Traduções Crédulas: Calvinismo e Livre-Arbítrio: Uma Apologia Exegética de Mateus 23:37

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Esta foi talvez a primeira contra-exegese que li de Mateus 23:37. Foi dela que resolvi pesquisar todas as outras que você talvez encontre neste site empoeirado.

Talvez, como eu tinha prometido, faço algo mais autoral juntando todas estas coisas. Até lá, deem uma lida!

Calvinismo e Livre-Arbítrio: Uma Apologia Exegética de Mateus 23:37

por Kangaroodort from ArminianPerspectives
Tradução: Credulo from this WordPress Blog

Arminianos desde muito apontam Mt 23:37 para responder contra as doutrinas calvinistas de determinismo, expiação limitada, e graça irresistível.

O calvinismo ensina que Cristo morreu somente pelos eleitos (expiação particular), que ele decretara tudo que haveeria de ocorrer na história humana (determinismo – nenhuma liberdade da vontade humana enquanto pertinente a verdadeiras contingências), e que o homem nada tem a fazer com sua própria salvação (monergismo), o que necessita sua doutrina de graça irresistível.

Mt 23:37 coloca sérios problemas para todas essas posições doutrinárias. Parece que apesar de Cristo genuinamente desejar a salvação dos judeus, eles não foram salvos. Eles não foram salvos porque não estavam dispostos. Se este é o caso, então o calvinismo não pode permanecer. Por quê?

O calvinismo crê em eleição e reprovação incondicional. Deus determinou desde a eternidade quem seria salvo e quem seria danado. Esta determinação foi incondicional. Esta escolha foi de acordo com o bel prazer de Deus. Agradou a Deus incondicionalmente eleger alguns para a vida eterna. Também agradou a Deus irrevogavelmente reprovar outros para eterna punição [esta pode ser ativa ou passiva]. Arminianos sentem que tal escolha, se verdadeiramente incondicional, faria Deus arbitrário. Bem poucos calvinistas querem afirmar tal palavra como uma descrição de Deus. Eles contendem que a escolha divina não foi arbitrária mas ainda assim foi incondicional. Se a escolha divina não foi arbitrária, então ele deve ter tido alguma razão para escolher um e rejeitar outro. O calvinista evita esta conclusão apelando para o inescrutável conselho de Deus. Deus tem uma razão, mas não tem nada a ver com aqueles sendo eleitos ou reeitados, e está simplesmente além de nosso entendimento. Esta é a abordagem tomada por Peterson e Williams em  Why I Am Not An Arminian. Eles afirmam, “Sua graciosa escolha em última análise transcende nossa razão, mas não é arbitrária” (pg.66) O arminiano crê que isto é inaceitável dada a clara asserção bíblica de que alguém é salvo ou rejeitado baseado em se tal pessoa crê no Evangelho e continua em descrença (Jo 3:16-18, 36). O arminiano contende tão fortemente quanto o calvinista pela doutrina bíblica da eleição, mas crê que a decisão divina de eleger é baseada na resposta livre de suas criaturas em aceitar ou rejeitar o dom da salvação.

Mt 23:37 se alinha perfeitamente com a visão arminiana. Na visão arminiana Deus genuinamente deseja que todas as suas criaturas sejam salvas (veja também Ez 18:31,32; 33:10,11; 1Pe 3:9; 1Tm 2:3). Se eles não são salvos, é devido à sua própria recusa do gracioso dom de Deus, e não porque Deus incondicionalmente determinara desde toda a eternidade daná-los (Os 11:1-2; Jr 13:15-17; Rm 10:21; Hb 3:7-13).  O calvinista sente que o determinismo é a única forma de reconciliar escolhas humanas com a soberania divina. Não existe espaço para liberdade libertária em sua teologia. Alguns calvinistas então lidam com estas passagens dividindo a vontade de Deus em partes claramente contraditórias. Eles mantém que Deus não deseja a morte eterna dos impios enquanto ao mesmo tempo determinando incondicionalmente desde toda a eternidade que alguns devem permanecer impios, sem jamais conhecer sua graça salvífica, e perecer eternamente, de acordo com seu bel prazer. Aqui está uma figura de um Deus que estende suas mãos em direção aos que perecem enquanto lhes recusa a graça que necessitam para serem salvos. Ele pode dizer que não tem prazer na morte do impio, enquanto secretamente deseja e assegura sua morte eterna. O arminiano aponta a inerente fachada e se depara com respostas como “Os caminhos de Deus são mais altos que os nossos; seu conselho é inescrutável” ou “Quem é você que a Deus replica?” etc. John Wesley sumarizou bem o problema,

Nosso bendito Senhor indisputavelmente comanda e convida “todos os homens em todo lugar ao arrependimento” [At 17:30]. Ele chama todos. Ele envia seu embaixadores em seu nome, “para pregar o evangelho a toda criatura” [Mc 16:15]. Ele mesmo “pregou libertação para os cativos” [Lc 4:18] sem qualquer ideia de restrição ou limitação. Mas agora, de que maneira vocês o representam enquanto ele está empregado nesta obra? Vocês o supõem como se colocando às portas da prisão, tendo as chaves dela em suas mãos, e continuamente convidando os prisioneiros para sair, comandando-os a aceitar tal convite, compelindo com cada motivo que possa possivelmente induzi-los a obedecer tal comando; adicionando as mais preciosas promessas, se eles obedecerem, as mais terríveis ameaças, se não obedecerem; e todo este tempo você o supõe estando inalteradamente determinado em si mesmo a jamais abrir as portas para eles!, ainda enquanto ele lamenta, “Convertei-vos, convertei-vos de vossos maus caminhos; pois, por que morreríeis, casa de Israel?”[cf. Ez 33:11]. “Por que!”, pode alguém replicar, “porque não podemos ajudar. Não podemos nos ajudar; e tu não nos ajudará. Não está em nosso poder quebrar as correntes de metal, e não é de seu prazer abri-las. Por que morreríamos! Nós devemos morrer; porque não é sua vontade salvar-nos”. Ah! meus irmãos, que tipo de sinceridade é essa, que vocês atribuem a Deus nosso Salvador? (Excerto de Predestination Calmly Considered; Readings in the History of Christian Theology, Volume 2, pg. 97)

Considere as palavras do Senhor a Judá em Jeremias 13:

[15] Escutai, e inclinai os ouvidos; não vos ensoberbeçais, porque o Senhor falou.
[16] Dai glória ao Senhor vosso Deus, antes que venha a escuridão e antes que tropecem vossos pés nos montes tenebrosos; antes que, esperando vós luz, ele a mude em densas trevas, e a reduza a profunda escuridão.
[17] Mas, se não ouvirdes, a minha alma chorará em oculto, por causa da vossa soberba; e amargamente chorarão os meus olhos, e se desfarão em lágrimas, porque o rebanho do Senhor se vai levado cativo.
{Jeremias 13:15-17 Almeida Recebida}

Acerca desta passagem, Walls e Dongell fazem a seguinte observação,

Sabendo que Judá não se voltou e ouviu, o calvinista conclui que Deus já havia escolhido represar sua graça transformadora para eles, ainda que ele poderia facilmente concedê-la. Então enquanto o texto serve para identificar o orgulho de Judá como causa raiz da punição, o calvinista em vez disso conclui que a capacidade de Judá em se arrepender depende do plano de Deus eternamente fixado. Novamente, apesar de o texto parecer identificar salvação como o mais profundo desejo de Deus, o calvinista deve concluir que em um nível mais profundo Deus jamais intentou liberar graça transformadora nos ouvintes de Jeremias. Em outras palavras, as verdadeiras intenções de Deus não podem ser discernidas de suas palavras.(Why I Am Not A Calvinist, pg. 57- ênfase do original)

Parece que alguns calvinistas estão bastante desconfortáveis com o apelo somente às vontades contraditórias em Deus, e preferem de fato empreender uma altercação exegética a fim de conformar estas passagens aos dogmas da teologia calvinista. Esta é a abordagem de James White em The Potter’s Freedom. Sua abordagem de Mateus 23:37 é reveladora, e faz mais males que bens para sua posição.

No capítulo 6, Sr. White tenta explicar o que ele refere como os “Três Grandes” versos de Norman Geisler aos quais ele faz constante apelo em seu livro, Chosen But Free (Mt 23:37; 1Tm 2:4, 2Pe 3:9). O tratamento do lamento de Cristo sobre Jerusalém não é apenas problemático, mas prejudicial ao seu calvinismo. A passagem lê-se, “”. Esta passagem parece indicar claramente que Cristo genuinamente desejou a salvação dos judeus (conf. Ez 18:30-32, 33:11), mas sua indisposição impediu-lhe de salvá-los.

Sr. White não perde tempo em nos ajudar a entender que temos errado tudo, e que isto deveria ser bastante claro para nós se simplesmente focássemos fortemente no contexto. A passagem em questão vem após uma longa repreensão aos fariseus e escribas por serem guias cegos, hipócritas etc. Portanto Sr. White conclui que quando Jesus afirma “Jerusalém, Jerusalém”, ele não está falando dos judeus em geral ou da Jerusalém personificada, mas dos líders de Jerusalém (os escribas e fariseus hipócritas), e afirmando que ele desejava reunir seus filhos (em algum sentido então os judeus eram os filhos dos escribas e fariseus?), mas estes líderes corruptos não quiseram permitir Jesus reunir-los, os filhos dos fariseus e escribas, para si mesmo, e portanto não eram os filhos em si que não queriam. Sr. White conclui, “Jesus fala aos líderes sobre seus filhos que eles, os líderes, não lhe permitiram ajuntar… Esta consideração somente torna a passagem inútil para o arminiano tentando estabelecer o libertarianismo” (pg. 138).

Esta “exegese” é problemática por muitas razões. Primeiro, é difícil encaixar os comentários posteriores feitos por Jesus destas pessoas (nos versos 38 e 39) com a ideia que Cristo está abordando somente os líderes corruptos. É para o mesmo povo que Cristo diz {Mt 23:39 AR}. Se a interpretação de Sr. White é acurada, então essa asserção deveria ser igualmente dirigido aos malignos fariseus e escribas. Seriam eles os mesmos que o chamariam de “bendito” quando o vissem novamente? Tal interpretação não parece se encaixar ao contexto histórico, pois os escribas e fariseus certamente viram Jesus novamente após este evento e continuaram a ser hostis diante de seu ministério ao ponto de assegurar sua morte. Se Cristo está falando da restauração final de Israel, como muitos estudiosos creem, então com certeza todo o povo de Jerusalém está em vista e não apenas os escribas e fariseus. Novamente, se Cristo estava abordando os escribas e fariseus que ele acabara de repreender, é bem claro que nenhum deles sobreviveu para ver a restauração de Israel. Mesmo se aplicássemos tais passagens à Entrada Triunfal (como bem poucos estudiosos parecem dispostos a fazer), foi o povo comum que o chamou de “bendito”, e os fariseus que interpelaram Cristo para repreendê-los. Sr. White sequer aborda estes versos em seu livro.

Segundo, este mesmo lamento é gravado em Lucas 13:34-35 em um contexto completamente diferente; um no qual não tão facilmente chega nas conclusões de Sr. White (em Lucas, os fariseus estão tentando proteger Jesus de Herodes). Sr. White sequer menciona a abordagem de Lucas.

Terceiro, não existe qualquer garantia exegética para fazer tal distinção forte entre “Jerusalém” e os “filhos” de Jerusalém. Este era um uso comum de da linguagem bíblica usar dois termos para descrever o mesmo objeto. Considere o uso da palavra em Jeremias capítulo quatro,

[11] Naquele tempo se dirá a este povo e a Jerusalém: Um vento abrasador, vindo dos altos escalvados no deserto, aproxima-se da filha do meu povo, não para cirandar, nem para alimpar,
[14] Lava o teu coração da maldade, ó Jerusalém, para que sejas salva; até quando permanecerão em ti os teus maus pensamentos?
[16] Anunciai isto às nações; eis, proclamai contra Jerusalém que vigias vêm de uma terra remota; eles levantam a voz contra as cidades de Judá.
[18] O teu caminho e as tuas obras te trouxeram essas coisas; essa e a tua iniquidade, e amargosa é, chegando até o coração.
[22] Deveras o meu povo é insensato, já me não conhece; são filhos obtusos, e não entendidos; são sábios para fazerem o mal, mas não sabem fazer o bem.
{Jeremias 4:11,14,16,18,22 Almeida Recebida} – (Ênfase minha)

É claro que, nestas passagens, o Senhor fala à cidade, ao povo, e aos filhos como a mesma entidade. Quando Jeremias fala de Jerusalém é uma óbvia personificação daqueles que vivem na cidade, pois ele fala de Jerusalém, “lava teu coração da maldade”. Bem como nos dias de Jeremias, a cidade está perto de ser destruída devido ao pecado de seu povo. Eles são o mesmo povo que Deus deseja salvar. Sua destruição é merecida devido sua contínua rebelião. Eles estavam indispostos a submeter-se ao seu Senhor, mas em vez disso mataram aqueles que foram enviados para eles que estavam chamando-os para arrependimento. Eles comporiam tais pecados rejeitando e matando o próprio filho de Deus. A cidade portanto sofreria destruição, e os “filhos” rebeldes, a não ser que se arrependessem, sofreriam a perda eterna de sus almas,

[41] E quando chegou perto e viu a cidade, chorou sobre ela,
[42] dizendo: Ah! Se tu conhecesses, ao menos neste dia, o que te poderia trazer a paz! Mas agora isso está encoberto aos teus olhos.
[43] Porque dias virão sobre ti em que os teus inimigos te cercarão de trincheiras, e te sitiarão, e te apertarão de todos os lados,
[44] e te derribarão, a ti e aos teus filhos que dentro de ti estiverem; e não deixarão em ti pedra sobre pedra, porque não conheceste o tempo da tua visitação.
{Lucas 19:41-44 Almeida Recebida} – (Ênfase minha)

Note que neste lamento paralelo Cristo diz que os inimigos da cidade arrasariam “a ti” e “a teus filhos dentro de ti”. Se assumirmos novamente que “Jerusalém” é um apelido para os líderes de Jerusalém, então precisamos explicar como “seus filhos” podem estar entre estes líderes corruptos [Jerusalém]. Obviamente, como em Mateus 23:37, Jerusalém é personificada, e não é uma referência a líderes como contrastado com o povo comum da cidade.

O quarto e mais flagrante problema vem do fato que se aceitarmos a “exegese” de Sr. White, ela cria um problema ainda maior para suas doutrinas reformadas. Lembre-se, de acordo com o calvinismo, Deus é soberano sobre suas criaturas a um tal extremo que elas não tem nada a fazer com sua própria salvação (monergismo). Quando Deus deseja salvar seus eleitos, nadfa pode pará-lo, nem mesmo a indisposição do pecador rebelde (Deus simplesmente “o faz crer”). Homem nada pode fazer para frustrar os propósitos salvíficos de Deus, eles são irresistíveis. Esta é justamente a doutrina que Sr. White está tentando preservar com sua “exegese” de Mateuss 23:37. Mas ele teve sucesso?

Atente novamente para a explanação de Sr. White, “Jesus fala aos líderes sobre seus filhos que eles, os líderes, não o permitiram ajuntar”(pg. 138). Ele reforça isto conectando este verso a um anterior, “[13] Mas ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! Porque fechais aos homens o reino dos céus; pois nem vós entrais, nem aos que entrariam permitis entrar“(pg. 138). Sr. White então troca um problema por outro, pois o texto claramente afirma que os fariseus e escribas não estavam permitindo aqueles que estavam entrando!! Agora realmente abrimos um balde de vermes! Se aqueles que são salvos são os que Deus incondicionalmente tem eleito desde toda eternidade, como pode alguém, incluso os escribas e fariseus, impedi-los de entrar? Como eles poderiam possivelmente fechar o reino deles? Como poderia alguém não permitir Jesus de ajuntá-los para si? Se eles são eleitos, então ninguém pode efetivamente fechar o reino para eles; e se eles são reprovados, é Deus quem trancou as portas do reino para eles (pois Deus eterna e incondicionalmente decretou rejeitá-los), então em que sentido poderia Cristo possivelmente ter esperado reuni-los para si? Talvez Sr. White não tenha pensado o suficiente nas ramificações de suas conclusões, ou talvez ele apenas esperava que nós não o fizéssemos. Seja lá se aceitarmos a interpretação arminiana tradicional, ou a proposta exegese de Sr. White, parece que o calvinismo ainda sofre um tiro fatal.

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Um comentário sobre “Traduções Crédulas: Calvinismo e Livre-Arbítrio: Uma Apologia Exegética de Mateus 23:37

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