Traduções Crédulas: Molinismo e Variedades de Liberdade (I de VI)

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Pois é – um artigo um tanto mais filosófico que o normal. Encontrei esta ótima série sobre molinismo e liberdade da vontade – e sendo ela relativamente curta mas bastante explicativa, dá para postar e ter alguma boa referência para discussões (e quebra-paus) futuras.

E, claro, faz muito tempo que estou devendo sobre molinismo!

Molinismo e Variedades de Liberdade I – Prolegômenos: Categorias de Presciência Divina

por TheMolinist
Tradução: Credulo from this WordPress Blog

Como pode ser inferido do nome deste blog ou tentando uma conversa não-relacionada com a minha pessoa, eu tenho um permanente interesse na obra de Luis de Molina, particularmente seu projeto de reconciliar liberdade das criaturas e presciência divina. Molina postulou uma nova categoria de presciência divina, scientia media, a qual ele argumentava que poderia reconciliar o livre arbítrio das criaturas com o perfeito pré-conhecimento de tais seres criados. Esta série sobre molinismo e variedades de liberdade pretende explorar as variedades de liberdade compatíveis com a concepção molinista de presciência divina. As distinções filosóficas das liberdades compatibilista e libertariana serão investigadas, junto com as construções mais explicitamente teológicas da vontade. Mas primeiro, a propósito de prolegômenos, uma breve explicação das categorias de conhecimento divino no molinismo está a caminho.

Luis de Molina postulou três formas de presciência divina: scientia naturalis, scientia liberalis, e scientia media. As primeiras duas foram derivadas do trabalho de teólogos escolásticos anteriores, principalmente (e provavelmente diretamente) de Tomás de Aquino, mas estão presentes também no pensamento do grande rival do tomismo, Duns Scotus. A última, scientia media, foi do próprio Molina. Foi postulada em seu monumental trabalho Concordia liberii abitrii cum gratiae donis, mais geralmente conhecido simplesmente como Concordia, aonde Molina tentaria reconciliar a teologia predestinariana tomista (sim, Tomás de Aquino era um predestinariano) fortemente advogada pelos dominicanos com uma liberdade da vontade das criaturas.

Scientia naturalis é aquele conhecimento que Deus conhece pela sua própria natureza. Este conhecimento é independente da ação da parte de Deus e portanto é logicamente pré-volicional[1]. Scientia naturalis consiste de todas as verdades metafisicamente necessárias e todas as verdades possíveis, verdades que são independentes da vontade de Deus. Portanto Deus não tem controle sobre as verdades daquelas proposições que ele conhece mediante sua scientia naturalis. Tomás de Aquino referia a esta categoria de conhecimento divino como Scientia Simplicis Inteligentia, ou Conhecimento de Simples Inteligência, descrevendo-a como conhecimento de Deus sobre todas as coisas que não são necessariamente atuais.[2]

Scientia liberalis é aquele conhecimento que Deus tem por seu ato criativo da vontade. Este conhecimento é logicamente pós-volicional, contingente a Deus tomar certos atos criativos não-necessários dentre toda a extensão de atos criativos disponíveis para ele. Estas verdades são portanto metafisicamente contingentes e Deus tem controle sobre seu conteúdo: Deus poderia ter escolhido criar criaturas ou situações distintas, ou não criar afinal, caso no qual os conteúdos da sua scientia liberalis seriam diferentes ou inexistentes. A esta categoria de conhecimento Aquino chamava Scientia Visionis, ou Conhecimento de Visão, referindo ao conhecimento de tudo que é, era, ou será.[3]

Scientia Media é a nova categoria de Molina e descreve o conhecimento de Deus de como criaturas fariam se fossem criadas. Mais precisamente, é o conhecimento de Deus sobre todos os verdadeiros contrafactuais da liberdade das criaturas: todas as determinações que poderiam ser feitas por quaisquer criaturas como se pudessem ser criadas. Ele pode ser pensado como consistindo de um conjunto infinito ou extremamente grande de proposições da forma “Se o agente A estivesse na situação P então o agente A livremente realizaria a ação S”. Esta categoria ocupa um meio termo entre as duas categorias tradicionais, incorporando elementos de cada uma delas. Scientia media é, assim como a scientia naturalis, pré-volicional e independente do controle divino. Isto é, Deus não tem controle sobre o conteúdo das proposições conhecidas mediante sua scientia media, a veracidade delas é independente de sua vontade. E é semelhante à scientia liberalis no sentido que as verdades conhecidas mediante scientia media são contingentes (não metafísica nem logicamente necessárias) porque são dependentes de determinações possíveis o livre arbítrio das criaturas.

Notas e Bibliografia

[1] A noção de uma ordem lógica de categorias de conhecimento é importante para a concepção molinista de conhecimento divino, mas também foi adotada por Scotus e Aquino. Esta prioridade é conceitual e atemporal (como é necessária dentro de uma concepção atemporal de Deus).

[2] ST 1.14.9

[3] Ibid.

Dekker, Eef, “Was Arminius a Molinist?” The Sixteenth Century Journal 27 (1996), 337-352.

Laing, John D., “The Compatibility of Calvinism and Middle Knowledge,” Journal of the Evangelical Theological Society 47 (2004), 455-67.

Muller, Richard A., “Arminius and the Scholastic Tradition,” Calvin Theological Journal 24 (1989), 263-277.

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