Traduções Crédulas: Eleição Corporativa É Meramente Eleição Virtual? por William W. Klein

Padrão

Um texto não muito curto sobre eleição corporativa.

Eleição Corporativa É Meramente Eleição Virtual? Um Caso de Estudo em Contextualização

por William W. Klein [1]

Tradução: Credulo from this WordPress Blog

Fonte (PDF):

Em seus diversos tratamentos do assunto da eleição, os assim-alcunhados “calvinistas” desconsideram qualquer conceito significativo de eleição corporativa. Apesar de muitos, incluindo o próprio Calvino, podem bem admitir que a igreja é o corpo eleito de Cristo, Calvino e seus cognominados rapidamente acrescentam que tal noção é sem sentido a não ser que os membros particulares deste corpo são especificamente inclusos entre seus lugares. Por exemplo, nas palavras de C. S. Storms,

Eleição divina pode ser definida como aquela amorosa e misericordiosa decisão de Deus Pai conceder vida eterna para alguns, mas não todos, os pecadores merecedores do inferno… Não se pode entrar nas posições dos eleitos cumprindo uma condição, seja ela fé ou arrependimento. Entra-se nas posições dos eleitos em virtude da livre e completamente graciosa escolha de Deus, como resultado dela que somos habilitados a nos arrepender e crer. [2]

Na visão de muitos intérpretes como Storms, não podemos falar do assunto da eleição de qualquer maneira significativa sem postular, fundamentalmente, que Deus escolhe indivíduos específicos para salvação. A escolha pode vir dos inescrutáveis propósito e vontade de Deus estabelecer sua escolha de indivíduos específicos (para calvinistas), ou pode ser baseada em sua presciência de quem exercerá fé (para arminianos clássicos), mas muitos estudiosos insistem que Deus escolhe indivíduos para salvação, e que a igreja só é o corpo eleito porque é composta de indivíduos eleitos. Eu desejo desafiar esta noção e hipotetizar que podemos de fato falar da escolha de Deus da igreja em Cristo sem também implicar que Deus especificamente escolheu os indivíduos que iriam compor esta igreja.

Uma maneira de conseguir isto é responder a um estudioso em específico que tem escrito especificamente sobre este assunto. No exemplar da JETS de março de 1993 Thomas Schreiner conduziu um estudo de Romanos 9 a fim de determinar se Paulo está ensinando aqui que Deus selecionou indivíduos específicos para salvação eterna[3]. Ele responde ao que ele crê ser as duas mais comuns objeções para a posição calvinista em Romanos 9:

  1. que Romanos 9 fala de nações, não indivíduos;
  2. que Romanos 9 trata da salvação como entidades corporativas, não indivíduos.

Eu proponho responder a estas tentativas de salvar o entendimento calvinista de Romanos 9, e no processo mostrar, assim espero, que a eleição não é uma abstração sem sentido, ou, em termos mais contemporâneos, não meramente eleição virtual.

Primeiro, muitos intérpretes bíblicos afirmam, junto com estudiosos como Schreiner e outros, que a evidência de Romanos 9:15 mostra que a preocupação de Paulo é com a salvação de indivíduos. Aqui Paulo diz, como você relembrará, “Terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia, e terei compaixão de quem eu tiver compaixão” (NRSV). Concedido — Deus demonstra misericórdia ou endurece quem ele quiser, indivíduos ou grupos. A distração aqui não é se Deus lida com indivíduos — nem a salvação de indivíduos — mas a base na qual ele responde a indivíduos, e a base na qual ele lhes confere salvação [4]. Como a seção completa Rm 9:30-10:21 deixa claro, a preocupação de Paulo é com a falta de fé de Israel- digamos assim, a falta de fé dos indivíduos judeus. O critério que Deus aplica a pessoas individuais é esta: creia no Cristo ressurreto e como Senhor e você será salvo; persiga ou insista na justiça por quaisquer outros meios, e você falhará em obter salvação (10:9; 9:30-32). O assunto para indivíduos é a presença ou ausência de fé, não se eles foram ou não individualmente escolhidos por Deus para salvação.

Calvinistas tipicamente argumentam, em segundo, que a presença de um remanescente envolve a seleção de indivíduos de um grupo corporativo maior. Novamente, concedido; mas as questões permanecem as mesmas: que critérios determinam se alguém é ou não membro do remanescente? De acordo com Paulo, a massa dos judeus não estava entre o remanescente devido à sua descrença, não porque Deus nunca os elegeu para salvação. Em Rm 11:20 Paulo diz, “…Eles foram quebrados por causa de sua descrença, mas você permanece apenas pela fé…” Então em 11:23 Paulo acrescenta, “E mesmo aqueles de Israel, se eles não persistirem em descrença, serão enxertados…” Então o assunto não é se alguém pode se referir a um grupo chamado “eleitos” como escolhidos; o assunto concerne o que conta para sua escolha.

Talvez uma nota de uma das principais parábolas de Jesus seja importante aqui, pois ela trata de inclusão e exclusão de pessoas do reino dos céus. A parábola do banquete de bodas anotada em Mt 22:1-14 clarifica, penso eu, o assunto central. O rei da história não predeterminou quem finalmente se assentaria no hall para desfrutar da celebração. Ser incluso no banquete requeria responder ao convite do rei em seus termos. “Pois muitos são chamados e poucos escolhidos” (Mt 22:14). De acordo com o significado da parábola, é claro que os judeus rejeitaram o convite de Deus para eles e foram desqualificados — na parábola o rei “destruiu aqueles assassinos, e queimou sua cidade” (Mt 22:7). Enquanto isto, “os de fora” foram reunidos para ajuntar-se às festividades. Jesus define os eleitos como aqueles que respondem ao convite de Deus para crer em Jesus.

Terceiro, em seus ensaios Schreiner interpreta erroneamente a minha posição (e a de outros) quando ele diz que somos inconsistentes em 9:30-10:21, pois aqui apelamos para decisões de indivíduos — de fato, como eu disse acima. Apesar de eu não alegar ser capaz de evitar inconsistência, eu não duvido que Paulo fale de indivíduos nesta seção. Eu certamente concordo com Schreiner que a discussão de Paulo revolve entre ambos a nação e entidades corporativas por um lado, e membresia de indivíduos nestes grupos corporativos de outro. A nação de Israel foi corporativamente eleita, mas judeus individuais podem ou não ser parte do remanescente. Agora com o advento de Jesus, judeus devem crer nele para serem salvos. Paulo deixa isto claro, “Pois nem todos os israelitas realmente pertencem a Israel” (9:6, NRSV). Nesta era a igreja assume a categoria de “meu povo” anteriormente aplicada a Israel (9:25-26; cf. 1Pe 2:9-10), mas indivíduos tornam-se membros deste povo somente mediante sua fé em Jesus Cristo. Paulo não faz menção de eleição para abordar por que indivíduos populam o novo povo escolhido.

Noutras palavras, não estou dizendo que a ênfase nas entidades corporativas em 9:1-29 elimina todas as referências a indivíduos dentro destas entidades. meu ponto é simplesmente este: quando Paulo diz que Deus escolheu Isaque (um indivíduo) e seus descendentes (uma corporação) ou Jacó e seus descendentes, Paulo clarifica a formação da nação de Israel, não como indivíduos israelitas obtiveram salvação eterna. O assunto do endurecimento de Faraó (um indivíduo) importa em seu papel para o drama das nações, não para sua salvação pessoal. Como eu argumento em meu livro, The New Chosen People. A Corporate View of Election[5], autores bíblicos citam muitas escolhas por Deus de indivíduos — isto é, pessoas selecionadas para ministérios e funções, como exemplo de Abraão, Isaque, Jacó e Faraó mostrados em Rm 9:6. Porém, quando Paulo vem a discutir como Deus dispensa salvação a indivíduos (ou membros de grupos corporativos), ele assinala fé como chave para obtê-la.

Quarto, e aqui chegamos ao assunto central em nosso estudo, Schreiner vê uma falha lógica em qualquer tentativa de basear salvação na fé da pessoa sem a predestinação por Deus dessa fé (como na visão calvinista). Ele pensa que para Deus eleger um grupo inteiro, como a igreja, logicamente acarreta que a fé de cada membro do grupo salvo também deve ser o dom de Deus dado antes do tempo iniciar, e estas são suas palavras (página 36). Apenas um calvinista, ou alguém que pensa como um neste ponto, sentiria a força desta objeção, pois ela assume uma visão determinista da realidade. Isto é, de acordo com este tipo de pensamento, se Deus elege um grupo — a igreja — então desde que os membros do grupo são eleitos antes da fundação do mundo (na presciência de Deus), Deus deve predeterminar que cada membro daquele grupo deve vir à fé. Portanto, para o ponto de vista de Schreiner, eleição corporativa implica que “a fé do indivíduo não é decisiva para salvação” (página 36; ênfase minha).

Deixe-me repetir: Schreiner crê que qualquer um que afirme que Deus elegeu um grupo corporativo como a igreja deve também afirmar que a fé do indivíduo que vem a Cristo não é decisiva para sua salvação. Claro, isto contradiz muitos textos explícitos no Novo Testamento. Schreiner realmente crê que qualquer pessoa abrace uma visão que nega seu dado mais fundamental? Todos concordamos que fé individual é decisiva. Então, qual é a resposta?

Bem, se alguém não adere a tal visão determinista, esta objeção falha. Novamente, em muitos lugares a Bíblia claramente estipula que fé é decisiva para salvação. Nas apresentações do Evangelho por Jesus e Paulo, a necessidade dos indivíduos de confiar em Cristo é precisamente o que é decisivo para sua salvação e a falta desta é o que precisamente os exclui da vida eterna (e.g. Jo 3:16-21; At 2:37-42, 13:38; Rm 10:9-13 apenas para apontar alguns). Apesar das alegações de alguns escritores, eu creio que os escritores do Novo Testamento não dizem que Deus determina que certos indivíduos serão salvos e outros serão danados.

Assumindo uma visão tradicional da presciência divina[7], parece lógico para mim que um Deus todo-sapiente conheceria à frente do tempo quem será salvo (isto é puramente uma matéria de presciência, do que Deus sabe sobre o futuro) — e chama este grupo “os escolhidos” — e ainda assim requer que a confiança pessoal de cada indivíduo em Cristo estabeleça se ou não ele(a) será parte deste corpo. Simplesmente porque o onisciente Deus conhece quem estará no grupo não requer logicamente que Deus controle cada decisão pessoal dos indivíduos para aceitar ou rejeitar Cristo, quer dizer, para entrar neste grupo. Em uma instância esta é uma matéria do que Deus conhece; em outras palavras é uma matéria do que cada indivíduo faz com as afirmações de Cristo. Para tal assunto, Deus também conhece quais indivíduos rejeitarão Cristo. Deus determina sua rejeição e consequente danação? Um determinista consistente teria que afirmar que sim, e é precisamente esta a conclusão de J. Piper em seu livro The Justification of God[8]. Mas eu não concordo que para Deus escolher a igreja corporativa em Cristo acarreta sua seleção de cada indivíduo para estar neste corpo. Efésios 1:4 afirma precisamente a eleição da igreja em Cristo sem qualquer dica da escolha de Deus de indivíduos para popular este corpo[9].

Muitos calvinistas creem que no fim eleição corporativa acaba por ser a eleição de uma entidade meramente abstrata, o que nós podemos chamar de eleição meramente virtual, e portanto algo a ser rejeitado como ilógico de um lado e a-bíblico do outro. Schreiner usa a analogia da formação de um time recém-criado de baseball profissional para mostrar o quão absurdo ele acha a construção de uma eleição corporativa. Mas de fato, sua analogia demonstra a inadequação de seu argumento. Ele alega, “Não faz sentido dizer ‘Estou comprando um time profissional de baseball’ que não tem membros, jogadores, e então permitir quem quiser vir jogar no time” (página 37). EM tal cenário, Schreiner acredita, “Você escolheu que há um time cuja formação está totalmente fora de seu controle”. Finalmente ele diz “O ponto da analogia é que se existe realmente tal coisa como a escolha de um grupo específico, então eleição individual está implicada na eleição corporativa” (página 37).

Desenvolvimentos recentes no Colorado argumentam de outra forma. O ano 1993 marcou o primeiro ano de um novo time de baseball, os Colorado Rockies. Muitos anos antes disto, um grupo de propriedades fez uma representação para a Liga Nacional de Baseball para solicitar uma franquia para o Colorado e o time regional Rock Mountain. A proposta foi aceita pela liga. Neste ponto Colorado tinha um time de baseball, mas também neste ponto ele não tinha jogadores, nem membros, nem mesmo um gerente! Mas o time foi selecionado; ele tinha até um nome. Mas contrário ao julgamento de Schreiner, simplesmente não é verdadeiro que a composição do novo time estava totalmente fora do controle do grupo de propriedades. Também contrário à pressuposição de Schreiner, os novos proprietários não convidaram simplesmente quem quisesse jogar baseball para juntar-se à nova esquadra. Mas era verdade — bem como é com todos os outros times — que membresia no Rockies tecnicamente estava aberta a todos os jogadores qualificados. A nova equipe gerencial testou, traçou, e comprou os direitos a jogadores, mas a gerência e os jogadores tinham que negociar os termos de contrato até um complemento completo dos membros do time eventualmente emergir.

Então é possível comprar (digamos, escolher) um time que não tem membros. Isto aconteceu! Subsequentemente, jogadores foram solicitados, e aqueles que cumpriam os critérios requisitados para inclusão e que concordam com os termos do time, se tornaram parte dele. Ainda assim nós orgulhosos coloradenses afirmamos os Rockies como “nosso time” mesmo antes de quaisquer jogadores serem escolhidos; de fato eles compraram um número sem precedentes de tíquetes da temporada em antecipação à primeira temporada do time. Usando esta ilustração Schreiner está simplesmente errado em insistir que eleição corporativa acarreta eleição individual (página 37). Era possível escolher que existia um time antes de ele conter quaisquer membros. Admitidamente, isto acontece raramente no baseball, e mais raramente em Heilsgeschichte, mas isto pode acontecer. Não é ilógico permitir esta possibilidade.

Agora, é claro, eu posso ter apenas mostrado que a analogia de Schreiner foi pobremente escolhida, talvez um espantalho que ele escolheu porque pensou que ela faria seu ponto. Mas de fato eu creio que a falha da analogia é mais séria para toda a alegação calvinista de que eleição corporativa é a escolha de uma entidade abstrata. Pois nas mentes de muitos calvinistas, a objeçãoà eleição corporativa se fixa precisamente se é possível visualizar um grupo eleito à parte de ter os membros individuais do grupo também especificamente escolhidos para estar no grupo. Como é típico de defensores da eleição individual, Schreiner condena o conceito de eleição corporativa vendo-o como uma entidade abstrata ou classe vazia. Dando um tal rótulo pejorativo, ele crê que pode dissolvê-la.

Eu, por um lado, jamais argumentei que Deus escolheu uma entidade abstrata, não mais que quando Deus selecionou Israel para ser seu povo escolhido, Israel era uma mera entidade abstrata. Israel como nação foi escolhida, e cada indivíduo israelita foi um eleito. Quando Deus falou aquelas portentosas palavras a Abraão em Gênesis 12:1-3, ele estava selecionando uma nação – nele. Correspondentemente, a Igreja é o novo povo escolhido de Deus[10], e cada indivíduo cristão é uma pessoa eleita – nele, i.e. em Cristo. Isto explica por que numerosos textos do Novo Testamento afirmam que cristãos são eleitos (e.g. Rm 8:33, Ef 1:4, 2Ts 2:13). A questão chave permanece, porém: como alguém se torna parte do povo escolhido? Acerca de Israel, ser nascido de pais judeus estabelecia alguém como parte do povo escolhido. Na era cristã ser nascido de novo (ou nascido do Espírito) acrescenta uma pessoa na igreja, o corpo eleito de Cristo. Ser nascido de novo requer fé. Confiar em Cristo coloca alguém no Cristo corporativo, seu corpo eleito.

Levando isto a uma conclusão, deixe-me focar o que eu vejo como o pensamento de Paulo na parte final de Romanos 10. Paulo, citando Isaías que falava por Deus, lamenta a falha dos israelitas em crer apesar da clara pregação da mensagem (10:16-21). Por que parece que Deus expressa frustração sobre a falha dos judeus em aceitar a mensagem se ele bem sabe que ele não os elegera para salvação? Em vez disso ele os chama de um povo desobediente e obstinado (10:21). A propósito, isto lembra o lamento de Jesus sobre Jerusalém quando ele diz “quantas vezes eu quis ajuntar seus filhos como a galinha ajunta seus pintos debaixo das asas, e vocês não quiseram” (Mt 23:37 ênfase acrescida).

Schreiner crê que eu estou impondo “lógica ocidental” aqui ao levantar esta objeção. Mas esta rasa desconsideração do sentido do texto só funciona se o intérprete começa assumindo um ponto de vista calvinista. Eu contendo que uma leitura em valor de face do texto leva-me a concluir que Deus não predeterminou que indivíduos seriam salvos. Deus pode, de fato, querer que todos sejam salvos, assim como diversos textos do NT claramente implica (e.g. 1Tm 2:4, 2Pe 3:9, Jo 3:16), e que a lógica disso poderia bem afirmar que a aplicação da salvação então depende da decisão de cada de crer ou rejeitar a provisão de Deus. A explicação final de por que nem todos são salvos está em sua falha em crer, não em uma decisão divina misteriosa de não eleger aqueles que ele ama e deseja salvar.

Mas de uma maneira típica de certos intérpretes, Schreiner se retrairia para o conveniente oásis do “mistério”. Ele torna isto numa virtude: o apelo ao mistério mostra que calvinistas não estão dominados por lógica ocidental (página 39)! Mas pode ser que eles estejam tão dominados pelo seu sistema que quando deparados com obstáculos insuperáveis eles só podem apelar para o mistério? Até Schreiner admite que a explicação provida por uma visão da eleição corporativa elimina a necessidade de postular mistério aqui.

Cada intérprete deve decidir para onde o balanço da evidência cadencia. Minha preocupação não é que seja dado espaço suficiente para alternativas ao calvinismo. Talvez seja por causa de elas não serem tão adequadas em explicar os dados como são as explicações calvinistas. Se sim, elas devem ser merecidamente desprezadas com toda rapidez. Ou talvez alternativas ao calvinismo não foram adequadamente apresentadas, defendidas, ou dadas uma oitiva honesta. Esta pequena refutação é uma pequena tentativa de dar a uma alternativa algum pouco de defesa[11]. Mas pode haver uma questão diferente a levantar. Como contextualizamos tal discussão? Eu lembro de um orador do Denver Seminary aqui faz uns dez anos — Samuel Escobar, um estudioso latino-americano que estava correntemente ensinando na América do Norte. Ele nos disse em sua apresentação tanto ao norte quanto ao sul da fronteira com o México, ele geralmente perguntava às pessoas em suas audiências para interpretar a expressão familiar de Jesus, “Os pobres sempre estarão com vocês” (Jo 12:8). A típica interpretação norte-americana era algo como “Não importa quantos esforços são dispendidos em ajudar os pobres, sempre existirão pessoas pobres”. Então ele recitou a explicação de uma mulher mexicana de um barrio distante. Ela interpretou as palavras de Jesus como significando “Sempre existirão ricos para nos explorar”. As duas respostas dizem algo completamente diferente sobre os contextos dos intérpretes.

Que diferença faz que visão tomamos no debate sonre eleição individual versus corporativa? E o que a conclusão de alguém diz acerca do intérprete? Por que há intérpretes tão passionalmente convencidos que estão certos, mesmo quando eles chegam em conclusões aparentemente opostas? Sem dúvidas todos batalhamos com o entendimento de muitos mistérios na Bíblia. Mas devemos nos perguntar: Alguns textos são misteriosos porque eles apelam a categorias ou abordam um sistema de lógica que é estranho ou além de nós, ou eles são complicados porque estamos tentando fazê-los se encaixar em nossos próprios limites preconcebidos?[12] Podemos estar num impasse aqui. Eu penso se o assunto não se apoia em alguma espécie de lógica ocidental versus oriental, que um lado está mais em contato com a verdadeira perspectiva dos textos enquanto o pensamento do outro lado está nublado. Ou esta é realmente uma matéria sobre os comprometimentos prévios? [13] Os comprometimentos prévios dos assim-alcunhados calvinistas ou arminianos (ou qualquer rótulo que escolhamos) podem exercer bem mais força do que admitimos e fortemente determinar seus resultados exegéticos. Esta é a razão por que devemos seriamente examinar nossos pré-entendimentos, e honestamente questionar quantas vezes fazemos textos significando o que queremos que eles signifiquem[14]. Como os corretores nos relembram, “Localização, Localização, Localização”, nós intérpretes devemos apreender as implicações do “Contexto, Contexto, Contexto” — não meramente o contexto antigo do texto, mas o nosso também.


1 – William W. Klein é Professor de Novo Testamento no Denver Seminary, P.O. Box 100,000, Denver, CO 80250-0100.

2 – C. S. Storms, Chosen For Life. An Introductory Guide to the Doctrine of Divine Election (Grand Rapids: Baker, 1987), 30-31.

3 – “Does Romans 9 Teach Individual Election unto Salvation? Some Exegetical and Theological Reflections”. JETS 36/1 (1993) 25-40. Reimpresso com algumas revisões menores em T. R. Schreiner e B. A. Ware, ed. The Grace of God, The Bondage of the Will, 2 vols. (Grand Rapids: Baker, 1995), I: 89-106 e reimpresso mais uma vez em idem. Still Sovereign. Contemporary Perspectives on Election, Foreknowledge, and Grace (Grand Rapids: Baker, 2000). Números de página entre parênteses no texto abaixo se refere, ao artigo original na JETS.

4 – Eu creio que Schreiner erroneamente pensa que defensores da assim-chamada eleição corporativa negam que nesta seção, Romanos 9-11, Paulo não está preocupado com a salvação de indivíduos. Isto simples e obviamente não é o caso. Nós cremos que Paulo está preocupado com a salvação de indivíduos, mas também que ele usa princípios da seleção por Deus de Abraão, Isaque, Jacó, Faraó – e as nações que eles representam – para sublinhar que Deus escolhe, e que Deus tem o direito de escolher como bem lhe apraz. Mas isto é diferente de dizer que a passagem defende a visão que Deus escolhe indivíduos específicos para salvação.

5 – W. W. Klein, The New Chosen People. A Corporate View of Election (Grand Rapids: Zondervan, 1990; Eugene, OR: Wipf and Stock, 2001).

6 – Sobre a escolha por Deus de indivíduos no Novo Testamento, veja G. Quell e G. Shrenk, “evklegomai,” TDNT 4 (Grand Rapids: Eerdmans, 1967): 152-59.

7 – Claro, alguns estudiosos adotam diversas visões da presciência divina que não são tradicionais. Por exemplo, alguns contendem que Deus não conhece as ações futuras das criaturas que têm livre-arbítrio, desde que não existe nada a ser conhecido até tais ações ocorrerem. Veja, por exemplo, R. Rice, “Divine Foreknowledge and Free-Will Theism,” in C. H. Pinnock, ed., The Grace of God. The Will of Man (Grand Rapids: Zondervan, 1989) 121-139, os vários ensaios em C. H. Pinnock, ed. The Openness of God (Downers Grove, IL: InterVarsity Press, 1994), J. Sanders, The God Who Risks (Downers Grove, IL: InterVarsity Press, 1998), e G. A. Boyd, God of the Possible: A Biblical Introduction to the Open View of God (Grand Rapids: Baker, 2000). Apesar de eles levantarem assuntos fascinantes e importantes, neste ponto não podemos peeseguir tais desvios de nossos objetivos principais.

8 – J. Piper, The Justification of God (Grand Rapids: Baker, 1983).

9 – Em seu comentário sobre esta seção, K. Snodgrass, Ephesians, NIVAC (Grand Rapids: Zondervan, 1996), observa “… eleição é primariamente um termo corporativo. Nada em Efésios 1 foca em indivíduos; em vez disso, o texto foca coletivamente naqueles que estão em Cristo. Isto muda a teologia. Pessoas se tornam eleitas apenas no O Eleito – Cristo … Indivíduos não são eleitos e então postos em Cristo. Eles estão em Cristo e portanto são eleitos” (49). E. Best, Ephesians, ICC (Edinburgh: T. & T. Clark, 1998) chega a uma conclusão compatível: “Eleição e predestinação não são primariamente relacionados a salvação individual mas ao propósito de Deus” (119). Para uma visão oposta, veja P. T. O’Brien, The Letter to the Ephesians, Pillar (Grand Rapids: Eerdmans; Leicester, England: Apollos, 1999), que observa, “É inapropriado, porém, sugerir que eleição em Cristo é primariamente corporativa em vez de pessoal e individual” (99).

10 – Daí o título do meu livro, The New Chosen People.

11 – Para outra coleção de defesas dos pontos de vista semelhantes àqueles apresentados aqui (e em meu livro), veja os vários artigos em C. H. Pinnock, ed., The Grace of God. The Will of Man (Grand Rapids: Zondervan, 1989).

12 – Em seu livro Exegetical Fallacies, 2nd. ed. (Grand Rapids: Baker, 1996), D. A. Carson clarifica quatro sentidos em que as pessoas nos quais as pessoas querem dizer quando usam o termo ‘lógica’ no sentido de universais acordados, “as leis fundamentais da lógica, tais como a lei da não-contradição e a lei do meio excluído …” (89). Dado este entendimento, então, a questão não deveria ser sobre as maneiras ocidental versus oriental de pensamento quando falamos de ‘lógica’. O que significa para alguém afirmar ambos que Deus deseja que todas as pessoas sejam salvas e Deus seleciona apenas algumas para salvação? Isto contradiz a ‘lógica’ no sentido de Carson acima (i.e. vai contra a lei da não-contradição)? Me parece que sim, e nenhuma quantidade de apelo ao mistério ou a algum tipo de lógica não-ocidental apagarão a ilógica. Para esta parte sobre o assunto da divina soberania e do livre arbítrio, Carson acredita que devemos aceitar a tensão bíblica que os próprios escritores bíblicos ou nunca sentiram ou jamais tentaram resolver. Veja D. A. Carson, Divine Sovereignty and Human Responsibility. Biblical Perspectives in Tension (Atlanta: John Knox, 1981).

13 – Eu tive diversas oportunidades de ensinar na Ucrânia estudantes de muitos países dantes soviéticos. Sempre me estimula o quão “arminianos” eles são; o quão eles intuitivamente questionam o pensamento calvinista. Sem presumir conhecer todas as questões, eu penso se suas experiências de perseguição — e seus testemunhos de dantes membros da igreja que abandonaram sua fé — os levam a concluir que pessoas podem “perder” a salvação. Claro, não devemos basear teologia em experiência, mas suas experiências podem afetar como eles entendem certos textos. São seriam os estudiosos tão afetados quanto?

14 – Para perspectiva adicional sobre assuntos concernentes a pré-entendimentos dos intérpretes, veja W. W. Klein, C. L. Blomberg, R. L. Hubbard, Jr., Introduction to Biblical Interpretation (Dallas: Word, 1993) 98-116; 138-51.


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