Traduções Crédulas: Questão 124 do ReasonableFaith

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Faz um tempo que estou por organizar este blog. Estive ausente por diversos motivos irrelevantes, mas em especial pretendo transformar alguns posts/séries ou mesmo o blog todo em um imenso livro, hehe! Mas não para ser publicado, senão para manter um backup do mesmo.

Já terminei algumas séries e outras se arrastam macabramente – assim sendo posso postar algumas coisas com mais rapidez. De toda forma, retomei este projeto engavetado: algumas Q&A do William Lane Craig. Esta fala em especial do molinismo.

Questão 124: Maus Entendidos sobre Conhecimento Médio

por W. L. Craig on ReasonableFaith
Tradução: Credulo from this WordPress Blog

Olá Dr. Craig.

Eis um argumento que escrevi a um amigo depois de uma discussão sobre molinismo, no qual eu aleguei que conhecimento médio e liberdade libertária são incompatíveis. Ele parece-me convincente, mas eu estaria bastante interessado em ver aonde meu raciocínio falha, afinal eu não sou um filósofo profissional. Muito obrigado.

Eis o argumento:

Quando você considera a situação de veracidade de enunciados contra-factuais, creio que tais enunciados precisam ter informação suficiente neles para determinar se são verdadeiros ou falsos.

Considere estas afirmações a fim de ver por quê:

“Se você tivesse cortado todo seu cabelo ontem, então você estaria careca”.

Duas coisas podem ser ditas sobre esta afirmação:

  1. ela é contra-factual;
  2. ela é verdadeira.

Esta afirmação é contra-factual porque é contrária ao mundo atual: você realmente não cortou seu cabelo todo hoje de manhã. E esta afirmação é verdadeira; de fato é verdadeiro que “SE você tivesse cortado todo seu cabelo ontem, ENTÃO você estaria careca hoje”.

Mas a única razão por que nós PODEMOS dizer que este contra-factual é verdadeiro, é porque apesar de ele ser contra-factual, ele contém informação suficiente EM SI MESMO, para determinar que ele é verdadeiro. A saber, a informação “você cortou todo seu cabelo ontem” é suficiente para determinar sua carequice hoje.

Considere então o seguinte enunciado contra-factual:

“Se você encontrasse água sob a pressão de 100.000 Pa, então ela seria líquida”.

Perguntemo-nos: é verdade?

Nossa resposta seria “Bem, não sei!”. Pressão é um parâmetro necessário, mas a fim de dizer se a água seria líquida, eu preciso TAMBÉM da sua temperatura. Pressão E Temperatura determinariam seu estado, e somente então eu poderia saber se a afirmação é verdadeira ou falsa. Se as condições hipotéticas não determinam a verdade do contra-factual, então eu não posso saber se ele é verdadeiro, e nem Deus, dado que ambos temos falta da informação para responder a pergunta isolada em particular.

Então quando aplicamos isto ao conhecimento médio, a saber o conhecimento dos contra-factuais da liberdade das criaturas, eu pergunto:

– Poderia Deus saber antes do decreto criativo, a saber o conhecimento dos contra-factuais da liberdade das criaturas, o que Pilatos LIVREMENTE escolheria se fosse colocado nas condições bíblicas? (a saber, crucificar ou não Jesus) Como vimos acima, somos capazes de conhecer este contra-factual sendo verdadeiro ou falso, SOMENTE SE ele contém informação suficiente para determinar sua situação de verdade. A saber, precisamos saber que “colocar Pilatos em todas as condições bíblicas” determinaria que “Pilatos livremente escolheria crucificar Jesus”. Mas esta determinação, por definição, só é disponível se Pilatos NÃO tem liberdade libertária. Por definição, se Pilatos teve liberdade libertária, então à parte de TODAS as condições bíblicas acertadas, ele ainda poderia escolher de uma forma ou outra, e estamos sem informação para saber o que ele IRIA realmente escolher. Portanto Deus não poderia ter conhecimento médio da liberdade das criaturas antes do decreto criativo.

Agora, novamente, creio que Deus tenha conhecimento médio, mas a única razão por que isto é possível é porque eu creio que tenhamos liberdade compatível, mas não libertária.

Está claro? Sinta-se livre para desafiar meu pensamento.

Guillaume

Craig Responde:

Sua questão é interessante, Guillaume, porque você quer combinar conhecimento médio com uma visão compatibilista de liberdade, de acordo com a qual nossas ações são causalmente determinadas pelas circunstâncias nas quais nos encontramos, enquanto o molinista afirma que permanecemos não-determinados em circunstâncias completamente especificadas e permissoras de liberdade.

Me parece que sua visão não funciona porque ela colapsará o conhecimento médio de Deus ou em Seu conhecimento natural (conhecimento de Deus sobre todas as verdades necessárias) ou então em Seu conhecimento livre (conhecimento de Deus sobre todas as verdades contingentes ao Seu decreto criativo). Seria conhecimento natural se, uma vez que todas as circunstâncias e leis da natureza estão especificadas, é logicamente necessário que se escolha de uma certa maneira. Seria conhecimento livre se é logicamente contingente como se age uma vez que todas as circunstâncias e leis da natureza estão especificadas. Então você pode atribuir a Deus conhecimento contra-factual, tudo bem, bem como Ele tem conhecimento contra-factual de como eventos físicos ocorreriam diante de várias circunstâncias especificadas, mas isto de fato não seria conhecimento médio como tal. Para contar como conhecimento médio, os contra-factuais relevantes têm que ser (i) contingentemente verdadeiros e (ii) verdadeiros antes do decreto divino.

Mas e sobre sua crítica da perspectiva molinista? Me parece que ela é predicada em um total de concepções errôneas. Você está correto que a fim de ter um valor de verdade os contra-factuais em questão precisam ter informação suficiente em suas cláusulas antecedentes especificando as circunstâncias. Alguns contra-factuais podem ser nem verdadeiros nem falsos porque as circunstâncias em suas cláusulas antecedentes são insuficientemente especificadas. Agora na prática resolvemos este problema simplesmente assumindo que o mundo atual é mantido constante exceto pela alteração das circunstâncias mencionadas, e então perguntamos se isto seria verdadeiro. Mesmo em seu exemplo de cortar todo o cabelo, você mantém constante as leis atuais da natureza governando a rapidez com que seu cabelo cresce! Mas ao lidar com conhecimento médio divino Alfred Fredosso e Thomas Flint resolveram esta problema belamente simplesmente estipulando que o que eles chamam “contra-factuais da liberdade das criaturas” têm circunstâncias completamente especificadas em seus antecedentes. Tais contra-factuais têm a forma “Se o agente S estiver nas circunstâncias C, então S livremente faria a ação A”.

Note que o que estamos falando não é um assunto de nós conhecermos o valor de verdade de tal contra-factual. Em vez disso é um assunto de se o contra-factual de fato tem este valor de verdade. O problema levantado por especificações inadequadas não é um assunto de nosso conhecimento de tais contra-factuais mas mais fundamentalmente de eles serem verdadeiros ou falsos, não importando se podemos ou não saber seu valor de verdade.

Então no caso do que Pilatos livremente faria nas circunstâncias C, estipulamos que C deve ser completamente especificado, incluindo a história completa do mundo até o momento da escolha. Em virtude dos antecedentes estarem completamente especificados, os contra-factuais da liberdade serão verdadeiros ou falsos. Mas quando você diz

somos capazes de conhecer este contra-factual sendo verdadeiro ou falso, SOMENTE SE ele contém informação suficiente para determinar sua situação de verdade. A saber, precisamos saber que “colocar Pilatos em todas as condições bíblicas” determinaria que “Pilatos livremente escolheria crucificar Jesus”. Mas esta determinação, por definição, só é disponível se Pilatos NÃO tem liberdade libertária

, você está confundindo o fato de `a proposição ser suficientemente determinada ter um valor de verdade’ com `a escolha ser causalmente determinada’. O contra-factual “Se Pilatos estivesse em C, ele livremente faria A” pode ser verdadeiro ou falso somente se tal enunciado é determinado no sentido que C é completamente especificado. Mas circunstâncias completamente especificadas não são circunstâncias causalmente determinantes. Pelo contrário, elas são estipuladas serem circunstâncias permissoras da liberdade. Como um agente livremente escolheria não é determinado pelas circunstâncias em que ele está. Então não confunda uma proposição sendo determinada com uma ação sendo determinada.

Então o molinista concorda completamente contigo que “se Pilatos tem liberdade libertária, então sejam lá quais fossem as condições bíblicas, ele poderia ainda escolher de uma forma ou de outra”. Com toda certeza! Ele pode escolher de uma forma ou outra; mas ele escolherá uma forma. Se ele estivesse em C, livremente escolheria A, apesar de poder escolher não-A apesar disso. Não confunda o que alguém faria com o que ele poderia ter feito, nem pense que porque ele fez A ele não poderia fazer não-A.

Não há falta de informação em qualquer caso. Enquanto as circunstâncias estão completamente especificadas, o contra-factual terá um valor de verdade, e Deus, como um ser onisciente, deve conhecê-lo. Ele sabe o valor de verdade de qualquer proposição, não importando nossa ignorância.

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