Traduções Crédulas: Uma Crítica Infeliz ao Molinismo

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Esses dias vi o artigo original – uma crítica completamente malfeita e cheia daquela retórica nojenta: `ui, você é eréji! renega a soberania de Deus com esse tal de moli-sei-lá-o-que!’ e essa pentelhação bastante sui generis…

Mas o mais divertido foi ver uma refutação muito polida e bem-escrita. Prefiro então repassar a pequena gema, e no futuro fazer algo mais decente em prol do molinismo.

Uma Crítica Infeliz ao Molinismo

por Randy Everist on Possible World
Tradução: Credulo from this WordPress Blog

O artigo original pode ser visto aqui: http://www.apuritansmind.com/puritanworship/McMahonHeresyMiddleKnowledge.htm

Eu já conhecia este artigo há algum tempo, mas ver tantas pessoas citá-lo como se fosse uma apresentação precisa do conhecimento médio é preocupante. Sinto-me um pouco compelido a abordá-lo. Creio que ela está correntemente reinando como a pior das críticas do molinismo ou do conhecimento médio (à medida em que a produção acadêmica segue).

Enquanto o artigo prossegue, McMahon utiliza absolutamente zero referências (acadêmicas ou quaisquer outras) a favor do conhecimento médio, e o reformador francês Francis Turretin, de certa forma reduzidamente, contra. Enquanto isto não significa que McMahon esteja incorreto em sua abordagem, isto lança dúvidas se um tratamento justo está sendo feito.

Ele inicia corretamente o bastante, descrevendo que Molina cria em três “momentos” lógicos no conhecimento divino (em contraste com os dois tradicionais postulados por Aquino e outros). Porém, ele se perde quando diz sobre o conhecimento livre, “Molina, porém, disse que este conhecimento não é algo que é essencial a Deus, o que é absurdo de e se [SIC] só”[1]. O que Molina postulou foi que o conteúdo da presciência de Deus não era essencial[2]. A única razão para manter que o conteúdo do conhecimento livre de Deus é essencial é se o próprio Deus não pudesse ter criado o mundo de qualquer maneira diferentemente do que o fizera. Esta é uma crença verdadeiramente radical, então pode ser que simplesmente McMahon não tenha compreendido a literatura relevante.

A descrição de conhecimento médio dada no artigo estabelece o tom para o resto do artigo; é a pressuposição sob a qual tudo mais é feito. As sentenças relevantes seguem:

Finalmente, conhecimento médio afirma que Deus não pode conhecer os futuros atos livres dos homens da mesma forma que Ele conhece outras coisas absolutamente. Portanto, conhecimento médio é dependente dos atos livres que os homens farão. Deus, em sua `onisciência’, espera os homens agir e então os escolherá para ser salvos baseados em sua escolha de ser salvos.

A primeira sentença é um tanto ambígua e possivelmente enganosa. É verdade que, logicamente, os momentos do conhecimento divino são diferentes (senão, por que citá-los afinal?). Mas não é verdade que qualquer molinista dos quais eu saiba postula que Deus mantenha diferentes modos de conhecimento[3]. É verdade que o conteúdo do conhecimento médio é dependente de que atos livres os homens fariam (não `farão’; isto é uma confusão entre conhecimentos médio e livre). Porém, a conclusão “Deus espera o homem agir” é um non-sequitur[4]. De fato isto parece ser uma crítica à visão do pré-conhecimento simples da onisciência de Deus.

Daqui, a confusão realmente se expande. “O lógico moliniano [SIC] argumentará que uma ação deve primeiro ocorrer antes que seja verdadeira”. Novamente, nenhuma fonte é provida para amparar esta asserção. De fato, este é exatamente um argumento que um teísta aberto usaria contra o conhecimento médio (veja William Hasker, Clark Pinnock, e outros). Pelo contrário, Keathley (um proponente do conhecimento médio) explica que “antes” de qualquer ato de criação, Deus sabe exatamente como cada pessoa responderia em qualquer conjunto completo de circunstâncias hipotéticas (estas são chamadas ”contra-factuais da liberdade das criaturas” – veja meu paper “Predestination and Middle Knowledge.” http://www.facebook.com/note.php?note_id=492368533009 ).

Enquanto parece que McMahon endorsa a visão que as ações humanas são necessárias (desde que ele rejeita a contingência das ações da criatura explicitamente), ele não dá um argumento a favor e portanto istro não será abordado aqui. Estilisticamente, ele apimenta a “refutação” com retórica projetada ou para insultar o proponente do conhecimento médio, ou envenenar o poço contra o ensino, ou ambos. Um exemplo breve: “É certamente fácil ver o que [SIC] a doutrina do conhecimento médio é atrativa aqui. Homens são ultimamente seus próprios pequenos salvadores…”

Ele estranhamente passa disso para proclamar outra doutrina não-relacionada: “Hoje, aqueles que adotam molinismo simplesmente rejeitam os dados bíblicos dos decretos eternos de Deus, Sua onisciência e Seu poder onipotente detida na doutrina da Criação Contínua. Molinismo não é compatível com essas doutrinas. Molinianos [SIC] devem simplesmente negar a maior parte da Bíblia a fim de manter estas ideias enquanto ao mesmo tempo exaltam outras porções das Escrituras que eles pensam que mantêm sua doutrina juntamente. Eles devem simplesmente negar textos tais como Isaías 46:10-11 porque é incompatível com sua `lógica’: `Declarando o fim desde o começo, E dos tempos antigos coisas que ainda não fizeram, Dizendo, ‘Meu conselho permanecerá, E eu farei toda Minha vontade’, Chamando uma ave de rapina do leste, O homem que executa Meu conselho, de um país distante. De fato eu tenho dito; Eu também trarei a passar. Eu propus; Eu também farei’ ”

Os dados bíblicos sobre conhecimento médio são primariamente a respeito de contra-factuais (que, para sermos justos, não responde a questão se Deus diretamente causa todas as ações ou se algumas ações são livres), mas existe. Ademais, é digno de nota que proponentes do conhecimento médio (dos quais Bruce Ware é um deles (portante despachando quaisquer rumores que calvinistas não sejam proponentes ocasionais do conhecimento médio)) creem que os dados bíblicos portanto são reconciliados com a lógica, não sendo incompatíveis com ela. Isto significa que mero apelo a textos não será suficiente, desde que molinistas também apelarão aos textos. Devemos considerar também a interpretação dos textos e termos envolvidos. William Lane Craig (e coincidentemente muitos de seus oponentes) tem argumentado a questão de que Deus trazendo causalmente toda ação à tona versus algumas ações sendo trazidas à tona pelo homem não é estabelecida biblicamente mas juntamente a considerações filosóficas.

McMahon estabelece que o conhecimento médio é uma “não-entidade”. Ele arrojadamente declara que os conhecimentos natural e livre exaurem o conhecimento de Deus. “Não existe nada na natureza sobre qualquer coisa que seja que não é possível ou futuro”. Enquanto est afirmação seja verdadeira, ela desconsidera o fato que existe uma distinção crucial entre o que alguém poderia fazer e o que alguém iria fazer num conjunto de circunstâncias. Afinal, eu poderia escolher dormir hoje à meia-noite, mas sabendo que eu devo trabalhar amanhã de manhã, eu dificilmente o faria. De fato, se Deus não determina causalmente todos os atos (tais como os pecaminosos) e o conhecimento médio não existe, então Deus simplesmente joga a sorte acerca da forma que as coisas se desenrolam, desde que Ele não teria nenhuma ideia do que qualquer criatura livre de fato faria! Não importa a resposta de alguém para isto, não obstante permanece que existe uma diferença conceitual entre o que qualquer agente poderia fazer e o que ele iria fazer, e portanto a objeção falha.

Ele tenta uma segunda via ao alegar, “Segundo, nenhuma coisa condicional futura pode ser conhecível antes do decreto divino”. Estranhamente, isto é quase exatamente o que ele acusa o molinista de crer! Esta crítica assumirá que ele quer dizer “contra-factual” em vez de meras condicionais pertencentes ao futuro, desde que de outra forma existiria apenas um curso possível de ações para ambos o homem e Deus! Parece que McMahon tem mais em comum com teístas abertos que ele pode estar seguro em admitir. Ele não oferece argumento nenhum para esta alegação, e portanto ela funciona como um argumento de petição de princípio[5].

O próximo argumento referencia a providência de Deus. É declarado que, desde que Deus é providente, conhecimento médio é falso. Mas isto só é verdadeiro se “providência” significa “determinismo causal”. Desde que nenhum argumento é dado sobre como por que determinismo causal deveria ser preferível ao conhecimento médio, o argumento é novamente uma petição de princípio.

A próxima objeção é baseada na falta de entendimento fundacional do molinismo desde o início. Ela objeta que a onisciência de Deus é certa. O molinista facilmente concordaria. “Portanto, qualquer conhecimento sobre qualquer coisa na ordem criada necessitaria que todo conhecimento que Deus tinha sobre o universo fosse contingente aos atos livres do homem naquele universo”. Isto é falacioso por uma série de razões, uma das quais sendo a que isto é plenamente errado. O conhecimento de Deus (bastante ilimitado pelo conhecimento médio), incluiria o conhecimento de como Ele mesmo agiria (veja Gênesis 18). Isto somente é bom o suficiente para disprovar a asserção que qualquer conhecimento sobre o universo necessita de uma contingência dos atos humanos. Também considere leis físicas, nenhuma das quais (em geral – excluindo flutuações quânticas) são contingentes a atos do homem. Ainda assim Deus as conhece. Além disso, isto ignora os conhecimentos natural e livre de Deus.

McMahon prossegue afirmando que Deus é a causa primária e secundária de todos os atos, embora isto evidencie um falso entendimento do que é uma causa secundária. Um homem empurrando uma pedra com uma vareta usa a vareta como causa secundária, mas o homem dificilmente é a vareta. Ele neste ponto explicitamente estabelece que o conhecimento de Deus é necessário, desde que o que é conhecido por ele é baseado em sua existência. Mas então obviamente conhecimento livre é desnecessário e também ilusório (desde que Deus não poderia escolher nada diferente, da mesma forma que ele não pode escolher pecar).

Em resumo, McMahon demonstrou um falso entendimento do conhecimento médio como apresentado por seus proponentes, usou lógica falha, e não explorou as consequências lógicas de visões alternativas se o conhecimento médio é falso. Ele conclui em um parágrafo, “A única razão por que qualquer um deveria adotar esta doutrina é devido à descrença – eles rejeitam o Deus da Bíblia”. A retórica deve ser ignorada em favor da evidência – tanto bíblica quanto filosófica.

———-

[1] Tradicionalmente, “conhecimento livre” descreve o conteúdo do que Deus conhece logicamente após o decreto divino. Quais fatos pertencem a este conjunto de conhecimento é completamente contingente ao que Deus escolhe, ou decreta, ser atual (em vez de meramente possível). McMahon corretamente descreve “conhecimento natural” como todas as possibilidades e necessidades, tais como “2+2=4” ou tudo que pode ser.
[2] William Lane Craig, “Hasker on Divine Knowledge,” Philosophical Studies 67 (1992): 57-78.
[3] Veja John Laing, “Middle Knowledge,” na Internet Encyclopedia of Philosophy. http://www.iep.utm.edu/
[4] Um “non-sequitur” é uma conclusão logicamente falaciosa, significa “não se segue”.
[5] isto significa que a única razão que alguém teria para crer nisto é se ele já adotasse a conclusão do argumento!

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