais[15]. Mas no fim, seja supra ou infra, teologia decretal ensina que Deus tem apenas uma vontade salvífica e que este intento é salvar apenas seus escolhidos.

Teologia decretal produz um conjunto distintivo de corolários. Primeiro, tal visão de soberania divina requer uma negação do amor universal de Deus. Teólogos como Hoeksema e Engelsma não se restringem em declarar o “eterno ódio” de Deus pelos reprovados. Engelsma declara,

Não é de todo surpreendente que advogados da livre oferta se opoem ao ensino reformado da reprovação, pois a reprovação é a negação explícita exata da negação que Deus ama todos os homens, deseja salvar todos os homens, e condicionalmente lhes oferece salvação. Reprovação estabelece que Deus eternamente odeia alguns homens; imutavelmente decretara sua danação; e determinara bloquear para eles Cristo, graça, fé, e salvação. [16]

Segundo, teologia decretal necessita uma reinterpretação dos textos bíblicos que parecem ensinar que Deus ama toda humanidade e deseja a salvação de todos. Por exemplo, Francis Turretin (1623-1687), um estudioso reformado e um dos primeiros proponentes claros do infralapsarianismo, insiste que o amor expresso em João 3:16 “não pode ser universal para todos e cada um, mas especial para alguns”. Ele se refere a “apenas aqueles escolhidos deste mundo” [17].

Um teólogo decretal moderno, James White, toma uma abordagem semelhante para outros textos universais[18]. Ele entende o “todos” de 1Tm 2:4 como significando que Deus deseja a salvação de “todos os tipos de homens” ou “para todas as classes de homens”. Semelhantemente, 2Pe 3:9 significa que Deus não deseja que nenhum de nós, i.e., os eleitos, pereça.

Se Deus ama somente os eleitos, deseja salvação apenas para seus escolhidos, e providenciou expiação somente para os objetos de seu amor, então um terceiro corolário é inevitável: não existe oferta genuína do Evangelho. David Engelsma devota um livro inteiro para a tese que ainda que o Evangelho seja pregado “promiscuamente” a todos, ele é ofertado apenas aos eleitos. De fato, ele não se preocupa muito com a palavra “oferta” afinal. Pregar não oferece o Evangelho. Pregar opera como o instrumento pelo qual fé é ativada no eleito. Os reprovados podem ouvir o Evangelho, mas a mensagem não é para eles. Engelsma contende que sua posição não é hipercalvinismo, mas calvinismo consistente.

Teologia decretal tem efeitos definidos em como se entende e obedece a Grande Comissão e há consequências para tal sistema de pregação e missão. Primeiro, teologia decretal historicamente tem tido o efeito de causar muitos pastores reformados a restringir quem são os candidatos a ouvir o Evangelho. No século 17 muitos teólogos escoceses argumentaram que o Evangelho deve ser apresentado indiscriminadamente apenas a membros da igreja visível [19]. Muitos batistas ingleses do século 18 contavam as Boas Novas apenas a homens cujas vidas davam evidência de graça divina [20]. Seguindo o hipercalvinismo de Daniel Parker, muitos batistas americanos do século 19 rejeitaram o “dever de ter fé”, isto é, a crença que descrentes têm o dever de se arrepender e crer no Evangelho [21]. Teologia decretal levou estes batistas primitivos “casca-grossa” a se oporem a todos os métodos de evangelismo, missão, ou convocação. Esforço evangelístico organizado eram vistos como “disposições forjadas pelo homem” que presumivelmente faziam a obra de Deus. Mesmo hoje em dia as Igrejas Evangélicas (Batistas) Padrão rejeitam qualquer responsabilidade de pregar o Evangelho a todos [22].

Segundo, mesmo enquanto a maioria dos teólogos decretais de hoje têm se afastado das posturas restritivas dos hipercalvinistas anteriores, eles ainda não veem pregação como um apelo com intenção de persuasão. Para eles, pregação é uma proclamação ou anúncio que ativa fé nos eleitos. Pregar indistintamente instrui todos, mas a chamada interna do Espírito é dada somente àqueles que Deus escolheu. Engelsma afirma que diversas coisas no sermão evangélico típico estarão ausentes de uma mensagem verdadeiramente reformada:

Existe, diversas coisas que não serão encontradas em uma pregação reformada para os não-convertidos. Pregação reformada não abordará a audiência com a declaração: ‘Deus ama todos vocês, e Cristo morreu por todos vocês’. Ela não dirá a cada homem: ‘Deus te ama e tem um maravilhoso plano para sua vida'[23]

Terceiro, como James Daane aponta em sua examinação do efeito da doutrina da reprovação na pregação, teologia decretal eviscera o Evangelho de seu significado[24]. Para muitos ouvintes, talvez a maioria, o anúncio é que Deus decidiu permanecer em guerra com eles e ele tomou eta decisão na eternidade passada. O Evangelho é para ser boas novas, mas de acordo com a doutrina da reprovação, a mensagem certamente não é nova e não é necessariamente boa.

Ultimamente, reprovação é um ensino impregável. Pregação é proclamar a verdade com o propósito de chamar os ouvintes a responder. Daane aponta que isto não pode ser feito com a doutrina da reprovação; ela é uma mensagem que não tem resposta [25]. O ensino não se aplica aos eleitos e, para os reprovados, não há resposta ao anúncio de que se é rejeitado. A doutrina da reprovação declara que não existe chamado interno salvífico para o não-eleito. Nenhum chamado implica nenhuma resposta e certamente isto implica nenhuma pregação. Reprovação pode ser contemplada, estudada, e discutida, mas não pode ser pregada.

Para sumarizar esta seção: se a vontade de Deus é singular, então ou ele deseja a salvação de todos ou não deseja. Como temos visto, começar com a premissa de uma vontade salvífica universal poderá levar alguém à fantasia do universalismo. Postular uma negação de qualquer espécie de vontade salvífica universal poderá levar alguém à gangrena da reprovação. Por tais razões a maioria dos teólogos, reformados ou não, optaram em vez disso por uma abordagem de duas vontades.


Salvação e Soberania de Deus: A Grande Comissão como a Expressão da Vontade Divina (II-A)

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A. Opção Um: Deus É Amor e Seu Amor É Expresso Pela Sua Vontade de Salvar a Todos

Obviamente, afirmar a vontade universal salvífica de Deus não coloca dificuldades para aquele que crê que “Deus é amor” (1João 4:8) sumariza a divina essência. Porém, esta abordagem logicamente requer universalismo ou algo próximo a isto. isto parece ser verdadeiro não importando a posição acerca da natureza da resposta humana ao Evangelho. De fato, por causa de como os teólogos reformados entendem a graça trabalhando na vontade humana, aqueles que afirmam o amor e desejo genuíno de Deus para salvação de todos tendem a adotar universalismo mesmo mais prontamente que seus contra-partes arminianos.

Alguns teólogos arminianos se perguntam se seu ponto inicial teológico não necessita uma eventual conclusão universalista. Em sua abordagem presidencial à Wesleyan Theological Society, Al Truesdale examina a questão se a doutrina da punição eterna é compatível com a afirmação que o amor é “o centro definidor de Deus”[3]. Truesdale começa com a afirmação que amor é “aquele elemento de Deus que governa todo o resto”[4]. Ele prossegue um argumento de cinco passos que deduz que a doutrina da danação eterna não é uma opção para o wesleyano consistente e sugere aniquilacionismo ou salvação post-mortem como alternativas possíveis[5]. Ele conclui admoestando o leitor com uma citação de Barth, “Na base da eterna vontade de Deus temos que pensar em cada ser humano [ênfase original], mesmo o mais estranho, o mais vilanesco ou miserável, como um a quem Jesus Cristo é Irmão e Deus é Pai”[6]. É notável que Truesdale constrói seu argumento na premissa que a vontade singular de Deus para salvação de todos é a manifestação da essência simples indivisível de Deus, que é amor.

Existem diversos teólogos arminianos que, como Truesdale, afirmam a vontade salvífica e amor universais de Deus mas não chegam às mesmas conclusões. E universalismo não é encontrado somente no arminianismo. Teólogos reformados que argumentam que a essencial natureza de amor de Deus compele a uma vontade singular para a salvação de todos também geralmente atingem o universalismo. Thomas Talbott serve como exemplo primário. Aonde Truesdale tenta fazer um argumento positivo baseado na natureza amorosa de Deus, Talbott toma a abordagem negativa apresentando o que ele crê que seriam as consequências de negar a premissa de que Deus semelhantemente deseje a salvação de todos.

Em um celebrado debate com John Piper que cobria uma série de artigos, Talbott argumenta que crer no amor universal de Deus combinado com o entendimento reformado da soteriologia acarretam universalismo[7]. Ele denuncia a doutrina reformada tradicional da predestinação como “blasfêmia” e “uma manifestação da depravação humana”[8].

De acordo com Talbott, teologia reformada, com suas usuais distinções entre os decretos e os comandos de Deus, produz algumas consequências bastante desafortunadas para o caráter de Deus. Deus nos comanda amar nossos inimigos mas falha em amar seus inimigos. Isto significa que amor não é uma propriedade essencial de Deus. Soteriologia reformada, argumenta Talbott, presenteia-nos com um Deus que é menos amoroso que muitos humanos e deixa-nos com a perturbadora noção que devemos amar nossos filhos mais que Deus o faz. Talbott confessa que ele acha tal Deus difícil de amar, quanto mais de adorar. Ele afirma:

Se existe um simples amado meu que Deus poderia [ênfase original] redimir mas não redime – se for o caso de, por exemplo, Deus falhar em amar minha própria filhinha – então eu não posso pensar em melhor resposta que uma paráfrase de John Suart Mill: `Não adorarei tal Deus, e se tal Deus pode me mandar pro inferno por não adorá-lo, então para o inferno irei’. Obviamente, isto significaria simplesmente que eu não sou um dos eleitos, ou, se eu sou um dos eleitos, que Deus um dia transformará meu coração de tal forma a que eu seja tão insensível para com os meus amados assim como ele é. [9]

Insensível ou não, Talbott considera calvinismo como sendo sub-cristão. Daqueles que regozijam em sua eleição, ele afirma, “Acerca disto a atitude deles é bem diferente daquela do Apóstolo Paulo; e sobre isto, eles ilustram perfeitamente o egoísmo construído bem em cima do próprio coração da teologia calvinista”[10]. Em uma troca de dizeres, Talbott desafia Piper perguntando-o como ele reagiria ao conhecimento de que Deus não elegeu um de seus filhos. Piper replica,

Mas eu não sou ignorante que Deus pode [ênfase original] não ter escolhido meus filhos para seus filhos. E, mesmo que eu penso que daria minha vida pela salvação deles, se eles se perdessem para mim, eu não me oporia ao Todo-Poderoso. Ele é Deus. Eu sou só um homem. O Oleiro tem direitos absolutos sobre o barro. O meu é curvar-se diante de seu caráter impecável e crer que o Juiz de toda a terra sempre fez e sempre fará o que é correto[11].

Apesar de seu comprometimento e candura serem impressionantes, Piper parece conceder o ponto central de que a teologia reformada ensina que Deus pode não amar nossos filhos o tanto que nós o fazemos.

Talbott argumenta que desde que a teologia reformada ensina que Deus tem a capacidade de trazer salvação a todos por uma obra monergística de regeneração mas escolheu não fazer desta forma, então o calvinismo é culpado de uma série de pecados. Primeiro, teologia reformada comete blasfêmia – porque atribui qualidades demoníacas a Deus; segundo, egoísmo – porque npos ensina a nos preocupar mais com a nossa eleição que a alheia; e terceiro, rebelião – pois falha em obedecer o comando de amar o próximo como a nós mesmos [12]. Talbott conclui que teologia reformada pode ser resgatada apenas se seus aderentes combinarem as tradicionais doutrinas de eleição incondicional e graça irresistível com uma afirmação de amor universal divino. O resltado seria o universalismo e isto se encaixa bem em Talbott [13].

Apesar de um ser arminiano e o outro calvinista, Truesdale e Talbott fazem argumentos semelhantes. A natureza amorosa de Deus implica que ele tem apenas um desejo de para a humanidade – a redenção de todos. Suas conclusões excluem entendimento do alerta de Jesus em Mc 16:16, “aquele que não crê será condenado”, como referente à punição eterna.


Salvação e Soberania de Deus: A Grande Comissão como a Expressão da Vontade Divina (II)

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II. As Duas Primeiras Opções: Deus Tem Uma Vontade

Aqueles que enfatizam a simplicidade de Deus geralmente argumentam que existe somente uma vontade em Deus[2]. Esta abordagem geralmente requer que a natureza de Deus é entendida com um atributo divino como o mote controlador pelo qual todos os outros atributos são interpretados. Uma teologia que vê a fundamental essência de Deus como amor será muito diferente de um sistema baseado na suposição da primazia da vontade divina. Seja baseado no amor ou na volição divinos, a abordagem de uma só vontade tem dificuldades ao explicar o argumento por detrás de todos os componentes da Grande Comissão, a saber, que todos devem ouvir o Evangelho mesmo que nem todos creiam.