A Ordem da Fé e Eleição no Evangelho de João: Vós não credes pois não sois das minhas ovelhas – II.E

Padrão

E. São Todos Dados para o Filho: A Meta da Graça Preveniente

A discussão acima levanta um importante conjunto de questões. Lembre-se que estabelecemos antes de um exame das palavras de Jesus no Evangelho de João (vide Seção A) que aqueles que pertencem ao Pai são do mesmo conjunto que aqueles considerados como as ovelhas de Cristo, todas as quais são dadas pelo Pai para o Filho e que portanto achegam a Cristo em fé (6:37). Se, como argumentado nas seções precedentes, as ovelhas de Cristo que pertencem a Deus (Jo 8:47, 10:26) se referem especificamente àqueles israelitas que tinham respondido favoravelmente à graça preveniente de Deus e estavam portanto em um relacionamento correto de aliança com Deus nos tempos da aparição de Jesus para Israel, como devemos agora interpretar as condições suficiente acompanhantes de Jesus que o Pai dá todos dos mesmos arrependidos a Jesus (Jo 6:37, 17:2,6,9,24)? Em que sentido eles são dados? E por que isto é verdadeiro para todos eles?

A resposta para estas questões toca no próprio âmago do relacionamento entre o Pai, o Filho e aqueles que pertencem a Deus. Após a chegada de Jesus em Israel, era necessário que estes que foram fiéis à aliança anterior à apresentação de Jesus para Israel agora fizessem a transição para a nova era anunciada pela chegada do Messias-Pastor. Porque estes judeus preparados continuamente eram receptivos à graça preveniente resistível de Deus (o “trazer” e o “conceder” de Deus; Jo 6:44,65), estes mesmos poderiam agora ser levados por Deus para fé em Cristo, não porque tal chamado à fé em Cristo é irresistível, mas precisamente porque os corações destes judeus preparados já estavam num estado receptivo. Eles já haviam feito a escolha livre de estar ao lado da verdade (18:37) e de se render em arrependimento e lealdade a Deus. Consequentemente, Deus poderia, pela obra interior do Santo Espírito em seus corações, dirigir todos os seus fiéis que já lhe pertenciam para abraçar Jesus, o Messias-Pastor, como novo ponto-focal de sua fé e lealdade. Mediante as obras que Jesus falou (que eram as palavras do próprio Pai; veja acima) e a obra do Santo Espírito em seus corações, Deus assegurou que estes judeus receptivos que Jesus e fato foi enviado pelo Pai como ele afirmava, confirmando em seus corações a identidade messiânica de Jesus como o verdadeiro pastor e direcionando-os à fé nele. Estes filhos de Deus debaixo da Antiga Aliança não propuseram resistência final em seus corações quando Deus os dirigiu ao Filho desta forma, pois seus corações estavam já abertos à verdade revelada de Deus. Eles não precisaram ser determinados ou compelidos a aceitá-lo. Eles vieram livremente ao Filho.

É completamente esperado que Deus os dirigiria a Jesus desta forma, dada a natureza do relacionamento entre o Pai e o Filho como apresentada no Evangelho de João. Este relacionamento é um dos principais temas (senão o maior)de todo o livro. Talvez será útil tomar um momento e considerar a relacionamento mais cuidadosamente aqui. Como dantes notado, Jesus repetidamente identifica-se como aquele que foi enviado ou que veio do Pai (1:9,14; 3:2,13,17,19,31,34; 4:25-26,34; 5:23-24,36,38,43; 6:29,32-33,44,46,51,57,62; 7:16,18,28-29,33; 8:14,16,18,23,26,29,38,42; 9:4; 10:36; 11:27,42; 12:44-46,49; 13:3,20; 15:21; 16:5,28,30; 17:8,18,21,23,25; 20:21; cf. também 9:16, 29; 19:9). De forma semelhante, Jesus disse que quando ele deixasse este mundo retornaria ao Pai (13:1, 3; 14:2, 12, 28; 16:5, 10, 17, 28; 17:11, 13; 20:17). Em tudo que ele fez, Jesus desejou fazer não agindo de si mesmo, mas em vez disso debaixo da específica direção e aprovação do Pai (5:24,37; 6:27; 7:18). Portanto, as obras de Jesus eram as obras do Pai e Jesus fez apenas o que o Pai lhe mostrou para fazer (5:17,19; 8:28-29; 9:4; 10:25,32,37-38; 14:10). Semelhantemente, as palavras de Jesus eram as do Pai, e Jesus falava apenas o que o Pai lhe dissera para dizer (3:34; 7:16; 8:26,28,40; 12:49-50; 14:10,24; 15:15; 17:7-8,14). Em todas as coisas Jesus foi completamente dependente do Pai (5:30; 6:57; 8:28, 42; 17:7), e Jesus sempre buscou agradar o Pai fazendo a sua vontade (5:30; 6:38; 8:29,55; 10:18b; 14:31; 15:10; 18:11). Desta forma Jesus sempre trabalhou para a honra do Pai (7:18, 8:49).

As ações de Jesus acerca disso não se desenvolve meramente a partir de uma escolha funcional de sua parte, porém (apesar de que claramente tal escolha funcional estava envolvida), mas de uma unidade ontológica mais profunda entre ele e o Pai. O Evangelho de João abre com uma profunda afirmação de unidade (1:1-2), e a unicidade do Pai e do Filho é um tema recorrente ao longo do livro (8:29; 10:30,38; 12:44; 14:10-11,20; 16:32; 17:11,21-23). Por causa dessa unidade, apenas o Filho pode ser dito ter verdadeiramente visto e conhecido o Pai (6:46; 7:29; 8:38,55; 10:15; 17:25), e apenas o Filho revela a verdadeira natureza do Pai (1:18; 12:45; 14:9; 17:26). Não apenas o Filho divide o nome do Pai (17:11-12), mas o Filho pode ser dito ser igual com Deus e de fato ser o próprio Deus (1:1-2,18; 5:18). O Pai tanto glorifica o Filho quanto é glorificado pelo Filho (8:54; 11:4; 13:31-32; 14:13; 17:22,24; cf. também 8:50). Tudo que pertence ao Pai pertence ao Filho, e tudo que pertence ao Filho pertence ao Pai (16:15, 17:10). O Pai ama o Filho, e o Filho ama o Pai (3:35; 10:17; 14:31; 15:9-10; 17:23-24,26). O Pai e o Filho mutuamente residem no crente (14:23). Adicionalmente, o Pai coloca todas as coisas sob poder do Filho (13:3), incluindo poder de levantar pessoas da morte (5:21,26). Semelhantemente, o Pai concedeu ao Filho autoridade sobre todas as pessoas (17:2) e confiara todo julgamento ao Filho (5:22,27,30).

Em todas estas formas, nós vemos um relacionamento íntimo mútuo entre Jesus, o Filho, e Deus, seu Pai. Crucialmente, este relacionamento se estende para o caminho que pessoas vêm para conhecer Deus. Jesus afirmou, “Eu sou o caminho, a verdade, e a vida; ninguém vem ao Pai, senão por mim” {Jo 14:6 AR}. De acordo, deve-se honrar o Filho a fim de verdadeiramente honrar o Pai (5:23). A resposta a Jesus reflete ultimamente a resposta para Deus também, seja esta resposta conhecê-lo e aceitá-lo, ou odiá-lo (8:19, 13:20, 14:7, 15:23-24, 16:3). O Pai, de sua parte, promete amar todos os que amam seu Filho (14:21,23; 16:27).

Era precisamente esta união íntima entre o Filho e o Pai que foi questionada pelos líderes judeus e por muitos do povo judeu (veja p.ex. 7:25-52). Isto é especialmente significativo quando relembramos o significado histórico da aparição de Jesus a Israel: Jesus foi o Messias-Pastor prometido que veio para ajuntar as ovelhas de Israel e pastoreá-las em justiça, retidão, e paz. E ainda, em seu surgimento, os próprios líderes, de quem era esperado que fossem os sub-pastores para aquele povo, rejeitaram-no como o Messias (e.g. 7:47-49). Isto levantou uma importante dúvida nas mentes de muitos dos outros judeus: A rejeição de Jesus por parte dos líderes indica que ele, de fato, não foi enviado por Deus para pastorear o rebanho de Israel? Talvez a rejeição de Jesus por parte dos fariseus e escribas, de quem o povo normalmente teria considerado autoritativo em tais assuntos religiosos, indicava que Jesus não possuía, afinal, o relacionamento íntimo com Deus que ele alegava.

Jesus contra-respondeu estas dúvidas provendo uma explicação para a descrença dos líderes judeus (e a descrença de muitas das pessoas comuns também), a saber, que eles falharam em cumprir as condições necessárias e/ou suficientes para vir à fé nele (i.e. as condições que temos considerado neste ensaio). Estas condições, em certo sentido, são o recíproco do princípio supracitado de João 14:6, pois não apenas é Jesus o único caminho para o Pai, mas o Pai é o único caminho para Jesus. Esta é a essência das várias condições para vir à fé em Cristo expressas no evangelho de João. A não ser que se seja trazido e habilitado pelo Pai, não se pode vir a Jesus (as condições necessárias), e se alguém pertence a Deus como ovelha de Cristo e ouviu e aprendeu do Pai, então este certamente será “dado” pelo Pai para Cristo (as condições suficientes). Em cada caso, uma pessoa virá à fé em Cristo mediante a agência do Pai, portanto refletindo a união íntima do Pai e Filho.

Deve não ser surpreendente, portanto, que todos os judeus que pertenciam ao Pai seriam “dados” pelo Pai para o Filho. O relacionamento íntimo entre o Pai e o Filho obrigava que fosse desta forma. Não existia “terceira opção” disponível pela qual aqueles fiéis debaixo da aliança como foi revelada no Antigo Testamento de alguma forma poderiam continuar em favor com Deus mas falham em aceitar Jesus como Messias-Pastor de Israel. Uma vez que o Filho de Deus apareceu, não poderia haver relacionamento com o Pai sem um relacionamento com o Filho também, porque o Pai e o Filho eram um (10:30,38; 12:44; 14:10-11,20; 17:11,21-23) e compartilham todas as coisas em comum (16:15, 17:10). Se uma pessoa verdadeiramente buscou Deus, então ela aceitaria o testemunho do Pai acerca de seu Filho (5:37; 8:18). Não se pode ser um verdadeiro seguidor do Pai sem ser seguidor de Jesus (cf. At 3:23).

Podemos considerar as tentativas dos judeus resistentes de alegar Abraão e então Deus como seus pais como sendo uma tentativa de buscar uma “terceira via” (8:33,39,41). Eles buscavam obter um relacionamento com Deus sem ter que aceitar um relacionamento com Jesus. Jesus enfaticamente rejeitou sua tentativa de burlá-lo desta forma, argumentando que sua rejeição dele traía sua alegação que eles eram eles eram filhos de Abraão e de Deus. Os verdadeiros filhos de Abraão, como Abraão, teriam regozijado por terem visto o dia de Jesus (8:56), o dia da chegada do Messias prometido, pois Abraão foi homem de verdadeira fé e o pai de todos os que têm fé (Romanos 4:16-17). Os filhos de Deus, igualmente, teriam amado Jesus da mesma forma que o próprio Deus ama Jesus (3:35; 8:42; 10:17; 15:9; 17:23-26). O fato que estes judeus estarem indispostos a adotar os ensinos de Jesus (verso 31) ou amá-lo (verso 42) mostrou, então, que eles nem antes e nem naquele momento estavam entre os filhos de Deus (i.e. entre os que pertenciam a Deus).

As observações acima trazem uma importante lição teológica acerca da intenção de deus em sua dispensação da graça preveniente. As asserções de Jesus de que todos os judeus preparados sem falha seriam direcionados por Deus para receber Jesus como seu esperado Messias-Pastor (i.e. eles foram dados pelo Pai; 6:37, 10:29, 17:2,6,9,24) nos mostram que o Pai não tem outra meta final em sua dispensação da graça preveniente que a meta de levar o fiel até seu Filho. Mais sucintamente:

Cristo é a única meta do Pai na dispensação da graça preveniente.[4]

Deus não tem outra alternativa para os judeus fiéis. Todo e qualquer um que respondeu à oferta divina de graça preveniente foi direcionado por Deus para Cristo, precisamente porque o Pai e o Filho existem em íntima união, e o Filho é a culminação e pináculo do plano redentivo do Pai para a humanidade (Ef 1:9-10). Não podia haver resíduo do fiel que de alguma maneira desprezasse Cristo, pois Deus não permitiria tal resultado. Ele ativamente intervém para levar a Cristo todos os receptivos que pertencem a ele. Não existe “terceira opção”.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s