Regeneração Precede Fé? O Uso de 1João 5:1 Como Texto-Prova – O Argumento Gramatical para Regeneração Precedendo Fé em 1João 5:1

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O Argumento Gramatical para Regeneração Precedendo Fé em 1João 5:1

O argumento gramatical tem a ver com o tempo verbal como ele é usado em 1João 5:1a, e tende a vir em duas formas básicas. A forma 1 mantém que a combinação dos tempos estabelece regeneração como precedendo fé[3]. John Stott faz o argumento em seu comentário de 1João: `A combinação do tempo presente (ο πιστευων `crê’) e o perfeito [γεγεννηται, `nasceu de Deus’] é importante. Ela mostra claramente que crer é a consequência, não a causa, do novo nascimento. Nossa contínua atividade presente de crer é o resultado, e portanto a evidência, de nossa experiência passada do novo nascimento pela qual nos tornamos e permanecemos filhos de Deus[4]. A forma 2 não menciona explicitamente o contraste dos tempos verbais (tempo presente vs. perfeito), mas sem explícita menção do tempo presente do particípio do verso, invoca o verbo no tempo perfeito indicativo de 1João 5:1a (γεγεννηται) como estabelecendo sua ação (regeneração) como anterior à fé (que é afinal a ação indicada no presente particípio do verso)[5]. Robert Peterson e Michael Williams afirmam esta forma de argumento sucintamente: `O verbo no tempo perfeito em 1João 5:1, “nasceu”, indica que o novo nascimento é a causa da fé em Cristo'[6].

Porém, existem problemas fatais com este argumento de qualquer forma que o tornam inválido. Primeiro, alguns gramáticos gregos agora contendem que as formas de tempo gregas não expressam tempo (exceto talvez pelo tempo futuro), mas somente aspecto[7]. Se eles estiverem corretos, isto negaria o argumento gramatical para regeneração precedendo fé {n-sic} em 1João 5:1. Mas esta visão de um sistema de verbos atemporal grego permanece como minoria entre estudiosos[8], e eu estou inclinado a concordar com uma abordagem mais tradicional, perspectiva na qual este artigo é escrito[9].

Segundo, o presente particípio πιστευων é um particípio substantival, que funciona como nome[10]. O elemento de tempo tende a ser diminuído em particípios substantivais e pode ser completamente perdido[11]. De fato, particípios substantivais presentes `identificam por alguma característica ou ação costumeira ou condição, e frequentemente são equivalentes a um nome ou título'[12]. Portanto, ο πιστευων em 1João 5:1a é provavelmente equivalente aproximado a `o crente’, caracterizando seu referente como o crente sem qualquer indicação de quando começou a crença. Isto pode ser vazio de qualquer significado temporal de todo modo[13], o que o que claramente invalidaria o argumento gramatical que estamos criticando. Porém, a caracterização do referente de πιστευων como ação progressiva e função condicional de πας ο πιστευων[14] provavelmente implicam alguma forma de relacionamento temporal com o verbo principal γεγεννηται. Mas se assim for, então o argumento gramatical pra regeneração precedendo fé é invalidado tanto se não mais fortemente.

Se ο πιστευων e γεγεννηται são para serem relacionados temporalmente de alguma forma, como parece provável, então a gramática na realidade sugere que crer e ser nascido de Deus são retratados como contemporâneos (ou talvez que crer precede ser nascido de Deus; veja abaixo). É bem reconhecido pela maioria dos gramáticos que verbos indicativos gregos normalmente indicam o tão-chamado `tempo absoluto’ ou `tempo independente’, isto é, o tempo relativo à própria moldura temporal do autor/falante, o tempo da escrita ou expressão, enquanto particípios normalmente indicam tempo relativo ao tempo do verbo principal[15]. Especificamente, o perfeito indicativo `descreve um evento que, completado no passado… tem resultados existentes no tempo presente (i.e. em relação ao tempo do falante)'[16], enquanto o tempo presente normalmente sugere a ação do particípio como contemporânea à ação do verbo principal[17]. Portanto, exceto se na realidade isto retratar crer como precedendo regeneração (novamente, veja abaixo), a gramática de 1João 5:1a mais naturalmente retrata a ação do particípio substantival do verso (crer) como contemporânea com a ação do verbo perfeito indicativo (regeneração e seu estado resultante).

Mesmo se alguém postulasse que particípios substantivais normalmente transmitem tempo absoluto, ou que eles o fazem ocasionalmente e 1João 5:1a contém uma instância deste fenômeno[18], isto não implicaria que o tempo do particípio e o verbo principal seriam relacionados mediante o ponto de vista do autor de tal maneira que um particípio presente, localizado no presente do autor, seria necessariamente precedido no tempo por um indicativo perfeito, localizado no passado e presente do falante. Pois o tempo presente relacionado ao tempo do autor/falante não limita a ação do tempo presente, mas retrata a ação como tomando lugar no presente sem qualquer indicação de quando a ação começou ou quando ela pode acabar. Consequentemente, se o tempo presente particípio é relativo ao perfeito indicativo em 1João 5:1a ou transmite tempo absoluto, a gramática do texto deixa a ordem de fé e regeneração sem resposta (a não ser que ela sugira que fé precede regeneração; mais uma vez, veja abaixo), nulificando o argumento para regeneração precedendo fé.

Porém, isto não significa que a gramática impede fé ou regeneração precedendo a ordem. Pois como Daniel Wallace observou, a contemporaneidade assinalada pelo particípio presente `é geralmente bastante largamente concebida’, e de qualquer maneira permite prioridade lógica mesmo quando as ações em vista são cronologicamente simultâneas[19]. Mas isto significa que a gramática por si mesma não sugere qualquer prioridade, e que se alguma indicação de prioridade estiver presente no texto, ela deve ser derivada do contexto e não da gramática.

Por outro lado, pode ser que a gramática na realidade sugira que crer precede regeneração. Ernest De Witt Burton observa que com o particípio presente, `A ação do verbo e a do particípio podem ser da mesma extensão (Mc 16:20), mas não necessariamente. Mais frequentemente a ação do verbo cai no período coberto pelo particípio (At 10:44)'[20]. De fato, Wallace observa que o particípio presente `pode ser largamente antecedente ao tempo do verbo principal, especialmente se ele é articular (e portanto adjetival; cf. Mc 6:14, Ef 2:13)'[21]. E um particípio presente articular é exatamente o que temos em 1João 5:1a.

Além disso, ei já havia notado que a construção de 1João 5:1a contendo o particípio (‘Aquele que crer’, πας ο πιστευων) tem uma função condicional. O sentido condicional que ele capitula para a sentença carrega uma ideia genérica que transmite que se qualquer um, seja quem for, crê, então esta pessoa nasceu de Deus[22]. Agora, desde que ideias condicionais mais frequentemente indicam uma relação de causa-efeito entre a prótasis (causa; neste caso, crer) e a apódoses (efeito; neste caso, regeneração), o sentido condicional de 1João 5:1a fortalece ainda mais o caso que a gramática do verso sugere que fé precede regeneração[23].

Mas isto não é definitivo. Wallace faz o importante ponto que a prótasis e apódoses de uma sentença condicional podem se relacionar de outras maneiras além de causa e efeito[24]. Especificamente, elas podem se relacionar como evidência e inferência (i.e. a prótasis serve como evidência para a apódoses) ou como partes semanticamente equivalentes de uma sentença. O relacionamento evidência-inferência é a alternativa que é relevante aqui. Pois é concebível que fé evidencia que alguém nasceu de Deus. Ainda assim mesmo se 1João 5:1a fosse uma condicional evidência-inferência, isto não resolveria a questão da ordem entre fé e regeneração, porque fé poderia servir como evidência da regeneração ou porque fé causa regeneração[25] ou porque regeneração causa fé.

Agora um dos principais temas de 1João é a segurança da salvação, e portanto, evidências de salvação, de vida eterna, de pertencer a Deus (situação de filiação salvífica/nascido-de-Deus), etc[26]. Aparentemente, certos membros da comunidade cristã que João aborda na epístola vieram a comportar visões heréticas, deixando a comunidade, e desafiando a confidência de seus membros na doutrina apostólica e sua permanência como genuínos filhos de Deus (veja p.ex. 1Jo 2:18-3:3, 5:13). Então João identifica diversos fundamentos para segurança pelos quais sua audiência pode conhecer que eles, que continuam no ensino de João, são genuínos filhos de Deus, que portanto têm a divina aprovação e a vida eterna concedida. As várias asserções `nascidos de Deus’ na epístola servem a este propósito de dar segurança para a audiência de João, incluindo 1João 5:1 (veja também 2:29, 3:9, 4:7, 5:4,18). Portanto o sentido implicitamente condicional do verso provavelmente carrega um importe de evidência-inferência.

Porém, isto não elimina que também se possa carregar um sentido de causa-efeito. Como Wallace observa, as categorias de condições podem se sobrepor[27]. De fato, é praticamente auto-evidente que a presença observável de uma causa automaticamente dá evidência do efeito. Em outras palavras, se sabemos que A causa B, então observar A providenciaria evidência para a existência de B. Se fé acarreta regeneração, então alguém poderia estar certo que aqueles que creem foram regenerados. Em balanço, parece que ambos causa-efeito e evidência-inferência estão em jogo aqui, e portanto, todas as coisas estando iguais, a gramática do verso na realidade aponta um tanto fracamente que fé precede regeneração. Quer dizer, a própria gramática de 1João 5:1a dá algum leve suporte para tomar o verso como refletindo a visão que fé precede regeneração. Mas isto está longe de dizer que a gramática demanda fé como anterior à regeneração ou que ela foi intencionada afirmar isto especificamente ou mesmo que ela proíbe a ordem oposta. Mesmo assim, uma coisa é certa: a gramática não dá suporte positivo para a alegação que o verso ensina que regeneração precede fé.

Nós podemos demonstrar ambos, a falsidade da visão que os tempos dos verbos em 1João 5:1a necessariamente indicam que regeneração precede fé e precede fé, e o fato que particípios presentes podem pelo menos ser logicamente antecedentes aos seus verbos principais, olhando apenas nove versos adiante, em 1João 5:10b, onde a mesma combinação básica de tempos é usada: ‘Quem não crê [particípio presente substantival] em Deus tem feito [perfeito indicativo] dele mentiroso, porque ele não tem crido [perfeito indicativo] no testemunho que ele tem testificado [perfeito indicativo] acerca de seu filho'(ο μη πιστευων τω θεω ψευστην πεποιηκεν αυτον οτι ου πεπιστευκεν εις την μαρτυριαν ην μεμαρτυρηκεν ο θεος περι του υιου αυτου). Aqui o particípio presente substantival negado, ‘Quem não crê’, logicamente precede o perfeito indicativo, ‘tem feito’ (Deus mentiroso). No tempo, elas provavelmente são aproximadamente coincidentes. Mas é claro do contexto que alguém faz Deus mentiroso (i.e. faz dele mentiroso, implica que ele é mentiroso) por não crer. A descrença inicia a ação de fazer de Deus um mentiroso e permanece concorrente com ela ao longo da ocorrência. O descrente faz de Deus mentiroso como resultado de não crer nele. A próxima cláusula estabelece esta conexão explicitamente: `porque ele não tem crido…’ (ênfase minha). João 3:18 fornece outro claro exemplo: `mas quem não crê[presente particípio substantival] já está condenado [perfeito indicativo] porque ele não creu [perfeito indicativo] no nome do filho unigênito de Deus’ (ο δε μη πιστευων ηδη κεκριται οτι μη πεπιστευκεν εις το ονομα του μονογενους υιου του θεου). Novamente este texto explicitamente nos diz que a ação do particípio presente (descrer) é a causa da ação do perfeito indicativo (condenação). Mais exemplos podem ser produzidos[28], mas estes devem ser suficientes para provar o ponto que os tempos de 1João 5:1a não necessariamente indicam que regeneração precede fé, e de fato, que a construção usada no verso pode ser usada quando a ação do particípio presente precede a ação do perfeito indicativo de alguma forma.

Como dantes mencionado, uma forma (a forma 2) do argumento que estamos criticando não apela explicitamente para o relacionamento entre o tempo presente particípio e o perfeito indicativo em 1João 5:1a, mas apenas ao verbo no tempo perfeito `tem nascido’ (μεμαρτυρηκεν). É difícil saber cm certeza se existe um apelo implícito aqui à combinação dos tempos em 1João 5:1a. Alguém pode pensar assim, desde que o ponto do argumento é estabelecer um relacionamento particular entre fé  (expresso no particípio presente) e regeneração (expresso no verbo perfeito indicativo). Se for assim, então a forma 2 do argumento é invalidada pelas observações que já fizemos.

Mas se não for o caso, então considerações gramaticais básicas ainda tornam a forma 2 do argumento inválida. Pois, como mencionado acima, se os verbos gregos indicarem tempo afinal (e eu concordo com os muitos estudiosos que pensam que eles tipicamente indicam no indicativo), verbos indicativos indicam tempo relativo ao tempo de escrita/fala do escritor/falante, não tempo relativo a outros elementos da sentença. Além disso, exemplos tais como 1João 5:10b (discutido acima) se aplicam tão justamente quanto à segunda forma do argumento, mostrando que é tão indefensável quanto a forma 1. Pode haver outros argumentos que possam ser empregados para apoiar 1João 5:1 como texto-prova que regeneração precede ou causa fé, mas um apelo à gramática no assunto não é o mais razoável. É completamente sem base afirmar que o tempo perfeito de 1João 5:1a indica que regeneração preceda ou cause fé.

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