Traduções Crédulas: Posicionamento Errôneo de Romanos

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Um post de uma fonte nova, o SeedBed! Aqui, um assunto bastante interessante, que eu resumiria em duas perguntas: Qual o livro mais importante da Bíblia em termos de chave de interpretação? e Por que essa neura com Romanos, uma missiva tão difícil e pesada?

Aproveito e comunico, apenas por curiosidade, que estou usando o TXT2TAGS, um software brasileiríssimo de formatação leve que pretendo utilizar para os futuros posts. Espero que isto ajude a acelerar a parte mais enjoada, a de colocar markups e aquelas frescurinhas de letras, links, itálicos etc.

Enfim, leiam e reflitam!

Posicionamento Errôneo de Romanos: John Wesley e Hermenêutica

por Howard Snyder

Tradução: Credulo

Fonte: Misplacing Romans: John Wesley and Hermeneutics

Na esteira das controvérsias teológicas e conflitos da igreja eu às vezes penso: é tudo sobre hermenêutica! As batalhas na maior parte das vezes reduzem-se à seguinte questão: Como interpretamos a Bíblia?

Mesmo (e talvez especialmente) entre cristãos que enfatizam a completa autoridade da Escritura, diferentes suposições sobre como interpretar a palavra escrita de Deus prestam um grande papel.

Uma das mais insidiosas tendências é ver toda a Escritura pelas lentes de Romanos. Este vício seguiu caminho na história. A prioridade de Romanos é simplesmente pré-assumida, às vezes inconscientemente – especialmente em discussões acerca do significado da salvação.

Eu desafio esta suposição, este posicionamento errôneo de Romanos. lembre-se de três coisas: Primeiro, a maior parte dos setores da igreja durante a história não tem assumido isto. Segundo, em nossos dias algumas tradições veriam outras partes da Escritura, ou a “regra de fé patrística”, como as chaves hermenêuticas da Bíblia. Terceiro e mais importante: tornar Romanos a chave hermenêutica da Bíblia é em si mesmo um erro hermenêutico.

Romanos: Chave para a Escritura?

J. I. Packer faz um caso forte para priorizar Romanos em seu clássico estudo Knowing God (1973). Ele escreve;

A carta de Paulo a Roma é o grande pico da Escritura, porém você a observa. Lutero a chamou “ o mais claro de todos os evangelhos”.“Se um homem entende isto”, diz Calvino, “ele tem uma via segura aberta para ele entender toda a Escritura”. Tyndale, em seu Preface to Romans, liga ambos os pensamentos, chamando Romanos “a principal e mais excelente parte do Novo Testamento, e o mais puro Euangelion, que está a dizer felizes tendências e que nós chamamos de evangelho, e também uma luz e caminho para toda a Escritura”. Todos os caminhos levam a Romanos, e todas as visões bancadas na Bíblia são mais claramente vistas de Romanos, e quando a mensagem de Romanos entra no coração do homem não tem como dizer o que pode acontecer.

Para o que você olha na Bíblia? O homem sábio tem seu olho aberto para diversas coisas, e Romanos é suprema em todas (p. 230).

Eu questiono essa pressuposição hermenêutica hermeneuticamente. Ela é dedutiva em vez de ser indutiva. Isto é, ela inicia de uma pressuposição a priori que Romanos é a chave e procede daí. A maneira hermeneuticamente plausível seria levantar a alegação da prioridade de Romanos em si mesma como uma questão hermenêutica (que eu estou de fato fazendo aqui). Como pode ser isto justificado biblicamente, de acordo com princípios hermenêuticos plausíveis?

Esta colocação equivocada de Romanos é de fato hermeneuticamente indefensável. Em lugar nenhum a Bíblia sequer sugere que Romanos, ou Paulo, devem ser tomados como chaves para a Escritura.

Pode ser verdadeiro, como Packer afirma, que “o homem sábio tem seu olho aberto para diversas coisas” quando aborda a Escritura. Mas o mais sábio terá seus olhos abertos para tudo que a Bíblia nos apresenta, não somente com o que temos decidido a priori decidido que devemos olhar (o que tende a ser baseado fortemente em nossa tradição teológica particular).

As duas metáforas que Packer usa nos parágrafos acima citados são interessantes: “grande pico” e “todos os caminhos levam a Romanos”. Existem diversos ”picos altos” na Escritura, e não é claro que Romanos necessariamente os ultrapasse. E de qualquer maneira devemos prestar atenção também aos vales, rios, oceanos, e desertos. Em outras palavras, em termos dos 66 livros da Bíblia, não há razão sólida para colocar Romanos no topo da maior montanha.

Melhor mudar de metáfora. A Bíblia é mais como a complexa construção do cérebro, com seus bilhões de neurônios e conectores, do que a geografia de montanhas, com vales e picos.

“Todos os caminhos levam a Romanos”? Não realmente. A Bíblia é como uma paisagem complexa com muitas ruas, caminhos, trilhas, atalhos, e alguns túneis. Não conhecemos a Bíblia até que a entendamos. Quanto mais o fazemos, mais vemos que todas as vias na Bíblia levam a Jesus Cristo, e ao caminho que ele andou. Priorizar Romanos cai no perigo de priorizar Paulo em cima de Jesus; as epístolas em cima dos evangelhos; dogmáticas em cima da própria pessoa de Jesus Cristo e da igreja como seu corpo.

Havendo decidido usar metáforas para apoiar pressuposições hermenêuticas, devemos ao menos usar o todo da ecologia da riqueza das metáforas na Escritura.

O Apóstolo Pedro na realidade levanta uma bandeira vermelha aqui. Certamente Paulo recebeu sabedoria de Deus, mas existem coisas em suas cartas que são difíceis de compreender, e facilmente suscetíveis a interpretações errôneas (2Pe 2:15-16). Significa: Esteja seguro de interpretar Paulo à luz das outras Escrituras e o ensino consensual da Igreja.

Eu citei Packer devido sua clareza aberta. Mas de fato ele representa uma tradição praticamente dominante dentro do protestantismo.

Por Outro Lado: John Wesley

Existem muitas respostas dentro da ortodoxia cristã para esta “inversão hermenêutica” que erroneamente prioriza Romanos. A tradição profética anabatista, geralmente denunciada como (no mínimo) quase-herética por alguns da teologia reformada, é um exemplo importante, pois ele levanta de maneira bem afiada a questão: Não deveriam os Evangelhos terem prioridade sobre Romanos?

A resposta reformada padrão: Mas Romanos é doutrina de formas que os evangelhos não são, então entendemos os evangelhos corretamente apenas mediante Paulo. Esta linha de raciocínio envolve uma falácia de falsa dicotomia, a qual eu desprezarei por ora. Podemos também considerar a hermenêutica pentecostal, apesar de ela ser claramente igualmente suspeita de uma visão reformada estreita.

Então vamos olhar brevemente para John Wesley. Wesley fez uso extensivo de Romanos, mas não praticou a “inversão hermenêutica” discutida acima. Ele estava em muito mais sólida fundamentação em três aspectos.

Primeiro, Wesley insistiu em construir teologia e discipulado na Bíblia toda. Isto é visto talvez mais claramente em seus sermões, mas é evidente geralmente em seus escritos.

Segundo, empregando a “regra de fé” (ou “analogia de fé”), Wesley usou a narrativa bíblica central da história da salvação, centrando e culminando em Jesus Cristo, como chave hermenêutica bíblica.Aqui ele mantém boa companhia com os mais criteriosos escritores patrísticos.

Terceiro, e com estes compromissos, Wesley priorizou 1João como chave para entender o significado da salvação.

Rob Wall tem uma excelente discussão acerca disso no ensaio “Wesley as Biblical Interpreter”, no The Cambridge Companion to John Wesley (2010). Wall escreve, “Apesar de toda a Bíblia ter autoridade para Wesley, um aparte de seu todo bíblico tinha ressonância especial extra para ele – a primeira epístola de João. Esta epístola era seu cânon no cânon”(pg. 117). Wall explora a evidência para isto numa discussão extensiva do uso de 1João por Wesley (pgs. 118-22).

Mais tarde em sua vida Wesley escreveu, “Se o pregador deve imitar qualquer parte dos oráculos de Deus sobre todos os restantes, que seja a primeira epístola de João” (Wesley, Works _Abingdon_, 2:357). Wesley via 1João como “a porção mais profunda da Sagrada Escritura” e de fato o “compêndio de todas as Santas Escrituras” (Works, 22:13, 352).

Dentro de 1João, Wesley se foca especialmente em 4:19, “Nós o amamos porque Ele nos amou primeiro”. Wesley afirma em suas Notas Explanatórias, “Esta é a soma de toda religião, o genuíno modelo de cristianismo. Nada pode dizer mais claramente: por que deveria algo dizer menos, ou menos inteligivelmente?”.

Wesley faz um interessante movimento histórico-teológico. Ele afirma que o Apóstolo João foi “o último dos escritores inspirados” e apresentou a mensagem central da Bíblia “da mais clara maneira” (Works, 2:116). Este movimento combina autoridade apostólica com um senso de revelação progressiva. Por que priorizar João? Porque ele viveu mais, conheceu Jesus melhor, e escreveu com profunda simplicidade, Wesley responde. Então os escritos de João, e supremamente 1João, são a pedra superior. Entre outras razões, o movimento hermenêutico de Wesley aqui é significativo porque ele baseia teologia bíblica na experiência bem como na razão e tradição.

Muito mais poderia ser dito, mas meu ponto principal é simplesmente desafiar e ajudar a minar a concepção errônea de Romanos como chave e pedra superior na Bíblia.

Modelos e Metáforas Hermenêuticas

Romanos não deve ser vista como chave para toda a Escritura. Muitos dos problemas da igreja traçam para esta miopia, esta priorização errônea de Romanos. A gloriosa promessa de criação liberada em Romanos 8 se torna desconstruída porque é desligada da maior história bíblica do plano de redenção de Deus para toda a terra. O resultado é uma visão diminuída da salvação – e portanto até mesmo da glória de Deus!

Esta colocação errônea de Romanos é uma razão (entre muitas) por que tanto da igreja tem ensinado uma mensagem da salvação diminuída e excessivamente espiritualizada – uma que de fato viola a completa promessa de Deus na Escritura e na Encarnação, vida e ressurreição de Jesus.

Podemos nos perguntar, não irreverentemente: Romanos ensina algo que não é ensinado em algum canto da Bíblia? Provavelmente não. mas Romanos coloca temas-chave bíblicos em união e faz conexões de maneiras especialmente poderosas.

Romanos é de fato um grande ponto da Escritura. Seríamos muito pobres sem ele. Mas não podemos entender Romanos corretamente sem Hebreus, 1João, Revelação, Tiago, Isaías, Daniel, Gênesis, Jó – e afinal, os Evangelhos.

É o todo, e não suas partes, que é a chave hermenêutica para a Escritura. E como Romanos brilha quando vista à luz de toda a Bíblia! Vemos como Romanos ao mesmo tempo reflete e em algumas áreas clarifica a revelação do Antigo Testamento. Vemos que Paulo está operando da cosmovisão hebraica moldada no Antigo Testamento, em vez das categorias filosóficas gregas (como muitos parecem inconscientemente assumir). Paulo conhecia as filosofias e cosmovisões grega e romana, mas também sabia como corrigi-las. Esta é uma das grandes coisas que Romanos de fato cumpre.

Packer afirma, na citação acima: “quando a mensagem de Romanos entra no coração do homem não tem como dizer o que pode acontecer”. Sim, de fato! Especialmente quando interpretada indutivamente, à luz de toda a narrativa e ecologia bíblicas.

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