Traduções Crédulas: “Vendido” em Romanos 7

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Um belo trechinho, bastante polêmico – um trecho acerca do homem natural e a lei de Deus. Contam as más línguas que este foi o estopim para o inferno pessoal de Jacobus Arminius: uma exegese de Romanos 7 que ia contra o status quo de sua época. Basicamente, Arminius (e este artigo) argumentavam que Romanos 7:14-25 não se referia especificamente à pessoa de Paulo – ou melhor, não se refere à experiência de um cristão como sofrendo uma luta eterna entre a carne e o espírito, sem possibilidades de vencê-la.

Além disso, aproveito para abrir uma categoria e mais um projeto: traduzir a The Arminian Magazine para o tupiniquim!

Vamos ao artigo!

“Vendido” em Romanos 7

por Dr. Vic Reasoner

Tradução: Credulo from this WordPress Blog

Os Pais da Igreja, até Agostinho no quinto século, geralmente interpretam Romanos 7 como uma experiência pré-cristã. De acordo com Agostinho o conflito de Romanos 7 permanece o mais alto estágio da experiência cristã. Nestes dias, calvinistas geralmente seguem Agostinho, interpretando Romanos 7 como uma experiência cristã. “A controvérsia arminiana de fato começou debaixo da exegese desta passagem” de acordo com M.B. Riddle no Comentário de Lange[1].

Jacob Hermansz foi um teólogo holandês do fim do século XVI. Nós o conhecemos pelo seu noma latinizado, Jacobus Arminius. Ele foi até Genebra para estudar sob o cunhado e sucessor de Calvino, Theodore Beza. Ele retornou a Amsterdã para pastorear. Ele tinha a reputação de ser um brilhante pregador, um aclamado exegeta bíblico, e um humilde e dedicado cristão. Sua pregação expositiva atraiu grandes multidões.

Ele foi considerado o maior estudioso de seus dias. Ele foi o primeiro a receber o título de Doutor em Divindade da Universidade de Leiden. Ele foi posteriormente professor de teologia na universidade, até sua morte em 1609.

Em 1589 Dick Coornhert declarou que a teoria supralapsária de Beza na realidade tornava Deus o autor do pecado. Arminius foi comissionado a responder esta acusação. Ele finalmente concluiu que Coornhert estava correto. Ninguém podia refutar seu estudo, mas pregadores começaram a abertamente atacá-lo do púlpito. Suas palavras foram distorcidas fora de seu contexto e seus inimigos tentaram destruir sua influência. Finalmente, ele pediu por uma audiência pública, mas morreu antes do sínodo ser convocado. Ele tinha por volta de 49 anos quando morreu, e sua morte provavelmente foi acelerada pela tensão ao qual fora submetido.

Apesar de ter sido Arminius a convocar um fórum aberto, o Sínodo de Dort (1618-9) somente solidificou a posição calvinista. Aos seus seguidores, os Remostrantes, não foi permitido entrar em debate. Eles foram postos à morte, banidos, ou presos. Eles estavam inabilitados a manter qualquer ofício nas igrejas ou estado até 1625, quando lhes foi concedida limitada tolerância.

Os escritos de Arminius foram compilados em três volumes. O segundo mais longo tratado que temos é sua “Dissertação do Verdadeiro e Genuíno Sentido do Sétimo Capítulo da Epístola de Romanos”. Ele tem 258 páginas.

Dentro de uns cem anos após sua morte, os Remonstrantes se desviaram rumo ao pelagianismo. Foi John Wesley que fez um movimento de volta ao arminianismo evangélico, até mesmo normando sua revista `The Arminian’.

Os pioneiros metodistas mantinham que Romanos 7 não era uma descrição da experiência cristã. Wesley disse, “Ter dito isto de si mesmo, ou de qualquer verdadeiro crente, seria estranho ao completo assunto deste discurso”[2]. Wesley afirmou os versos 7 a 25 como uma digressão de Paulo. Adam Clarke estabeleceu, “O próprio genus do cristianismo demonstra que nada disso pode, com propriedade alguma, ser dito de um genuíno cristão”[3]. John Fletcher devotou uma seção inteira a Romanos 7 no seu “Last Check to Antinomianism”[4]. Ele acusou os calvinistas de jogarem “o jugo da carnalidade e tentarem fixá-lo no pescoço de Paulo”[5]. Richard Watson sumarizou os capítulos sete e oito de Romanos, afirmando:

O estado moral do homem é traçado na experiência de São Paulo como um exemplo, a partir de sua convicção do pecado pela lei de Deus revelada a ele em sua espiritualidade, para sua entrada na condição e privilégio de um estado justificado. [6]

O Santo Espírito é mencionado somente uma vez no capítulo inteiro (verso 6). Ele é referenciado umas vinte vezes no capítulo seguinte. Romanos 7 não faz menção à graça de Deus. É uma clássica análise psicológica da luta entre a consciência e a vontade. Todo pecador conhece o conflito entre o que ele deve fazer e o que ele quer fazer. Desejo comumente vence sobre nosso dever.

O pronome pessoal grego ego é usado oito vezes nesta descrição. Em grego, bem como em muitas outras linguagens, o sujeito é entendido no verbo. Paulo forneceu uma palavra adicional (ego) para ênfase. Ele não a usa uma única vez no capítulo 8. Capítulo 7 fecha com um duplo pronome no verso 25, “eu mesmo”. Paulo descreve um homem tentando ser cristão por si mesmo.

Mas muitas pessoas se preocupam com uma mudança do tempo verbal. Durante todo o verso 13, o tempo aoristo foi usado. Então Paulo muda para o tempo presente e o usa durante todo o fim do capítulo. J.I. Packer declarou “Gramaticalmente, portanto, a maneira natural de se ler isto seria como uma transcrição do conhecimento de Paulo no tempo da escrita…”. Ele argumenta que o temnpo presente deve ter uma referência presente e descrever algo distinto da experiência passada dos versos anteriores[7].

Calvinistas estão corretos em observar o fato da mudança do tempo. Eles estão incorretos em sua interpretação do que tal fato significa. Neste caso, uma leitura cuidadosa do contexto tratá uma grande quantia de luz sobre os comentários! Esta digressão é introduzida pela clara afirmação encontrada em 6:14 e concluída por um sumário igualmente claro em 8:2. Salvação libera do pecado.

Como pode o contexto ser harmonizado com a mudança dos tempos verbais? Em `A Manual Grammar of the Greek New Testament’, somos informados que um dos usos especiais do tempo presente é o “presente histórico”. “O tempo presente é portanto empregado quando um evento passado é visto com a vividez de uma ocorrência presente”[8]. Hoje em dia esta técnica literária é chamada de “flashback”. Se ela é ou não aceitável como interpretação apropriada de Romanos 7:14-25 provavelmente depende de suas próprias pressuposições teológicas. A explanação de que Paulo está relembrando sua experiência pré-cristã é permitida pela gramática grega, porém.

Recentemente um importante expoente calvinista, Anthony Hoekema, professor emérito do Calvin Seminar, mudou suas opiniões e declarou que ele não mais acredita que Romanos 7 descreva uma pessoa regenerada. Ele afirmou:

O sentimento de frustração e derrota que permeia esta seção não comporta o sentimento de vitória em termos dos quais Paulo geralmente descreve a vida cristã. A pessoa descrita é ainda cativa à lei do pecado (7:23), enquanto o crente descrito em 6:17-18 não mais é escravo do pecado[9].

Este tipo de honestidade intelectual é rara. Como ele se sairia no Sínodo de Dort?

Enquanto os comentários de Hoekema são um alívio, é bastante desanimador ler comentários e ouvir sermões vindos do movimento holiness sobre Romanos 7. Mantenha em mente que estes homens consideram a si mesmos defensores da ortodoxia wesleyana-arminiana. W.B. Godbey disse:

Todo cristão, quando convertido, se põe a obedecer ao Senhor na terra como os anjos no céu, mantendo portanto a lei na beleza da santidade; mas destinado à derrota, falha, desânimo da mortificação, culminando em desespero, como Paulo no verso em que clama, “Miserável homem que eu sou!”[10]

H.C. Morrison escreveu:

O leitor cristão reconhecerá em um lance a indubitável veracidade destas Escrituras porque elas são corroboradas pela experiência diária das almas crentes, que, lutando contra o “velho homem”, têm geralmente clamado, “Miserável homem que eu sou! Quem me livrará do corpo desta morte?”

Para Morrison, a solução para este problema é receber o batismo com o Santo Espírito, o que ele iguala com a completa santificação[11]. O pioneiro metodismo ensinava que ocorria juntamente com a justificação[12].

Charles Ewing Brown explicou o que pensa que Romanos 7:7-25 significa:

Assumindo, então, que nós temos neste capítulo uma abordagem da experiência de um verdadeiro e mesmo um maduro cristão, nós aprendemos que em todo cristão existe uma mistura de bem e mal… [13]

Em Great Holiness Classics: Holiness Teaching Today, não apenas as afirmações de Morrison e Brown são reimpressas, mas Milton Agnew descreve a experiência cristã:

Após a conversão ele descobre em si mesmo uma nova natureza que “deleitosamente concorda com a lei de Deus” (Romanos 7:22). Mas ele aprende para sua angústia que também tem uma antiga natureza, um “velho eu”, desperto e batalhando por supremacia. Aqui ocorre uma profunda luta incômoda entre as duas naturezas, os dois “eus” de 7:14-25…[14]

William Greathouse, escrevendo no Beacon Bible Commentary, admite que o significado primário de Romanos 7 é o homem não-renovado. Mesmo assim ele alega que a passagem tem um significado secundário no qual ela descreve um infante carnal em Cristo[15]. Somos alertados em Biblical Hermeneutics que “se a Escritura tem mais de um significado, ela não tem nenhum afinal”[16].

Estudioso nazareno, Ralph Earle encorajou pregadores a aplicar Romanos 7 tanto antes quanto após a conversão em Word Meanings in the New Testament[17]. Portanto, confrade nazareno, Kenneth Grinder parece ser excessivamente otimista quando ele afirma que “qualquer um no movimento Holiness sabe que um regenerado não peca deliberadamente, e mesmo assim esta pessoa descrita em Romanos 7 parece fazer tais coisas”. Ele culpa a “teologia popular” de ministros e professores por espalhar a ideia de que Romanos 7 descreve o homem salvo[18]. Mas enquanto sua denominação está reimprimindo Great Holiness Classics, que não são necessariamente grandes clássicos e nem wesleyanos, é difícil pôr toda a culpa nos leigos.

É de qualquer surpresa que o povo está confuso quando o púlpito soa uma nota incerta? É de se surpreender que um estudante está confuso quando o professor tenta ficar em cima do muro?

Importa sim o que cremos sobre Romanos 7. Nossa interpretação da passagem é como um divisor de águas. O caminho que seguirmos nos levará a conclusões teológicas drasticamente diferentes. O homem descrito em Romanos 7 era escravo do pecado. É verdade que ele não está santificado; ele também não está salvo. Não precisamos ignorar regeneração a fim de dar caminho à santificação. Por muito tempo o movimento holiness tem tentado estabelecer a necessidade de uma segunda obra demonstrando a falha da primeira.

Vamos declarar uma moratória de tais ilustrações como supondo cristãos perdendo seu temperamento e esquentando a cabeça. De acordo com Gálatas 5:20, explosões de raiva são obra da carne. Aqueles que pertencem a Cristo crucificaram a carne. Aqueles que andam após a carne não herdarão o reino de Deus. Verdadeiros cristãos são habilitados pelo Espírito para controlar desejos pecaminosos. Completa santificação é uma completude ou perfeição do que Deus iniciou na regeneração. Se nada mudou quando fomos salvos, então estamos simplesmente fazendo duas viagens ao altar para sermos salvos, e alegando que temos a segunda bênção. Se aceitarmos a segunda bênção na base da dedução lógica, é possível ter feito duas ou mais viagens e ainda ser escravo do pecado.

 O movimento holiness tem adotado a teologia de João Calvino, enquanto alega ser defensor de John Wesley. Não espanta professarmos algo e viver tão fora de nossa profissão.

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Bibliografia (para leitura adicional)

  • Bangs, Carl. Arminius, A Study in the Dutch Reformation. 1971. Rpt. Grand Rapids: Francis Asbury Press, 1985.
  • Lake, Donald M. “Jacob Arminius’ Contribution to a Theology of Grace.” Clark H. Pinnock, ed. Grace Unlimited. Minneapolis: Bethany House, 1975.
  • Nichols, James and W. R. Bagnall, eds. The Writings of James Arminius. 3 vols. Grand Rapids: Baker Book House, 1956.
  • Wynkoop, Mildred. Foundations of Wesleyan-Arminian Theology. Kansas City: Beacon Hill Press, 1967.

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1. John Peter Lange, A Commentary on the Holy Scriptures: Romans (1869; rpt. Grand Rapids: Zondervan, n. d.), 245.

2. John Wesley, Explanatory Notes Upon the New Testament (1754; rpt. Salem, OH: Schmul, 1976), 379.

3. Adam Clarke, The Holy Bible, With A Commentary and Critical Notes, 6 vols. (1811-25; rpt. Nashville: Abingdon, n. d.), 6:92. See also p. 86.

4. John Fletcher, The Works of the Reverend John Fletcher, 4 vols. (1833; rpt. Salem, OH: Schmul, 1974), 2:529-537.

5. Fletcher, 2:543-4.

6. Richard Watson, Theological Institutes, 2 vols. (New York: Hunt & Eaton, 1889), 2:249. See also 2:451-2.

7. James Innell Packer, Keep in Step with the Spirit (Old Tappan, NJ: Revell, 1984), 264-7.

8. H. E. Dana and Julius Mantey, A Manual Grammar of the New Testament (New York: MacMillan, 1927), 185. See also Boyce W. Blackwelder, Light from the Greek New Testament(1958; rpt. Grand Rapids: Baker, 1976), 67.

9. Anthony A. Hoekema, “Response to Walvoord,” Five Views of Sanctification, Melvin E. Dieter, ed. (Grand Rapids: Zondervan, 1987), 232.

10. William Baxter Godbey, Commentary on the New Testament, 7 vols. (Cincinnati: Revivalist, 1986-1900), 5:117.

11. Henry Clay Morrison, Baptism with the Holy Ghost (1900; rpt. Salem, OH: Allegheny, 1978), 24.

12. Victor Paul Reasoner, “The Spirit and Sanctification: The Changing Emphasis Within American Wesleyanism,” (M. Div. thesis, Biola Univ., 1987).

13. Charles Ewing Brown, The Meaning of Sanctification (1945; rpt. Salem, OH: Schmul, 1980), 27.

14. Milton S. Agnew, “Sanctification Presented,” Holiness Teaching Today, A. F. Harper, ed. Volume 6 of Great Holiness Classics (Kansas City: Beacon Hill, 1987), 146.

15. William M. Greathouse, “Romans,” Beacon Bible Commentary, 10 vols. (Kansas City: Beacon Hill, 1968), 8:160.

16. Milton S. Terry, Biblical Hermeneutics (1885; rpt. Grand Rapids: Zondervan, 1974), 493.

17. Ralph Earle, Word Meanings in the New Testament, 6 vols. (Kansas City: Beacon Hill, 1974), 3:137.

18. J. Kenneth Grider, Entire Sanctification: The Distinctive Doctrine of Wesleyanism (Kansas City: Beacon Hill, 1980), 142.

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