A Ordem da Fé e Eleição no Evangelho de João: Vós não credes pois não sois das minhas ovelhas – II.D

Padrão

D. As características dos Judeus Preparados e a Natureza da Graça Preveniente

Encontramos confirmação adicional da perspectiva acima a partir das várias descrições no Evangelho de João daqueles que estavam dispostos a vir a Cristo, aquelas pessoas que identifiquei acima como os judeus que foram preparados mediante arrependimento e fé em Deus para a chegada de Jesus como Messias-Pastor. Por exemplo, Jesus diz em 7:17, “Se alguém quiser fazer a vontade de Deus, há de saber se a doutrina é dele, ou se eu falo por mim mesmo”. Esta afirmação sugere que submissão voluntária à vontade de Deus Pai é condição para reconhecer Jesus como o Messias. Este era precisamente o estado dos judeus tementes a Deus descritos nas seções precedentes. De maneira semelhante, a discussão de Jesus em 9:37-39 sugere que um requisito para aqueles que viriam à fé nele foi que eles reconheceram sua própria cegueira espiritual e culpa. Novamente isto reflete o arrependimento que era característico dos judeus que estavam preparados para o Messias.

Diversas outras características deste grupo podem ser inferidas de várias das declarações de Jesus feitas para o contrastante grupo de judeus descrentes do evangelho de João. As palavras de Jesus em 5:44 implicam que, em contraste com os judeus descrentes, os fiéis procuravam o louvor que vem de Deus. Semelhantemente, das palavras de Jesus em 8:42 podemos inferir que os judeus tementes a Deus foram preparados para amar Jesus porque eles vieram de Deus. Finalmente, de 8:44 podemos inferir que este mesmo grupo desejava levar a cabo o desejo de Deus seu pai, em contraste com os judeus resistentes, que desejavam levar a cabo a vontade do diabo. Estas várias características postas juntas indicam que os judeus “preparados” foram marcados por uma atitude de deliberado arrependimento, submissão, e um desejo de realizar a vontade de Deus. Ademais, podemos inferir do contexto que estas características precediam e motivavam a fé dos judeus receptivos em Jesus como o Messias-Pastor.

Provavelmente a característica dos judeus receptivos que é mais comumente expressa no Evangelho de João, porém, é que eles estavam abertos e receptivos à verdade que Deus havia revelado a eles. João 6:45 estabelece o tom neste assunto, “todo aquele que da parte do Pai tem ouvido e aprendido, esse vem a mim”. Aqueles verdadeiramente receptivos à instrução do Pai reconheciam Jesus como Messias e vinham a ele em fé. Mas de que forma o Pai lhes instruía? Claramente, uma maneira era mediante as próprias palavras de Jesus, que repetidamente enfatizou que ele falava apenas as palavras que o Pai lhe tinha dado para falar (3:34, 7:16, 8:26,28,40, 12:49-50, 14:10,24, 15:15, 17:7-8,14). Portanto, Jesus podia dizer daqueles que o Pai lhe dera que “eu lhes dei as palavras que tu me deste, e eles as receberam, e verdadeiramente conheceram que saí de ti, e creram que tu me enviaste”(17:8; cf. também 8:37,43,47).

Jesus indicou outra fonte de instrução do Pai em 5:46-47: “Pois se crêsseis em Moisés, creríeis em mim; porque de mim ele escreveu. Mas, se não credes nos escritos, como crereis nas minhas palavras?” Deus revelou verdade mediante a boca de Moisés no Antigo Testamento, incluindo verdade acerca do vindouro Messias. Os comentários de Jesus nesta passagem implicam que tais judeus que em fé aceitaram as palavras de Moisés e reverenciaram deus como ele foi revelado na Lei Mosaica certamente aceitariam Jesus como Messias (ao contrário dos líderes judeus para quem Jesus estava falando nessa passagem). Neste sentido, a afirmação “Pois se crêsseis em Moisés, creríeis em mim” paraleliza diretamente 8:47b, parafraseado como, “Se fôsseis de meu Pai, creríeis em mim”. Isto é, aqueles judeus que verdadeiramente aceitaram as palavras de Deus portanto pertenciam a Deus e satisfaziam a condição suficiente para vir a Cristo. Aqueles receptivos à Palavra de Deus mediante Moisés seriam receptivos à palavra de Deus revelada mediante Jesus.

Semelhantemente, quando os judeus abordados por Jesus alegaram Abraão como seu pai, Jesus respondeu “Se sois filhos de Abraão, fazei as obras de Abraão. Mas agora procurais matar-me, a mim que vos falei a verdade que de Deus ouvi; isso Abraão não fez”(8:39b-40). As palavras de Jesus aqui implicam que aqueles judeus que eram verdadeiramente da fé de seu pai Abraão (cf. Rm 4:16) e aqueles que estavam abertos à verdade de Deus (verso 40) reconheceriam a validade do testemunho de Jesus e o aceitariam como Messias, bem como Abraão exultou-se pelo pensamento de ver o dia de Jesus e alegrou-se (8:56).

Duas outras importantes passagens mostram que a abertura à verdade revelada de Deus era uma característica daqueles que cumpriam as condições para vir à fé em Cristo. A primeira é João 3:21, na qual Jesus estabeleceu que aquele que vem à luz (no contexto claramente se referindo à fé em Cristo) é aquele que vive pela verdade (3:21). Então novamente em 18:37 Jesus diz a Pilatos que “todo aquele que é da verdade ouve a minha voz”. Nestes casos, receptividade e lealdade à verdade claramente marcam aqueles que aceitarão Jesus como Messias-Pastor.

Esta última característica em particular (i.e. receptividade à verdade revelada) destaca o fato que muito do que estamos lidando nestas passagens pode ser visto como a resposta dos judeus tementes a Deus à graça preveniente. Relembre que graça preveniente pode ser definida como a graça de Deus estendida a uma pessoa anterior à salvação para o propósito de promover um arrependimento e fé autenticamente livres, mediante o qual a pessoa em questão pode então definitivamente se tornar um recipiente da graça salvífica. Muito comumente, graça preveniente é feita da divina revelação da verdade à pessoa, junto com a habilidade divinamente conferida de responder em fé à tal verdade se a pessoa assim escolher. Graça preveniente, como arminianos a entendem (e, como eu creio, a Bíblia apresenta) é resistível; isto é, o recipiente da graça preveniente tem a habilidade conferida por Deus de ou livremente aceitar ou livremente rejeitá-la (“livremente” no sentido de liberdade autêntica contra-causal; veja meu ensaio “Reflexões Filosóficas sobre Livre Arbítrio” para mais discussão). Se uma pessoa aceita a graça preveniente dada a ela, então Deus dá mais graça preveniente ou mesmo graça salvífica, como apropriado (dependendo da natureza e extensão da graça preveniente já recebida). Se uma pessoa rejeita a graça preveniente dada a ela, ela corre o risco de não lhe ser oferecida mais graça (veja a discussão sobre endurecimento em “Eleição em Romanos Capítulo Nove”). Eu notei anteriormente que arminianos tendem a identificar o trazer e habilitar de João 6:44,65 com o conceito teológico de graça preveniente. Quando Deus traz ou habilita uma pessoa a exercer fé em Cristo, estre trazer/habilitar é resistível.Esta é a própria razão que estas ações divinas particulares são apresentadas como condições necessárias pelo apóstolo João em vez de como condições suficientes para vir à fé em Cristo (veja discussão anterior).[2]

Os judeus preparados discutidos nessa e nas seções precedentes, portanto, podem ser compreendidos como aqueles judeus que responderam favoravelmente à graça preveniente estendida a eles por Deus debaixo da aliança como revelada no Antigo Testamento (para uma discussão da natureza da graça especial de Deus para Israel, veja meu ensaio “Eleição em Romanos Capítulo Nove”). Neste sentido eles tinham, em contraste com o restante dos israelitas, de seu próprio livre arbítrio (não debaixo de limitação de qualquer vontade determinativa de Deus) ouvido e aprendido do Pai (6:45), e por conseguinte se tornaram recipientes de uma forma de graça salvífica debaixo dos termos da aliança como ela fora revelada naquele tempo. De acordo, eles então desfrutaram a situação de pertencer a Deus como seu povo fiel, filhos e ovelhas (no sentido explorado na Seção B acima). Isto incluiu aqueles judeus que voltaram para Deus em genuíno arrependimento debaixo do ministério de João o Batista, aquele enviado para preparar o caminho do Senhor (Mateus 3:3).

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