Traduções Crédulas: Seria o Pecado Original Injusto?

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Postando o que pode vir a ser uma série: Tektonics sobre Calvinismo! Mas por ora, apenas um texto sobre o pecado original, aos olhos da cultura do primeiro século.

Seria o Pecado Original Injusto?

por JPH on Tekton Apologetics

Tradução: Credulo from this WordPress Blog

Fonte: Is Original Sin Unfair?

“A ideia que todas as pessoas são punidas por causa do ato de um, um ato relativamente inócuo, beira o bizarro e é uma vívida refutação de qualquer crença em um Deus bíblico de justiça e imparcialidade”

Assim disse um líder cético. Anexas a estas objeções existem outras também, envolvendo os pecado dos pais {em breve}. Mas antes de corrigir, e sobre a própria questão do pecado original? Nós somos punidos injustamente pelos pecados de nossos ancestrais?

Antes de uma resposta direta ser dada, uma precaução é necessária. Mesmo se a doutrina é tal que a culpa de Adão nos é imputada (o que eu concluirei, não é o caso), dificilmente é como se qualquer pessoa não tivesse culpa própria em primeiro lugar. Isto é como objetar a ser sentenciado por uma semana extra na prisão por um crime que você não se sente responsável, quando você tem seus 3.748.983 anos para servir devido aos seus próprios crimes.

Mas desde que a penalidade para cada pecado é a mesma (julgamento eterno), nem mesmo isto importaria. À parte os infantes e mentalmente incapazes, ninguém tem real razão ou direito de objetar em ser encilhado com a culpa do pecado original – e é duvidoso o que tais pessoas fariam para pagar por qualquer ato pecaminoso da mesma espécie, ou que elas não cairiam na mesma tentação.

E agora para o texto em si, que é o eixo central da “roda” do pecado original:

[12] Portanto, assim como por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte, assim também a morte passou a todos os homens, porquanto todos pecaram.
[13] Porque até o tempo da lei estava o pecado no mundo, mas o pecado não é imputado onde não há lei.
[14] No entanto a morte reinou desde Adão até Moisés, mesmo sobre aqueles que não pecaram à semelhança da transgressão de Adão, o qual é figura daquele que havia de vir.
[15] Mas o dom gratuito não é assim como a ofensa; porque, se pela ofensa de um, muitos morreram, muito mais a graça de Deus, e o dom pela graça de um homem, Jesus Cristo, foram abundantes para com muitos.
[16] O dom, entretanto, não é como a ofensa por um que pecou; porque o julgamento veio de um, para a condenação; mas o dom gratuito é de muitas ofensas, para a justificação.
[17] Porque, se pela ofensa de um só, a morte veio a reinar por esse, muito mais os que recebem a abundância da graça, e do dom da justiça, reinarão em vida por um só, Jesus Cristo.
[18] Portanto, assim como pela ofensa de um veio o julgamento sobre todos os homens para a condenação, assim também pela justiça de um veio o dom gratuito sobre todos os homens para a justificação da vida.
[19] Porque, assim como pela desobediência de um só homem muitos foram feitos pecadores, assim também pela obediência de um muitos serão feitos justos.
(Romanos 5:12-18 Almeida Recebida)

As frases marcadas mostram Paulo repetindo a mesma ideia de diferentes formas – numa boa forma antiga pedagógica. Agora nossa questão-chave a responder é “Qual a exata relação causa-efeito entre o pecado de Adão e nossa presente condição?”. Somos “punidos” pelo seu pecado? Se não “punidos” então como, exatamente, isto nos afeta? E é “justo” que sejamos afetados dessa forma?

Por um bom tempo respostas a estas questões têm sido lidadas por crentes. De um lado, muitos têm proposto que Adão como “cabeça federal” e representante original da humanidade, era justamente capaz de imputar sua culpa pelo pecado sobre nós.

Por outro lado, foi argumentado que tudo que Paulo disse aqui é que biologicamente herdamos a tendência para pecar de Adão, e portanto temos uma propensão a “fazer” nosso próprio querer. O último é um sumário tosco do que tem sido referido como a heresia pelagiana.

Antes de tentar uma análise, alguma informação prévia está a caminho. Como sempre, devemos ler Paulo à luz de sua posição como um escritor antigo e membro de uma sociedade antiga coletivista. Não devemos deixar nosso individualismo moderno e ocidental (o que na realidade é uma “mutação” a partir da maioria do restante do mundo histórico e moderno) interpretar a passagem diretamente; devemos “peneirá-la” pelo filtro do pensamento antigo coletivista primeiro.

Muitos fatores de coletivismo têm séria relevância para a interpretação das palavras de Paulo. Como Malina e Neyrey notam [Portraits of Paul, 156ff]:

– Dentro de tal sociedade, indivíduos recebiam sua identidade em relação à sua unidade social. Eles eram “inserdos ao grupo” — indivíduos compartilham “uma identidade virtual com o grupo como um todo e com seus outros membros”.
– Como consequência, anormalidade não é vista como resultado de tais coisas como infância abusada; anormalidade é o resultado de estar inserido numa matriz de relacionamentos anormal. Todas as pessoas são assumidas ter “as mesmas experiências e qualidades bastante semelhantes”. Nenhum homem é uma ilha, e ninguém é seu próprio mestre.
– O principal grupo em quem alguém estava inserido é a família, e além desse, a ancestralidade. Identidade repousa “ultimamente no ancestral etiológico ou na família estendida”. Por isso que Paulo faz o que parece ser muito para nós ser um benjamita; por isso a ênfase na ancestralidade davídica de Jesus; por isso é que é importante para judeus referir a Abraão como seu pai (Jo 8:33,39).

Agora pode ser visível qual a relevância que esta orientação pode ter para a doutrina do pecado original. Pelo pensamento de Paulo, e todos os seus contemporâneos que aceitavam a abordagem de Gênesis, estamos todos “embarcados” em Adão, o ancestral etiológico da humanidade. Nós temos (ao menos) herdado suas faltas e pecados, e mesmo se o cenário de “pior caso” estiver correto, isto é algo que apenas nós, como individualistas, temos problemas.

Ninguém na antiguidade teria objetado que era “injusto” que fôssemos em alguma extensão punidos pelo pecado de Adão, ou referenciado que isto era “bizarro, injusto”. De fato seria esperado que de alguma forma pagássemos pelo pecado de Adão, desde que seja lá quem tenha sido designado como ancestral etiológico, é dele que colheríamos, bens ou males.

Portanto qualquer objeção contra pecado original estaria fora de sintonia com o tempo bíblico. Mas resta a questão de como exatamente o pecado de Adão nos afeta. Maior parte das frases marcadas em Romanos 5:12-19 não estabelece a espinha dorsal da relação causa-efeito; de fato é apenas no verso 12 que tal conexão é oferecida:

[12] Portanto, assim como por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte, assim também a morte passou a todos os homens, porquanto todos pecaram.

Este verso é compreendido como sendo a pedra fundamental da doutrina do pecado original. O assunto primário aqui é sua frase final — “porquanto todos pecaram” — e mais estreitamente, a palavra preposicional desta frase. A ideia de “cabeça federal” desta ideia segue da tradução de Agostinho, que lia isto em termos de em quem todos pecamos, e é geralmente paralelizado com a passagem em Hebreus que afirma que Levi pagou seu dízimo mediante seu ancestral Abraão, e justificou na base de que um homem, Cristo, também pagou por todos aqueles pecados.

Outros significados sugeridos têm sido por esta razão, porque, em que, por causa daquele por quem.

Agora, antes que o cético pergunte, “Por que isto não é claro”, vamos apontar que qualquer falta de clareza é mais provavelmente nossa falha por não entender, do que Paulo ou Deus em não torná-la clara; e a frase grega, por si só, admite muitas nuanças de significado; “inquérito lexicográfico chega à conclusão quem o significado de uma frase pode variar bastante” [Dubarle, The Biblical Doctrine of Original Sin, 149n]

Então qual é a resposta? Como já temos investigado mais detidamente os dados de fundo, recuperando o que foi perdido, uma resposta sobreveio, a qual sugere que um ponto mais sutil esteja em vista, e que a ideia de “cabeça federal” precisa de um ajuste fino, duma forma tal que torna todas as objeções irrelevantes.

Henri Blocher, em Original Sin: Illuminating the Riddle, baseia-se nos escritos de Malina que Romanos 5 está num estilo rabínico e usa terminologia legal [76ff]. Disto ele conclui que o sentido de Paulo é que o que Adão fez “tornou possível a imputação, o tratamento judicial, dos pecados humanos” [ênfase acrescida]

Note como isto se encaixa com o que Paulo prossegue em dizer:

[14] No entanto a morte reinou desde Adão até Moisés, mesmo sobre aqueles que não pecaram à semelhança da transgressão de Adão, o qual é figura daquele que havia de vir.

Em outras palavras, o pecado de Adão, e a resultante punição da morte espiritual e mesmo física, foi uma conexão-de-padrões que foi estabelecida e criou o precedente legal para a morte ser infligida como penalidade por todos os pecados.

Um paralelo livre seria encontrado na incidência, alguns anos atrás, do crime de sequestro de veículos. Não existia uma definição, ou remédio, para este crime quando ele se tornou popular. Quando ele começou a se popularizar, foi definido como um crime específico (diante do qual promotores tinham de selecionar e emendar juntos ônus de leis existentes) e dar uma punição específica.

A analogia se desfaz porque não existia pecado anterior ao original, mas o ponto a ser traçado é que o pecado e punição de Adão foi um exemplo original bem como um caso para o pecado original. Pagamos por, e somos punidos por causa, do pecado de Adão, apenas no sentido que sequestradores de veículos de hoje em dia experimentam sua punição específica por causa de um precedente estabelecido pelos seus antepassados bandidos, que engendraram uma reação legal mais específica.

É claro que nada disto afeta tais conclusões como aquelas obtidas em nosso item sobre depravação total {em breve} ou que de qualquer maneira sugira que as coisas sejam mais fáceis para a raça humana em termos de uma base para julgamento. Isto significa simplesmente que uma objeção popular – baseada ela mesma num entendimento popular mas não precisamente correto desta passagem – não tem relevância. Não estamos pagando, nem sendo punidos, pelo pecado de Adão, de uma maneira que nos seja injusta.

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