Traduções Crédulas: Há Duas Vontades em Deus?

Padrão

Bem, primeiro algumas breves mudanças. Este blog servirá definitivamente para postar traduções de artigos exclusivamente sobre teologia, especificamente soteriologia arminiana/molinista. Quanto à parte mais autoral, preferi transferir para o novo blog, Deforming Blindness. Isto inclui a recém-inaugurada seção de perguntas e respostas (que ainda está intacta, com um breve diálogo sobre Cornélio e depravação total :)).

Agora, o texto. Bem, este é o infame argumento do ‘deus doublethinker’, ou da esquizofrenia divina. Dado que todo calvinista (quase sem exceção) usa um argumento semelhante – e me contam as más línguas que isto remonta a Calvino -, é bastante comum ficar confuso com coisas como ‘Deus ordena aquilo que Ele não gosta’ ou coisas do gênero ‘vontade permissiva’, ‘vontade decretiva’ e as coisas todas. Resolvi traduzi e postar esta crítica de William Birch a um artigo de J. Piper sobre as duas vontades contraditórias.

Leiam e reflitam!

John Piper: “Há Duas Vontades em Deus?” – Uma Resposta

por William Birch
Tradução: Credulo From This WordPress Blog

O capítulo de John Piper, “Existem duas Vontades em Deus?”, disponível em seu site Desiring God, e no livro  Still Sovereign: Contemporary Perspectives on Election, Foreknowledge, and Grace (Grand Rapids: Baker Books, 2000), procura “mostrar da Escritura que a simultânea existência da vontade de Deus que ‘todas as pessoas sejam salvas’ (1Tm 2:4) e sua vontade de eleger incondicionalmente aqueles que de fato serão salvos não é sinal de esquizofrenia divina ou confusão exegética. Este post é uma resposta (não um ataque) à teoria de Piper das duas vontades em Deus.

Um assunto secundário que Piper abordará, e ao qual eu também responderei, é seu objetivo de mostrar que “a eleição incondicional portanto não contradiz as expressões bíblicas da compaixão de Deus por todas as pessoas, e não nulifica a oferta sincera de salvação a todos o que estão perdidos entre todos os povos do mundo”. Este assunto sozinho vai levantar mais que alguns olhares. Que Deus tenha uma genuína compaixão por aqueles que Ele escolheu não salvar incondicionalmente por toda a eternidade, e na realidade “sinceramente” oferece a eles salvação, é além de qualquer dúvida o maior ônus da prova para todos os calvinistas.

Piper reconhece que textos como 1Timóteo 2:4, 2Pedro 3:9 e Ezequiel 18:23 podem ser chamados “os textos-pilares arminianos acerca da vontade salvífica universal de Deus”. De fato existem muitos, muitos outros textos em todo o teor da Escritura que apoiam esta verdade, não meramente estes três assim chamados pilares. Mas seu reconhecimento permanece. Calvinistas têm de lidar com passagens como essa, dado que elas explicitamente revelam a intenção salvífica de Deus para a humanidade, ainda que a salvação de todas as pessoas não será realizada.

Piper admite que 1Timóteo 2:4 pode se referir a todas as espécies de pessoas (apesar da ausência da palavra “espécies” ou “tipos” como encontrada em outros lugares da Escritura, p.ex. At 10:12,13:10; 1 Co 12:4-6,10; Ef 6:18; 1Tm 5:10,6:10; Tt 3:3), e que 2Pedro 3:9 pode se referir aos incondicionalmente eleitos. Ele acrescenta:

Não obstante o caso por esta limitação da vontade salvífica jamais foi convincente aos arminianos e igualmente não se tornará convincente, especialmente desde que Ezequiel 18:23,32 e 33:11 são ainda menos tolerantes a restrições. Portanto como um sincero crente em eleição incondicional particular eu regozijo em afirmar que Deus não se delicia no perecer dos impenitentes, e que ele tem compaixão de todas as pessoas. Minha meta é mostrar que isto não é duplipensar.

Seu intento neste capítulo não é defender a teoria da eleição incondicional. Tal teoria já foi defendida em outro lugar. Seu intento é provar que os assim chamados “pilares arminianos” não levantam nenhuma arma contra a teoria da eleição incondicional. Ele comenta: “De fato eu penso que arminianos erraram em tentar tomar os pilares do amor universal e transformá-los em armas contra a graça eletiva”. (Calvinistas poderiam igualmente serem desafiados por focar em certas passagens que parecem restritivas e torná-las armas contra a graça e amor universais de Deus. Seu comentário é facilmente rebatido contra ele.)

Os arminianos clássicos veem o amor de Deus pelos pecadores e relacionam isso à Sua intenção (ou pelo menos desejo) pela salvação de todas as pessoas é na realidade apoiada pelo mais famoso verso da Escritura: “Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna.”{Jo 3:16 AR}. Deste singelo verso, arminianos clássicos têm uma delegação bíblica de forjar armas contra a teoria da graça eletiva incondicional, desde que foi o amor de Deus por todos os pecadores perdidos que O motivou a enviar Seu filho, tal que todo aquele que cresse seria salvo.

Piper insiste que afirmar que “a vontade de Deus em salvar todos, enquanto também afirmando a eleição incondicional de alguns, implica que existe pelo menos ‘duas vontades’ em Deus, ou duas maneiras de querer”. Ao ler as palavras do apóstolo Paulo,  “E não vos conformeis a este mundo, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável, e perfeita vontade de Deus” {Rm 12:2 AR}, eu me pergunto quando alguém construiria uma teoria de três vontades em Deus – que Deus tenha a “boa” vontade, a “agradável” vontade e a “perfeita” vontade. Claramente, a singular vontade de Deus é boa, agradável e perfeita.

Piper nota também que alguns teólogos têm falado de “vontade soberana e vontade moral, vontade eficaz e vontade permissiva, vontade secreta e vontade revelada, vontade de decreto e vontade de comendo, vontade decretativa e vontade preceptiva”. Ele quer que seus leitores saibam que uma teoria de duas vontades em Deus não é um conceito novo. (Arminius fala das “várias distinções” da singular vontade de Deus, cf. Works, 2:343-47.)

Aqui de saída encontramos um problema fundacional com a teoria particular de Piper sobre as duas vontades de Deus. Esta teoria é necessitada por outra teoria: eleição incondicional. Ele construiu um ‘castelo teórico’ de cartas. Se uma for provada falsa, então todo o castelo rui. Como matéria de fato, a única maneira da teoria particular de Piper sobre as duas vontades de Deus ser válida é se a teoria da eleição incondicional puder ser provada verdadeira. Ademais, Piper assume que Deus de fato tenha duas vontades reais (i.e. elas não são dois distintivos de Sua vontade singular): uma vontade de todos serem salvos e outra vontade de apenas os incondicionalmente eleito serão salvos. Mas ele traduz a palavra grega thelo como “vontade” em vez de “desejo”, construindo então outra “vontade”. Enquanto eu aprecio o que ele está tentando realizar, a questão é, A Escritura apoia esta teoria?

Arminianos clássicos claramente veem a eleição ensinada na Escritura. Aqueles que estão em Cristo são os eleitos. Mas em nenhum lugar da Escritura a eleição é ensinada como sendo incondicional por natureza. Esta verdade é a pedra de tropeço dos calvinistas. Neste ponto no capítulo de Piper, o arminiano o acha bastante difícil de seguir, desde que tudo mais que está escrito tem como sua fundação a teoria não provada da eleição incondicional.

Piper nota que arminianos desde muito têm resistido à teoria calvinista que Deus tenha uma vontade secreta e uma vontade revelada. Ele escreve:

Estas críticas não são novas. Johnatan Edwards escreveu há 250 anos, “Os arminianos ridicularizam a distinção entre as vontades secreta e revelada de Deus, ou, expressando mais propriamente, a distinção entre o decreto e a lei de Deus; porque dizemos que ele pode decretar uma coisa, e comandar outra. E assim, argumentam eles, adotamos uma contrariedade em Deus, como se uma vontade contradissesse outra.

Note o dilema calvinista: “dizemos que ele pode decretar uma coisa, e comandar outra”. E o calvinista reclama porque nós o desafiamos por adotar uma contrariedade em Deus? O calvinista está certo: por eles sugerirem que Deus comanda que a pessoa A não peque de uma certa maneira, mas que Deus incondicionalmente decretou que a pessoa A pecará dessa maneira, é adotar uma visão de contrariedade em Deus. As tentativa de provar o contrário têm sido embaraçosas para o calvinista. Não obstante, Piper escreve: “Mas apesar de tais críticas a distinção permanece, não por causa de uma dedução lógica ou teológica, mas porque é inescapável das Escrituras”. Piper crê que o estudioso I. Howard Marshall concorda com sua teoria de duas vontades, pelo menos em princípio. Porém, Marshall, em sua citação por Piper, não admite que realmente existem duas vontades em Deus, mas apenas que o que Deus “deseja” nem sempre é o que Ele “quer”. Piper cita Marshall:

Para evitar todos os mal-entendidos deve ser deixado claro desde o princípio que o fato de que Deus deseja ou quer que que todas as pessoas sejam salvas não implica necessariamente que todas responderão ao Evangelho e ser salvas. Devemos certamente distinguir entre o que Deus gostaria de ver acontecer e o que ele na realidade quer que aconteça, e ambas estas coisas podem ser faladas como a vontade de Deus [singular, não plural, como em duas vontades]. A questão em disputa não é se todos serão salvos mas se Deus fez provisão em Cristo para a salvação de todos, desde que creiam, e sem limitar a abrangência potencial da morte de Cristo meramente àqueles que Deus sabia que creriam.

Marshall não está sugerindo que Deus “quer” por necessidade a salvação de todas as pessoas, mas somente que Deus “quer” por necessidade a salvação daqueles que confiam em Cristo Jesus. Deus “quer” ou “deseja” a salvação de todas as pessoas, mas este “desejo” não é Sua “vontade” necessitariana, pela qual Ele determina salvar todas as pessoas, a qual Piper está aludindo. Apenas aqueles que creem em Cristo Deus por necessidade salvará.

Piper então ilustra a teoria das duas vontades em Deus “levando atenção à maneira que a Escritura retrata Deus querendo algo em um sentido que ele desaprova em outro sentido”. Ele começa sua ilustração com os eventos relacionados à morte de Cristo. Arminianos concordam com calvinistas que foi o “determinado conselho e presciência” {At 2:23,4:28 AR} de Deus que Jesus morreu pelo pecado do mundo (Is 53:4-6, Jo 1:29): “Todavia foi da vontade do Senhor esmagá-lo” {Is 53:10 AR}. A crucifixão foi o plano predeterminado de Deus, não há contenção aqui. Arminiano, Adam Clarke comenta:

Pelo determinado conselho… aquele conselho de Deus que definiu o tempo, lugar, e circunstância, de acordo [prognosis] com sua presciência, que sempre soube qual o momento e lugar mais propícios para a manifestação e crucifixão de seu Filho; tal que nhão há nada causal nestas coisas, Deus tendo determinado a salvação de um mundo perdido deveria ser levada a cabo dessa maneira; e nem judeus nem romanos tinham qualquer poder aqui, mas o que lhes fora dado do alto.

Piper adicionalmente ilustra sua teoria com a guerra contra o Cordeiro, citando Revelação 17:17: “Porque Deus lhes pôs nos corações o executarem o intento dele, chegarem a um acordo, e entregarem à besta o seu reino, até que se cumpram as palavras de Deus.”, o que os arminianos também ensinam. Ele comenta:

Travar uma guerra contra o Cordeiro é pecado e pecado é contrário à vontade de Deus.. Mesmo assim o anjo diz [literalmente], “Deus pôs em seus corações [dos dez reis] executarem sua vontade, e realizar uma vontade, e entregar seu reino à besta, até se cumprirem as palavras de Deus” (verso 17). Portanto Deus desejou (num sentido) influenciar os corações dos dez reis tal que eles fariam o que é contra sia vontade (em outro sentido).

Apesar que isso seja verdadeiro em um sentido, mesmo assim não necessita de uma teoria de duas vontades em Deus. Quando falamos da “vontade” de Deus que uma pessoa não peque, estamos insistindo que Deus estabeleceu uma regra na terra. Deus nos comanda não cometer certos atos, porque eles são ofensivos e pecaminosos em Sua visão. Mas Deus nos comandar não pecar não é considerada uma “vontade”, estritamente falando. Ou pelo menos não é necessário inferir tal coisa. Quando arminianos insistem que Deus não “quer” que ninguém cometa um pecado, que é contra a natureza e caráter de Deus, queremos dizer que Deus mão predeterminou por fiat divino (e portanto por um sentido causal e necessário) que uma pessoa peque.

Mesmo Agostinho admite, “Portanto, ou a vontade é a primeira causa do pecado, ou nenhum pecado é a primeira causa do pecado e não há nada ao qual o pecado possa ser atribuído exceto o pecado”. Mas se Piper e muitos calvinistas estão corretos, então a primeira causa do pecado é o decreto de Deus, pelo qual uma pessoa necessariamente peca. Como matéria de fato, Agostinho argumenta contra “aqueles que negam que a fonte do mal tem sua origem na livre escolha da vontade e que contendem que, se for assim, Deus, o Criador de todas as naturezas, deve ser censurado”. Ainda que Agostinho nem sempre manteve essa visão consistentemente em sua teologia, ele pelo menos reconhece que Deus (ou o decreto divino) não pode propriamente ser chamado de a primeira causa do pecado. Novamente, Agostinho escreve: “‘Más obras são punidas pela justiça de Deus’ e acrescento: ‘porque elas não podem ser punidas justamente se não forem feitas voluntariamente'”.

Deus “pôr no coração” daqueles homens malignos em sua guerra contra o Cordeiro de Deus é uma forma de punição. Esses homens rebeldes já rejeitaram dantes a graça de Deus que poderia levar-lhes ao arrependimento (Rm 2:4) e pisaram o sangue de Cristo (Hb 10:29). Novamente Adam Clarke comenta:

Não pense alguém que estes dez reinos latinos, porque apóiam uma adoração idólatra, foram levantados meramente pelo poder do homem ou por aleatoriedades da guerra. Nenhum reino ou estado pode existir sem a vontade de Deus; portanto deixe os habitantes do mundo tremerem quando verem um monarca maligno ascender ao poder, e deixe-os cogitar que foi levantado por Deus para executar sua vingança contra as idolatrias e devassidões dos tempos.

Que Deus decretou ou desejou continuar enganando os enganados foi anunciado como um alerta a todos pelo apóstolo Paulo: “a esse iníquo cuja vinda é segundo a eficácia de Satanás com todo o poder e sinais e prodígios de mentira, e com todo o engano da injustiça para os que perecem, porque não receberam o amor da verdade para serem salvos. E por isso Deus lhes envia a operação do erro, para que creiam na mentira; para que sejam julgados todos os que não creram na verdade, antes tiveram prazer na injustiça.” {2Ts 2:9-12 AR} Porém, a concepção que Deus da eternidade decretara que esses homens específicos seriam recipientes de tal engano (novamente, por um mero decreto) deve ser inferida porque tal coisa não pode ser extraída da Escritura. Piper argumenta: “As profecias de Deus não são meras predições que Deus sabe que ocorrerá, mas de fato são intenções divinas que ele assegura que ocorrerão”. Mas o calvinista pergunta por que Deus intendeu as coisas assim? No calvinismo, não há necessidade de perguntar por que, desde que Deus decretou todas as coisas sem levar em consideração nada além de Sua própria vontade. Então Deus “quis” para aqueles certos homens serem reprovados e rejeitar Cristo, e Ele “quis” puni-los por serem reprovados.

Para Piper, Deus realiza todas as coisas para fazer a glória de Cristo brilhar mais forte. Calvinismo, em minha opinião, desonra Deus mediante Jesus Cristo sugerindo que Ele necessita decretar estritamente ou preordenar o pecado “para fazer a glória de Cristo brilhar mais forte”. Tal concepção falta ao eschaton, e mesmo assim Cristo Jesus será glorificado (Rv 21:22-23). Dr. Bruce A. Little, professor de filosofia no Southeastern Baptist Theological Seminary, comentando do estupro e assassinato de uma jovem chamada Jessica, pergunta: “Não poderia a glória de Cristo brilhar mais com bem menos sofrimento para Jessica e seus amigos e familiares?” [1]

Deus precisa de facto da preordenação (meramente via decreto) do pecado humano a fim de a glória de Cristo brilhar mais forte? Dr. Little pergunta: “Ainda, se uma vida reta glorifica Deus (1Co 6:20), comp pode o mal [ou seu decreto] também glorificar Deus? Como contrariedades, uma comandada e outra proibida, ambas glorificam Deus?”[2] A resposta é que obviamente ambas não glorificam Deus da mesma forma. Bondade, retidão e justiça glorificam Deus mediante Jesus Cristo (Mq 6:8, Rm 2:7,10). Mal, pecado, e injustiça desonram Deus mediante Jesus Cristo (Jo 8:49, Rm 2:8-9,23). Portanto, Deus não pode trazer o pecado meramente por decreto “a fim de fazer a glória de Jesus brilhar mais forte”. Nem Deus estritamente decretou que um certo homem seja maligno e outro reto meramente por um decreto estrito. Os homens malignos de quem João escreve em Rv 17:17 não eram malignos e enganados meramente por decreto. Eles experimentaram a punição de Deus via operação do engano porque rejeitaram Sua graça.

Piper continua no mesmo caminho acerca do endurecimento de Deus, bem como Seus direitos em restringir o mal e Sua vontade de não fazê-lo, ambos geralmente aceitos por arminianos. O que foi argumentado acima por mim aplica-se também a este ponto. Concordamos que Deus tenha todo poder no universo para restringir todo o mal. Não há contenção aqui. Deus, porém, não endurece o coração de uma pessoa por um mero decreto, enquanto amolece o coração de outra pessoa por um mero decreto, apesar de que Piper e todos os calvinistas argumentarão de outra forma. Leia cuidadosamente: Não estamos sugerindo que Deus não endureça o coração de ninguém, ou que Ele não decrete em algum sentido endurecer o coração de alguém.

Piper tentou demonstrar “Deus querendo um conjunto de circunstâncias em um sentido que ele desaprova em outro sentido”. Mas por “querer”, Piper quer dizer “querer por necessidade”. Aqueles então “dispostos”, se você quiser, por Deus, não têm escolha além de fazer ou dizer ou pensar o que Deus quis por necessidade, mesmo quando o que Ele quer por necessidade é algo que Ele desaprova. Mesmo assim, ele ainda não mostrara que Deus deseja por necessidade, ainda mais quando o que Ele deseja por necessidade é algo que Ele desaprova. Mais ainda, ele ainda não mostrara como isto afirma a concepção que Deus “quis” (ou genuinamente desejou) a salvação de todas as pessoas, apesar de que Ele incondicionalmente elegera salvar apenas alguns.

Arminianos concordam que Deus “queira” coisas que Ele não aprova. Porém, negamos que Deus o faça por necessidade (e.g. Dt 28:1-2,15; 30:15-19; Is 65:2-7,11-12; Jr 2:20; 3:21-22; 6:16; 7:28-31; 9:7-9; 13:11,24-25). Deus permite seres humanos agir contrariamente à Seus santos e corretos padrões. Mas não estou sugerindo que Deus “queira”  que eles não pequem, e então também “queira” que eles pequem por necessidade. Nós rejeitamos a filosofia da Confissão de Westminster, que estabelece que “Deus de toda a eternidade, fez … livremente, e imutavelmente ordenou tudo aquilo que vier a passar; … ainda assim Ele não decretou nada porque previu como futuro, ou como o que viria a ocorrer em tais condições” (III:I, II).

Esta definitiva confissão calvinista demonstra que Deus não pré-conhece (ou prevê) por Sua própria essência contingẽncias futuras por Seu exaustivo conhecimento de todos os eventos, conhecendo de antemão cada indivíduo que viesse a existir, nas circunstâncias que ele viria a existir (At 17:26-27), e no tempo e na história opera “todas as coisas de acordo com o conselho de Sua vontade” {Ef 1:11 AR}. O que venha a ocorrer, de acordo com o calvinismo, é trazido pelo decreto de Deus. Todo pecado (estupro, incesto, adultério, fornicação, homossexualismo, bestialismo, assassinato, assalto, blasfêmia contra Deus) é tudo trazido pela determinística vontade de Deus. Portanto quando encontramos pecado em qualquer forma, aquela pessoa pode corretamente entender, de acordo com o calvinismo, e de acordo com a teoria de John Piper sobre as duas vontades de Deus, que Deus trouxe o pecado, e o fez porque era Seu decreto desde a eternidade. Também, Deus trouxe o pecado a fim de fazer a glória de Cristo brilhar mais forte. (LINK)

Piper, assim como fazem todos os bons cristãos, luta com a noção de Deus deliciando-Se e não Se deliciando na morte do ímpio (cf. Dt 28:63; 2Sm 2:25; Ez 18:23). De uma posição arminiana clássica, Deus jamais se delicia na morte do ímpio por si só (Ez 18:23, 33:11) por causa da destruição eterna do ímpio no inferno. Em outro sentido, a justiça e o santo caráter de Deus são satisfeitos na morte do ímpio, o que Lhe traz satisfação. O pecado dever ser julgado ou expiado: “Quem crê no Filho tem a vida eterna; o que, porém, desobedece ao Filho não verá a vida, mas sobre ele permanece a ira de Deus.” {Jo 3:36 AR}

Pelo resto do capítulo, Piper aborda quão extensiva é a “vontade soberana” de Deus e luta para que ela “faça sentido”. Ele explica: “Detrás deste complexo relacionamento das duas vontades em Deus está a premissa bíblica fundamental que Deus é de fato soberano de uma forma que o faz o governante de todas as ações”. Deus como “governante de todas as ações” é aonde o elemento iluminado do calvinismo tornou-se maculado para mim quando era calvinista há mais de dez anos. Piper reclama contra a alegação de  R.T. Forster e V.P. Marston que “Nada na Escritura sugere que existe alguma espécie de vontade ou plano divino que seja inviolável”.

A palavra “inviolável” indica algo que não pode ser transgredido, seguro de violação ou assalto, ou incapaz de ser violado. Piper acrescenta: “Esta é uma notável alegação. Sem pretender ser exaustivo, será justo citar algumas escrituras brevemente que de fato “sugerem que existe alguma espécie de vontade ou plano divino que seja inviolável”.

Piper corretamente insiste que existem “passagens que atribuem a Deus o controle final sobre todas as calamidades e desastres forjados pela natureza ou pelo homem”. Nem mesmo Forster ou Marston estão alegando que Deus não “tenha a última palavra” sobre todas as coisas. O que eles corretamente rejeitaram foi a teoria de Piper que Deus decreta estritamente todas as coisas, a mais devastadora delas sendo o pecado.

Não nos é dado contexto suficiente a partir de Piper, mas se Forster e Marston fizeram seu comentário nas bases que nem tudo que ocorre ocorre por decreto e mando divino, então eles estão biblicamente corretos. Temos afirmações explícitas espalhadas por toda a Escritura em que Deus admite que os israelitas cometeram um ato pecaminoso que não foi comandado por Ele, nem entrou pela Sua mente para que eles o fizessem (cf. Jr 19:5). O fato que os israelitas desobedeceram Deus por tantos anos, quando Ele declarou que era Sua vontade que eles O obedecessem, esmaga a teoria calvinista do determinismo. Desde que Deus não decretou estritamente tudo o que venha a ocorrer meramente por tal decreto, então existem coisas que ocorrem que Deus não trouxe estritamente (pelo menos não por decreto). (Concorrẽncia divina não é o assunto aqui, então então não será discutida.)

Não obstante, Piper toma passagens da Escritura que demonstram a intervenção de Deus nas vidas e corações dos seres humanos (Jó 42:2; Sl 115:3; Pv 16:1,9;16:33;19:21; Is 43:13;45:7;46:9-10; Jr 10:23; Lm 3:37-38; Dn 4:35; Am 3:6; Mt 10:29;At 18:21;21:14; 1Co 4:19;16:7; Fp 2:12-13; Hb 6:3; 1Pe 2:15; 3:17; 4:2,19; Tg 4:15), escrituras que nenhum arminiano clássico tentaria “explicar”, e conclui que Ele sempre e a todo momento controla os pensamentos, palavras, vontade e ações (escolhas) de cada indivíduo, e que Ele deve fazer assim a fim de ser “soberano”.

Como a maior parte do texto-prova de Piper, porém, muitos destes versos devem ser interpretados à luz de sua teoria de determinismo exaustivo. Um exemplo inclui sua citação de Filipenses 2:12-13: “[12] De sorte que, meus amados, do modo como sempre obedecestes, não como na minha presença somente, mas muito mais agora na minha ausência, efetuai a vossa salvação com temor e tremor; [13] porque Deus é o que opera em vós tanto o querer como o efetuar, segundo a sua boa vontade“. Isto, no calvinismo, precisa ser decifrado para significar que Deus está irresistivelmente trabalhando no crente, dando ao crente a vontade e a obra para Seu bom propósito. Mas a Escritura permite-nos inferir que isto é feito irresistivelmente no crente? Clarke, novamente, comenta: “Todo santo propósito, resolução piedosa, boa obra, deve vir dele”; e até este ponto o calvinista concorda. Ele continua: “mesmo assim deveis trabalhar juntamente com ele, tal que não recebais sua graça em vão; porque ele efetuou em vós, portanto trabalhem com ele, e operem sia própria salvação”. Esta afirmação, porém, promove um sinergismo que calvinistas tipicamente evitam. Mesmo assim é um sinergismo que a própria Escritura promove. Por que falar a crentes para operarem sua salvação se eles não tem que trabalhar sua salvação? Apesar da capacidade de fazê-lo exige a capacidade de Deus, a responsabilidade continua no crente de fazer algo, isto é, trabalhar a salvação com temor e tremor. Se Deus está irresistivelmente trabalhando no crente, então o que há a temer e tremer? Piper conclui:

Em vista de todos esses textos sou incapaz de compreender o que Forster e Marston querem dizer ao dizer, “”Nada na Escritura sugere que existe alguma espécie de vontade ou plano divino que seja inviolável”… Nem posso entender como Fritz Guy pode dizer que a “vontade de Deus” é sempre uma desejosa e intencionada mas nunca soberana e eficaz vontade… Em vez disso as Escrituras nos levam de novo e de novo a afirmar que a vontade de Deus é algumas vezes é dita como uma expressão de seus padrões morais para o comportamento humano e algumas vezes como uma expressão de seu soberano controle mesmo sobre atos contrários a este padrão.

Piper quer dizer que a primeira vontade é a “expressão de seus padrões morais para o comportamento humano”, e Sua segunda vontade é uma “expressão de seu soberano controle sobre os atos que são contrários àquele padrão”. Ele escreve:

Isto significa que a distinção entre termos como “vontade de decreto” e “vontade de comando” ou “vontade soberana” e “vontade moral” não é uma distinção artificial demandada pela teologia calvinista. Estes termos são um esforço de descrever o todo da revelação bíblica. Elas são uma tentativa de dizer Sim a toda a Bíblia e não silenciar nada dela. Elas são uma maneira de afirmar Sim à vontade universal salvífica de 1Timóteo 2:4 e Sim à eleição incondicional de Romanos 9:6-23.

Estas expressões sem dúvida são uma “tentativa”, como Piper afirma, mas penso que são uma tentativa falha. É uma falha porque uma assim-chamada “vontade” é flácida e inútil, enquanto a outra “vontade” determina tudo. Uma “vontade” realmente não faz nada, enquanto a outra “vontade” faz tudo. O que Piper quer acomodar (e eu o aprecio por isso) é uma maneira de insistir que Deus genuinamente ama cada pecador perdido mesmo que Ele tenha incondicionalmente escolhido salvar apenas alguns. Somos levados a pensar, porém, que o calvinista está ciente que algo está faltando ou errado em adotar estas duas crenças simultaneamente. Mesmo assim, em último caso, somos deixados com apenas uma “vontade” toda-determinante: a “vontade” que verdadeiramente faz ou realiza algo, ou melhor, tudo.

Vejamos uma analogia (apesar de tão fracas as analogias podem ser em certos momentos). Sejamos práticos acerca da teoria de Piper das duas vontades em Deus, mas permitamos o mesmo princípio para seres humanos. Para o bem da argumentação, vamos sugerir que eu tenha estabelecido duas vontades pelas quais eu vivo e movo e tenho meu ser: 1 – amar todo ser humano incondicionalmente (o que é impossível, eu sei), e eu sou conhecido pelo meu amor incondicional; e 2 – eu incondicionalmente escolhi ajudar apenas algumas pessoas da minha comunidade, e ninguém pode de fato saber  quem são essas pessoas porque esse é meu segredo. A primeira premissa pela qual eu vivo é a minha vontade revelada. Todos podem conhecer pelo menos isto sobre mim porque eu revelei isto a todos, e existem muitos que de fato falam sobre mim e meu atributo. Sou conhecido pelo meu amor incondicional. A segunda premissa pela qual eu vivo é minha vontade secreta ou oculta. Ninguém realmente a conhece, e alguns me acusam de ser arbitrário.

Eu vejo muitas pessoas carentes em minha comunidade o tempo todo. Sempre estou disposto a parar e ajudar aqueles que eu incondicionalmente escolhi ajudar. Não estou disposto a parar e ajudar aqueles necessitados que eu não escolhi incondicionalmente ajudar. Eu já escolhi incondicionalmente aqueles que auxiliarei, ainda que ninguém possa saber por que ou quem são os escolhidos. Recentemente alguém começou a contar aos outros que meu amor incondicional pelas pessoas estava sendo questionado porque eu passei por algumas pessoas carentes em minha comunidade mas não parei para ajudá-las. (Não apenas estas pessoas em particular não merecem minha ajuda, elas também me odeiam.) Ademais, elas não são as que eu incondicionalmente escolhi ajudar. Afinal, não sou obrigado a ajudar ninguém.

Mas um homem, falando em nome do restante, queixou-se na minha cara. Ele disse, “Você alega incondicionalmente amar todos, e ainda assim incondicionalmente escolheu ajudar apenas alguns. Por quê? E como você alega amar a todos incondicionalmente enquanto não ajuda os que estão em necessidade?”. Parece que simplesmente dizer aos outros que eles não merecem meu amor incondicional e que não sou obrigado a ajudá-los não resolve nada de fato, nem seria resposta às questões deles. Eu seria forçado a me perguntar, Em que sentido meu amor incondicional por todas as pessoas é um fator motivador para aqueles que eu não escolhi incondicionalmente salvar? Certamente não posso expressar isso atropelando estes cretenses indignos com meu carro.

Piper, tentando dar sentido à sua teoria de duas vontades em Deus, começa corretamente notando que Deus não pode pecar (Is 6:3, Tg 1:13). Ele afirma a teodiceia do bem maior de Jonathan Edwards enquanto confessando que Deus traz um mal para um bom propósito. Arminianos clássicos dificilmente relutarão em tal admissão (ainda que algums podem, e nem todos afirmam uma teodiceia do bem maior). Piper acrescenta: “Todos devem concordar que Deus às vezes quer não impedir a violação de seus próprios comandos, porque ele de fato não os impede”. Porém, se os comandos de Deus são Sua “vontade”, ou uma das duas “vontades”, como Piper estabeleceu acima, então pelo menos esta “vontade” não é inviolável (esta “vontade” pode ser frustrada). Rejeitando a noção antibíblica de que qualquer coisa no universo possa ser mais poderoso que Deus, portanto anulando o que Deus quer, sua resposta a 1Tm 2:4 é portanto:

A outra possibilidade é que Deus deseja não salvar todos, mesmo que eles esteja querendo salvar todos, porque há algo que ele queira mais, que seria perdido se ele exercesse seu poder soberano em salvar todos. Esta é a solução que eu como calvinista afirmo junto com os arminianos. EM outras palavras ambos calvinistas e arminianos afirmam duas vontades em Deus quando ponderamos profundamente em 1Tm 2:4. Ambos podemos dizer que Deus deseja que todos sejam salvos. Mas quando perguntados por que nem todos são salvos ambos calvinista e arminiano respondem que Deus está comprometido com algo ainda mais valioso.

Mais uma vez, é necessário usar uma teoria de duas vontades, mesmo que o que Piper esteja dizendo seja verdade? É uma noção menos que bíblica insistir que Deus tenha uma vontade com várias distinções: Deus “quer” salvar todas as pessoas, e “quer” salvar “os que creem” (1Co 1:21); Deus é capaz de salvar todos que venham a Deus mediante o Senhor Jesus Cristo (Hb 7:25)? Esta verdade não precisa de uma teoria de duas vontades, uma delas improdutiva e ineficaz.

Piper sugere que tanto calvinistas como arminianos afirmam duas vontades em Deus, mesmo assim, “A resposta dada pelos arminianos é que a auto-determinação humana e o possível relacionamento de amor resultante com Deus são mais valiosos que salvar todas as pessoas por graça soberana eficaz. Piper é conhecido por desafiar o arminianismo como inerentemente “auto-determinação humana”. Sua calúnia descuidada ignora tudo o que o próprio Arminius ensinou sobre a vontade e arminianos clássicos creem.

Se a benignidade de Deus deve levar alguém ao arrependimento (Rm 2:4) e Sua graça proativa deve preceder e habilitar nossa fé (Ef 2:8, e alguém deve ser convencido pelo Santo Espírito (Jo 16:8-11) pelo “poder” do Evangelho (Rm 1:16-17) a fim de receber Jesus Cristo e lhe ser concedido poder ou direito para tornar-se um filho de Deus (Jo 1:12), então como pode qualquer calvinista insistir que o arminiano afirma “auto-determinação humana”? Se confessarmos auto-determinação humana então não seríamos arminianos clássicos, seríamos semipelagianos. A falha dos calvinistas em representar acuradamente nossa teologia é uma vergonha de sua parte. A falha dos arminianos em representar acuradamente a teologia calvinista é uma vergonha da nossa parte. Ambos os lados precisam tomar grande cuidado em representar fielmente a teologia que estõ criticando.

O que impede Deus de “salvar todas as pessoas” (1Tm 2:4) não é Sua vontade escondida ou secreta de incondicionalmente salvar apenas alguns entre a humanidade, que é exatamente o que Piper e todos os calvinistas ensinam. Esta teoria não é nem mesmo ensinada na Escritura; ela é inferida por uma hermenêutica calvinista. Piper insiste: “A resposta dada por calvinistas é que o maior valor é manifesto na completa abrangência da glória de Deus em ira e misericórdia (Rm 9:22-23) e na humilhação do homem tal que ele desfrute de dar todo o crédito a Deus por sua salvação (1Co 1:29)”.

Não se deixe enganar por Piper e outros calvinistas: arminianos dão “todo o crédito a Deus” pela salvação. Não permita que o calvinista te engane pensando que arminianismo naturalmente leva alguém a tomar todo o crédito por sua salvação. Deus é o único que pode salvar uma alma. Ninguém poe causar sua própria regeneração e salvação. Ao mesmo tempo, a Escritura indica que a salvação é condicionada à fé em Jesus Cristo – salvação não é incondicional: você deve realmente crer ou confiar em Cristo Jesus a fim de ser salvo (p.ex. At 4:12;15:9;20:21;24:24;26:18; Rm 1:5,17;3:22,25,26,30;4:5; 5:1;10:6; Gl 2:16; 3:8).

Piper prossegue: “É definitivamente crucial observar, porque o que implica é que 1Timóteo 2:4 não estabelece o assunto momentâneo dos maiores compromissos de Deus que restringem-no de salvar todos”. Ele afirma que este verso diz pouco acerca do livre arbítrio ou do alegado determinismo exaustivo divino ou da teoria de eleição incondicional: “A suposição é que se Deus deseja em um sentido que todos sejam salvos, então ele não pode em outro sentido desejar que apenas alguns sejam salvos. Esta suposição não está no texto, não é demandada pela lógica, nem é ensinada no restante da Escritura”. Mas na teologia de Piper, a alegada “vontade” divina que todos sejam salvos é meramente uma expressão – esta “vontade” (expressão) é somente uma palavra num papel.

Novamente pela palavra “quer” Piper está inferindo determinismo por um decreto incondicional. Mas a palavra grega para “quer”, ou melhor “deseja”, é thelo e indica “querer, ter em mente, intencionar; resolver ou determinar, propor, almejar, desejar, amar, gostar, fazer algo, gostar de fazer, ter prazer, deliciar-se, aprazer-se”. A maioria das traduções inglesas dá o senso de “desejar” (NASB, NKJV, NIV, ESV, NRSV, HCSB, ISV, NLT, GWT, CEV, NCV, Amplified, Darby) em vez de “querer” (KJV, ASV, Douay-Rheims). Deus querendo ou desejando que todos sejam salvos e cheguem a conhecer a verdade está mundos à parte de de Sua “vontade” determinística idêntica à teórica eleição incondicional. Ele acrescenta: “Ambos arminianos e calvinistas devem procurar em outros lugares para responder se o dom da auto-determinação humana ou a glória da soberania divina é a realidade que restringe o desejo divino de salvar todas as pessoas”.

Você detectou como Piper construiu as duas diferentes visões? Uma foi baseada na “auto-determinação humana”, e o outro na “glória da soberania divina”. Talvez Piper apreciaria outra abordagem, das duas diferentes visões. Uma é derivada do totalitarismo divino e o ídolo do determinismo exaustivo, enquanto a outra é fundada na glória e graça de Deus mediante a fé em Jesus Cristo para todos os que crerão. Nem pensar em quantas pessoas jovens estão crescentemente se juntando ao grupo dos Reformados Jovens e Incansáveis, aonde homens como Piper, Sproul Sr. e John MacArthur (para não dizer nada de James White, Mark Driscoll e Michael Horton) estão caricaturando (e mentindo sobre) a teologia clássica arminiana.

Finalmente Piper chega ao âmago da sua discussão: “Se, como os calvinistas afirmam, Deus considera sábio e bom eleger incondicionalmente alguns para salvação e não outros, podemos legitimamente perguntar se a oferta de salvação a todos é genuína. Ela é feita de coração? Ela vem de uma real compaixão? É a vontade que ninguém pereça uma disposição bona fide de amor?” Ele passa a ilustrar seu ponto o seu ponto usando um exemplo real de um evento na vida de George Washington, como contado por Robert L. Dabney.

Major André havia “prejudicado a segurança da jovem nação mediante ‘precipitados e infelizes’ atos de traição. Washington profundamente lamentou assinar a sentença de morte para André porque o major era um homem respeitável, porém estava no poder e direito de Washington liberá-lo se assim desejasse. O veredicto de Washington foi “racionalmente contraposto por um complexo de julgamentos superiores… de sabedoria, dever, patriotismo, e indignação moral”. A piedade de Washington foi “real, mas restringida por elementos superiores de motivo”. Piper escreve: “O ponto correspondente no caso para eleição [incondicional] divina é que ‘a ausência de volição em Deus para salvar não necessariamente implica a ausência de compaixão'”. Os arminianos Jerry Walls e Joseph Dongell respondem:

Ele [Deus] é completamente glorificado quando seu santo amor é mais claramente manifestado, e é precisamente esse amor que procura nosso cumprimento e alegria. Dado que Piper de coração afirma isto, é complicado por que ele crê que Deus não é completamente glorificado a não ser que alguns sejam consignados à danação. Deus tem um um dever de danar algumas pessoas em algum sentido análogo ao dever de Washington em assinar a sentença de morte de André? Se sim, para quem deve ele tal dever? A autoridade de Washington não é sequer remotamente análoga à soberania de Deus, e Deus está em dívida com ninguém e nada acima de si mesmo. Como poderia ele estar preso ao dever de danar algumas pessoas? [3]

Walls e Dongell dão um golpe devastador na teoria e ilustração de Piper. Dado que a teologia de Piper coloca os decretos de Deus na eternidade passada, antes de qualquer um existir ou fazer qualquer mal, seria de pensar por que Deus na eternidade estaria obrigado a criar alguns seres humanos para o propósito de sua condenação tal que Ele possa ser glorificado. A noção é bizarra no mínimo e difamatória no máximo. Considere a afirmação de João Calvino:

Por predestinação queremos significar o eterno decreto de Deus pelo qual ele determinou em si mesmo tudo o que ele quis que ocorresse acerca de todo homem. Todos não são criados em termos iguais, mas alguns são preordenados para a vida eterma, outros para a danação eterna, e de acordo, como cada um foi criado para um ou outro desses fins, dizemos que ele foi predestinado para a vida ou a morte. [4]

Entenda o comentário errôneo supra-lapsariano de Calvino: cada pessoa “foi criada para um ou outro desses fins”, céu ou inferno. Evidentemente, Deus estava debaixo de Sua própria compulsão para criar seres humanos seja para o céu ou para o inferno, e isto para a Sua glória. Piper então tem a audácia de alegar “Em outras palavras, Deus tem uma real e profunda compaixão com pecadores por pecadores perecendo”. Em que sentido que seja Deus demonstrara que teve um “real e profunda compaixão por pecadores [não-eleitos] perecendo”? Com meras palavras apenas? Piper continua:

A expressão de pena e as súplicas de Deus são de coração. Existe uma inclinação genuína no coração de Deus para poupar aqueles que cometeram traição contra seu reino. Mas esta motivação é complexa, e nem todo real elemento nela se levanta ao nível de escolha eficaz. Em seu grande e misterioso coração existem tipos de anseios e desejos que são reais – eles nos dizem algo verdadeiro sobre seu caráter. Ainda assim nem todos esses anseios governam as ações de Deus.

Novamente, na teologia de Piper, a “expressão de pena” e compaixão de Deus é é benigna e nominal para os não-eleitos – essa expressão está em palavras e não em atos. Mas o amor incondicional de Deus pela humanidade jamais foi expresso, ao menos não na Escritura, em palavras somente mas também em atos. Porque Deus amou o mundo de tal maneira que Ele fez alguma coisa, não meramente disse alguma coisa, não meramente sentiu alguma coisa. Deus não somente disse que Ele amou o mundo dos pecadores perdidos, Ele enviou Seu único Filho para esse mundo (Jo 3:16) para arrancar o pecado do mundo (Jo 1:29) e reconciliar o mundo de volta para Si Mesmo (2Co 5:19) tal que quem confiasse em Cristo Jesus pudesse de fato ser salvo, não apenas na teoria mas na realidade. Pecadores perdidos precisam de genuína compaixão, não somente de uma condolência expressa que é ineficaz, como no calvinismo.

Piper conclui: “Minha contribuição foi simplesmente mostrar que a vontade de Deus para que todas as pessoas sejam salvas não está em desacordo com a soberania de Deus na eleição [incondicional]”. Tristemente, ele falhou miseravelmente em demonstrar como Deus em qualquer sentido real “quis” que todas as pessoas sejam salvas (um querer que não faz absolutamente nada), desde que Ele deterministicamente “desejou” incondicionalmente eleger para salvação apenas algumas pessoas; especialmente quando consideramos a postura teológica de Piper (e Calvino) sobre a doutrina da reprovação.

Se Deus necessitou criar algumas pessoas para o inferno, tal que Ele pudesse ser glorificado pelo Seu alegado atributo da ira, então Deus não pode ter desejado, de alguma maneira possível, a salvação daqueles que Ele decretou criar para o inferno. Se Deus necessita dos não-eleitos para experimentar Sua ira no inferno pela eternidade tal que Ele possa ser glorificado, então Ele não pode, se quisermos manter alguma aparência de consistência ou sanidade, também desejar a salvação deles, porque é sua danação que em última análise Lhe trará glória. A teoria das duas vontades de Deus é uma tentativa inepta de tentar duplipensar sem parecer que se está fazendo isso.

FootNotes

1 –  Bruce A. Little, “Evil and God’s Sovereignty,” in Whosoever Will: A Biblical-Theological Critique of Five-Point Calvinism, eds. David L. Allen and Steve W. Lemke (Nashville: B&H Academic, 2010), 290.

2 – Ibid.

3 – Jerry L. Walls e Joseph R. Dongell, Why I am not a Calvinist (Downers Grove: IVP Academic, 2004), 178.

4  – John Calvin, Institutes of the Christian Religion (Peabody: Hendrickson Publishers, Inc., 2008), 3:21:5.

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