Traduções Crédulas: O Uso de Oseias 11:1 em Mateus 2:15 – Soluções Inadequadas: Sensus Plenior

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Sensus Plenior

Interessantemente, o conceito de sensus plenior originou-se das penas de teólogos católicos romanos[33]. Porém, evangélicos começaram a estudar e incorporar este conceito quando lidando com como o Novo Testamento usa o Antigo Testamento[34]. Sensus plenior confia fortemente no conceito de autoria dual. O estudioso católico romano Raymond Brown define sensus plenior como segue: “O sensus plenior é que um entendimento adicional mais profundo intencionado por Deus mas não claramente intencionado pelo autor humano, que é vista à luz de revelação posterior ou desenvolvimento no entendimento da revelação”[35]. Bock comunica uma definição semelhante de sensus plenior: O “Autor humano nem sempre entendeu ou compreendeu completamente a referência profética, enquanto Deus intencionou a referência completa”[36]. Payne captura a essência da visão quando ele nota “Nossa tarefa primária é entender a intenção de Deus, não fundamentalmente a do autor humano”[37].

De acordo com a visão de sensus plenior, Deus como autor divino por detrás da mensagem de Oseias sabia mais que Oseias e intencionou mais do que Oseias anotou. Consequentemente, apesar de Oseias não ter como saber do cumprimento messiânico, Deus intencionou-o. A evidência de que o autor divino intencionou um componente messiânico em Oseias 11:1 é encontrado na maneira que mateus 2:15 aplica Oseias 11:1 a Cristo. Portanto, esta visão permite que Oseias 11:1 seja messiânica em natureza sem encontrar uma predição messiânica no verso a partir do método hermenêutico histórico gramatical[38].

LaSor advoga sensus plenior como uma solução para resolver o problema de Oseias 11:1 e Mateus 2:15. Ele escreve:

Quando ele retirou os israelitas do Egito, ele estava retirando todo o seu povo da escravidão – num sentido literal, porque se Israel não tivesse sido libertado do Egito, não haveria nenhum Israel; e em um sentido mais completo, pois se não houvesse Israel, então não haveria nenhum rei davídico, nenhum profeta, nenhuma Escritura, nenhum Messias, e nenhum cumprimento redentivo. É portanto verdade, neste sentido mais completo, que Deus chamou o seu próprio do Egito. [39]

Em outro momento LaSor escreve, “Ele [Oseias] foi inspirado pelo espírito de Deus … e o espírito o levou a expressar suas palavras numa forma que fosse capaz de um significado mais completo. A completude daquela palavra profética foi vista por Mateus, e ele encontrou o cumprimento em Cristo”[40]. De acordo com LaSor, apesar de Oseias não ter sabido como o plano de Deus eventualmente se desenrolaria, suas palavras eram capazes de serem cumpridas em Cristo[41]. LaSor também parece advogar sensus plenior nos textos mateanos de cumprimento por causa do uso da palavra πληροω[42].

Porém, entender o uso por Mateus de Oseias 11:1 na base de sensus plenior tem sido criticado em diversos fundamentos. Primeiro, se Deus está fornecendo significados desconhecidos ao autor humano, como um interpretador entenderia todas as implicações divinas dadas em um texto além da expressão escrita? Portanto, adotar sensus plenior move o interpretador do domínio da objetividade para o subjetivismo[43]. Kaiser observa, “Quando implicações extrínsecas são lidas em cima do texto bíblico, com uma nota de autenticação divina, então nós introduzimos um elemento incontrolável de subjetividade, se não de fato uma eisegese”[44].

Howard avança com a seguinte abordagem de três ancoramentos a fim de estabelecer controle e objetividade com uma interpretação sensus plenior: o sentido mais completo deve ser dado por revelação futura, o autor humano deve estar vagamente consciente do sentido mais completo, e o sentido completo deve ser baseado em uma leitura literal histórica gramatical do texto do Antigo Testamento. Howard prossegue observando que estes critérios não são satisfeitos acerca de uma interpretação sensus plenior de Oseias 11:1 em Mateus 2:15. O segundo e terceiro critérios não são satisfeitos porque é difícil estabelecer que Oseias incluiu qualquer ideia messiânica em sua discussão do Êxodo histórico de Israel[45]. Mesmo LaSor parece reconhecer que estes dois últimos critérios não são satisfeitos acerca de Isaías 7:14 e Oseias 11:1 quando ele diz “Em nenhum caso há indicação alguma de que o autor tinha algum evento futuro distante em mente, portanto é mais difícil concluir que o autor estava falando de Jesus Cristo ou mesmo um messias sem nome… Mesmo assim ambas as passagens são citadas como cumpridas em Jesus Cristo”[46].

Segundo, o uso de πληροω nos textos de cumprimento mateanos não advoga um entendimento sensus plenior. Como já discutido na visão de profecia preditiva, πληροω não tem que significar o cumprimento de profecia preditiva ou um sentido mais completo por causa da vasta abrangência semântica da palavra[47]. Terceiro, alguns têm criticado sensus plenior baseados em que ele distorce o processo de inspiração. O princípio de sensus plenior faz do autor humano um elemento secundário dado que Deus fornece para o leitor leituras adicionais não intencionadas no contexto original. Isto sugere um processo de inspiração lembrando fortemente um ditado mecânico[48].

Quarto, ainda que seja uma visão minoritária, é possível que o sentido mais completo gire em torno da questão do tempo em vez da matéria do assunto. Kaiser rejeita a interpretação de vários trechos, que são tipicamente utilizados para demonstrar dupla autoria na Escritura, como ensinando que o falante ou escritor inicial não entendeu sua declaração. Após lidar com as passagens em detalhe, ele concluiu que a única coisa que o escritor do Antigo Testamento não entendeu foi o tempo do cumprimento de sua profecia.

Acerca de Daniel 8:27, Kaiser afirma “Tão claro foi o entendimento por Daniel do significado da sua profecia e tão dramático foi seu efeito que ele caiu e adoeceu por alguns dias”[49]. Quando comentando Daniel 12:6-9, Kaiser afirmou, “o fato que estas palavras do anjo deviam ser seladas e trancadas até o tempo do fim, não era nada além de um sinal que estes eventos deveriam permanecer inexplicados até o tempo final que era a expressão equivalente usada em Isaías 8:16, `ata o testemunho, sele a lei”'[50]. Finalmente, ao interpretar 1Pedro 1:10-12, Kaiser nota que os profetas do Antigo Testamento entendiam os seguintes tópicos: o Messias, Seus sofrimentos, Sua glória, a sequência dos eventos (Seu sofrimento foi seguido por Sua glorificação), e que a salvação anunciada naqueles dias pré-cristãos não estava limitada à audiência dos profetas, mas também incluía os leitores dos dias de Pedro. Portanto, Kaiser conclui que a busca dos profetas não estava no significado do que eles escreveram mas, em vez disso, simplesmente no tempo do assunto em questão[51]. Portanto, um entendimento sensus plenior de Oseias 11:1 e Mateus 2:15 é enfraquecido na medida em que o entendimento de Kaiser de dupla autoria esteja correto.

NOTAS DE RODAPÉ

[33] Robert L. Thomas, Evangelical Hermeneutics: The New Versus the Old (Grand Rapids: Kregel, 2002), 361; Bernard Ramm, Protestant Biblical Interpretation (Grand Rapids: Baker, 1970), 40-42.

[34] Howard, “The Use of Hosea 11:1 in Matthew 2:15; An Alternative Solution,” 316. Na nota 14, Howard cita numerosos teólogos católicos que pioneiramente adotaram sensus plenior. Na nota 15, ele cita numerosos evangélicos que incorporaram vários aspectos do sensus plenior.

[35] Raymond E. Brown, The Sensus Plenior of Sacred Scripture (Baltimore: St. Mary’s University, 1955), 92.

[36] Darrell Bock, “Evangelicals and the Use of the Old in the New, part 1,” Bibliotheca Sacra 142 (July-September 1985): 213.

[37] Philip B. Payne, “The Fallacy of Equating Meaning with the Human Author’s Intention,” Journal of the Evangelical Theological Society 20, no. 3 (September 1977): 252.

[38] William S. LaSor, “Prophecy, Inspiration, and Sensus Plenior,” Tyndale Bulletin 29, no. 49-60 (1978): 55.

[39] William S. LaSor, “The Sensus Plenior and Biblical Interpretation,” in Scripture, Tradition, and Interpretation, ed. W. Ward Gasque and William S. LaSor (Grand Rapids: Eerdmans, 1978), 275.

[40] LaSor, “Prophecy, Inspiration, and Sensus Plenior,” 58.

[41] Ibid.

[42] LaSor, “The Sensus Plenior and Biblical Interpretation,” 271.

[43] Tracy L. Howard, “The Author’s Intention as a Crucial Factor in Interpreting Scripture: An Introduction,” Baptist Reformation Review 10 (1981): 22-27.

[44] Walter C. Kaiser, A Response to ‘Author’s Intention’ and Biblical Interpretation’ by Elliot E. Johnson (a paper presented at the International Council on Biblical Inerrancy, Chicago, November 1982, 1982), 1; quoted in Howard, “The Use of Hosea 11:1 in Matthew 2:15; An Alternative Solution,” 317.

[45] Howard, “The Use of Hosea 11:1 in Matthew 2:15; An Alternative Solution,” 317.

[46] LaSor, “The Sensus Plenior and Biblical Interpretation,” 271.

[47] Howard, “The Use of Hosea 11:1 in Matthew 2:15; An Alternative Solution,” 317.

[48] Ibid., 316.

[49]Walter C. Kaiser, “The Single Intent of Scripture,” in Evangelical Roots: A Tribute to Wilbur Smith, ed. Kenneth S. Kantzer (Nashville: Thomas Nelson, 1978), 127.

[50] Ibid.

[51] Ibid., 125-26. Para uma avaliação justa da posição de Kaiser acerca da dupla autoria, veja Elliott E. Johnson, Expository Hermeneutics: An Introduction (Grand Rapids: Academie Books, 1990), 52, 184.

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