Datando e Interpretando o Livro de Revelação – PARTE I

Padrão

Primeira parte de um documento que resolvi fatiar – o original é um post único. Perdão pela qualidade um tanto tosca da tradução, mas no que for o caso ainda tem o link para o original🙂

Datando e Interpretando Revelação: Uma Perspectiva Preterista

Parte I

por Tekton Apologetics
Tradução: Credulo on Futuro no Pretérito
Fonte: http://www.tektonics.org/esch/revdate.html

Datação

O turno interpretativo de Revelação depende fortemente de sua data, tanto quanto a data de um livro tem implicações tão sérias dentro do cristianismo quanto a data dos Evangelhos tenha fora do cristianismo. Tendo observado atentamente as datas dos Evangelhos[], nós já temos postas algumas bases em termos do que é parta ser considerado.

Vamos traçar algumas linhas parâmetro, um pouco modificadas (desde que não estamos aqui defendendo o outro polo central de autoria, mas assumindo João como autor de Revelação) desse trabalho anterior, no qual usamos os Anais de Tácito como um ponto de comparação, começando com testemunho externo.

Evidência externa corroborativa. Se outros atribuem uma obra a Tácito em certa data, antão este é claro testemunho de que ele escreveu o documento em questão em uma dada data. Por outro lado, se algum escritor em algum momento (quanto mais próximo da data de Tácito, melhor) ou nega que Tácito escreveu dado trabalho na data especificada, ou então oferece uma data distinta, temos razão para desconfiar da data de autoria.

Ao mesmo tempo, se as obras de Tácito são encontradas referenciadas em outros documentos, isto pode ser tomado como evidência para a data das obras de Tácito, de acordo com as datas das obras citadas. (Ausência de tais citações não necessariamente prova uma data mais tardia, mas adicionaria suspeitas se outras razões para suspeita estivessem presente.)

O último fator, referência por outros escritores, não é de importância aqui, porque todos concordam que Revelação foi escrito antes das mais antigas citações patrísticas dele. O assunto em pauta é, quão mais antigo?

Um intervalo de sugestões foi feito (até mesmo um tão cedo quanto Claudius, 40 AD) mas a maioria favorável a duas datações: durante ou próximo o reinado de Nero (54-68) o aquele de Domiciano (81-96). A resposta para esta questão sustenta ou destrói a interpretação de Revelação para propósitos preteristas. Se escrito no reinado de Nero, somos capazes de ao menos ter algum fundamento para começar a entender que Revelação foi em sua grande ou em alguma extensão cumprido na destruição de Jerusalém em 70 AD (bem como o Sermão do Monte). Se escrito no reinado de Domiciano, então Revelação não oferece nada ao preterista afinal.

Testemunho Externo

Após devida consideração do trabalho pioneiro propondo uma data pré-70 para Revelação (Before Jerusalem Fell, Gentry,  45-107) fiquei surpreso ao perceber que até aqui a evidência aponta ligeiramente para uma data pré-70; mas não obstante existe uma grande parcela de evidência conflitante. Vamos observar as pessoas que mencionam Revelação primeiro e ler mais sobre quando ele foi escrito.

Ireneu (80-90 AD)
Encontramos Ireneu ao final em nossa consideração da data e autoria de Lucas. Ireneu também tem algo a dizer acerca de Revelação, mas ele não foi tão claro quanto o que ele disse sobre Lucas:

Não vamos, porém, incorrer no risco de pronunciar positivamente quanto ao nome do Anticristo; porque se fosse necessário que o nome dele deva ser distintamente revelado neste presente tempo, haveria sido anunciado por aquele que viu a visão apocalíptica. Pois foi visto não em muito tempo depois, mas quase nos nossos dias, ao fim do reinado de Domiciano. (Contra Heresias 5:30:3)

Esta citação, preservada para nós por Eusébio, oferece um enigma: Quem ou o que foi “visto” quase nos dias de Ireneu? É “ele” que disse a visão? Ou era a própria visão? Domicianistas (como chamamos os de datação tardia) naturalmente dizem que foi a visão, mas Ireneu apresenta algumas ambiguidades:

  • Ireneu geralmente usa “para” quando retro-referindo à ideia principal da sentença anterior – e aqui, a ideia principal é “ele” e não a visão.
  • Ireneu costuma usar “visto” com referência a pessoas, mas não para coisas (como visões). O uso de “que (foi visto)” em vez de “ele (foi visto)” é contra-atacado por dois pontos:
    1. a tradução está em um latim muito ruim;
    2. é apenas uma pequena corrupção textual de um para outro (visus est VS. visum est).
  • Se o referente é o “seu” então a passagem faz sentido: Se dar o nome fosse necessário, João o teria feito; e ele também viveu após a escrita do livro e estava cheio de possibilidades de se explicar, e a explicação deveria ter sido preservada para nós se ele a tivesse dado. Se referente à própria visão, os comentários de Ireneu são sem sentido.
  • Eusébio também cita Ireneu como dizendo “…este número é encontrado em todas as cópias antigas e aprovadas, e aqueles que viram João face a face podem confirmá-la…”. A ênfase no conhecimento pessoal de João corresponde melhor com o referente sendo de volta para João na citação principal, em vez de para sua visão. De fato, “visto” é o mesmo verbo aqui.
  • Em outro lugar Ireneu afirma que João “continuou com os Anciãos até os tempos de Trajano”. É argumentado que isto significa que Ireneu não se referia a João como sendo visto até os tempos de Domiciano; portanto o referente em questão deve ser a visão.

Isto é contra-atacado pelo ponto que Ireneu apenas disse que João foi visto até o reinado de Domiciano, não que ele morreu naquele tempo. O que Ireneu parece indicar é que João ainda estava realizando aparições públicas até o tempo de Domiciano, mas se restringiu dos discursos públicos (devido a sua idade avançada, sem dúvida) e então viveu até algum tempo no reinado de Trajano.

Bem no mínimo, a evidência de Ireneu é ambígua e aberta a interpretações. Mas temos de alguma maneira uma afirmação mais clara e convincente de Clemente de Alexandria (189-215), escrito logo após Ireneu. Acerca de João ele afirma:

Quando após a morte do tirano ele se retirou da ilha de Patmos para Éfeso, ele costumava viajar a pedido para os distritos vizinhos dos gentios, em alguns lugares para apontar bispos, em outros para regular igrejas inteiras…

O argumento aqui torna-se o que parece ser um descritor ambíguo – “o tirano”. De um lado está Nero; do outro está Domiciano.

Quem merece melhor o título? Sem dúvida, é Nero – de fato, temos clara evidência que ele foi chamado por este nome:

  • Apolônio de Tiana diretamente diz de Nero, que ele era “comumente chamado Tirano” (e também se refere a ele como “besta”!)
  • Nero se encaixa an definição de tirânico com uma certeza: Ele “pôs para a morte muitos inocentes” (Tácito); “destruidor da raça humana, veneno do mundo” (Plínio o Ancião); “natureza cruel” (Tácito); “crueldade de disposição”(Suetônio); “cruel e sanguinário tirano” (Juvenal). Ele cometeu atos de perversidade e atrocidade tão nojentos que não os imprimiremos aqui. Nero foi pesadamente ridicularizado e odiado em trabalhos posteriores como um cruel e vingativo líder, e foi amplamente reconhecido como o primeiro imperador a perseguir cristãos. “Mas bem, Domiciano não foi também um tirano? Ele também não perseguiu cristãos?” Sobre o último, não é tão claro se Domiciano agia para cristãos como ele agia para qualquer um que o incomodasse, o que algumas vezes ocorria a cristãos próximos a ele – não existe evidência de uma perseguição geral em volta do seu reinado. Significantemente, cristãos posteriores falavam de Domiciano em termos de Nero – não vice-versa.

    Sobre ser tirano, deixe Suetônio (Os Doze Césares) contar a história. Domiciano não foi um cara legal, mas chamá-lo de tirano seria gastar uma palavra sem necessidade quando existe mais alguém que a mereça melhor…

  • Nero encontrou diversões em todas as formas de perversões e perseguiu e matou muitos inocentes. As atividades favoritas de Domiciano eram sexo recreacional, jogos de dados, caminhadas, e atirar canetas em insetos (no qual ele gastava horas nos primeiros anos de seu reinado). Um de seus últimos projetos, enquanto ele ficava careca, foi um livro sobre cuidados capilares.
  • Mais tarde em seu reinado Domiciano fez alguns atos irracionais de relevância – executar um garoto porque ele parecia e atuava como um ator que ele não gostava; teve um autor executado, e seus escravos secretariais crucificados, para colocar algumas alusões em uma obra literária; colocou senadores à morte por conspiração; pôs outra pessoa à morte por querer celebrar o aniversário de um imperador anterior. Tempo mais tarde Domiciano inventou uma nova forma de tortura. Suas várias irracionalidades o fizeram odiado e temido em todo lugar. Mas ele nunca chegou ao nível de crueldade e irracionalidade que Nero chegou.
  • Como o público em geral reagiu às suas mortes? Com Nero houve “generalizado e amplo regozijo” dado que os “cidadãos correram pelas ruas vestindo capas de liberdade”. Algumas pessoas esquisitas ainda apoiavam Nero, mas não muitos. Por outro lado, na morte de Domiciano, o público em geral “recebeu a notícia … com indiferença”, apesar de os militares estarem descontentes e os senadores de Roma estarem felizes.

Obviamente, alguém poderia justificadamente chamar ou Nero ou Domiciano de tirano. Mas concordo com os escritores patrísticos que descreveram Domiciano em termos de Nero. Por comparação Domiciano era um “aspirante a tirano” e as referências de Clemente fazem bem mais sentido se aplicadas a Nero (especialmente como a real palavra “tirano” foi usada sobre ele na literatura).

No mesmo passe, as atividades que Clemente atribui a João – percorrer toda a Ásia, montado a cavalo atrás de um líder apóstata – fazem mais sentido se atribuídas a um homem em seus 50 ou 60 anos do que fariam a um homem em seus 90 ou 100.

Finalmente, em outro lugar Clemente afirma que o ensino dos apóstolos foi completado nos tempos de Nero.

Gentry oferece outras evidências externas, algumas delas equívocas. O que permanece como sendo os mais convincentes e relevantes pontos são:

  • Orígenes (185-254) ser refere a João como condenado a Patmos pelo “rei dos romanos”. Os imperadores julianos, dos quais Nero foi o último antes dos generais tomarem o título de César, foi o último a ser saudado por este título.
  • Um dos poucos advogados claros de uma datação domiciânica é Victorinus (304 AD) que se refere a João sendo sentenciado a ir a Patmos, trabalhar nas minas, por Domiciano. Gentry aponta que isto seria esquisito para João, na idade de 90 a 100 anos, sobreviver à jornada para ser julgado, o açoitamento público, e as chicotadas nas minas, e então seguisse para mais trabalho na Ásia. João teria que ser mais marombado que Jack LaLanne! [NT: mais que dizer quem foi ele, que tal jogar no YouTube?]
  • Os Atos de João reportam que João de fato foi exilado sob Domiciano, mas a razão dada para o exílio foi que Domiciano ouviu sobre a influência de João, e de seu ensino ele espalhou pela Roma deveria ser arrancado e destruído. Por causa disso ele foi mandado para Patmos.

    Gentry nota que [100] o ensino descrito casa o que é encontrado em Revelação e sugere que sugere que João pode ter sido exilado mais de uma vez, a primeira sob Nero.

  • Eusébio é uma das mais fortes testemunhas domiciânicas, como ele nota que João foi condenado a Patmos, apesar de que ele não estabelece diretamente que este é o tempo que João escreveu Revelação (pois de fato ele nem pensa que João escreveu Revelação afinal!), e ele claramente depende de Ireneu.

    Eusébio também fornece dados contraditórios: em um lugar ele fala do exílio de João sob Domiciano, mas em outros lugares“fala da execução de Pedro e Paulo na mesma sentença com o banimento de João”, sugerindo uma data neroniana. (Um duplo exílio resolveria o assunto, embora às baixas custas de embotar a Navalha de Ockham!)

  • Epifânio (315-403) coloca o banimento de João sob Cláudio e afirma que foi ali que ele escreveu Revelação.Alguns sugerem que ele está confundindo Cláudio com Nero, porque um dos nomes secundários de Nero era Cláudio.
  • Jerome (340-420) afirma diretamente que João escreveu Revelação enquanto sob o exílio nos tempos de Domiciano.
  • A História de João Siríaca afirma diretamente que João foi exilado sob Nero, e as duas versões siríacas de Revelação (600 AD) e seu título dizem que João fora banido por Nero.
  • André de Capadócia (sexto século) claramente apóia uma data domiciânica, mas reconhece em um comentário de Revelação que existem diversos comentaristas em seu tempo que discordam e preferem uma datação nerônica. Um deles era Aretas, um contemporâneo.

No mínimo, a evidência externa para a datação de Revelação é equívoca. Mas o peso detalhado das mais antigas testemunhas claras lançam o veredicto ligeiramente para uma data mais antiga.

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