Traduções Gigantes: Romanos 9 por Tektonics

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Meu rapaz, nunca na história desse blog fiz uma tradução tão gigantesca! Isso levou meses de suor, um certo traquejo oculto para tradução de termos chatos e difíceis – como ‘colocar todos os ovos na cesta’ -, um estudo do próprio texto, e uma reformatação da coisa toda.

Mas Romanos 9 merece todo empenho! E este texto vai além, por estudar o ambiente no qual São Paulo escreveu a carta. Aliás este site, Tekton Apologetics, é conhecido por abordar este lado sociológico do povo antigo.

Este deve estar recheado de erros, mas está bem útil!

Romanos 9 e TULIP

por JPH on Tekton Apologetics

Tradução: Credulo from this WordPress Blog

O que se segue é nossa exegese de Romanos 9 em formato atomístico – mostrando que ela não suporta a visão calvinista, e se encaixa com os eruditos que consultamos para o assunto.

Deve ser entendido que Romanos 9 é uma peça com o restante de Romanos, e certamente deriva mais significado de seu contexto epistolar completo.

[1] Digo a verdade em Cristo, não minto, dando testemunho comigo a minha consciência no Espírito Santo,

[2] que tenho grande tristeza e incessante dor no meu coração.

[3] Porque eu mesmo desejaria ser separado de Cristo, por amor de meus irmãos, que são meus parentes segundo a carne;

[4] os quais são israelitas, de quem é a adoção, e a glória, e as alianças, e a promulgação da lei, e o culto, e as promessas;

[5] de quem são os patriarcas; e de quem descende o Cristo segundo a carne, o qual é sobre todas as coisas, Deus bendito eternamente. Amém.

{Romanos 9:1-5 Almeida Recebida}

Como uma introdução ao seu próximo conjunto de argumentos, Paulo começa com algumas palavras pessoais – uma retórica apaixonada como se vê – indicando a profundidade da tristeza para seus patrícios judeus. Desde o início deve ser entendido que Romanos é apresentada a uma audiência mista de judeus e gentios convertidos (e talvez também judeus não-cristãos, se Mark Nanos estiver correto; mas isto não faria diferença a nossos argumentos). Um fator primário da apresentação de Paulo será abordar dois gupos ou mais que são supostamente unificados em Cristo, e abordá-los como uma unidade, enquanto também respeitando suas identidades coletivas como grupos separados.

Paulo anda numa corda bamba em Romanos 9, entre as objeções de múltiplos grupos. Apesar de comentaristas calvinistas como White (TPF, 205) são corretas ao ver que Paulo está respondendo a questão “Se os judeus são o povo da aliança, por que eles rejeitam o Evangelho?”, a dinâmica da situação é muito mais complexa. Paulo está também adentrando a situação que na qual ele procura “a redução e eliminação do conflito entre grupos mediante recategorização de dois (ou mais) grupos em conflito debaixo de uma nova identidade comum aos subgrupos” (Esler, Conflict and Identity in Romans, 271). A mente coletivista dos antigos continuaria a prezar suas identidades embutidas para o presente; lembre-se que Paulo e os Apóstolos estão ainda tentando ensinar aos convertidos a lição de que “não existe homem ou mulher” nem qualquer outra identidade que suplante a identidade em Cristo (como até mesmo Pedro, um apóstolo, ainda tinha que aprender completamente em Antioquia).

Em Gálatas, Paulo toma um tom bem austero com eles ao tentar ensiná-los esta lição. Mas Roma era uma igreja que ele não visitou, aparentemente, e os ditames de honradez requerem que ele avance mais suavemente com os romanos. Ele não fará algo para ofender a sensibilidade deles com uma afirmação tão direta como “Não existe judeu ou gentio”. Então em vez de atacar tal noção diretamente como um Malcolm X, ele a mina sutilmente, como um Martin Luther King (como ele faz em Romanos 3:29-30: “[29] É porventura Deus somente dos judeus? Não é também dos gentios? Também dos gentios, certamente, [30] visto que Deus é um só, o qual justificará a circuncisão pela fé, e, mediante a fé, a incircuncisão”).

Como Esler coloca: “… uma precondição para um processo eficaz de recategorização é que nenhuma tentativa seja feita para extinguir os dois subgrupos, desde que isto levaria a esforços contrários de seus membros para manter as suas identidades distintivas de uma forma que torne o estabelecimento de uma nova identidade difícil, se não impossível”[ibid]. Acerca disso é correto afirmar que o teológico e o social são inseparáveis nesta missiva; calvinistas negligenciam este em favor daquele.

Paulo está de fato abordando diversas objeções em potencial:

  • Se os judeus são o povo da aliança, por que a maioria está rejeitando Cristo?

Como notado, esta questão é corretamente identificada por James White e outros como pertinente. Mas tem mais ainda até para esta questão:

  • Se os judeus são condenados por rejeitar Cristo, como você explica que eles continuam no poder na Judeia com a bênção romana até mesmo agora, que a religião deles prospera, que eles possuem um belo Templo?

Este componente crítico é negligenciado por comentaristas calvinistas como White, que observam com lentes de eventos pós-70, e falham em notar que na época em que Paulo escreve (cerca de 45-50), estas mesmas questões imediatas e sérias eram um caso prima facie contra o cristianismo. O destino de uma nação era um importante sinal de seu favor com sua “deidade tribunal”. Judeus dificilmente aceitariam que Deus lhes havia abandonado enquanto o governo da Judeia permanecesse no poder (mesmo com a vigilância romana) e enquanto o Templo permanecesse de pé.

Assim, Paulo está entre dois pontos diametralmente opostos: Ele deve se equilibrar entre reconhecer que os judeus tiveram a bênção de Deus no passado (pois do contrário implicaria que Deus errou em abençoar Israel anteriormente) e mostrando que eles não mais a têm, mas sim o corpo de Cristo — apesar da evidência em seu mundo daqueles dias apontar em contrário.

Finalmente, Paulo deve também tender com a potencial objeção que a falha dos judeus em crer foi uma razão para rejeitar e condenar Israel como corpo – não num nível teológico, mas social; Paulo deve também contra-atacar a tendência dos gentios (nestes dias de fortes prejuízos étnicos) de usar a rejeição por Israel do Evangelho como uma razão para pessoalmente rejeitar os judeus não-cristãos. Ele está também provavelmente confrontando a questão “Se os judeus são o povo da aliança mas rejeitaram seu Messias, não seria o fato que eles pereceriam no vindouro Dia do Senhor, significando que Deus rejeitara seu povo (conf. Jeremias 31:37)?”

Uma das mais relevantes promessas da aliança para Israel neste respeito é um comando, encontrado em Deuteronômio 18:15-18, para Israel prestar atenção e ouvir um profeta que Deus lhes enviaria. O “Profeta” como Moisés deveria ser encarado como Jesus, o mediador de uma nova aliança para todos os homens; a ordem dada é para que ouçam este profeta. Portanto é lógico que desobediência a este comando, é causa para punição. Portanto se os aderentes judeus da aliança deuteronômica falham em ouvir Jesus, eles estão desobedecendo e quebrando a aliança da mesma forma que se eles adorassem um ídolo, ou assassinassem, ou roubassem. Portanto a aliança com os judeus é eterna, e mesmo agora estaria em vigor; mas um judeu que não ouvisse Jesus estaria violando a aliança.

[6] Não que a palavra de Deus haja falhado. Porque nem todos os que são de Israel são israelitas;

{Romanos 9:6 Almeida Recebida}

À luz do que foi dito, uma objeção-chave respondida por Paulo: “Israel” não significa identidade étnica, como seria assumido pelas pessoas de seu tempo. (Morris, 352, cita do Sanh. 10:1 a assertiva “Todos os israelitas terão uma parte no mundo vindouro”.) Até aqui comentaristas calvinistas permanecem verdadeiros ao texto; mas ainda não adentramos onde eles desviam-se do significado de Paulo.

[7] nem por serem descendência de Abraão são todos filhos; mas: Em Isaque será chamada a tua descendência.

[8] Isto é, não são os filhos da carne que são filhos de Deus; mas os filhos da promessa são contados como descendência.

[9] Porque a palavra da promessa é esta: Por este tempo virei, e Sara terá um filho.

{Romanos 9:7-9 Almeida Recebida}

Paulo apela a uma “probabilidade” ou exemplo do passado que verifica a verdade do presente. Ismael foi um descendente étnico de Abraão, completamente elegível pela lei do dia para as bênçãos da aliança com YHWH. Portanto existe um precedente também para para os descendentes étnicos de Abraão serem rejeitados, e não meramente aceitos numa base étnica (membresia de grupo). Este tipo de precedente seria uma forma convincente de prova forense para um leitor antigo.

TPF concorda com este ponto, e então ironicamente realiza o mesmo estudo sociológico que seu autor rejeitou em nosso debate. Mas em seguida ele vai um tanto longe demais numa tentativa de assegurar sua interpretação preferida. “Duas verdades” são extraídas desses versos:

  • “… Deus determinou quem é, e quem não é, filho da promessa”

Certo, mas o intento óbvio de TPF é coletar disto algum suporte retórico para a doutrina calvinista de eleição. Não existe nenhum; nenhum critério é estabelecido para como ou por que Deus tomou a determinação, ou em que ponto (na pré-existência ideal, primariamente causal, de Isaque e Ismael?).

  • “… Paulo fala de salvação de indivíduos.”

Este é um passo em falso. Enquanto Paulo usa esse passo probabilístico como ilustração que pode por extensão guardar alguma relevância em assuntos de salvação, a situação de salvação de Ismael jamais é discutida (contrário a Piper, Pip.JG, 43). De fato,desde que ele fora circuncidado é plausível que ele tenha adentrado numa relação de aliança com YHWH e poderia ter sido salvo bem como os outros santos do AT; mas nada é dito disto por Paulo de uma forma ou de outra. (Gn 17:26; mesmo assim Piper crê que oponentes de Paulo poderiam argumentar que Ismael fora excluído da aliança, o que criaria portanto uma brecha lógica que Paulo precisaria responder. Não há nenhuma base para tal argumento.)

Como Morris [353] coloca, “Isto não significa que Ismael e Esaú estavam necessariamente excluídos da aliança; foi o comando de Deus que eles recebessem circuncisão, o sinal da aliança (Gen. 17:9-13; cf. Gn 17:23,26). Eles não foram excluídos da misericórdia de Deus e ambos receberam bênçãos”. Cranfield [2/475] igualmente: “Então não devemos ler em cima do argumento de Paulo nenhuma sugestão de que Ismael, por não ter sido escolhido para desempenhar um papel positivo na realização do propósito especial de Deus, está portanto excluído da abrangência da misericórdia de Deus”.

Então se essa passagem é acerca da salvação de indivíduos como White alega, ela tenderia para provar alguma forma de universalismo no pior caso, o que temos certeza de não ser o que White queira alegar.

Moo [576n] reconhece isto, mesmo como calvinista, mas responde com uma não-resposta: “Mas o texto que Paulo cita foca, como temos visto, na clara distinção traçada em Gênesis entre Isaque e Ismael em termos da aliança. Isaque é o herdeiro que recebe e mediante quem são transmitidas as bênçãos espirituais da aliança”.

Mas tudo que Moo faz aqui é reverter sua acusação contra aqueles como Cranfield e Morris de quem ele alega que “minimizam as implicações espirituais” – Moo por sua vez meramente tenta maximizar as implicações espirituais, e ao fazer isso acaba acertando na melhor resposta, que “salvação de indivíduos” não é o assunto de Paulo.

Novamente, ainda, Paulo não está preocupado com “salvação” – ele meramente está abordando o ponto específico que identidade étnica não é garantia de cumprimento de promessa de nenhuma espécie (e nem salvação em particular); por expansão pode ser dito também, nada sobre uma pessoa garante que Deus lhe dará alguma coisa – e este significado, do ponto de vista do homem (mais sobre isto em breve).

A promessa da aliança para Isaque era acerca de terras e benesses nesta vida – os aspectos soteriológicos (o culto do Templo) não estariam presentes durante muitos anos ainda. Portanto no máximo seria correto afirmar somente que “Paulo falava de salvação” no sentido de que seria correto afirmar que alguém dizendo “os animais do mundo são gloriosos” é “falar sobre texugos” – temos algo que nos mostra que Deus está na responsabilidade de atribuir as regras, e presumivelmente, Ele o faz em todas as atribuições, não somente essa. Mas nada disso nos afirma como exatamente as regras são para qualquer além da membresia da aliança, e a negativa particular, “não é identidade étnica”.

Moo [571] corretamente rejeita a ideia que Paulo “não está implicando nada acerca da salvação de indivíduos” (ênfase acrescida) mas o calvinista vai muito além em pensar que Paulo está falando todo e tudo que pode ser dito sobre a salvação dos indivíduos. De fato, “implicação” é realmente tudo que PODE ser derivado a partir de Paulo sobre este assunto aqui, e calvinistas enchem o resto baseados em pressuposições.

O comentário de Edwards sobre Romanos [231-2] coloca desta maneira: “Que papel, se há algum, Ismael, por exemplo, desempenhou na mais extensa economia de Deus, nós não sabemos, apesar de que somos informados que Deus o abençoou e cuidou ele (Gn 16:10-14, 17-20, 21:13-21)”. E: “No presente contexto Paulo não está discutindo a salvação eterna dos indivíduos, mas as escolhas providenciais de Deus na história desde Abraõ até Cristo”. [233]

Mas na primeira vez que a pergunta é levantada, “Por que Isaque e não Ismael?”, Paulo não oferece resposta; como um leal hebreu, como Wilson apontaria, ele considerava a questão irrelevante, já que seria bastante óbvio que a resposta seria: Deus é santo, justo e bom; portanto, quaisquer razões por sua escolha de Isaque sobre Israel, seriam justas. Por que se preocupar com detalhes?

A resposta estaria na natureza de Deus, de tal forma que podemos realizar um razoável julgamento. Deus é amor; sua escolha é motivada por amor (significando no sentido de agape, o bem maior); portanto Isaque foi escolhido sobre Ismael porque ele servia ao bem maior.

E por quê? Talvez a resposta esteja no que de fato ocorreu quando Ismael formou uma nação: ela era obviamente menos adequada para o propósito de Deus que os descendentes de Isaque cumpriram. Calvinistas como Palmer que simplesmente jogam a toalha e dizem que uma “mente humana curiosa” jamais pode achar resposta, faz isso com a consciência de que eles não podem tomar a mesma rota que tomamos sem minar sua própria doutrina de eleição.

Não podemos concluir a partir disto por que Deus escolheu um acima do outro afinal; Paulo apenas nos informa por que Deus não escolheu um acima do outro – não foi por identidade étnica. E desde que isto somente era o assunto pertinente aos pontos que ele abordava, dificilmente deveríamos esperar uma resposta para o “porque” além dessa, afinal. Tanto seu alvo de assunto quanto sua expressão hebraica em mente significam que Paulo não viam necessidade de expor o assunto além disso.

Então, o como Paulo aborda os assuntos está claro:

  • “Se os judeus são o povo da aliança, por que a maioria rejeita o Evangelho?”

Resposta: Identidade étnica não tem nada a ver com ser do povo da aliança de Deus. Então a rejeição do Evangelho pelos judeus não significa nada.

  • “Se o judeus são condenados por rejeitar Cristo, como você explica que eles continuem no poder na Judeia agora mesmo, que sua religião prospera, que eles possuem esse belo Templo?

Como explicar então a própria bênção extensiva de Ismael, e as muitas nações que ele gerou?

  • “A falha dos judeus em crer é a razão para rejeitar e condenar Israel como corpo”.

Mesmo assim Deus abençoou Ismael e Esaú, e os aceitou em Sua aliança. Portanto não há razão para não evangelizar judeus.

[10] E não somente isso, mas também a Rebeca, que havia concebido de um, de Isaque, nosso pai

[11] (pois não tendo os gêmeos ainda nascido, nem tendo praticado bem ou mal, para que o propósito de Deus segundo a eleição permanecesse firme, não por causa das obras, mas por aquele que chama),

[12] foi-lhe dito: O maior servirá o menor.

[13] Como está escrito: Amei a Jacó, e aborreci a Esaú.

{Romanos 9:10-13 Almeida Recebida}

Mantendo em mente que Paulo não está “falando de salvação” no sentido descrito, ele oferece mais um exemplo confirmando que identidade étnica não é de relevância. Em bases puramente étnicas, Esaú e Jacó estavam empatados; na base que judeus do tempo de Paulo alegavam promessas da aliança, não existia nenhuma liberalidade para Esaú. De fato Esaú é o perfeito contraponto para os judeus dos dias de Paulo, dado que ele era primogênito, e os judeus dos tempos de Paulo se viam como privilegiados com a melhor posição para o benefício da aliança.

Ademais, bem como alguém que rejeita a aliança e a trata com desdém, Esaú seria uma paralelo perfeito com os judeus do primeiro século que desobedeceram a aliança, notavelmente Dt 18. Portanto, também, a requisição de Piper é satisfeita [PiP.JG, 40] que ele procurou “em vão” e não pode achar nenhuma explicação não-calvinista para como 9:12-13 se encaixa como 9:6b. Debaixo do paradigma de identidade de grupo, 9:12-13 são intencionados provar a asserção de 9:6 mostrando que a relação étnica de Esaú para Isaque não o fez “Israel” mais que fez pelos judeus dos dias de Paulo.

Piper simplesmente precisa entender a cultura coletivista na qual Paulo estava imerso. Portanto é igualmente falha a sua asserção que 9:6-13 “deve abordar o assunto da salvação eterna” [46] simplesmente porque ele não consegue encontrar outra interpretação viável.

O calvinista argumenta que “Rm 9:11 elimina a possibilidade de que eleição e reprovação sejam baseadas no que os objetos da eleição e reprovação fariam ou não”. Esta está longe de ser a única leitura disponível por estudiosos; outros mantêm, assim como nós, que é sobre”a liberdade de Deus em empregar e ordenar quaisquer agentes para cumprir seus propósitos na história” – aqui, especificamente, “o cumprimento das promessas de aliança aos herdeiros de Abraão”.

Mas calvinistas se aproveitam de que “obras” são apontadas como razão para Deus eleger e salvar. Nossa resposta é dupla.

Primeiro, nós temos perguntado de que forma a mera tomada de decisão é uma “obra”. As tentativas que nos têm sido dadas para mostrar isto têm falhado, principalmente por não mostrarem que a tomada de decisão do tipo que temos na mente (perguntar, “Deus, posso me juntar à comunidade da aliança?” ou a trivial “É hora de desjejum?”) são “obras”.

Segundo, Esler [283-4] nota que dado que Paulo em outros momentos de Romanos refere se refere a “obras da lei”, é provável que o que ele tinha aqui em mente era não obras de retidão em geral, mas uma referência ao completo sistema de salvação por obras associado com o judaísmo, como a circuncisão (Rm 3:1). Note que Paulo se refere às “obras da lei” simplesmente como “obras” em outros pontos de Romanos (3:27, 4:1, 4:6; cf. 9:32). Isto seria pertinente porque Jacó, sendo bastante anterior à aliança do Sinai, seria um pobre exemplo para judeus dos dias de Paulo que apelaram para sua condição de aliança como uma razão para se verem a si mesmos como eleitos. Por que ele tinha sido eleito antes de nascer – antes mesmo de circuncisão! Antes de realizarem bem ou mal (paralelizando as bênçãos e maldições de Deuteronômio, conceitualmente).

Deve ser notado em honestidade que comentaristas como Morris [356] discordam de Esler e creem que não meramente obras da lei, mas TODAS as obras estão em vista. Nós cremos que isto faz a passagem menos adequada ao propósito de Paulo; mas mesmo assim, Morris estabelece em acréscimo: “É eleição para privilégio que está em vista, não salvação eterna”. Cranfield [2/497] concorda. Como notado, desde que ao próprio Esaú foi permitida participação na aliança com YHWH que espelhou a de Jacó, fazer desta uma passagem sobre salvação levaria a uma conclusão problemática para calvinistas.

Um dos passos presuntivos de Piper aqui [Pip.JG, 33] é uma equação completa do “propósito” do verso 11 com a “palavra” do verso 6. Não existe base para esta declaração arbitrária, e nenhuma razão para expandir o “propósito” do verso 11 além da questão da eleição de Esaú e Jacó. Isto não significa que Deus não tenha propósitos em outras áreas, mas ao igualar as duas palavras completamente, Piper trava o propósito de Deus numa camisa de força determinística. Além disso ele assume (não sendo esta a única vez) que só existe uma maneira pela qual Deus pode executar Seus propósitos, via predestinação calvinística.

Com o verso 13 Paulo expande o ponto para nações bem como indivíduos – citando Malaquias, que é sobre os corporativos Israel e Edom. Desta forma ele também toma o assunto relevante aos restritos grupos modernos de Israel e o corpo de Cristo. Comentaristas são divididos entre se indivíduos ou nações estão em vista; nós sugeriríamos este último.

É claro, um leitor antigo deste texto imediatamente associaria o ancestral raiz do grupo com a totalidade do grupo, portanto mesmo passagens que pareçam ser estritamente sobre uma pessoa têm aplicação direta para seus descendentes corporativos também. É melhor nem mesmo estabelecer uma dicotomia entre indivíduos e pessoas afinal neste contexto. Edwards [234] faz o ponto adicional que ainda que “Edom como nação fora rejeitado, os edomitas não estavam além nem da compaixão de Israel nem da de Deus (p.ex. “Não abominarás o edomeu, pois é teu irmão; nem abominarás o egípcio, pois peregrino foste na sua terra”.{Dt 23:7 AR}). Calvinismo, mais uma vez, leva inadvertidamente ao universalismo aqui.

Então qual o porquê da eleição (mesmo que seja sobre salvação)? O assunto como estabelecido por ambos Piper e White (“não somente anterior aos seus bons ou maus atos, mas também completamente independente deles”) cria uma certa dissonância com uma porção posterior de Romanos 9. Paulo prossegue para comparar analogicamente homens a vasos feitos pelo Oleiro. Isto não indica que os vasos são feitos para certos propósitos? (Claro que sim.) E isto não sugere que para cumprir tais propósitos os vasos são feitos de uma certa forma, e que existe algo sobre eles que cumpre o propósito? O ponto perdido aqui é que a indicação não é tão “completamente independente” do que estava nos gêmeos, tanto como era neles que Deus como Oleiro (e Motor Primeiro) ciou neles para executar Sua soberana vontade.

E não é como se porém Esaú pudesse “competir” pelo lugar de Jacó, ou como se Jacó pudesse se vangloriar porque Deus fez ele mais de acordo com o propósito que Ele estabelecera – e este é especialmente o caso com o assunto em questão, identidade racial e social, o que dificilmente dá a qualquer um alguma vantagem no domínio teológico.

Então, e quanto ao “não por obras”? Aqui oferecemos três réplicas:

A primeira é que mais uma vez Paulo não está falando sobre salvação. Em vez disso, como Esler diz, “Paulo mostra como uma larga classe de pro-genia natural pode ser regularmente reduzida por Deus ao intervir em favor de um particular descendente em sucessivas gerações”[280]. nem estaria ele falando de obras em geral, necessariamente. Mas mesmo que fosse o caso, temos o mesmo apelo dantes feito, com 9:16:

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Pois não falei a vossos pais no dia em que os tirei da terra do Egito, nem lhes ordenei coisa alguma acerca de holocaustos ou sacrifícios.

{Jeremias 7:22 Almeida Recebida}

Nesta linha de raciocínio cético, Jeremias 7:22 “se interpõe em flagrante contradição com o que os últimos quatro livros do Pentateuco dizem” com os muitos comandos e sacrifícios. Presumivelmente estamos a pensar que Jeremias representa alguma facção anti-culto que nega a herança mosaica – alguns diriam que ele estava falando contra alguma adulteração de Deuteronômio “descoberta” no Templo.

A simples resposta a isto nota que trata-se de fato do uso de uma hipérbole para enfatizar o ponto. O propósito desta frase é mostrar a relativa importância dos sacrifícios etc. em termos das atitudes internas.

…Jeremias (bem como outros escritores bíblicos – cf. Am 5:21-5, Mq 6:1-8, Is 1:10-17) emprega aqui um tipo de idioma projetado para prender a atenção de seus ouvintes e causar sua mensagem ser notada e lembrada… em nosso verso (22), uma negação retórica é usada para trazer atenção ao fato que postura interior é mais importante que rituais externos. Expressando o assunto em termos de uma negação, o ouvinte/leitor é primeiro abalado, depois realiza das admonições seguintes ao que é o real ponto: Como expresso em 1Sm 15:22 –

Samuel, porém, disse: Tem, porventura, o Senhor tanto prazer em holocaustos e sacrifícios, como em que se obedeça à voz do Senhor? Eis que o obedecer é melhor do que o sacrificar, e o atender, do que a gordura de carneiros.

Esta espécie de técnica de ensino retórico violento era muito comum na cultura semítica e médio-oriental antiga… Bright [Brig. Jer, 57] fala pela esmagadora maioria de comentaristas (conservadores, moderados e liberais igualmente) quando ele escreve sobre Jr 7:22 –

É improvável, porém, que isto é para ser tomado como uma rejeição categórica do sistema sacrificial como tal, ou uma afirmação de que não existiu sacrifício no deserto.

O ponto, ele prossegue, é que “as demandas essenciais de Deus não se relacionavam a detalhes rituais, mas à manutenção das estipulações da Aliança”. Para esta visão, veja também Alle.Jer, 64-5; Clem.Jer, 46-7; Huey.JerLam, 109; Thomp.Jer, 287-8.

O idioma de negação emerge da palavra hebraica lo, que se translitera como “não”. Neste assunto, o principal estudo foi feito por Whitney [Whit.Jer 7:22, 152], que descreve o uso de lo em Jr 7:22 como “uma forma de ironia verbal hiperbólica intencionada para intensificar o contraste entre o que era presente na mente da audiência e o que deveria estar presente”. Whitney mostra este uso idiomático de lo em outros lugares do AT: Gn 45:7-8; Ex 16:8; 1Sm 8:7, 20:14-15; Jó 2:10; Jr 16:14-15; Ez 16:47; Os 6:6. Sua conclusão concorda com aquela de Feinberg [Fein. CommJer, 75]:

… A negativa no hebraico geralmente supre a falta do comparativo – i.e. sem excluir a coisa negada, a afirmação implica somente a importância das coisas postas em contraste.

Semelhantemente, Laymon [Laym. IntB, 380]:

O idioma hebreu permite a negação de uma coisa a fim de estabelecer outra, e a intenção aqui não é negar completamente mas apenas relegar a segundo plano.

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E portanto perguntamos: Há alguma razão por que o “não” em Romanos 9:13,16 não deva ser lido da mesma forma que o “não” de Jeremias 7:22 – como um idioma de negação, não excluindo a coisa negada, mas em vez disso, enfatizando a importância primária da soberania de Deus no contraste?

Eu ainda espero uma resposta viável que não apele ‘excepcionalmente’ para Paulo ser diferente do que ele é. Piper [35] declara que a força do “não” é mostrada pela frase paulina semelhante, “não pelas obras mas pela fé”[35]. Mas a antropologia semítica mina a asserção de Piper: Obras são tratadas como crescimento natural e automático da fé genuína; portanto existe uma sobreposição e não uma dicotomia entre elas. Então eta frase paulina (Piper não dá citação, mas pode ter em mente Ef 2:8-9 – e se for o caso, esta também não se refere a fé afinal) não força o “não” a ser mais absoluto, e se for qualquer coisa, confere crédito ao nosso entendimento.

E terceiro, replicamos desta forma: negando que características sejam de qualquer relevância afinal deixa o calvinista com nada além de uma pia declaração de não-resposta como a de Palmer. Pois este segue:

  • A escolha de Deus ou foi arbitrária ou teve um propósito. Não existe terceira opção.

Calvinistas certamente negariam que Deus é arbitrário, então eles devem escolher a última opção.

  • Deus tendo propósito, significa que A ou B ou C… era melhor adequado para o propósito de Deus.
  • Ser melhor adequado significa ter características específicas apropriadas a uma configuração.
  • Portanto, deve haver algo sobre A ou B ou C… que motivou a escolha de Deus.

O calvinista não tem nenhuma resposta a isto além da rendição epistêmica de Palmer. É muito mais simples escapar do enigma ou 1) aceitando que “salvação” não é o tema de Paulo, nem obras de justiça em geral; ou, 2) apelar para uma reconhecida característica não-controversa da linguagem usada por Paulo, encontrada em outros lugares na Bíblia, e reconhecida como existente pelo consenso acadêmico.

De fato, é significativo que Piper admite que os antigos comentaristas gregos e latinos adotavam esta mesma visão que nós, e que ele desacredita. Então podemos agora perguntar a White: Estes homens seguiram Cristo tanto quanto Calvino. Por que não crer no que eles dizem? (De fato Piper usa textos do Qumram para apoiar sua própria visão; como ele pode fazer isto se os Qumranitas não seguiram os passos de Cristo?)

[14] Que diremos, pois? Há injustiça da parte de Deus? De modo nenhum.

[15] Porque diz a Moisés: Terei misericórdia de quem me aprouver ter misericórdia, e terei compaixão de quem me aprouver ter compaixão.

{Romanos 9:14-15 Almeida Recebida}

Esta é a seção mais crucial aos nossos propósitos, e lembraremos o leitor do que dissemos, e faz correlação direta com o propósito de Paulo em Romanos:

  • Temos dito que, num contexto antigo, “misericórdia” é melhor tratada como gratidão ou amor benigno – como em, “a dívida de relações interpessoais por favores impagáveis recebidos”. Misericórdia não é relativa a sentimentos ou compaixão, como hoje, mas com o “pagamento do débito de obrigação interpessoal pelo perdão de débitos triviais”. Afirmar “Senhor, tenha misericórdia!” (Mt 20:31) significa “Senhor, pague sua dívida de obrigação interpessoal para nós!” Longe de ser um apelo de desesperançados, é uma requisição de pagar um favor previamente obtido.

À luz da natureza da objeção – que Deus estaria abandonando as promessas da aliança, se o cristianismo fosse verdadeiro – a resposta de Paulo é reafirmar o penhor do Deus do AT que Ele será misericordioso – isto é, que Deus não abandonará as promessas da aliança. O significado de “misericórdia” como temos descrito se encaixa perfeitamente com o contexto de Romanos 9. Ademais, desde que o AT contém tanto este penhor quanto os exemplos que Paulo dá de Esaú e Ismael, o objetor, caso seja judeu, é capturadso na sua própria matriz de autoridade.

  • Nós temos dito que “compaixão” no mundo bíblico era um valor enraizado primariamente em obrigações mútuas”[30]. Ela se relaciona ao valor que a família, como um grupo unido, deve ter a maior consideração entre si.

À luz da natureza da objeção, novamente, a resposta de Paulo afirma o penhor vetero-testamentário de que Ele de fato cumprirá suas obrigações mútuas. Portanto o que Paulo cita é uma negação, por asserção, da própria coisa que seus oponentes no judaísmo insinuariam.

Voltando à questão do Piper[76] de como isto responde à objeção que Deus não é justo: É Paulo respondendo, por meios de um texto do AT que seus oponentes devem ter como autoritativo, afirmando que Deus é aquele que mantém Sua palavra; é uma afirmação de caráter contra a acusação de que Deus é injusto. Note também que isto vem de Ex 33:19, que em seu contexto é:

[12] E Moisés disse ao Senhor: Eis que tu me dizes: Faze subir a este povo; porém não me fazes saber a quem hás de enviar comigo. Disseste também: Conheço-te por teu nome, e achaste graça aos meus olhos.

[13] Se eu, pois, tenho achado graça aos teus olhos, rogo-te que agora me mostres os teus caminhos, para que eu te conheça, a fim de que ache graça aos teus olhos; e considera que esta nação é teu povo.

[14] Respondeu-lhe o Senhor: Eu mesmo irei contigo, e eu te darei descanso.

[15] Então Moisés lhe disse: Se tu mesmo não fores conosco, não nos faças subir daqui.

[16] Como, pois, se saberá agora que tenho achado graça aos teus olhos, eu e o teu povo? Acaso não é por andares tu conosco, de modo a sermos separados, eu e o teu povo, de todos os povos que há sobre a face da terra;

[17] Ao que disse o Senhor a Moisés: Farei também isto que tens dito; porquanto achaste graça aos meus olhos, e te conheço pelo teu nome.

[18] Moisés disse ainda: Rogo-te que me mostres a tua glória.

[19] Respondeu-lhe o Senhor: Eu farei passar toda a minha bondade diante de ti, e te proclamarei o meu nome Jeová; e terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia, e me compadecerei de quem me compadecer.

[20] E disse mais: Não poderás ver a minha face, porquanto homem nenhum pode ver a minha face e viver.

[21] Disse mais o Senhor: Eis aqui um lugar junto a mim; aqui, sobre a penha, te poras.

[22] E quando a minha glória passar, eu te porei numa fenda da penha, e te cobrirei com a minha mão, até que eu haja passado.

[23] Depois, quando eu tirar a mão, me verás pelas costas; porém a minha face não se verá.

{Êxodo 33:12-23 Almeida Recebida}

Note que no contexto, Moisés está pedindo a Deus confirmação de Sua garantia da aliança: “Considere que esta nação é seu povo”. “Como, pois, se saberá agora que tenho achado graça aos teus olhos, eu e o teu povo?”. E a resposta é aquela em que “o caráter de Deus garante suas ações” [Edwards, 237].

Em tudo isso, os calvinistas têm um lado da equação correta: o critério de Deus é o que define aquele que Ele concede misericórdia e compaixão. Mas o outro lado da equação, eles forçam em cima do texto: O processo específico de como misericórdia e compaixão são divinamente concedidas. E eles concretizam isto em parte por uma leitura forçada, antinatural e descontextualizada deste verso crítico:

[17] Pois diz a Escritura a Faraó: Para isto mesmo te levantei: para em ti mostrar o meu poder, e para que seja anunciado o meu nome em toda a terra.

[18] Portanto, tem misericórdia de quem quer, e a quem quer endurece.

{Romanos 9:17-18 Almeida Recebida}

Nós já repetimos nosso caso acerca do “não” (e por extensão o “nem”) acima. Ler com literalismo pétreo resulta em problemas lógicos e contextuais da mesma espécie que ler Jr 7:22 desta forma poderia produzir. Misericórdia é mais importante; mas ação humana não é inteiramente descartada como fator, meramente subordinada.

Além disso, mais uma vez o contexto de Paulo deve ser conciliado de qualquer forma: A aliança é com aquele que Ele faz; aqueles de fora – violadores de alguma forma – como Ismael, Esaú, e judeus dos dias de Paulo – são “desejosos e corredores” tentando forçar sua entrada na aliança, ou de outra forma estão de fato rejeitando-a (e mesmo assim, eles foram bem-vindos em uma relação de aliança).

Pondo desta forma: Sem uma aliança, não importa quão bom você seja ou o que você faça – Deus tem que comprometer-Se a te salvar, a fazer Seu fim do processo primeiro.

White estabelece o red herring que ou é a sua leitura, ou é outra, a que o homem está numa posição toda-poderosa da decisão final se toda a obra do Deus Triuno falhará”[210]. Dramalhões à parte, esta visão dá a palavra final a Deus em todos os pontos; porque é Deus quem fez as regras, e o homem que deve decidir apenas se as segue ou não. Podemos igualmente dizer que nosso sistema criminal “falha” porque ele na realidade sucede em julgar, prender e encarcerar pessoas.

Piper admite [Pip.JG, 132] uma interpretação baseada um contexto judaico que permite outro entendimento de Rm 9:16 e a palavra “corre”. Salmo 119:32 diz “Percorrerei o caminho dos teus mandamentos, quando me alegrares o coração” e Piper admite que isto “recomenda-se prontamente como uma indicação de como Paulo deve ter entendido o correr aqui”, como significando a resolução moral de manter a lei. Este entendimento de fato se encaixa como uma luva com aquele que nós temos oferecido, porque seria uma perfeita resposta ao oponente judeu de Paulo que aposta suas fichas na identidade social.

Piper admite também que isto coere com Rm 9:30 que se refere a Israel “perseguindo uma lei de justiça”. Piper nota também que o uso rabínico espelha isto. Para escapar deste claro paralelo, Piper solenemente declara que nós não podemos colocar uma “limitação não-intencionada” nas palavras de Paulo. Ele dá três razões para isto:

Primeiro, ele apela ao paralelo em 9:11; mas ao fazer assim, ele simplesmente peticiona o princípio de sua leitura calvinista errônea a fim de apoiar a mesma leitura para 9:16, e além disso, como nós notamos, Esler mostrou que 9:11 pode também ser lido em termos de obras da lei, não obras em geral – ambas fazendo perfeito sentido como resposta aos opositores judeus de Paulo.

Segundo, Piper peticiona uma segunda questão com apelo ao seu entendimento de Êxodo 33:19, que como nós temos mostrado não tem nada a ver com eliminar a completamente responsabilidade humana.

Terceiro, Piper atinge todas as vias até Fp 2:13 por um paralelo, alegando que ele oferece uma “contra-partida positiva” que verifica sua visão de Rm 9:16. Mas Fp 2:13 é, primeiramente, voltado para cristãos cheios do Espírito, não a convertidos prospectivos; além disso, Fp 2:13 não nos conta COMO Deus opera em Seu povo (se por influência sutis ou abrupta manipulação marionética) e portanto não providencia nenhum suporte para um determinismo calvinista.

Em tudo isso, ainda é de acordo que é decisão de Deus para quem Ele oferece a misericórdia da aliança. Também concordamos com Piper que não importa se você trabalha para Deus feliz ou obstinadamente[134]. Porém, isto não elimina definitivamente o fator humano na aceitação das provisões da aliança de seu próprio livre arbítrio. Além disso, mesmo sem tudo isso, Cranfield [2/483] chama a leitura de Calvino sobre isto “uma desastrosa distorção” que torna esta passagem em “uma absoluta liberdade de ser misericordioso ou não” que cria “uma vontade de Deus que é diferente de Sua vontade misericordiosa”.

[17] Pois diz a Escritura a Faraó: Para isto mesmo te levantei: para em ti mostrar o meu poder, e para que seja anunciado o meu nome em toda a terra.

[18] Portanto, tem misericórdia de quem quer, e a quem quer endurece.

{Romanos 9:17-18 Almeida Recebida}

Faraó aqui, e o Egito corporativo, servem como exemplo de quem Deus NÃO estabeleceu uma relação de aliança, e de fato foi o mais mordaz exemplo às mãos para o caso, desde que Faraó se opôs ao povo da aliança (bem como os judeus dos dias de Paulo certamente se opunham aos cristãos). E serve adicionalmente para sugerir para os leitores de Paulo que aqueles que se opõem a Deus podem e serão endurecidos (portanto, o porquê de os judeus não terem crido).

Deve ser notado que existe uma dicotomia na história original dado como o endurecimento foi feito e por quem. Como Glenn Miller nota aqui [], e com a qual relatamos certos pontos contra a visão calvinista:

  • A sequência de eventos é instrutiva: durante as primeiras cinco pragas, Faraó endureceu seu próprio coração sem nenhum auxílio de Deus (Ex 7:13,14,22, 8.15,19,32; 9:7). Então Deus fez um (9:12) e Faraó e seus oficiais fizeram um em conjunto (9:34-35), e então Deus fez o restante. Note que ao contrário da implicação de White, que apenas aponta que Deus endureceu o coração de Faraó, existe clara indicação de Faraó endurecendo o próprio coração de seu próprio acordo. Ignorando este aspecto de Êxodo, White cria uma falsa figura. O endurecimento claramente ocorre após decisões livres libertárias de rejeitar Deus. (Miller porém parece ter errado as citações; Faraó endurece seu próprio coração em 8:15,32 e 9:34; nas outras citações que ele oferece não se especifica quem fez o endurecimento.)
  • Os milagres/sinais/julgamentos em si têm o objetivo:
    • para que os egípcios soubessem que Yahweh era Deus (e portanto viessem a ter um correto relacionamento com ele?) – 14:4,17;
    • para que os israelitas soubessem que YAHWEH os libertara da antiga opressão com poder, e era portanto um Deus que eles pudessem confiar para as suas necessidades (10:1);
    • para que o mundo todo ouvisse sobre Deus (presumivelmente pelas mesmas razões acima?) – 9:16…
    • O objetivo final parece ser alertar a todos acerca do verdadeiro Deus vivo.

À esta luz, é argumentável ainda que Romanos 9 se encaixe perfeitamente com a ideia que decisões de livre arbítrio são parte do processo. Miller conclui:

 Há um motivo de porque eu não ter adentrado naqueles primeiros pontos 1-12 das questões de interpretação, que é relevante aqui. Deus parece lidar conosco (em muitos casos) em espirais… em outras palavras, se eu escolho rejeitar sua verdade em favor de uma mentira, ele resistirá a mim por um tempo, mas eventualmente ‘me entregará’ ao que quero – me ensinar uma lição. Ele é seletivo nisto comigo, desde que estou relacionado com ele pela filiação em oposição à mera cidadania. (Em termos bíblicos, todos os homens são cidadãos do seu reino universal, mas apenas aqueles que confiam em seu filho são adotados em sua família real). No modelo de cidadania, Deus tem um código legal que prescreve esta punição para cidadãos de sua jurisdição. Mas como qualquer juiz, ele tem alguma liberdade em quão exaustivo ele invoca o código. Então, para atender seus planos, ele pode cobrar uma sentença menor de alguns, enquanto de outros ele pode tratá-los como aqueles que deliberadamente esquecem (2Pe 3:5) e “perecem, porque NÃO RECEBERAM O AMOR DA VERDADE para serem salvos. E por isso Deus lhes envia a operação do erro, para que creiam na mentira;”(2Ts 2:10-11). Este último verso (e passagens correlatas) me convencem da característica espiral de nossa resposta: se queremos crer em uma mentira, Deus nos enviará uma! E, se quisermos crer na verdade, Deus trará uma para nós.

Sabemos que Deus envia dureza ao coração como punição em Lm 3:59FF:

[59] Viste, Senhor, a injustiça que sofri; julga tu a minha causa.

[60] Viste toda a sua vingança, todos os seus desígnios contra mim.

[61] Ouviste as suas afrontas, Senhor, todos os seus desígnios contra mim,

[62] os lábios e os pensamentos dos que se levantam contra mim o dia todo.

[63] Observa-os ao assentarem-se e ao levantarem-se; eu sou a sua canção.

[64] Tu lhes darás a recompensa, Senhor, conforme a obra das suas mãos.

[65] Tu lhes darás dureza de coração, maldição tua sobre eles.

[66] Na tua ira os perseguirás, e os destruirás de debaixo dos teus céus, ó Senhor.

{Lamentações 3:59-66 Almeida Recebida}

O que isto significa é que os julgamentos de Deus não foram por causa dos endurecimentos posteriores, mas que os endurecimentos posteriores eram os próprios julgamentos em si. (Este mote é mostrado também em Josué, onde os reis que foram expelidos da terra por crimes atrozes foram ‘endurecidos’ tal que guerrearam contra Israel, cf. Js 11:19f.)

Com esta visão holística de Êxodo, o entendimento calvinista de Romanos 9 como uma visão preto-e-branco, “ou misericórdia ou endurecimento” colapsa e o próprio Calvino “vai além do texto” [Cranfield, 489] ao ler nisto assuntos do “destino final do indivíduo”. Além disso, não há indicação que Paulo pensa que o endurecimento de Faraó foi permanente ou irreversível. O endurecimento de Israel certamente não era em sua visão (11:25-26) [By.Rom, 299] e tradições judaicas também mantinham que Faraó depois se arrependeu.

Piper tenta contornar este problema. Ele referencia Ex 7:3-4:

Eu, porém, endurecerei o coração de Faraó e multiplicarei na terra do Egito os meus sinais e as minhas maravilhas.

Mas Faraó não vos ouvirá; e eu porei minha mão sobre o Egito, e tirarei os meus exércitos, o meu povo, os filhos de Israel, da terra do Egito, com grandes juízos.

Daqui Piper conclui que em qualquer momento dali em diante, simplesmente porque Deus predisse a conjunção dEle mesmo endurecendo o coração de Faraó e Faraó não ouvindo, que versos como Ex 9:34-35 (Vendo Faraó que a chuva, a saraiva e os trovões tinham cessado, continuou a pecar, e endureceu o seu coração, ele e os seus servos. Assim, o coração de Faraó se endureceu, e não deixou ir os filhos de Israel, como o Senhor tinha dito por Moisés), que se referem a Faraó endurecendo seu próprio coração – bem como qualquer verso que não especifique quem realizou o endurecimento – deve na realidade significar que Deus executou o endurecimento e não Faraó.

Não ocorreu a Piper que em tais casos como 8:15 (Mas vendo Faraó que havia descanso, endureceu o seu coração, e não os ouviu, como o Senhor tinha dito) a referência é simplesmente ao aspecto do ouvir e não do endurecer. De fato, a maneira que Miller descreve isto se encaixa com uma perfeita “reversão” da graça preveniente, e a ciranda da graça. Piper corretamente afirma que a mão de Yahweh estava mesmo no próprio endurecimento de Faraó desde o começo; mas não da forma que ele crê, criando flagrante contradição com o texto no processo. Deus de fato tem a prerrogativa final; mas como antes, esta meramente subordina significativamente, em vez de eliminar, o papel humano.

A própria tentativa de Moo em responder este ponto não é artificial (apesar de que ele cita em rodapé Piper sobre a explanação para Faraó endurecer seu próprio coração), mas não responde realmente o ponto. É de acordo que “endurecer” se refere a uma ação divina que “torna uma pessoa insensível a Deus e à sua palavra” [597] e que se não revertida, leva a eterna danação. Também é de acordo que Deus concede misericórdia de Sua própria iniciativa.

Onde a linha é traçada é na alegação dos calvinistas que Deus endurece algumas pessoas tais que Ele JAMAIS lhes oferece Sua misericórdia, ou lhes permite uma chance de aceitá-la (apesar de que é possível argumentar que isto possa ser feito com respeito a pessoas às quais Deus sabe de antemão que jamais aceitariam Sua misericórdia para começar). Isto não pode ser traçado de Paulo de maneira nenhuma.

Nem, apesar de Moo, é dito sequer que Deus está “limitado” a endurecer aqueles que se endurecem primeiro; apenas que tal endurecimento não é feito com o capricho ou a arbitrariedade declarativa do paradigma calvinista. Moo tenta também evitar a força de 11:25 maquinando de fato uma “distinção vital entre as perspectivas individuais e corporativas” [599] – se o endurecimento é revertido em escala nacional, ele DEVE ser revertido em algum grau nos indivíduos.

Além disso, se o cartão corporativo é posto à mesa, então até mesmo Moo concorda que “todo Israel será salvo” em 11:26 não significa todo indivíduo israelita – e não há nada em Paulo que ofereça o porquê de tais endurecimentos. A réplica que Paulo diz que Deus “endurece aquele que ele quer” faz para o mesmo enigma calvinista o tanto que a outra questão, “por que escolheu um e não o outro”.

[19]Dir-me-ás então. Por que se queixa ele ainda? Pois, quem resiste à sua vontade?

[20]Mas, ó homem, quem és tu, que a Deus replicas? Porventura a coisa formada dirá ao que a formou: Por que me fizeste assim?

{Romanos 9:19-20 Almeida Recebida}

Como Esler nota, esta é uma resposta “no nível de princípio teológico” e ele corretamente implica que ela não é convincente – pois ela não é uma resposta à questão posta. Ela é, como explicamos via Wilson, uma maneira de informar os homens que eles não têm direitos de objetar. E como Morris [364] diz: “Paulo antecipa a questão que seu leitor perguntaria, MAS ele não a responde… Paulo está afirmando que as questões que nós fazemos são ilegítimas, e ele deixa por isso mesmo” (ênfase acrescentada)

Byrne [298] concorda: “Novamente, deve ser dito que isto dificilmente responde à dificuldade posta, o que concerne Deus ‘repreendendo’ em um contexto que a responsabilidade humana está sendo suprimida. Ademais, seres humanos não são simplesmente barro passivo e sem vida.

Cranfield [2/490] concorda também: “Mas assumir que a intenção [de Paulo] é afirmar o direito absoluto de um divino indeterminado acima de uma criatura é ignorar o teor dos argumentos do capítulo de 9 a 11, sem mencionar o restante da epístola”.

Sem “lógica”. Nem é uma resposta lógica garantida: A questão é como culpar a própria mãe por colocar um pote de bolachas ao alcance de tal forma que as bolachas possam ser roubadas. É a clássica “questão tola”, internamente inconsistente em si mesma, pois a própria questão é uma leve forma de “resistência” contra Deus. É a resposta de Jó do redemoinho (como Byrne mesmo diz: “A imagem é trazida à tona simplesmente para ilustrar e evocar um dogma bíblico básico – um que emerge em todo lugar do livro de Jó”): “O que você sabe, nanico? Que direito tem de me corrigir?”

Byrne portanto acrescenta: “É bastante equivocado pressionar a imagem familiar conclusões teológicas mais vastas” tais como a Dupla Predestinação. Mounce [199] concorda, em seu comentário sobre Rm 9:10-13: “Paulo não está construindo um caso para salvação que de forma alguma envolva consentimento do indivíduo. Nem estava ele ensinando dupla predestinação. Em vez disso ele está argumentando que a exclusão de tantos judeus da família de Deus não constitui uma falha da parte de Deus em manter sua relação de aliança com Israel”. Ele nota adicionalmente a partir de Achtmeier uma falha comum em distinguir pré-determinismo (cada pensamento e ato é ditado por forças além de nosso controle) e predestinação (estabelecer o resultado sem determinação da rota). Isto é exatamente como nossa diferenciação entre o determinismo calvinista e causalidade primária.

Piper está de fato correto quando ele vê que Paulo está respondendo àqueles que objetam que se Deus endurece o povo para fazer Sua vontade, então parece injusto que Deus os culpe. Mas como notado, a resposta calvinista de determinismo de qualquer espécie não é tratada nesses textos. Paulo em momento algum descreve como a liberdade dos homens e a liberdade de Deus. E como notado anteriormente, o modelo de Faraó na verdade se encaixa melhor com o modelo de graça preveniente. Nada disso seria respondido chamando comentaristas como Morris e Cranfield de “pecadores desesperados” de alguma forma tentando “evadir” da “clara verdade” desta passagem “reveladora”

Ou não tem o oleiro poder sobre o barro, para da mesma massa fazer um vaso para uso honroso e outro para uso desonroso?

{Romanos 9:21 Almeida Recebida}

Como eu tenho notado, percebi uma certo extremo infundado no que alguns escritores calvinistas oferecem neste contexto. White sumariza em uma de muitas maneiras ao dizer “Não é um Oleiro que não tem papel em determinar o formato, função, e destino dos vasos” [Whit.PF, 71]. Eu diria “Não é o oleiro que não tem papel determinativo em decidir o formato, função e destino dos vasos”, e liberando os vasos para qualquer extensão que venha a ser, de suas livres escolhas, de certo formato ou função que se adapte à vontade e propósito do Oleiro, é por si só uma decisão soberana, que, até onde eu posso ver, não rouba do Oleiro glória nenhuma que seja, especialmente desde que os vasos devem qualquer liberdade que tenham à soberana decisão do oleiro em liberá-la a eles.

A analogia se esfacela inevitavelmente, dado que vasos não tomam decisões (e não havia metáfora disponível para Paulo que pudesse expressar o ponto, uma vez que não existe nenhum outro relacionamento Criador-criação em que as escolhas livres possam ser encontradas). A única resposta calvinista que tenho para isto postula tais artifícios que alguém pode “se gabar” de aceitar uma livre esmola, o que é comportamentalmente inimaginável.

Deve ser notado que outros usos da “analogia do oleiro” na Escritura implicam que não são meramente “vasos são vasos” como White afirma, mas que foi dada à cerâmica livre arbítrio para rebelar:

[15] Ai dos que escondem profundamente o seu propósito do Senhor, e fazem as suas obras às escuras, e dizem: Quem nos vê? E quem nos conhece?

[16] Vós tudo perverteis! Acaso o oleiro há de ser reputado como barro, de modo que a obra diga do seu artífice: Ele não me fez; e o vaso formado diga de quem o formou: Ele não tem entendimento?

[17] Porventura dentro ainda de muito pouco tempo não se converterá o Líbano em campo fértil? E o campo fértil não se reputará por um bosque?

{Isaías 29:15-17 Almeida Recebida}

White [44] comenta do absurdo deste ato pelo homem, e ele está certo; mas ele estica a analogia além do seu intento, falhando portanto em seguir a advertência de Crisóstomo em não “aplicar todos os detalhes de tal ilustração indiscriminadamente” [2/491]. Estas analogias comentam somente da superioridade de Deus sobre o homem; levá-las além – supor que homens também são como vasos no sentido de serem incapazes de tomar quaisquer decisões afinal, mesmo num sistema que Deus lhes permite – é infundado.

Como White pode escapar da força do fatalismo? Como Morris nota, citando Barrett: “Enfatizar este ponto, porém, é enfatizar um detalhe na analogia em vez da comparação maior, que é a responsabilidade do oleiro pelo que ele produz, e a responsabilidade de Deus pelo que Ele faz na história”[365-6n]. E Bruce [Br.Rom, 178-9] acrescenta: “Pode ser concedido que a analogia de um oleiro e seus vasos um aspecto que apenas uma relação do Criador com aqueles que ele criara, especialmente seres humanos, criados à Sua própria imagem. Vasos não são feitos à imagem do oleiro, e não podem de maneira alguma replicá-lo ou encontrar falha em seu trabalho”.

De fato, o ponto da “imagem” é bem mais forte se entendermos que ele significa que Deus deu aos homens mordomia sobre Sua criação. O que o oleiro faz tais coisas com seus vasos? O ponto é que Deus não é responsável perante nós [184] mas pode ser “invocado a agir em consonância com seu caráter”, de tal forma que não temos bases afinal para questionar Seus meios.

Piper [184] também estica sua analogia para seus propósitos, argumentando que alguém pode argumentar por uma qualidade distintiva como fator que Paulo tenha falado de “diferentes” massas e não da mesma massa. Mas esta é uma falsa analogia. O povo antigo dificilmente teria distinguido entre as qualidades do barro de tal maneira; uma massa seria a mesma que outra, e um oleiro usaria todas as “massas” da mesma pedreira. O distintivo já está em como os vasos são moldados; e portanto Piper para tanto admite que distintivos têm um papel.

E que direis, se Deus, querendo mostrar a sua ira, e dar a conhecer o seu poder, suportou com muita paciência os vasos da ira, preparados para a perdição;

{Romanos 9:22 Almeida Recebida}

O comentário de Paulo aqui é uma resposta direta a uma das questões que Esler identifica: “Como os judeus podem estar em desfavor, dado o Templo, o poder político etc.?” O calvinista mais uma vez está equivocado em afirmar que o ponto é que os “pecadores” estão em vista. Eles não estão, exceto no sentido fgeral que já notamos; o alvo direto de Paulo é os judeus de seu tempo que pensam que seu sucesso significa bênção.

Mas mesmo se permitíssemos expandir o princípio, nada no verso diz uma palavra sobre como e por que os “vasos de ira” são projetados na economia divina. Isto é bem como dizer que eles são projetados num nível causal primário.

Morris [368] aponta que os comentaristas têm variado em como os vasos são preparados – se por si mesmos, por Deus, alguma combinação, ou mesmo Satanás (!). Morris crê que a gramática e comparação com o verso seguinte se encaixam melhor com as pessoas se preparando para a destruição, talvez com auxílio de Satanás.

[23] para que também desse a conhecer as riquezas da sua glória nos vasos de misericórdia, que de antemão preparou para a glória,

[24] os quais somos nós, a quem também chamou, não só dentre os judeus, mas também dentre os gentios?

{Romanos 9:23-24 Almeida Recebida}

Paulo agora traça um direto (e ameaçador) paralelo entre o exemplo de Faraó e os judeus descrentes de seus dias: “Acautelai-vos! Vós podeis ser descrentes porque sois um sinal para todos os outros!” Mas agora para um ponto fulcral crítico: pois é neste ponto que nossa tese de interpretação toma mais claro foco – e ironicamente, TFP, o carro-chefe do calvinismo popular, despreza este verso – comentando a seguir apenas o verso 32. Mas veja:

[25] Como diz ele também em Oséias: Chamarei meu povo ao que não era meu povo; e amada à que não era amada.

[26] E sucederá que no lugar em que lhes foi dito: Vós não sois meu povo; aí serão chamados filhos do Deus vivo.

{Romanos 9:25-26 Almeida Recebida}

O apelo a Oseias 2:23 e 1:10 se encaixa como uma luva em nossa premissa. “Misericórdia” e “compaixão” versus “ira” tem sido tudo sobre a distinção entre o “meu povo” e o “não do meu povo”.

[27] Também Isaías exclama acerca de Israel: Ainda que o número dos filhos de Israel seja como a areia do mar, o remanescente é que será salvo.

[28] Porque ele terminará a obra, e a abreviará em justiça; porque uma obra abreviada o Senhor fará sobre a terra.

[29] E como antes dissera Isaías: Se o Senhor dos Exércitos não nos tivesse deixado descendência, teríamos sido feitos como Sodoma, e seríamos semelhantes a Gomorra.

{Romanos 9:27-29 Almeida Recebida}

Paulo agora fornece maior evidência probabilística que já estava predito que apenas uma parcela pequena do povo que se chamava protegido-pela-aliança seria salvo da ira. Ele responde a este “argumento numérico”.

[30] Que diremos pois? Que os gentios, que não buscavam a justiça, alcançaram a justiça, mas a justiça que vem da fé.

[31] Mas Israel, que buscava a lei da justiça, não atingiu a lei da justiça.

[32] Por que? Porque não a buscavam pela fé, mas como que pelas obras da lei. Pois tropeçaram na pedra de tropeço;

[33] como está escrito: Eis que eu ponho em Sião uma pedra de tropeço e uma rocha de escândalo; e quem nela crer não será envergonhado.

{Romanos 9:30-33 Almeida Recebida}

Como notamos, o calvinista apreende dos versos 16 e 18 a ideia de Deus mostrando misericórdia de pessoas específicas de maneira completamente independente dos atributos ou conduta da pessoa. Mas e quanto a Romanos 9:23, que explica que a Israel biológica não obteve justiça “Porque não a buscavam pela fé, mas como que pelas obras da lei”?

Fé, como já notamos em outros lugares, contextualmente significa lealdade inserida num contexto de relacionamento cliente-patrono. Verso 32 sugere que misericórdia – o cumprimento de obrigações – fora retida por Deus devido aos atributos ou conduta de Israel, isto é, a maneira errônea de buscar justiça. Romanos 9:16 se torna uma asserção de que Deus cumprirá Suas obrigações (decididas de Seu próprio acordo soberano) àqueles com quem Ele tem um relacionamento, e o verso 18 acrescenta que Deus endurecerá aqueles com quem Ele não tem relacionamento, que não são Seus clientes.

Esler aqui faz também mais um ponto crítico, agindo como um corretivo das alegações de Sanders que Paulo distorce o judaísmo de seus dias como sendo orientado a “obras de justiça”[283]. O intento de Paulo, ele lê, é afirmar que Israel falhou em obter justiça porque, após a vinda de Cristo, “eles persistiram no caminho da lei em vez de se mover para o caminho da fé”. E isto se encaixa precisamente com meu ponto anterior: que não reconhecer Cristo (per Dt 18) coloca visões não-cristãs numa posição de serem rebeldes para a aliança.

Nossa conclusão é que os calvinistas são culpados do que Edwards [236] descreve como “canalizar o rio da providência num filete reto e raso de teoria”.

Fontes específicas de Romanos 9

Pip.JG — Piper, John. The Justification of God. Baker, 1983.

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