Traduções Crédulas: Romanos 13: Comandado pelo Pecado, Ordenado pelo Amor

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Pois bem, como dantes afirmado, vou postar algumas variedades. Em especial, algo que estou estudando e me fascinou: anarquismo cristão!

Aqui, neste artigo, teremos uma argumentação acerca de uma passagem muito usada para se defender uma espécie de letargia cristã sobre ser contra “Estados democráticos e legitimamente constituídos pelo próprio Deus” (ainda que isto implique bater palmas para ditadores e psicopatas de colarinho branco).

Sim, agora Credulo também é política! Enfim, espero, como sempre, que leiam e reflitam.

Romanos 13: Comandado pelo Pecado, Ordenado pelo Amor

Do princípio – o Imperador Romano Teodósio I assinou o decreto, e toda Roma foi coagida ao Cristianismo. Desde então, como o economista Ludwig von Mises muito bem notou, o Cristianismo jamais foi capaz de abolir a espada em larga escala[1]. Pois política corrói o homem – a politicalização de uma dada coisa muda profundamente o homem e suas ideologias. Política modificara a Cristandade também – profunda e drasticamente – e o resultado final são contradições, bem como completa alienação. Romanos 13, a história mostra, tem tido papel central nesta politicalização tanto quanto o episódio do tributo que foi tratado da última vez. Romanos 13, porém, sendo interpretado com a intenção de apoiar o Estado, ou de ver o Cristianismo como apoiando o Estado, leva-se desta forma a contradições, alienação, falsa interpretação, e mais definitivamente má tradução.

Deve-se manter em mente quão crucial é este texto para o cristão anarquista – não se pode escapar da discussão de seu conteúdo quando falando sobre qualquer coisa envolvendo anarquismo cristão. Além disso, o movimento anarquista não é muito afetuoso disto, e por muitas boas razões – ele tem sido usado para o Direito Divino dos Reis [2], bem como o Direito Cristão para justificar o governo [3]. Monarca King James I declamou sua autoridade quando ele escreveu o Capítulo 20 de suas Obras (1609) que “o estado da monarquia é a coisa mais suprema sobre a terra; pois reis são não apenas os policiais de Deus na terra e se situam diante do trono dEle, mas mesmo Deus os chama ‘deuses\'”. Similarmente, e um pouco mais recentemente, o evangélico estadunidense John MacArthur escreveu que o princípio da subjugação às autoridades governantes é “inqualificado, ilimitado, e incondicional … o texto não faz distinção entre boas e maś autoridades, ou leis justas e injustas”: no mais, “cada um de nós deve estar pronto a se submeter àqueles que nos estão comandando”[4]. Isto não é um ponto de vista muito bom – o movimento anarquista está muito bem justificado em ser naturalmente alienado do verdadeiro movimento cristão existente como seu resultado. Porém, esta alienação não é de tdo substanciada pelos reais fatos, e muito pelo detrimento do movimento, assim como será explicado detalhadamente antes do fim da nossa análise.

Esta interpretação criou grande hostilidade para o cristianismo na maior parte dos círculos anarquistas ao longo da história, tratando o Estado e religião como uma besta – que não se pode ter igreja sem estado, que ambas são parte de um mesmo princípio escravizador – talvez mais famosamente expresso por Mikhail Bakunin quando ele escreveu “não há, não pode haver, um Estado sem uma religião” [5], que debaixo do Cristianismo, “todos os cidadãos têm o débito moral [para com os “legisladores inspirados pelo próprio Deus”] passiva e ilimitada obediência; pois contra a razão divina não há razão humana… Escravos de Deus, homens devem também ser escravos da Igreja e do Estado, na extensão que o Estado é consagrado pela Igreja” (ênfase de Bakunin) – “sua existência necessariamente implica a escravidão de todos que estão debaixo dele” [6], e como tal ofereceu a agora infame inversão, “se Deus realmente existisse, seria necesário aboli-lo”[7]. Esta opinião tem sido largamente adotada por anarquistas da maioria das estirpes, tais como Benjamin Tucker, que traduziu God and the State de Bakunin para o inglês e a crítica da religião pelo egoísta Max Stirner[8].

Não apenas isto irou ateístas, mas também tem causado rejeição entre anarquistas cristãos; mais notavelmente Leon Tolstoi, em sua obra datada de 1882 “Igreja e Estado”, que afirma que o Cristianismo “exclui da adoração externa de Deus [comandantes e estadistas]” e “positivamente repudia posicionamento de comando” mas afirma que a ligação entre o Estado e o Cristianismo é um desvio e que “este desvio começou nos tempos dos Apóstolos e especialmente a partir do insistente desejo de comando por Paulo”[9]. Esta crítica também é ecoada pela figura de de grande significância para o pensamento anarquista e modernista, ainda ele mesmo não sendo anarquista, Friedrich Nietzche em O Anticristo que criticou os Apóstolos, e especialmente Paulo, por falsificar a história do Cristianismo, Israel, e a da humanidade para seus propósitos [10]. Mas isto tudo é devido a uma falta de entendimento apropriado, tanto a rejeição do Cristianismo em si quanto a rejeição da mensagem de Paulo no livro de Romanos pelos anarquistas é em detrimento de um entendimento mais completo da Escritura, um entendimento que este artigo estabelecerá será de ajuda ao anarco-pacifismo, e rejeitará a noção de uma subserviência a um Estado ostensivamente ordenado por Deus.

O que nós pretendemos aqui, então, é tomar o texto grego dos versos, e começar a traduzir e dar uma análise da passagem[11]. Nós não pretendemos criticar outras interpretações per se, dado que existe ou existirá literatura que faça isso melhor que nós (veja a seção “leitura posterior”). Em vez disso, nossa intenção é mostrar uma interpretação histórico-gramatical do texto – a qual necessariamente findará na posição do anarco-pacifismo cristão – e tentar uma conclusão grandiosa tanto em sua forma quanto em sua coesão geral. Uma análise teológica do texto nunca será perfeita, mas nós intentamos que ela seja forte o bastante para persuadir as pessoas a abandonar suas visões de que ser cristão deva necessariamente acarretar apoiar um Estado ordenado por Deus.

Devemos começar esclarecendo algumas coisas. Romanos 13 – no tanto que se pode dizer – não foi escrito com qualquer tipo de uso estoico em mente[12]. Não existe maneira alegórica ou metafórica exata de ler este texto. De fato, alguns estudiosos consideram Romanos 12-15 a parte “imperativa” do livro, dado que se pode ver pela análise histórico-gramatical que Paulo escreve para cristãos[13]. Não apenas isso, mas a seção toda do livro de Romanos é escrita de tal forma que é coesiva[14], com cada verso ligado inextricavelmente ao outro; como uma carta aos cristãos romanos, nenhum fragmento deve ser ignorado na análise[15].

É portanto de suma importância para nós notar a reiteração por Paulo dos ensinos de Jesus no Sermão do Monte (Mt 5:38-39) no fim do Capítulo 12 de Romanos: “Não te deixes vencer do mal, mas vence o mal com o bem” (Rm 12:21 AR). Rever o conteúdo de Romanos 13 sem entender Romanos 12 é arrancar o contexto das lições apregoadas – pois no coração de Romanos 12 está a divina ideia de que o cristão deve amar seu vizinho como a si mesmo, e não resistir ao mal com mal. Não é amar aqueles você prefere, mas até mesmo “abençoar aos que vos perseguem; abençoar, e não amaldiçoar” (Rm 12:14). Estes princípios são a própria fundação dos ensinos de Cristo, do pacifismo cristão e da filosofia de Paulo.

E isto nos leva a Romanos 13:1, uma linha que sela o assunto para muitos em favor do estatismo: “Toda alma esteja sujeita às autoridades superiores; porque não há autoridade que não venha de Deus; e as que existem foram ordenadas por Deus”. Parece ser um ponto final para o cristão – então devemos nos curvar ao Estado. Mas não é o que parece, como mostrado pelo tratamento de John Howard Yoder desta passagem em sua obra-prima The Politics of Jesus. Para começar, é salutar ber a passagem em sua forma grega e trabalhar a partir daí:

Πᾶσα ψυχὴ ἐξουσίαις ὑπερεχούσαις ὑποτασσέσθω. οὐ γὰρ ἔστιν ἐξουσία εἰ μὴ ὑπὸ θεοῦ, αἱ δὲ οὖσαι ὑπὸ θεοῦ τεταγμέναι εἰσίν:

Uma das palavras que temos que nos concentrar, ainda que não se possa lê-la, é τεταγμέναι, normalmente traduzida como “ordenada” ou “estabelecida” na King James e na NIV. Na verdade a palavra é o particípio perfeito da palavra τάσσω, que se pode concluir como significando “ordenar, arranjar, colocar no lugar” mais do que traduzido como “estabelecer, ordenar”. Isto muda a implicação por detrás dela, já que enquanto voltamos ao capítulo 12, lemos

“Não vos vingueis a vós mesmos, amados, mas dai lugar à ira de Deus, porque está escrito: Minha é a vingança, eu retribuirei, diz o Senhor” (Rm 12:19 AR).

Podemos começar a ver um ponto no que Paulo está exemplificando – submeta-se porque Deus arranja e alinha tudo, porque para um cristão Deus está, em última análise, no controle. Lemos em Yoder:

Não é dito que Deus cria ou institui ou dá ordens aos poderes que aí estão, mas apenas que os ordena, os coloca em ordem, soberanamente os diz aonde pertencem, qual é o seu lugar. Não é como se existisse um lugar onde não havia governo e então Deus fez o governo mediante uma nova intervenção criativa; existira hierarquia e autoridade e poder desde que a sociedade humana existiu. Seu exercício envolvera dominação, desrespeito pela dignidade humana, e real ou potencial violência desde que o pecado veio a existir. Nem é por ordenar especificamente este domínio que Deus aprova moralmente aquilo que o governo faz. O sargento não produz os soldados que ele põe em exercício; o bibliotecário não cria nem aprova o livro que ele cataloga e assenta à estante. Igualmente Deus não toma responsabilidade pela existência dos rebeldes poderes que aí estão ou por sua forma ou identidade; eles já estão aí. O que o texto diz é que Deus os ordena, os traz em posição, providencial e permissivamente os configura com seus divinos propósitos”[16].

Podemos ver o ponto de Yoder verificado em 1Samuel 8, que é a primeira vez que um governo é realmente mencionado, bem como está em Oseias 8:4.

Porém, vamos retornar à nossa análise do grego em Romanos 13:1 – nós não estamos nem perto de acabar de examinar o vocabulário, dado que há mais algumas coisas cruciais que devemos manter em mente: ὑποτασσέσθω em particular também advém de τάσσω, mas combinado também com a palavra ὑπο, que significa “debaixo de”, o que leva a significar “ordenado debaixo de”, num sentido de submissão voluntária – em vez do dogma comum de ser levado a tal porque há um comando. Isto nos remete a algumas sentenças no texto para o trecho de Romanos 12. Isto não nos dá qualquer implicação de uma absoluta obediência – pelo contrário, uma obediência voluntária e bastante condicional.

Esta obediência está encarnada na palavra ἐξουσίαι, a qual é traduzida como “autoridades”. N.T. Wright e Clinton Morrison apontam, ambos, profundamente que as autoridades que Paulo menciona nao são claramente distingudas entre terrenas e celestiais[17]. Isto não explica Paulo, mas podemos ver a natureza pervasiva até mesmo na moeda romana, onde o denário vinha cunhado “Tibério César, Adorável Filho de Deus, Augusto”[18]. Esta incrível mescla torna a palavra confusa de traduzir. Além disso, palavras mais específicas como ἀρχαὶ e δυνάμεις – “principados” e “potestades” respectivamente – podem indicar a metade escondida do significado da palavra ἐξουσίαι, e devem ser examinadas cuidadosamente.

Vê-se estes comandantes e poderes em Romanos 8:38-39, mostrando profundo escárnio por eles. Nesta veia, Paulo escreve que Cristo “tendo despojado os principados e potestades(ἀρχὰς e ἐξουσίας), os exibiu publicamente e deles triunfou na mesma cruz” (Cl 2:15). Paulo jamais para de mostrar que nada está entre o cristão e Deus[19] – as autoridades estão desarmadas e rendidas como inúteis. Esta voluntária submissão se mostra ela mesma uma profunda expansão do que Paulo escrevera antes – com a submissão das autoridades ocorrendo devido ao fato que Deus as colocou em seu lugar, que Jesus desarmou e tornou inúteis as autoridades, que deveríamos reservar a vingança a Deus, e a não resistir ao mal com mal: “Não vos vingueis a vós mesmos, amados, mas dai lugar à ira de Deus, porque está escrito: Minha é a vingança, eu retribuirei, diz o Senhor” (Rm 12:19).

Esta linha de pensamento não perde sua força enquanto se prossegue no texto, mas em vez disso continua a se desenvolver em Romanos 13:2, que lemos como:

E não vos conformeis a este mundo, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável, e perfeita vontade de Deus.

E no grego:

ὥστε ὁ ἀντιτασσόμενος τῇ ἐξουσίᾳ τῇ τοῦ θεοῦ διαταγῇ ἀνθέστηκεν, οἱ δὲ ἀνθεστηκότες ἑαυτοῖς κρίμα λήμψονται.

A palavra dantes mencionada significa “ordenar, colocar em lugar, arranjar” etc. – τάσσω – neste verso também. A palavra τάσσω é uma parte bastante crucial de toda esta passagem, como podemos dizer – além disso, é usada aqui a palavra ἀντιτασσόμενος, que combina ambos τάσσω e o particípio ἀντι, que é conotativo de “anti”, levando portanto a uma conotação que significa literalmente “contra a ordem”, ou ser contra a ordem estabelecida por Deus.

Devemos ser capazes de ver o óbvio neste ponto – isto também volta no que Paulo estava dizendo logo antes. Tudo está se encaixando – um cristão é de fato uma pessoa que crê que a vingança é de Deus somente, e que não resolve nada pelas suas próprias mãos. Um cristão deve ser pacifista diante das autoridades. Suscita-se a questão, também, se esta submissão voluntária é contingente a também permitir que eles reinem e submeter-se a qualquer um que venha com um revólver.

É simples: não resistir ao mal com o mal significa exatamente o que Jesus quis dizer. Não quer dizer que não devemos resistir ao mal de forma nenhuma, como Adin Ballou maravilhosamente apontou[20], mas resistir ao mal com o bem – com amor cristão. Paulo explica isto fortemente em Romanos 12 – mas o que isto acarreta per se? Isto acarreta abster-se do mal, e amar os inimigos e orar por eles. O Cristianismo Primitivo é conhecido por seus mártires que jamais revidavam, mas muios certamente fugiam, corriam, enquanto oravam, pregavam, e amavam[21]. Isto é o que significa não resistir ao mal com o mal – tanto assim deve um cristão se abster do que a Bíblia ensina como mal[22], e perseguir a fé em Deus. Não devemos nos esquecer da última parte, pois assim como Atos 5:29 diz: “Respondendo Pedro e os apóstolos, disseram: Importa antes obedecer a Deus que aos homens”.

Não precisamos retornar ao grego para ver mais uma vez que é o tópico da resistência ao mal mediante o mal que Paulo está abordando. Este ponto de resistir ao mal com o mal é adicionalmente exemplificado na tradução, como se lê nos versos 3 a 5:

[3] Porque os magistrados não são motivo de temor para os que fazem o bem, mas para os que fazem o mal. Queres tu, pois, não temer a autoridade? Faze o bem, e terás louvor dela;

[4] porquanto ela é ministro de Deus para teu bem. Mas, se fizeres o mal, teme, pois não traz debalde a espada; porque é ministro de Deus, e vingador em ira contra aquele que pratica o mal.

[5] Pelo que é necessário que lhe estejais sujeitos, não somente por causa da ira, mas também por causa da consciência.

Então é aqui que o conteúdo dos primeiros dois versos se entrelaçam: Resista ao mal não com o mal, mas em vez disso deixe Deus ter a vingança, pois é Ele que a detém; e Ele a fará, “porque todos os que lançarem mão da espada, à espada morrerão” (Mt 26:52). Isto também se conecta com muitas coisas, especialmente a ideia de que uma resposta branda afasta a ira (Pv 15:1), junto a muitos outros versos que mostram que o amor bloqueia o mal. Temos a profunda ideia aqui que Paulo está mostrando, e ela é: não resistir ao mal com o mal, que você será livre.

Adicionalmente, o verso quatro diz essencialmente para se fazer o correto e não transgredir os ensinos de Jesus, pois eles não portam suas espadas sem uma causa (εἰκῇ é a palavra traduzida para “debalde”, apesar de que poderíamos ter uma escrita mais forte com “sem uma causa”). Outro problema de tradução está no verso quatro – “eles são ministros de Deus”, no qual a palavra ministro (διάκονος), de fato é singular. É algo mais ou menos traduzido como “Ele é ministro de Deus”, com a palavra “comandantes” nem mesmo estando no texto grego do verso quatro. Além disso, o quarto verso não menciona comandantes, mas em vez disso deixa claro que quem quer que tenha uma espada está debaixo do controle e arranjo de Deus (vingança e tudo mais), e que transgredir o não resistir ao mal com o mal trará consequências.

O quinto verso então sela a disputa nesta interpretação, mostrando por que devemos voluntariamente nos submeter às autoridades – possível punição, mas também consciência por não deixar Deus lidar com a situação. Devemos nos afastar do mal, mas fazer isto em amor, pois é a ordem de Deus.

Ainda não estamos em bons lençóis após isto, porém, pois temos mais um obstáculo a ultrapassar antes de ter um completo entendimento do texto – a saber, Romanos 13:6. Porém, esta obstrução se mostra ilusória quando sujeita a uma análise mais próxima, na qual uma massiva falha de tradução confunde a verdadeira expressão do texto.

Ele lê-se:

Por esta razão também pagais tributo; porque são ministros de Deus, para atenderem a isso mesmo.

Porém, no grego se lê:

διὰ τοῦτο γὰρ καὶ φόρους τελεῖτε, λειτουργοὶ γὰρ θεοῦ εἰσιν εἰς αὐτὸ τοῦτο προσκαρτεροῦντες.

Devemos notar duas coisas faltando aqui: “autoridades” e “governo”. A anterior é traduzida como λειτουργοὶ, porém nada tem a ver com autoridades. Em vez disso, tem tudo a ver com ministro, pregador, ou servo – nada de poder autoritativo. “Governo”, por outro lado, parece advir de εἰς αὐτὸ τοῦτο” que se traduz como “a isso mesmo”, enquanto “προσκαρτεροῦντες” traduz-se como “atende a”.

A cereja do bolo é que esta passagem se torna “Pois é por isso que vocês pagam taxas, porque os pregadores (ou ministros, ou servos) de Deus aderem a esta mesma coisa”. Para prova suplementar desta tradução de “εἰς αὐτὸ τοῦτο” sem quaisquer explicações gramaticais no grego, podemos referenciar 2Co 2:3, Fp 1:6, 2Co 5:5 – todos eles usando os termos “τοῦτο αὐτὸ”, “εἰς αὐτὸ τοῦτο”, ou o plano “αὐτὸ τοῦτο”, mas eles também são traduzidos para “esta mesma coisa”.

É claro que esta passagem não pode ser uma afirmação pró-taxação. Mesmo se imprecisadamente se tomasse a tradução dessa forma, encontraríamos profunda imprecisão histórica considerando o montante de recursos mostrando que taxas não iam para o governo no Império Romano. Em vez disso, deve ser um fato conhecido que as taxas iam para a expansão militar antes da concentração do governo [23] – para relembrar o conselho que o Imperador Septimus Severus deu a seus herdeiros, “vivam em harmonia; enriqueçam as tropas; ignorem todo o resto”[24]. Desde o tempo de Nero imperadores corrompiam a moeda corrente a fim de entesourar fundos para os crescentes custos do militarismo e da burocracia[25]. Esta taxa indireta em balanço de caixa se tornou cada vez pior debaixo da sucessão do Imperador Aurelius, com preços ainda maiores que qualquer época anterior na história do Império quando o herdeiro de Severus, Carcacalla, dominou[26]. O Império Romano periodicamente confiscaria propriedade, e cidades seriam obrigadas a alimentar, hospedar, e prover transporte para as tropas – os soldados até mesmo tinham a permissão de pilhar como bem quisessem[27].

Dando solidez à interpretação de Romanos 13:1-6, devemos olhar para o verso concludente logo ao final das passagens – “Dai a cada um o que lhe é devido: a quem tributo, tributo; a quem imposto, imposto; a quem temor, temor; a quem honra, honra”. Isto finaliza o ponto – voluntariamente submeter-se e não resistir ao mal com o mal. Dar a cada um o que lhe é devido – o que ao fim é sumarizado na Regra de Ouro de amar o seu vizinho como a si mesmo. É claro que no livro de Romanos, Paulo está sumarizando como o cristão piedoso tem que lidar com aqueles que são mais difíceis de amar: as corruptas, violentas, e degeneradas “autoridades” que perfazem o Estado, eles são o teste de obediência do cristão ao comando de amor universal de Deus.

Se o anarquismo se aliena da religião – jamais aceitando sua existẽncia, mas sempre querendo eliminá-lo -, então não há razão para ser anarquista. Uma ideologia política que ignora mais de três bilhões de pessoas no mundo não deve ser uma ideologia valiosa. A ideia de que anarquismo deve ser absolutamente contingente sem qualquer tipo de convicção pessoal – seja religiosa ou irreligiosa – é vã. Anarquismo é sobre a ordem factual dos seres humanos e entender como seres humanos se ordenam naturalmente. Pois, como disse David Hume, “… a estabilidade da possessão, a sua transmissão por consenso, e o desempenho de promessas. Estas são, portanto, antecedentes ao governo”[28]. Não devemos esquecer que o anarquismo é sobre a ordem natural da sociedade humana – dizer que religião não é pate de uma sociedade humana seria uma horrível ignorância de milhares de andos de civilização. Dizer que religião naturalmente produz mal é igualmente ignorante – pois a história mostra profundamente que nunca foi a religião que causou problemas, enquanto foi o poder político absorvendo a religião. Teodísio I é apenas um exemplo de muitos, junto com bem engendrados argumentos de como a desesperada necessidade do cristianismo em buscar poder político feriu a igreja mais que tudo[29].

Cristianismo necessariamente vai em linha com o anarquismo; Cristianismo necessariamente é anarquismo. É uma forma de anarco-pacifismo – ele submete-se a pacificar, mas resistir em amor, compaixão, e com profunda introspecção religiosa. Ele mostra que não há autoridade genuína exceto Deus, e tudo está debaixo do controle de Deus – a ira e a vingança são dEle, não do cristão. Anarquistas devem ser receptivos à oportunidade de conectar o cristianismo com o anarquismo, ou qualquer religião neste quesito, dado que ela leva consigo a importância da paz e do entendimento fundamental dos benefícios experimentados da cooperação, em oposição ao parasitismo do Estado. Descartar estupidamente um grupo inteiro é frustrar o propósito de espalhar a informação. Com amor, respeito e incisivo entendimento anarquistas podem verdadeiramente propagar as bases do anarquismo. Medo de confrontar a religião apenas leva ao medo de aceitar a ideologia anarquista, e uma amarga rejeição do que é tomado como caro por muitas das “pessoas do povo” é isolar o movimento das pessoas com dogmatismo intelectual.

No desespero de se alinhar à forma de pensar da sociedade, muitos cristãos – cujo principal objetivo deveria ser obter salvação – loucamente se agarram ao Estado. Com impressionantes movimentos apologéticos, muitos cristãos tentarão justificar o Estado mediante uso da Escritura, não importando que custos que se pode haver fazend isto. As mortes de milhões em cima de milhões de vidas inocentes na história não importam – a pessoa ainda assumirá que o Estado não tenta diretamente restringir seu relacionamento com Deus. A desesperada tentativa de usar a espada para expressar o Cristianismo é em vão – ao final, ela ainda arrancará totalmente as pessoas da fé. Se devemos amar a Cristo, devemos abandonar a espada, e abandonando a espada, devemos sua lealdade a qualquer Estado, , cujas origens iniciam-se forçando outros pelo medo e submissão a uma vontade humana singular; o Estado eleva sua lei acima de tudo mais, sua supremacia sobre a terra que possui arroga a uma totalidade sobre o espírito que somente poderia ser corretamente alegado por Deus – e nenhum cristão deve pregar fidelidade a uma força como essa. Analisando Romanos 13 em uma passagem de resistir ao mal com amor cristão, o cristão deve refletir em quem sua lealdade realmente pertence. A questão então se resume a: Deve o cristão tacitamente dar maior lealdade ao Estado temporal, ou veracidade à sua fé em um eterno Deus? Aquele pede por uma fidelidade até a morte, e este pede por todo seu coração, mente e corpo, e condena a ideia de ser morno. A escolha está aí para o cristão – escolha sabiamente.

Leitura Suplementar:

Stark, Thom. Peace and Security: Two Rival Gospels in Romans 13 (A History of Interpretation and Critical Appropriation). Pickwick Publications, forthcoming.

Citações:

[1] Mises, Ludwig Von. Theory and History: An Interpretation of Social and Economic Evolution. Auburn, Ala.: Ludwig Von Mises Institute, 2007. 43. Print.
[2] One can see some defense in this in Martin Luther’s Commentary on the Epistle to the Romans.
[3] An interesting sermon indicating that “Christians have a holy obligation to be the best citizens we can possibly be”: “God and Country Sermon, God and Country Sermon by Brian La Croix, Romans 13:1-13:5 – SermonCentral.com.” SermonCentral.com – Free Sermons, Illustrations, Videos, and PowerPoints for Preaching. Web. 06 Feb. 2011.
[4] MacArthur, John. “The Christian’s Responsibility to Government—Part 1 — John MacArthur.” Bible Bulletin Board. Web. 09 Feb. 2011.
[5] Bakunin, Mikhail Aleksandrovich. God and the State. [S.l.]: Cosimo, 2008. 84. Print.
[6] Ibid., pg. 24.
[7] Ibid., pg 27-8.
[8] Tucker, Benjamin R. “State Socialism and Anarchism: How Far They Agree and Wherein They Differ.” Instead of a Book by a Man Too Busy to Write One: A Fragmentary Exposition of Philosophical Anarchism. Adamant Media Corporation, 2005. 14. Print.
See also Stirner, Max. The Ego and its Own.
[9] Tolstoy, Leo. “Church and State.” Wikisource, the Free Library. Web. 31 Jan. 2011.
[10] Nietzsche, Friedrich. Twilight of the Idols/The Anti-Christ. Tr. R.J. Hollingdale. pg. 165-169 for a brief overlook, though Paul is mentioned many more times.
[11] One can join in and follow: http://www.greekbible.com/ offers a very well done Greek Bible, at the same http://biblelexicon.org/ is a strong lexicon. However, as Ricardo did when writing the Scriptural analysis, it is best to buy an authoritative lexicon, along with Google searching continually and cross-referencing. Immense scrutiny and thought should be applied at all times.
[12] There is a lot of back and forth thoughts on how much (or if at all) Stoicism is used in Paul’s writings, but there is hardly anything at all giving evidence that Paul used it for Romans 13. One can see this in Stoicism: Traditions and Transformations, where authors Steven K. Strange and Jack Zupko try to use Stoicism in the core of Paul’s teaching, but give no reference to Romans 13 using Stoic terms. Further, there is a strong rebuttal on the notion that Paul used Stoic language at all by Joseph Spencer called “Stoic Influence in the Writings of Saint Paul”. In James Hastings’ Encyclopedia of Religion and Ethics, he writes that “[Paul’s] views of the divine birth of Jesus, and of His resurrection…are unintelligible except in terms of Stoicism”, bur give no reference to the notion that Paul’s political views should be viewed in such a way.
[13] Thorsteinsson, Runar M. Roman Christianity and Roman Stoicism: a Comparative Study of Ancient Morality. Oxford [u.a.: Oxford UP, 2010. 92. Print.
[14] One should not forget that verses and chapters were not in the original manuscripts of the Bible, and was developed after. There are many different ministries that offer an overlook of this development, for example Rowland Croucher’s “Chapters and Verses in the Bible”.
[15] Bear in mind our scrutiny of the verses stops at 13:7, however, and that one can give analysis later in the chapter. Thom Stark wonderfully points out in The Human Faces of God, pg. 201-202, that Romans 13 also had much to do with the eschatological viewpoints Paul had, which is shown later in the chapter.
[16] Yoder, John Howard. The Politics of Jesus; Vicit Agnus Noster. Grand Rapids, MI: Eerdmans, 1972. 203. Print.
[17] See N.T. Wright’s “Paul and Caesar: A New Reading of Romans”, along with Clinton Morrison’s The Powers That Be.
[18] Tolstoy, Leo, and Constance Garnett. The Kingdom of God Is Within You. Mineola, NY: Dover Publications, 2006. 11-14. Print.
[19] Smith, Mahlon H. “Tiberius.” Virtual Religion Network. Web. 31 Jan. 2011.
[20] Romans 8:38-39
[21] Balasundaram, Franklyn J. Martyrs in the History of Christianity. New Delhi: Publ. for The United Theological College, Bangalore by ISPCK, 1997. Print.
[22] 1 Peter 3:11, Psalm 34:14, Psalm 37:27-29, Proverbs 3:7, Zechariah 1:4 to name a few passages.
[23] Bartlett, Bruce. “How Excessive Government Killed Rome”. The Cato Journal, Volume 14 Number 2, Fall 1994.
[24] Peden, Joseph R. “Inflation and the Fall of the Roman Empire.” Ludwig Von Mises Institute. 7 Sept. 2009. Web. 31 Jan. 2011.
[25] Bailey, M.J. “The Welfare Cost of Inflationary Finance.” Journal of Political Economy 64(2): 93-110.
[26] Schuettinger, Robert Lindsay, and Eamonn Butler. “The Roman Republic and Empire.” Forty Centuries of Wage and Price Controls: How Not to Fight Inflation. Washington, D.C.: Heritage Foundation, 1979. 19-20. Print.
[27] Haskell, H.J. The New Deal in Old Rome: How Government in the Ancient World Tried to Deal with Modern Problems. New York: Alfred A. Knopf, 1939. 216. Print.
[28] Hume, David. “Book III.” A Treatise of Human Nature. New York, NY: Barnes & Noble, 2005. Print.
[29] Boyd, Gregory A. The Myth of a Christian Nation How the Quest for Political Power Is Destroying the Church. Grand Rapids (Michigan): Zondervan, 2005. Print.

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