Traduções Crédulas: Provérbios 21:1 por Daniel Gracely

Padrão

Eis um capítulo isolado do livro de Gracely, uma crítica escrita por um ex-calvinista.

Aqui, ele faz uma análise de mais um daqueles versos soltos usados por calvinistas desavisados a fim de avalizar sua marca registrada teológica. Conta-se que Lutero usou esta contra Erasmo. Mas não sei se Lutero seria tão inteligente ao rebater este texto, hehe!

Enfim, aqui Gracely aponta qual o significado que Salomão tinha em mente ao falar do rei guiado por Deus.

Deus Controla o Coração de Todos? – Compreendendo Provérbios 21:1

por Daniel Gracely
Tradução: Credulo from this WordPress Blog

Um dos argumentos usados por calvinistas para dizer que Deus está direcionando todos os homens para os fins que Ele tem lhes ordenado é a suposição sobre a atividade toda-controladora de Deus no governo humano[1]. Em seu livro, Exposition of the Book of Proverbs, o autor Charles Bridges avança o argumento de que Deus direciona todos os negócios dos homens. Jerry Bridges, em seu livro, Trusting God Even When It Hurts, endossa o comentário de Charles Bridges acerca de uma passagem chave que ambos creem suportar uma doutrina de soberania absoluta de Deus:

Talvez a mais clara afirmação bíblica que Deus soberanamente influencia as discussões das pessoas é encontrada em Provérbios 21:1, Como corrente de águas é o coração do rei na mão do Senhor; ele o inclina para onde quer. Charles Bridges, em sua exposição do provérbio, relata “A verdade geral [da soberania de Deus acima dos corações das pessoas] é ensinada pela mais forte ilustração – seu incontrolável brandir diante da mais absoluta das vontades – o coração do rei”.

Em nossos dias de monarquias limitadas em que rainhas e reis são apenas representativos, pode ser difícil para nós apreciar completamente a força do que Charles Bridges está dizendo quando ele fala do coração do rei como sendo a mais absoluta das vontades. Mas nos tempos de Salomão o rei era um monarca absoluto. Não existia nenhum corpo legislativo separado para fazer leis que ele não gostasse ou uma Suprema Corte para restringi-lo. A palavra do rei era lei. Sua autoridade sobre seu domínio era incondicional e irrestrita.

Ainda assim Deus controla o coração do rei. A vontade teimosa do mais poderoso monarca da terra é dirigida por Deus tão facilmente como o fazendeiro dirige o fluxo de água em seus canais de irrigação. O argumento então é do maior para o menor – se Deus controla o coração do rei certamente ele controla o de todos mais. Tudo deve ser movido ante Sua soberana influência[i].

Note na passagem acima como a soberania de Deus é descrita (diretamente, ou substituindo o tipo metafórico) primeiro, como uma influência; segundo, como direcionando, terceiro, como um domínio incontrolável; quarto, como absoluto; quinto, como incondicional e irrestrita; sexto, como controle; sétimo, como direciona/dirige; oitavo, como controla; e nono (como na primeira), influência. Observe, então, como a soberania de Deus é discutida no início e fim desta citação como meramente uma influência (que deixa o leitor com a aberta e fechada impressão subconsciente que o rei está agindo de livre arbítrio), ainda que no ínterim é descrita nos termos muito mais forçados de divina irresistibilidade, dado que Deus sobrepõe a vontade do rei, que é dita ser absoluta, incontrolável, e irrestrita. Tal linguagem faz sinônimos de não-sinônimos. Por exemplo, na sentença “O professor teve uma influência positiva sobre os estudantes”, ninguém suporia que a influência do professor era qualquer coisa do tipo forçado e coercitivo implicado pelos termos incontrolável e irrrestito, i.e., tal que a palavra influência deve ser pensada como tendo o mesmo significado. Em outras palavras, nenhum dicionário de uso comum tem, para a palavra influência, uma definição como “absoluto controle”, “autoridade irrestrita” ou outras palavras implicando irresistibilidade, que é um dos contextos do significado que Charles Bridges usa para transmitir seu duplipensar. Portanto a linguagem calvinista oscilante de combinar palavras para formar tais frases dialéticas como incontrolável domínio ou influência soberana[2], que de fato são oximorônicas, é tudo parte da linguagem sem-sentido que calvinistas usam tão habitualmente que eles se tornaram inconscientes de como eles usam linguagem desonesta quando discutindo teologia.

Como prova primária do ponto de Charles Bridges, Jerry Bridges cita o exemplo de Ciro (veja abaixo). Ciro começou seu reino unindo as duas tribos iranianas dos medos e persas no início do sexto século AC. Rei Ciro então prosseguiu para se tornar imperador e no curso de seu reinado fez decretos autoritativos que afetaram muitas pessoas, incluido judeus. Bridges diz:

…Vemos isto também na abordagem de Ciro, rei da Pérsia, quando ele entregou uma proclamação para permitir aos judeus retornar a Jerusalém para reconstruir o Templo. Esdras 1:1 diz,

No primeiro ano de Ciro, rei da Pérsia, para que se cumprisse a palavra do Senhor proferida pela boca de Jeremias, despertou o Senhor o espírito de Ciro, rei da Pérsia, de modo que ele fez proclamar por todo o seu reino, de viva voz e também por escrito, este decreto (ênfase acrescida)

O texto diz claramente que Rei Ciro editou a proclamação porque Deus moveu seu coração. O destino do povo de Deus, humanamente falando, estava nas mãos do mais poderoso monarca da época. Na realidade, porém, o destino estava completamente nas mãos de Deus, porque Ele tinha a habilidade de soberanamente controlar as decisões deste monarca.

Deus, falando mediante o profeta Isaías, nos dá outra compreensão útil sobre Seu trabalho no coração de Ciro:

“Por amor de meu servo Jacó, e de Israel, meu escolhido, eu te chamo pelo teu nome; ponho-te o teu sobrenome, ainda que não me conheças… Eu te cinjo, ainda que tu não me conheças (Is 45:4-5, ênfase acrescida). Não é necessário para uma pessoa reconhecer o soberano controle de Deus em seu coração ou mesmo reconhecer a existência de Deus. Nem os egípcios nem Ciro intencionavam obedecer qualquer vontade revelada de Deus. Eles simplesmente agiram como seus corações lhes dirigiram, mas seus corações foram dirigidos por Deus[ii].

Eu devo confessar que não era muito familiar com os detalhes da história do Rei Ciro quando primeiro li a passagem acima por Jerry Bridges. Certamente o argumento soou bem convincente para o lado calvinista do argumento. Não obstante, decidi que eu deveria ler mais sobre a história de Ciro em Esdras 1 e Isaías 45. Para minha surpresa eu descobri uma história bem diferente de Ciro que a impressão deixada pelo sumário de Bridges. Após ler os comentários de Bridges alguém poderia pensar que a vontade de Deus estava sendo levada a cabo apesar de qualquer cooperação consciente ou intencional do Rei Ciro. De fato, Bridges jamais sugere que Ciro já conheceu Deus alguma vez afinal. Ele até mesmo alega que o rei não intencionou obedecer nenhuma vontade revelada de Deus. [Novamente, vemos que Bridges menciona outro tipo de vontade (i.e., vontade revelada) além da suposta vontade soberana toda-abrangente/sem-exceções de Deus para abordar as desinclinações dos homens para com Deus, e.g. o alegado não-conhecimento de Deus.] Portanto, Bridges deixa a impressão que Ciro não é nada além de um rei pagão dirigido inconscientemente por Deus para fazer algo que o rei não intencionou. De acordo com Bridges, então, Ciro não conhecia Deus, não tinha relacionamento com Ele, não queria obedecer a Ele, e essencialmente não tinha nada a ver com Deus. Você certamente jamais imaginaria lendo da passagem acima que Ciro sequer conhecia Deus, e de fato tinha um relacionamento pessoal com Ele. Nem sequer suporia que o relacionamento de Ciro com Deus naturalmente o levaria a favorecer o retorno dos exilados judeus uma vez que Deus levantasse o assunto para ele. Vamos observar o contexto destas duas passagens discutindo Ciro:

(Is. 45:1-6)

Assim diz o Senhor ao seu ungido, a Ciro, a quem tomo pela mão direita, para abater nações diante de sua face, e descingir os lombos dos reis; para abrir diante dele as portas, e as portas não se fecharão;
eu irei adiante de ti, e tornarei planos os lugares escabrosos; quebrarei as portas de bronze, e despedaçarei os ferrolhos de ferro.
Dar-te-ei os tesouros das trevas, e as riquezas encobertas, para que saibas que eu sou o Senhor, o Deus de Israel, que te chamo pelo teu nome.
Por amor de meu servo Jacó, e de Israel, meu escolhido, eu te chamo pelo teu nome; ponho-te o teu sobrenome, ainda que não me conheças.
Eu sou o Senhor, e não há outro; fora de mim não há Deus; eu te cinjo, ainda que tu não me conheças.
Para que se saiba desde o nascente do sol, e desde o poente, que fora de mim não há outro; eu sou o Senhor, e não há outro.

E de Esdras 1:1-3:

No primeiro ano de Ciro, rei da Pérsia, para que se cumprisse a palavra do Senhor proferida pela boca de Jeremias, despertou o Senhor o espírito de Ciro, rei da Pérsia, de modo que ele fez proclamar por todo o seu reino, de viva voz e também por escrito, este decreto:Assim diz Ciro, rei da Pérsia: O Senhor Deus do céu me deu todos os reinos da terra, e me encarregou de lhe edificar uma casa em Jerusalém, que é em Judá.
Quem há entre vós de todo o seu povo (seja seu Deus com ele) suba para Jerusalém, que é em Judá, e edifique a casa do Senhor, Deus de Israel; ele é o Deus que habita em Jerusalém.

Vemos, portanto, nas passagens escriturais acima, uma história de Ciro mais completa e bem diferente da que Bridges transmite em seu livro. Claro, nós vemos que Bridges está certo quando ele diz que Ciro não conhecia nem reconhecia Deus – mas e daí? É claro do Salmo 14:2-3 que este tipo de afirmação é inicialmente verdadeira para todo homem: “O Senhor olhou do céu para os filhos dos homens, para ver se havia algum que tivesse entendimento, que buscasse a Deus. Desviaram-se todos e juntamente se fizeram imundos; não há quem faça o bem, não há sequer um”. Dificilmente estaríamos surpresos que um rei gentio que cresceu numa nação pagã sem o benefício da lei mosaica especialmente devesse começar a não buscar Deus verdadeiramente. A Bíblia nos informa, porém, que Deus concedeu a Ciro sucessos militares tal que o rei entendesse que foi Deus – o Deus dos hebreus – que lhe deu tais vitórias[3].

Ciro, então, já estava predisposto a obedecer o Deus dos hebreus quando ele comandou os exilados judeus retornar a Jerusalém, desde que Ciro entendeu que Deus provou a Si Mesmo em profecia.

Então quando Esdras nos afirma que Deus moveu o coração de Ciro, a palavra “moveu” em hebraico não transmite nenhum sentido de ação unilateral da parte de Deus, como se Ciro fosse um tipo de marionete desatenta ao plano de Deus quando ele promulgou a proclamação para o retorno dos exilados judeus. Em vez disso, a palavra “moveu” significa incitar (comp. KJV), como quem acorda do sono[4]. Deus estava incitando Ciro para um fim específico acerca do povo judeu, porque Ciro já estava predisposto a ouvir o Deus hebreu. Isaías, de fato (falando em presente profético), estabelece que Ciro conhecia Deus. Seria natural, então, para Ciro participar do plano de Deus envolvendo o povo judeu. Portanto, vemos Ciro fazendo uma arrojada proclamação sobre o “Senhor, Deus dos Céus, que me deu todos os reinos da terra” antes de proceder encorajando pessoalmente os judeus a retornarem para Judá e Jerusalém. Não há indicação, aqui, como Bridges afirma, que Ciro intencionou seguir seu próprio caminho sem relação com Deus como os egípcios fizeram, i.e., na frase de Bridges que “Nem os egípcios nem Ciro intencionavam obedecer qualquer vontade revelada de Deus. Eles simplesmente agiram como seus corações lhes dirigiram, mas seus corações foram dirigidos por Deus”.

Que Ciro precisava ser despertado para fazer uma proclamação envolvendo os judeus dificilmente prova o ponto de Bridges, exceto se todos supusermos que o resto de nós como crentes jamais precisou ser acordado de nosso sono espiritual para fazer a vontade de Deus!

Também alguém pode se espantar com o que Bridges faria com a palavra mover como dada pela KJV em Jó 2:1, quando Deus fala a Satanás:

Disse o Senhor a Satanás: Notaste porventura o meu servo Jó, que ninguém há na terra semelhante a ele, homem íntegro e reto, que teme a Deus e se desvia do mal? Ele ainda retém a sua integridade, embora me incitasses contra ele, para o consumir sem causa.

Aqui Deus diz que foi incitado por Satanás para destruir Jó sem causa[5]. Mas de acordo com Bridges, supostamente apenas Deus move corações. Então, e quanto a Deus dizer que Ele foi movido (e por ninguém menos que Satã)? Isto certamente pareceria levar a um dilema sobre exatamente quem está movendo quem. Bem interessante, a palavra hebraica para incitar em Jó 2:1 significa ferroar, e a palavra é traduzia na NAS como incitar (i.e. “apesar de você me incitar a destruí-lo sem causa). O verbo moveu (KJV) em Jó 1 é convincentemente mais forte que a palavra moveu (NIV) encontrada em Esdras 1:1, o argumento sendo que seria preferível ser despertado do que ser picado.

Dada, então, a consideração de Esdras e Isaías em seus contextos, como pode Ciro ser pensado como protótipo do rei que governa sem intenção de obedecer Deus? Ou novamente, por que Bridges assume que Ciro fez uma proclamação envolvendo o povo judeu sem consideração intencional para seu benefício? As Escrituras simplesmente não suportam as conclusões de Bridges acerca do assunto.

A principal razão oferecida por Bridges para chegar a estas conclusões acerca de Ciro é sua interpretação de Provérbios 21:1 – Como corrente de águas é o coração do rei na mão do Senhor; ele o inclina para onde quer. Bridges concorda com o autor Charles Bridges que o rei era para ser entendido como a cabeça representativa de seus sujeitos; portanto, se Deus dirige o coração do rei, certamente Ele dirige o coração de qualquer um. Infelizmente, sua interpretação é outro exemplo de verso sendo retirado de seu contexto bíblico próprio para tentar provar a noção de irresistibilidade divina. Pois o argimento de Bridges falha quando consideramos o contexto próximo e distante dos provérbios de Salomão. Primeiro o contexto próximo:

Provérbios 21:1-4:Como corrente de águas é o coração do rei na mão do Senhor; ele o inclina para onde quer. Todo caminho do homem é reto aos seus olhos; mas o Senhor pesa os corações. Fazer justiça e julgar com retidão é mais aceitável ao Senhor do que oferecer-lhe sacrifício. Olhar altivo e coração orgulhoso, tal lâmpada dos ímpios é pecado.

Considere a teologia de Bridges à luz de alguns destes versos. Deus é dito dirigir o coração do rei, e Bridges alega que isto significa que todos os homens têm corações que são igualmente direcionados bem como a água é canalizada desta ou daquela maneira de acordo com o que agradar a Deus. Mas se isto é verdade, como o verso 2 nos informa que o homem pensa ser justo aos seus próprios olhos? Mais que isto, um dilema surge quando o verso 3 nos informa que o Senhor deseja justiça mais que sacrifício. Isto implica que alguns homens pensam que sacrifício é suficiente mesmo que não sejam misericordiosos. Uma questão então surge: como podem homens com tais corações existirem, desde que Deus (de acordo com Bridges) é Aquele que move os corações de todos? Pois se Deus deseja justiça mais que sacrifício e também está movendo os corações de todos, por que nem todo coração consequentemente deseja justiça mais que sacrifício? Ou novamente, por que alguns homens têm “um coração orgulhoso”, olhos arrogantes, e amam a malignidade se Deus é aquele responsável por onde seus caminhos foram canalizados? Neste ponto posso imaginar o que o calvinista dirá. Provérbios 21:1-2 deve ser a perfeita expressão da `aparente’ contradição na Confissão de Westminster, i.e., que Deus mova o coração de todas as pessoas, mas de tal forma que nem Deus é autor do pecado, nem violência é oferecida à vontade das criaturas, com o resultado que todo homem faz o que é correto aos seus olhos.

Ainda que tal resposta possa ser inteligente, sua pressuposição não é suportada pelo contexto maior de Provérbios 21, que iremos observar daqui a pouco. Mas note primeiro que ambos Jerry e Charles Bridges tratam o coração do rei no abstrato, como se ele esperasse Deus movê-lo em qualquer canal direcional que Deus desejasse. A visão de Bridges não é tal que o coração possa desejar coisas malignas, que é o que Cristo afirma sobre o homem maligno em Mateus 15:19ff. Eu acho interessante que apesar de calvinistas alegarem crer nos dois princípios da absoluta soberania de Deus e na livre vontade humana, calvinistas parecem mais preocupados com a liberdade humana ser uma expressão da soberania divina, em vez de a soberania divina ser uma expressão da liberdade humana. Em teoria não deveria haver ascendência sobre a outra se ambas são tão sacrossantas quanto os calvinistas precisam delas quando discute-se a origem do pecado. Este é um problema bastante crucial para o calvinista e, de fato, causa um dilema insolúvel quando tentando abordar o problema do mal. Mas retornando à nossa discussão principal, o rei mencionado em Provérbios 21:1 não é um rei sendo visto no abstrato mas de fato um rei que já ouvia Deus, como os versos acerca do “rei” ensinam.

Antes de listar cada verso de Salomão acerca do rei, cogite que a experiência de reinados de Salomão foi principalmente positiva. Seu pai foi Davi, o grande e piedoso rei de Israel, e no tempo que Salomão era só um infante Davi havia passado a época de sua vida quando ele transgrediu contra Urias o Hitita, cometendo adultério com a esposa de Urias, Bate-Seba. Ele era então um rei mais reprimido e obediente quando Salomão foi chamado. Salomão também presenciou a usurpação do trono de seu pai pelo seu meio-irmão, Absalão, e entendeu como um homem pode vir a se tornar um mau governante. Como para si mesmo, Salomão permaneceria ininterrupto em seu reino enquanto viveu. Ademais, ele teve relações positivas com governantes de outras nações. Ele se casou com a filha do Faraó e estava em paz com o faraó egípcio. Ele teve relações pacíficas e negócios com Hirão, rei de Tiro, com quem barganhou cedro e cipreste e ouro para construir o Templo de Jerusalém. Ele até teve uma boa compatibilidade com a Rainha de Sabá, que admirou a sabedoria e Salomão e os procederes de sua corte. Todas estas experiências são refletidas em como Salomão entendia a ideia de reinado em Provérbios. O que se segue é uma lista exaustiva[6] de todos os versos de Salomão descrevendo o caráter e o papel de um rei[NT]:

Provérbios 14:28: Na multidão do povo está a glória do rei; mas na falta de povo está a ruína do príncipe.
Provérbios 14:35: O favor do rei é concedido ao servo que procede sabiamente; mas sobre o que procede indignamente cairá o seu furor.
Provérbios 16:10: Nos lábios do rei acham-se oráculos; em juízo a sua boca não prevarica.
Provérbios 16:12: Abominação é para os reis o praticarem a impiedade; porque com justiça se estabelece o trono.
Provérbios 16:13: Lábios justos são o prazer dos reis; e eles amam aquele que fala coisas retas.
Provérbios 16:14: O furor do rei é mensageiro da morte; mas o homem sábio o aplacará.
Provérbios 16:15: Na luz do semblante do rei está a vida; e o seu favor é como a nuvem de chuva serôdia.
Provérbios 19:12: A ira do rei é como o bramido o leão; mas o seu favor é como o orvalho sobre a erva.
Provérbios 20:2: Como o bramido do leão é o terror do rei; quem o provoca a ira peca contra a sua própria vida.
Provérbios 20:8: Assentando-se o rei no trono do juízo, com os seus olhos joeira a todo malfeitor.
Provérbios 20:26: O rei sábio joeira os ímpios e faz girar sobre eles a roda.
Provérbios 20:28: A benignidade e a verdade guardam o rei; e com a benignidade sustém ele o seu trono.
Provérbios 21:1: Como corrente de águas é o coração do rei na mão do Senhor; ele o inclina para onde quer.
Provérbios 22:11: O que ama a pureza do coração, e que tem graça nos seus lábios, terá por seu amigo o rei.
Provérbios 24:21: Filho meu, teme ao Senhor, e ao rei; e não te entremetas com os que gostam de mudanças.
Provérbios 25:2: A glória de Deus é encobrir as coisas; mas a glória dos reis é esquadrinhá-las.
Provérbios 25:3: Como o céu na sua altura, e como a terra na sua profundidade, assim o coração dos reis é inescrutável.
Provérbios 25:5: Tira o ímpio da presença do rei, e o seu trono se firmará na justiça.
Provérbios 25:6: Não reclames para ti honra na presença do rei, nem te ponhas no lugar dos grandes;
Provérbios 29:4: O rei pela justiça estabelece a terra; mas o que exige presentes a transtorna.
Provérbios 29:14: Se o rei julgar os pobres com equidade, o seu trono será estabelecido para sempre.

Novamente, note como Salomão geralmente vê o rei em termos positivos como um governante em lugar de Deus. Apenas um verso em mais de vinte descreve um rei negativo, e mesmo este traz a questão de por que Deus (se Bridges está correto) voltaria o coração do rei para algo que era abominável a Si Mesmo. De outra forma, Salomão fala confidente e otimisticamente sobre o rei, e o descreve como ele apesar de certas idiossincrasias serem esperadas dele. Portanto, o rei favorece o servo sábio mas está irado contra pessoas vergonhosas (14:35), o rei executa sentença piedosa e não transgride em julgamento (16:10), o rei espalha os ímpios com seus olhos (20:26), e o amigo do rei será o que ama pureza de coração (22:11). Em todas essas instâncias o rei é assumido ser um rei justo. O rei também aceita ser moderado por um homem sábio e certas ocasiões quando ele está irado e pensa em exercer a lei sem misericórdia (16:14)[7].

Desnecessário dizer, ainda que a perspectiva de Salomão em Provérbios assuma que o rei é reto, muitos reis e governantes na história tem sido bastante malignos. Numerosos exemplos vêm à mente a partir da Bíblia e ao longo da história humana.Uma lista parcial incluiria os faraós egípcios em Êxodo, Ogue de Basã. Acabe de Israel, Manassés de Judá, todos os outros reis de Israel e vários reis de Judá, os reis cananeus que lutaram contra Josué, Ivan o Terrível, Napoleão, Hitler e Stálin. Estes reis e governantes eram obviamente injustos e consistentemente não demonstraram nenhuma das piedosas características que Salomão assume para o rei. Então quando chegamos em Provérbios 21:1 e lemos que o coração do rei está na mão do Senhor e Ele o direciona para onde Ele quer, deve ser entendido que este verso não pode ser universalmente aplicado a todos os déspotas amalucados da história humana. Em vez disso, Deus influencia reis que entendem a justiça e têm uma uma predisposição por um governar piedoso. O rei Ciro, de fato, é um exemplo perfeito de Provérbios 21:1, mas não da maneira que Bridges descreve-o. Não é verdade para Bridges implicar que Deus estava seguindo seu próprio caminho independente de Deus, quando Deus pôs seu braço sobre ele para inconscientemente cumprir Sua vontade de retornar os exilados judeus para seu lar. Ciro já estava em relacionamento com Deus quando foi espiritualmente despertado para fazer a obra de Deus. O coração de Ciro estava nas mãos do Senhor, e o Senhor o guiou para a direção que Ele quis por uma razão simples – porque Ciro já estava predisposto a fazer o que Deus queria.

Provérbios 21:1 é um bom exemplo de porque é importante que muito cuidado seja empregado ao interpretar a Bíblia para que não se chegue a conclusões errôneas. Olhe o que acontece com a força do argumento de Bridges, por exemplo, quando aplicamos sua hermenêutica universalizante a outros provérbios salomônicos acerca do rei em Provérbios. Em Pv 16:10 somos informados que a boca do rei não transgride em julgamento, e em Pv 22:11 que o rei aceitará como seu amigo todos os que amam a pureza de coração e têm graça em seus lábios. Se unirmos alguns desses pensamentos com a alegação de Bridges que o Senhor dirige os corações de todos os reis em qualquer direção que Ele queira, então devemos também dizer que todo rei que já tenha vivido jamais transgrediu em julgamento, nem falhou em ter amizade com os puros de coração[8]. Que tal descrição benigna não se encaixa em todos os reis que já tiveram a ocasião de reinar está fora de debate. Estes exemplos mostram o óbvio erro em universalizar o rei de Provérbios 21:1 para significar qualquer coisa além de um rei que tenha relacionamento com Deus e portanto está predisposto a segui-Lo. A seleção por Bridges de Provérbios 21:1 para provar que Deus soberanamente dirige e controla cada atividade e decisão do homem, é o que acontece quando um autor cristão que crê na absoluta soberania de Deus retira um verso de seus contextos próximo e distante para fazê-lo dizer o que ele precisa a fim de manter sua particular marca registrada teológica.

NOTAS DE RODAPÉ

[1] Este artigo foi tirado de um capítulo de Hoodwinked and Happy?: Evangelicals, Calvinism , and Why No One’s Answering the Problem of Evil, por Daniel Gracely, publicado by Grandma’s Attic Press, © 2006.

[2] Obviamente, pelo termo soberano, o calvinista sempre quer dizer todo-soberano.

[3] O historiador judeu Josefo nos informa que Ciro ficou convencido de que o Deus dos hebreus era o Deus verdadeiro quando ele soube da profecia de Isaías sobre ele. Ela foi escrita gerações antes de Ciro nascer. Diz Josefo:

‘Isto foi sabido por Ciro pela sua leitura do livro que Isaías deixou suas profecias; pois este profeta disse que Deus lhe havia falado em visão secreta: “Minha vontade é que Ciro, a quem tenho apontado ser rei sobre muitas e grandes nações, devolva meu povo para sua própria terra, e cosntrua meu templo”. Isto foi previsto por Isaías cento e quarenta anos antes do templo ser demolido. De acordo, quando Ciro leu, e adimirou o Poder Divino, um empedo reinhado desejo e ambição o tomou para cumprir o que estava escrito; então ele chamou os mais eminentes judeus que estavam na Babilônia, e lhes disse que lhes foi dado voltar para seu próprio país, e reconstruir sua cidade Jerusalém…’ (Josefo, Antiquities of the Jews. Book XI, chapter I)

[4] Veja Concordância Strong, verbete 5782

[5] Ao permitir a prova de Jó resultar em provar Seus motivos e os de seus servos, Deus também provou sua presciência do futuro ao predizer acuradamente a resposta de Jó. Satanás, por outro lado, foi provado falso. Pode-se pensar que impacto, se algum, este evento teve nos anjos caídos, i.e., se uma pré-conexão existe entre eles acerca de seu futuro permanecia como profetizado na Escritura, dado que Deus mostrou que conhece o futuro acuradamente.

[6] Não são incluídas aqui aquelas do Rei Lemuel, como ensinadas por sua mãe (Pv 31); pois alguns creem que Rei Lemuel é um diminutivo de Rei Salomão. Interessantemente, se for o caso, então Bate-Seba foi aquela que ensinou Salomão sobre `a mulher de Provérbios 31′. De qualquer maneira, nada em Provérbios relevante a reinado, como a afirmação de que reis não devem beber vinho forte e esquecer o direitos dos aflitos, afeta de qualquer maneira o argumento acima, exceto talvez que acabe reforçando-o.

[7] Isto, porém, não significa necessariamente que o rei faria mal onde ele abordasse pessoas numa aplicação mais estrita da lei em certas ocasiões. Mesmo Deus foi pacificado por Moisés quando o Senhor pensou em destruir os filhos de Israel por sua desobediência.

[8] Um exemplo adicional suportando nossa contenção é Provérbios 16:13, “Lábios justos são o prazer dos reis; e eles amam aquele que fala coisas retas”. Devemos realmente supor então, que Tyndale na fogueira e Bonhoeffer na forca são exemplos de reis que se deliciaram com eles falando corretamente?

[i] Trusting God Even When It Hurts, Jerry Bridges, Nav Press, pp. 58-59

[ii] Bridges, pp. 59-60

NT.: venci minha própria preguiça e resolvi listar os versos, ainda que os mesmos não façam parte do artigo original. Sei como é enfadonho e o quanto tira a concentração ter que folhear a Bíblia ao mesmo tempo que se lê no computador 🙂

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