Traduções Crédulas: Steven Costley sobre 2Pedro 3:9

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Este foi mais um de meus pequenos achados sobre expiação ilimitada e 2Pedro 3:9. Aqui o autor interage diretamente com a interpretação calvinista de que ‘todos’ se refere aos eleitos somente. Ele mostra alguns problemas e outras suposições tácitas que não se encaixam bem, e defende a leitura natural do texto.

Leiam e reflitam!

Steven Costley, Hermenêutica de 2Pedro 3:9 – “Nós todos” ou “Vós todos”?

por CalvinAndCalvinism

Tradução: Credulo from this WordPress Blog

Fonte: Steven Costley, Hermeneutics of 2Peter 3:9—”Us all” or “you all”?

Costley:

Meu amigo Tony Byrne (cujo excelentíssimo blog, Theological Meditations, eu fortemente recomendo) postou recentemente algumas críticas para o Dr. James White, que obteve uma resposta de White. O ponto em disputa é a interpretação apropriada de 2Pedro 3:9. White objetou alguns aspectos da análise lógica de Byrne sobre as categorias envolvidas (crentes, descrentes, eleitos etc.) e Byrne está bem apto a defender-se em tais pontos. Neste post, eu busco analisar a abordagem de White parta a hermenêutica e o entendimento apropriado do contexto do verso.

O verso em disputa é 2Pedro 3:9:

O Senhor não retarda a sua promessa, ainda que alguns a têm por tardia; porém é longânimo para convosco, não querendo que ninguém se perca, senão que todos venham a arrepender-se. {2Pedro 3:9 Almeida Recebida}

Ou como traduzida pela NASB:

The Lord is not slow about His promise, as some count slowness, but is patient toward you, not wishing for any to perish but for all to come to repentance.

O Senhor não é lento acerca de Sua promessa, como alguns contam lentidão, mas é paciente para vós, não desejando que qualquer pereça mas todos venham a arrependimento.

White advoga a ideia de que “qualquer” e “todos” de 2Pedro 3:9 se refere a “qualquer eleito” e “todos os eleitos”. O processo de pensamento que leva a esta conclusão é suspeito e mais certamente levara muitos a más ideias sobre o verso. Eu responderei aos dois principais argumentos de White e farei um caso positivo para ver “todos” e “qualquer” como abordando todos os homens em geral, crentes e descrentes, eleitos e não-eleitos.

Algumas Passagens São Mais Iguais que Outras

O primeiro argumento de White é que 2Pedro 3:9 ocorre num contexto que é primariamente escatológico, não soteriológico. Desde que o verso não é primariamente soteriológico, é “ilógico”, diz ele, “demandar informação profundamente específica e de grande profundidade” sobre salvação a partir deste verso. Isto é, White crê que é ilógico fazer inquéritos profundos sobre soteriologia nesta passagem que primariamente ensina escatologia. Eu sempre pensei este conceito como sendo destrutivo à boa leitura. Em minha opinião, é ilógico impor restrições nos possíveis significados — provido que os significados são legitimamente traçados do texto — por causa do tópico do contexto da afirmação. Contexto pode ser rei, mas a regra de White torna o contexto um ditador maligno, privando as afirmações de seus direitos.

Mas mesmo se concedermos a White que não podemos fazer demandas profundas de uma referência casual, o próprio White está demandando grande especificidade e profundidade de informação deste verso. Enquanto a leitura comum — que Deus não deseja que homem algum pereça — é pleno em face disso e não requer análise técnica profunda, a leitura advogada por White requer que se façam interpretações altamente técnicas e forçadas (se não completamente falaciosas) acerca de categorias de homens. A leitura simples do verso em sua face está muito mais em consonância com a ideia de que este é um pensamento que estava na mente do apóstolo.

“Contexto” e a audiência de Pedro

O segundo argumento de White — de longe o mais importante — é que 2Pedro 3:9 deve ser entendido à luz de seu contexto como sendo uma epístola sendo dirigida a um grupo de crentes. Entender quem está sendo abordado nos dá o ambiente contextual. Citando White:

[Pedro] fala diretamente à sua audiência como “amados” e “vós”. Ele fala de como esta audiência deveria agir “em santa conduta e piedade”, e diz que eles esperam pelo dia do Senhor. Ele inclui-se neste grupo no verso 13, onde “estamos esperando novos céus e nova terra”.

Vamos conceder que a epístola é endereçada a crentes. Até aqui, tudo bem. Agora White afirma sobre 3:9, “em qualquer outra passagem da Escritura o intérprete deve reconhecer que devemos decidir a quem o ‘vós’ se refere e usar isto para limitar o ‘qualquer’ e o ‘todos’ do verso 9”.

Mas não existe tal regra. Por que deveriam o “qualquer” e o “vós” se referir aos antecedentes do pronome “vós”? Eu não sei exatamente por que White diz que “o intérprete… deve…”. Ele não diz realmente o porquê disso e então devemos adivinhar. Uma coisa podemos dizer com certeza: não há regra pela qual pronomes indefinidos devam ser limitados pelos antecedentes de outros pronomes ocorrendo no contexto imediato. Antecedentes a pronomes indefinidos podem ser implícitos ou entendidos do contexto, e devem ser analisados de acordo.

A palavra “qualquer” na frase “não querendo que qualquer pereça” é a palavra grega tinas e é uma forma da palavra tis. Os lexicons definem esta palavra como “pronome indefinido”. Pronomes indefinidos não se referem a pessoas ou coisas específicas. Sendo este o caso, não precisamos de um antecedente explícito para a sentença fazer sentido. Em 2Pedro 3:9, a palavra grega tinassignifica “qualquer um”. A palavra não precisa de antecedente explícito. Obviamente, “qualquer” não precisa se referir aos antecedentes de “vós” na cláusula anterior.

Existem muitos exemplos em que o pronome indefinido tis (ou alguma de suas formas) é usado sem um antecedente explícito. Eis um exemplo:

Fiz-me como fraco para os fracos, para ganhar os fracos. Fiz-me tudo para todos, para por todos os meios chegar a salvar alguns[tis].{1Co 9:22 AR}

Nenhuma referência explícita a um antecedente é necessária. O antecedente pode ser entendido do contexto ou da própria natureza do caso (como neste exemplo).

Outro bom exemplo vem da primeira ocorrência da palavra em 2Pedro 3:9. “O Senhor não é lento acerca de sua promessa como alguns [tines] homens podem contar por lentidão…”. A palavra “alguns” nesta cláusula é a mesma palavra numa forma diferente. Aqui ela significa “certas pessoas”. Esta instância de pronome indefinido requer um antecedente explícito? Interpretando-a de acordo com a regra de White, devemos lê-la assim: “O Senhor não é lento acerca de sua promessa como alguns de vós contam como lentidão”. É esta a maneira correta de ler o texto? Alguns comentaristas pensam que não.

Jamieson, Faussett e Brown referem “alguns” aos escarnecedores. Matthew Henry refere este aos homens impios que “desafiam uma lentidão culpável em Deus…”. John Gill refere este aos “escarnecedores e zombadores”. Estes comentaristas referiram o “alguns” [tines] aos escarnecedores do verso 3, mesmo que isto não esteja explícito no verso e apesar da presença do pronome “vós” no contexto imediato.

Retornando ao assunto: em 2Pedro 3:9, deve o “qualquer” [tinas] referir-se ao mesmo grupo que “vós”? Muitos bons intérpretes não creem dessa forma. Calvino certamente não interpretou o verso assim.

Não querendo que homem algum pereça. Quão maravilhoso é seu amor para com a humanidade, que ele teria todos sendo salvos, e está de si mesmo preparado para conceder salvação ao perdido. (Comentário de Calvino em 2Pedro 3:9.)

Os comentários de Jamieson, Fausset e Brown, e Albert Barnes estão em substancial concórdia com Calvino. A Tradução Bíblica de Genebra (assim como, eu argumentaria, a tradução de Lutero) reflete a ideia que a vontade de Deus é que homem nenhum pereça.

Os mesmos conceitos se aplicam ao “todos” e a “que todos cheguem ao arrependimento”. Mais exemplos poderiam ser multiplicados (seja de “qualquer” ou de “todos”), tanto dos escritos de Pedro quanto do Novo Testamento em geral.

Então não é o caso que o exegeta cuidadoso deva (como White insiste) referir os pronomes indefinidos “qualquer” e “todos” ao “vós” no verso 9. O exegeta cuidadoso decidirá o antecedente apropriado do pronome indefinido baseado no assunto em pauta e outras pistas contextuais. A regra que White propusera está imprecisamente estabelecida e levará a resultados imprecisos.

White tenta estabelecer seu caso para a conexão próxima entre o “vós” e “qualquer/todos” afirmando que a cláusula “paciente para vós” (“longânimo para convosco”) é deixada vaga se o material seguinte (incluindo as cláusulas “qualquer” e “todas”) não modificar a cláusula “longânimo”. (Eu noto de passagem que este é o único real argumento dado para a conexão que White insiste.) Ele diz:

Deve ser notado que se alguém sugere que não existe conexão referencial entre “vós” e “qualquer/todos”, o texto é deixado sem sentido. Imagine isto. A frase “mas é paciente para vós” é deixada flutuando no ar, desconexa e indefinida. Obviamente, o que segue é modificar e explicar como esta paciência é expressa.

Estou a fim de conceder que a cláusula do “longânimo” se relaciona com as cláusulas seguintes. Mas isto significa que o “vós” limita o “todos” e “qualquer”? Certamente não. A longanimidade que Deus exibe para crentes não precisa ser limitada a crentes somente. Que Deus é longânimo para “vós” é explicado pelo fato que ele exibe longanimidade a todos os homens em geral. Podemos ler o verso desta forma: “Deus é longânimo para vós na medida que ele não deseja que qualquer homem pereça mas que todos os homens devam chegar ao arrependimento”. Isto é, “vós” é incluído no “qualquer” e “todos”; não é uma limitação do “qualquer” e “todos”. Esta é forma normal de ler o verso; a leitura de White é uma forçação.

O Caso Positivo

Qual é o caso positivo para ver os pronomes indefinidos (“qualquer” e “todos”) como referindo-se a um grupo maior que a audiência da epístola? White insiste que a audiência é de crentes. Concordo. Mas considere que enquanto a epístola é endereçada a crentes, o “qualquer” que corre risco de perecer e o “todos” que deve vir ao arrependimento são claramente descrentes. Portanto pela simples leitura do verso, nossas mentes são naturalmente levadas para uma categoria maior que a audiência imediata. Estes são salvos, aqueles não. A regra de White resulta numa interpretação que está diametralmente oposta à leitura real.

Esta interpretação é fortalecida pela natureza mutualmente reforçadora das cláusulas finais. Nós não temos somente “nenhum homem” ou “todos os homens”. Nós temos cláusulas contrastantes que servem para enfatizar uma à outra. Por um lado, Deus não deseja que homem nenhum pereça; e que nenhum homem pereça é explicado pelo desejo de Deus que todos os homens venham ao arrependimento. E a classe dos que devem vir ao arrependimento não é somente uma classe geral de homens, mas uma classe que não tem exceções – que nenhum homem deva perecer. As duas cláusulas postas juntas falam claramente de um desejo universal de Deus que cobre todos os homens em geral e cada homem em particular. Outra forma de colocar isto é “Deus … comanda que todos os homens em todo lugar arrependam-se”.

E quanto aos eleitos?

Alguns calvinistas radicais insistem que apesar de este verso se referir a descrentes, se refere a descrentes eleitos. White argumenta que isto é baseado em diversas pistas contextuais que ele alega apoiarem esta ideia. Mas considere que a fim de chegar à interpretação de White, devemos aceitar o seguinte argumento:

  • Premissa Maior: Todos os crentes são eleitos;
  • Premissa Menor: Todos da audiência de Pedro são crentes;
    • Conclusão: Todos os descrentes referenciados ao fim do verso 9 são eleitos.

O argumento não requer mais refutação. Vê-lo dito é ver sua invalidade. (A conclusão apropriada é, certamente, “todos da audiência de Pedro são eleitos”. Mas isto não diz nada acerca de descrentes mencionados no verso.)

A ideia de White os pronomes indefinidos se referem a descrentes eleitos não é suportada pelo texto. A passagem não faz qualquer menção aos eleitos descrentes. Em vez disso, descrentes em geral são mencionados. Como Calvino diz deste verso, “nenhuma menção é feita aqui para o propósito secreto de Deus, de acordo com o qual os reprovados são sentenciados à sua própria ruína, mas somente de sua vontade como sendo conhecida para nós no Evangelho”.

A Interpretação Incontroversa

lendo o verso como se referindo à indisposição de Deus que “qualquer homem” deva perecer e que “todos os homens” cheguem ao arrependimento é completamente incontroversa de um ponto de vista bíblico. A Bíblia faz os mesmos pontos em outros lugares. Deus é bom para todos os homens (Mt 5:45, At 14:16-17), cuja bondade – especificamente Sua longanimidade (cf. 1Pe 3:20) – é designada para trazer os homens ao arrependimento (Ez 33:11, At 17:30). A ideia da paciência de Deus sobre todos os homens e desejo que todos os homens cheguem ao arrependimento são trazidas unidas e enfatizadas aqui como em nenhum outro lugar na escritura, mas as ideias não são ensinadas aqui isoladas. Este fato suporta a interpretação proposta.

A interpretação proposta aqui tem um bom histórico calvinista, como evidenciado na tradução de Genebra para esta verso:

2 Peter 3:9 (Geneva Bible) “The Lord is not slacke concerning his promise (as some men count slackenesse) but is pacient toward vs, and would haue no man to perish, but would all men to come to repentance.”
O Senhor não é preguiçoso acerca de sua promessa (como alguns homens contam preguiça) mas é paciente para vós, e não quer que homem algum pereça, mas que todos os homens venham ao arrependimento.

As notas originais da Genebra refletem o entendimento de Calvino para o verso:

Ele não falara do segredo e eterno conselho de Deus, pelo qual ele elegera quem lhe aprouvera, mas da pregação do Evangelho, pelo qual todos são convocados ao banquete.

Conclusão

Boa teologia, boa hermenêutica, ou boa lógica: qualquer um deles – e todos eles juntos – nos levam a ver 2Pedro 3:9 como expressando a vontade de Deus que nenhum homem (seja ele quem for) deva perecer, mas que todos os homens (“toda humanidade” como Calvino pôs) deva vir ao arrependimento.

[Republicado com permissão; alguma edição e formatação adicionais]

[Post original aqui].


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