Traduções Crédulas: A Ordem da Fé e Eleição no Evangelho de João: Vós não credes pois não sois das minhas ovelhas – II.A

Padrão

Parte II – Quem Pode Vir à Fé Em Cristo?

A. As Condições Suficientes no Evangelho de João: Observações Preliminares

Vamos começar reconsiderando as condições suficientes para vir à fé que são apresentadas por Jesus no Evangelho de João. As condições suficientes para vir à fé em Cristo são apresentadas por Jesus no Evangelho de João. As condições suficientes para vir à fé em Cristo apresentadas no Evangelho de João ocorrem em quatro passagens principais  6:25-70, 8:12-59, 9:40-10:21, e 17:1-26. Cada uma das três primeiras passagens descreve uma confrontação (ou série de confrontações) entre Jesus e os judeus, muitos dos quais eram resistentes ao Seu ensino (conf. 6:26,36,41-42,52,66; 8:13,33,37,40,45,48-49,52,59; 9:40; 10:20). Tais conversações entre Jesus e os judeus formam a espinha dorsal dos primeiros doze capítulos do Evangelho de João que precedem o Discurso do Cenáculo (contendo a quarta passagem em questão, 17:1-26, a Oração Sacerdotal) e os eventos da Paixão de Jesus. A principal questão recorrente no desenrolar do livro, especialmente nos primeiros doze capítulos, concerne a identidade de Jesus. Quem Ele é? É o Cristo – o Messias – ou outro alguém? A persistente repetição de Jesus ao longo disto é que Ele é, de fato, o prometido Messias que viria ou seria enviado pelo Pai no Céu (1:9,14; 3:2,13,17,19,31,34; 4:25-26,34; 5:23-24,36,38,43; 6:29,32-33,44,46,51,57,62; 7:16,18,28-29,33; 8:14,16,18,23,26,29,38,42; 9:4; 10:36; 11:27,42; 12:44-46,49; 13:3,20; 15:21; 16:5,28,30; 17:8,18,21,23,25; 20:21). A assertiva de Jesus é posta em contraste com as dúvidas sobre Ele expressas por muito de Israel, em especial os líderes religiosos. De fato, muitas das pessoas comuns ao que parece observavam os líderes para esclarecimento neste assunto, se impressionando que os líderes tenham concluído que Jesus era o Cristo (7:25-26). Muitos dos líderes, porém, foram insistentes em seu desejo de não dar qualquer aparência de terem aceito as assertivas de Jesus (7:47-49; 9:27-29; 19:15; conf. tb. 9:16).

É no contexto destes diálogos com os judeus que Jesus apresentou as condições suficientes e necessárias para vir em fé a Ele como uma maneira de explicar o contraste entre aquele que aceitavam e seguiam Ele como o Messias e aqueles que se recusavam a tal. Considere primeiro as palavras de Jesus aos judeus de que “Quem é de Deus, ouve as palavras de Deus; portanto vós não as ouvis porque não sois de Deus” (8:47). Como discutido acima, este é um dos versos críticos nos quais Jesus afirma uma condição suficiente para ter fé nEle, a saber, “pertencer a Deus”. Como tal, a afirmação de Jesus aqui paraleliza suas palavras em 10:26 de que “Mas vós não credes, porque não sois de minhas ovelhas[…]”. Cada um deses versos apresenta uma condição de identidade em quem pode vir à fé em Jesus, a saber, aqueles que são filhos de Deus (isto é, “pertencem a Deus”) e aqueles que são ovelhas de Cristo. Em cada caso, apenas aqueles que satisfazem a dada identidade participam do resultado final, a saber, “ouvir as palavras de Deus” (8:47) ou “crer” (10:26). O forte paralelismo entre estes versos sugere que a palavra “ouvir” em 8:47 tem significado igualado a “crer” em 10:26. Quer dizer, “ouvir” não se refere simplesmente à sua percepção ou entendimento das palavras de Jesus, mas a ouvir no sentido de receber e crer nas Suas palavras.

Porém, mesmo isto não é o suficiente, porque o contexto de 8:47 nos informa que os judeus os quais Jesus declarou nesta passagem que não podiam “ouvi-Lo” já haviam de fato “posto sua fé nEle” e “crido nEle” (8:30-31). Devemos concluir que a “fé” e “crença” deles era em algum sentido deficiente e não se igualava a terem verdadeiramente “ouvido” Jesus. Este paradoxo se clareia enquanto seguimos a passagem: quando Jesus desafiou estes mesmos judeus a demonstrarem a validade da sua fé “aderindo” ao seu ensino e então provando que de fato eram seus discípulos (verso 31), com o resultado de que eles “conheceriam a verdade” e seriam libertos (verso 32), eles começaram a resistir à autoridade de Jesus e insistiram que eles sempre foram livres filhos de Abraão (verso 33) e em último caso, filhos de Deus (verso 41). Neste ponto Jesus disputou a alegação deles, argumentando que o seu latente desejo de matá-lo mostrava que a palavra de Jesus não tinha lugar neles (verso 37) e pertenciam a seu pai, o diabo (verso 44). Consequentemente eles eram incapazes de ouvir o que Jesus dizia (verso 43). Claramente, Jesus estava sugerindo nesta passagem que “ouvir” suas palavras é mais do que meramente exercer fé em um nível cognitivo como aqueles judeus aparentemente fizeram. Em vez disso, ouvi-lo é adotá-lo como com a mais profunda e leal fé de um discípulo, comprometer-se a verdadeiramente seguir Cristo em obediência e auto-renúncia (cf. Mt 16:24-25).

Retornado ao ponto original acima, a essência das assertivas de Jesus em 8:47 e 10:26 é que tal fé leal em Cristo (o “ouvir” descrito em 10:26) é impossível para aqueles que já não “pertencem” a Deus, que não são filhos de Deus em vez de filhos do diabo, e que não são ovelhas de Cristo. A satisfação de tais condições de identidade vem antes e é logicamente anterior à fé em Cristo, e não vice-versa.

Além disso, note que Jesus explicitamente associa estas condições de identidade com outra das condições suficientes para vir à fé em Cristo, a saber, ser dado pelo Pai para o Filho (6:37; 10:29; 17:1-2,6,9,24). Em 17:6 Jesus diz ” Eram teus, e tu os deste a mim”, e em 17:9 “Eu rogo por eles; não rogo pelo mundo, mas por aqueles que me tens dado, porque são teus”. Semelhantemente, Jesus disse que suas ovelhas lhe foram dadas pelo Pai (10:29a). Estas várias passagens paralelas sugerem fortemente que aqueles que pertencem ao Pai são do mesmo conjunto dos que são considerados ovelhas de Cristo, todos eles dados pelo Pai para o Filho e que portanto viriam a Cristo em fé (6:37).

A questão que naturalmente surge destas observações é “O que significa, então, no contexto destes versos, ser um filho de Deus, pertencer ao Pai, e ser uma das ovelhas de Cristo?”. Normalmente referimos a tais termos como se referindo aos crentes cristãos (e tal uso é vastamente atestado no Novo Testamento, como em Jo 1:12, Rm 8:14f; Gl 3:26), e ainda assim Jesus claramente usa estes termos nas passagens consideradas acima para referir-se a uma condição que precede a fé em Cristo, pois como ele fala em 8:37 e 10:26, é a ausência de tal condição que impede a emergência da fé em Cristo, não o contrário.

Calvinistas, como dantes notado, interpretam estes termos “pertencer” a Deus e ser uma das ovelhas de Cristo como se referindo aos eleitos (entendidos como um grupo definido incondicionalmente escolhido de indivíduos específicos) antes de (e seguido por) sua regeneração, chamada eficaz e vinda à fé. Creio que existe uma interpretação alternativa, porém, que faz melhor sentido à luz do contexto em que Jesus fez tais afirmações: Aqueles a quem Jesus se referia como pertencendo a Deus e sendo suas ovelhas estão entre aqueles da sua audiência judaica que voluntariamente viviam numa correta relação de aliança com Deus debaixo dos termos revelados no Antigo Testamento, e que estavam portanto preparados para receber o Messias prometido quando ele surgisse para a nação de Israel. A fim de fazer o caso para esta interpretação, será necessário aguardar um pouco e primeiro considerar o contexto histórico mais amplo para as observações de Jesus. Para tal vamos nos voltar para o Antigo Testamento.

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