Traduções Católicas: Westminster Pelagiana?

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E que preparem as tochas!

Neste texto, o ex-presbiteriano Barrett Turner mostra aonde a antropologia calvinista, especificamente em Westminster, se mostra pelagiana. Mas não de uma maneira usual – afinal, poucos se lembram que o pelagianismo é uma heresia antropológica, em vez de soteriológica.

Enfim, leiam e reflitam!

Westminster Pelagiana?

por Barrett Turner on Called to Communion

Tradução: Credulo from this Ecumenical Blog

Fonte: Pelagian Westminster?

O seguinte ensaio é uma contribuição do convidado Barrett Turner. Barrett completou seus estudos de graduação na University of Virginia. Nesta primavera ele graduou-se no Covenant Theological Seminary com um M.Div. Neste outono ele estará empenhado em seu doutorado em teologia moral na Catholic University of America. Ele vive com sua esposa e filha em Alexandria, Virgínia. Eles eram membros da Igreja Presbiteriana na América até terem recebido completa comunhão com a Igreja Católica na Vigília de Páscoa este ano.

Geralmente se ouve a acusação que a Igreja Católica, pelos Decretos Trentinos sobre justificação, adotou uma soteriologia semipelagiana [1]. Eu contendo aqui que calvinistas, de sua própria parte, devem dar satisfação pela semelhança entre sua visão da Aliança de Obras e a visão pelagiana de natureza e graça no estado original do homem.

Historicamente, a acusação de semipelagianismo contra a doutrina católica de justificação é difícil de apoiar, dada a condenação anterior da Igreja tanto da teologia pelagiana quanto da semipelagiana. O Segundo Sínodo de Orange, que foi aprovado pelo Papa Bonifácio II em 531, estabeleceu o seguinte:

Se qualquer um contende que Deus espera por nossa decisão para nos purificar do pecado e não confessa que a concessão do Espírito e sua ação em nós nos move para querer ser limpos, ele se opõe ao Santo Espírito que diz mediante Salomão, ‘A vontade é preparada pelo Senhor’ {Pv 8:35 LXX}””, e a pregação salutar do apóstolo, ‘É Deus quem opera em vós tanto o querer e o realizar a boa vontade’ {Fp 2:13} <Cânone IV>

E o Cânone XVIII do mesmo Concílio afirma:

Mérito algum precede graça. Recompensas são dadas por boas obras se elas são efetuadas; graça, que não é debitada, precede tal que elas sejam realizadas.

Demais para a acusação de semipelagianismo.

Em vez disso eu proponho que o calvinismo está mais próximo dos ensinos de Pelágio acerca do relacionamento fundamental do homem para Deus no estado primitivo do que o catolicismo. Mediante a doutrina da Aliança de Obras, como articulada pela Confissão de Fé de Westminster, a tradição reformada se aproxima da confusão de Pelágio sobre natureza e graça antes da Queda de Adão e Eva.

Para ver por que é este o caso, primeiro nós temos que entender o que constitui a salvação. A partir da reflexão dos Pais da Igreja sobre a revelação bíblica, a Igreja ensinara que a beatitude do paraíso consiste na visão imediata de Deus. Em outras palavras, a razão por que pessoas estão eternamente felizes no paraíso é porque eles verão Deus “face a face”; eles veem Deus como Ele é e como Ele Se vê. Este tema corre por toda a narrativa da Sagrada Escritura, do desejo de Moisés em ver a face de Deus (é claro, não se referindo à visão corporal) à promessa de São João que “quando ele [Jesus] se manifestar, seremos semelhantes a ele; pois o veremos como ele é.” (1Jo 3:2b AR). Santo Agostinho comenta este verso, conectando-o à visão beatífica:

Assim os santos anjos já veem, que são também chamados nossos anjos … Bem como eles veem, assim também veremos; mas não vemos assim. É por isso que o Apóstolo diz o que eu repito abaixo, “Agora vemos obscuramente por um espelho, mas então face a face”. Esta visão é reservada como recompensa, certamente, por nossa fé; e disto também o Apóstolo João fala: “Quando ele aparecera”, ele diz, “seremos como Ele, porque O veremos como Ele é”.[2]

O que estava em jogo na controvérsia pelagiana era mais que apenas se o homem precisava de graça antes da Queda para obter esta visão de Deus. O que é geralmente esquecido na controvérsia é um elemento adicional, a saber, se o homem precisa de graça mesmo no Jardim a fim de obter bênção eterna [3]. O Segundo Sínodo de Orange diz em seu décimo nono cânon:

Ninguém é salvo sem a misericórdia de Deus.Natureza humana, ainda que tivesse permanecido na integridade na qual fora criada, não pode de forma alguma se salvar sem a assistência de seu criador. Assim, desde que sem a graça de Deus ela não pode reter a salvação que recebera, sem a graça de Deus como ela será capaz de obter a salvação que perdeu?

Em contraste, Pelágio afirmou que após a ‘graça’ inicial da criação, Adão e Eva poderiam merecer a vida eterna por seus próprios esforços naturais [4]. Opondo-se à negação, por parte de Pelágio, da necessidade da graça de Deus para o homem obter salvação, os teólogos agostinianos postularam a necessidade da graça infusa para a salvação do homem anteriormente à Queda.

Santo Agostinho ensina que se o homem tinha que amar Deus sobre todas as coisas e para o próprio bem de Deus, ele precisaria da graça da caridade sobrenatural implantada em seu coração [5]. Com a caridade infusa, o homem é elevado de mera criaturidade para se tornar filho de Deus, capaz de amar Deus com piedade filial [6]. A Igreja eventualmente definiu formalmente o ensino da prioridade e necessidade da graça para salvação tanto antes quanto depois da Queda em pecado.[7]

Agora o padrão teológico para denominações presbiterianas conservadoras na América é a Confissão de Westminster e seus catecismos acompanhantes. Junto ao documento está a seção descrevendo o “Pacto de Obras”, uma doutrina calvinista tardia explicando como nossos primeiros pais herdariam a vida eterna. Como o teólogo reformado Louis Berkhof explica, se o hiato entre Deus e suas criaturas é infinito, não há possibilidade de uma criatura merecer qualquer coisa com respeito a Deus [8]. A doutrina do Pacto de Obras busca resolver este problema postulando um arranjo extrínseco pelo qual Deus promete vida eterna a Adão e seus descendentes mediante a perfeita obediência de Adão (CFW cap. 7 seção 2). Sem tal arranjo, o homem de forma alguma poderia merecer vida eterna de Deus.

O paralelo entre esta doutrina e o pelagianismo é que teólogos reformados que aceitam a tradição do Pacto de Obras atribuem a Adão e Eva uma retidão natural e um poder natural pelos quais eles manteriam o Pacto de Obras. Estes teólogos negam a doutrina católica que o primeiro casal precisava de uma caridade sobrenatural infusa em suas almas para fazer suas vontades proporcionais ao fim sobrenatural da visão de Deus. Berkhof é explícito aqui: “[O homem] foi por natureza dotado com a justiça original que é a glória coroadora da imagem de Deus”[9]. Portanto, para calvinistas com fidelidades a Westminster, a doutrina do Pacto de Obras implica neles uma visão pelagiana básica da salvação no estado original do homem.

Alguns calvinistas podem pensar que tal caracterização é injusta, especialmente porque qualquer aliança entre Deus e o homem contém um elemento de patronagem, como notado por Berkhof e ensinado pela Confissão de Westminster[10]. Portanto, mesmo o Pacto de Obras era ‘gracioso’ no que o seu arranjo foi feito pela complacência de Deus para o homem. Porém, o problema com esta objeção é que Pelágio também deixou espaço para ‘graças’ extrínsecas em seu esquema. Para Pelágio, ‘graça’ era ou o dom da criação inicial do homem (em especial as faculdades humanas do intelecto e da vontade)[11], ou da ‘graça’ da ‘lei e do ensino’ que auxiliaria a humanidade para salvação fazendo mais fácil para ela fazer o que ela não obstante poderia fazer de seu próprio poder da vontade [12]. Ninguém nega que a criação do homem é totalmente gratuita, então esta não pode ser uma doutrina controversa. Mais apropriada é a noção que algo meramente extrínseco ao homem possa ser a ‘graça’ necessária para salvação, tal como uma aliança ou lei. Limitando graça a coisas meramente extrínsecas, Pelágio poderia ainda manter que o homem por seu próprio poder é capaz de obedecer perfeitamente e portanto merecer eterna beatitude. O mesmo se obtém da ideia do Pacto de Obras articulado pela Assembleia de Westminster: tal pacto apenas adicionaria arranjo extrínseco ‘gracioso’ ao estado natural do homem. Ele não eleva realmente o ser humano tal que suas ações tenham uma qualidade salutar no domínio sobrenatural.

Em contraste, a teologia católica entende que a fim de Adão merecer a recompensa da visão beatífica, o relacionamento entre Adão e Deus no Jardim tinha que ser o de divina filiação. Não apenas Adão e Eva receberam o dom da existência como seres humanos com uma natureza racional, eles também receberam algo gratuito em acréscimo à sua existência e natureza, a saber, graça santificante e caridade. Pelos dons da caridade santificante e graça, eles eram mais que apenas criaturas de Deus; eles eram filhos de Deus, adotados e destinados para não mera imperfeita felicidade de criaturas. Adicionalmente a isto, Deus lhes deu real graça para inclinar suas vontades a escolher o bem, a saber Ele Mesmo. Deus os criou para um bem sobrenatural, a saber, ver Sua própria essência e compartilhar em eterna beatitude a Santa Trindade, preencher um destino adequado para filhos de Deus. É por isso que precisamos de algo em acréscimo à mera natureza humana, tal que possamos nos tornar participantes do divino ser (2Pedro 1:4).


1 – Semipelagianismo é a noção que o homem, por seu desejo natural e livre arbítrio somente, é capaz de começar a se virar para Deus, que então responde dando graça para aumentar a fé do homem e elevar o homem fazendo-o participante da natureza divina. Veja o artigo da Enciclopédia Católica acerca do semipelagianismo.

2 – Santo Agostinho, Cidade de Deus, 22, 29, 1.

3 – Acerca desta graça que Adão e Eva tinham antes da Queda, Santo Agostinho escreveu:

A anterior imortalidade o homem perdeu mediante o exercício de seu livre-arbítrio; a posterior ele deve obter mediante graça, apesar de que, se ele não houvesse pecado, ele teria obtido por merecimento. Mesmo neste caso, porém, não haveria mérito sem graça;porque, ainda que o mero exercício do livre-arbítrio do homem era suficiente para trazer o pecado, seu livre-arbítrio não bastaria para sua manutenção em justiça, exceto se Deus o assistisse transmitindo uma porção de Sua imutável bondade. Assim como está no poder do homem morrer quando quiser (pois, sem falar de outros meios, qualquer um pode colocar um fim em si mesmo pela simples abstinência de alimento), mas a mera vontade não pode preservar a vida na ausência de comida e de outros meios de vida; assim o homem no paraíso era capaz de sua mera vontade, simplesmente abandonando retidão, destruir-se; mas para ter mantido uma vida de retidão seria demais para sua vontade, a não ser que ela seja sustentada pelo poder do Criador. … Temos de entender, então, que os bons merecimentos do homem são eles mesmos o dom de Deus, tal que quando estes obtêm a recompensa da vida eterna, é simplesmente graça dada por graça. O homem, portanto, foi assim feito reto tal, apesar de incapaz de manter-se nesta retidão sem ajuda divina, ele pode de sua própria mera vontade apartar-se dela. (Enchiridion, 106-107.)

Em outro lugar ele escreveu:

Quando, de fato, Adão pecou ao não obedecer Deus, então seu corpo – apesar de ser um corpo natural e mortal – perdeu a graça pelo qual ele costumava em cada parte dele ser obediente para a alma. (On Merit and the Forgiveness of Sins, Livro 1, 21.)

4 – Santo Agostinho escreveu:

Por isto também os pelagianos têm sido arrojados os bastante para declarar, que graça é a natureza na qual somos criados, tal como possuir uma mente racional, pela qual somos habilitados a entender — formados como somos à imagem de Deus, assim como ter domínio sobre os peixes do mar, e sobre a ave do ar, e sobre cada ser vivo que rasteja pela terra. (On Grace and Free Will, 25.)

Em contraste à posição de Pelágio, Santo Agostinho argumentou:

O primeiro homem tinha não a graça pela qual ele jamais iria querer ser mau; mas seguramente ele tinha aquela em que se ele quisesse permanecer ele jamais seria mau, e sem a qual, além disso, ele não podia por livre arbítrio ser bom, mas que, não obstante, por livre arbítrio ele poderia abandonar. Deus, portanto, não desejará sequer ele estar sem sua graça, que a deixou em seu livre arbítrio; porque o livre arbítrio é suficiente para o mal mas é muito aquém para o bem, exceto se auxiliada pelo Onipotente Bem. E se o homem não tivesse abandonado a assistência de seu livre arbítrio, ele poderia sempre ser bom; mas ele a abandonou, e ele foi abandonado. Porque tal era a natureza do auxílio, que ele poderia tê-lo abandonado quando quisesse, e que ele poderia continuar nele se quisesse; mas não tal que poderia ser causado o que ele quisesse. Esta é a primeira graça dada a Adão. (On Rebuke and Grace, 31.)

05 – Cf. Romanos 5:5

06 – Santo Agostinho diz de Adão e Eva, “Assim que desobedeceram o Divino Comando, e negaram a Graça Divina, eles ficaram envergonhados de sua nudez” (Cidade de Deus, 13, 13).

07 – Veja Seção V do Concílio de Trento. Veja também São Tomás de Aquino, Summa Theologica, I Q.95 a.1

08 – Louis Berkhof, Systematic Theology, p. 215 ff.

09 – Systematic Theology, p. 209. Se por “naturalmente reto” isto quer dizer que Adão estava em correto relacionamento pactual para Deus porque mediante graça santificante ele estava participando na natureza divina “por natureza”, então ele seria neste sentido divino por natureza, i.e. participante na natureza divina. Ter a visão beatífica é compartilhar na própria felicidade de Deus em conhecer a Si Mesmo. Isto é devido somente a Deus.Sem graça Adão poderia somente ter uma retidão que era proporcional à natureza humana. Em tal cenário hipotético de “pura natureza”, seria possível ter uma retidão que era puramente natural, i.e. uma justiça acerca de Deus que era proporcionada à natureza humana, e não sobrenatural (i.e. uma retidão que transcenda natureza humana simplesmente falando — cf. São Tomás de Aquino, Summa Theologica I-II q.109, a.2). Dito isto, esta retidão natural não seria meritória para beatitude sobrenatural, então não é claro para mim como teólogos reformados como Berkhof mantêm a ideia acima.

10 – Cap. 7, seção 1.

11 – Cf. Agostinho, On Nature and Grace, ch. 59

12 – Cf. Santo Agostinho, On the Grace of Christ and on Original Sin, Livro 1, capítulo 45. O artigo da Enciclopédia Católica afirma:

Pelágio e seu discípulo Celéstio, que encontrou um associado ativo no hábil e erudito Bispo Juliano de Eclanum, admitiu do início a graça criativa imprópria, depois também uma graça sobrenatural meramente externa, tal como a Bíblia e o exemplo de Cristo.


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