Traduções Crédulas: Perseverança dos Santos (12 de 13) – João 10:27-29

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João 10:27-29

[27] Minhas ovelhas ouvem minha voz, e eu as conheço, e elas me seguem.
[28] E eu lhes dou a vida eterna, e para sempre não perecerão, e ninguém as arrancará de minha mão.
[29] Meu Pai, que as deu para mim, é maior que todos; e ninguém pode arrancá-las da mão de meu Pai.

A primeira coisa que precisa ser notada é que não há nada nesta passagem que sugere que a segurança sendo descrita por Cristo é incondicional. Esta é uma das maiores fraquezas da posição calvinista. Procuraríamos em vão por passagens da Escritura que explicitamente tornam a segurança da salvação incondicional. O melhor que se pode produzir são passagens que não estabelecem explicitamente uma condição, mas a ausência de condição explícita não necessita a ausência de condições (p.ex. Hb 13:5, Dt 31:6,8,16-18, 2Cr 15:2, Js 24:19,20). Isto é especialmente verdadeiro desde que existem numerosas passagens que de fato estabelecem condições e alertam da deserção da fé salvífica (como vimos nas partes de 2 a 11 desta série).

No caso de Jo 10:27 podemos até mesmo argumentar que uma condição é estabelecida: ” Minhas ovelhas ouvem minha voz, e eu as conheço, e elas me seguem”. Os verbos ouvir e seguir estão no presente ativo no grego, descrevendo ação contínua. As ovelhas são caracterizadas como ouvindo e seguindo Cristo. Elas são as ouvintes e seguidoras, e apenas aqueles que estão ouvindo e seguindo podem corretamente ser chamados ovelhas de Cristo e arrogam as promessas estabelecidas em Jo 10:28-29. Em outras palavras, as ovelhas são crentes que estão presentemente crendo. É a estes crentes somente que  as promessas são feitas. Certamente, aqueles que estão ouvindo e seguindo a Jesus Cristo estão seguros em Suas mãos e não podem ser arrancados delas. Eles também possuem a vida eterna que reside em Cristo desde que eles estão em união nEle pela fé (verso 28). Não há nada na passagem, porém, que sugere que as ovelhas jamais podem parar de “ouvir” ou “seguir” e nenhuma promessa é feita para os que acaso de fato cessem de agir assim. A passagem está apenas falando daqueles que estão presentemente ouvindo e seguindo. É uma poderosa promessa para crentes que enquanto eles creem estão seguros em Cristo. F. Leroy Forlines comenta sobre esta segurança em The Quest For Truth:

O ensino é simplesmente este: O relacionamento do crente com Deus é pessoal entre ele e Deus. Apesar de todos os poderes do universo estarem combinados contra o crente, eles não podem tirar o crente para longe de Deus. Alguns podem acrescentar, ‘Nem o próprio crente pode se arrancar do corpo de Cristo’. Sim, isto é verdade. Mas, também é verdade que ele não pode se colocar no corpo de Cristo. Porém, mediante sua fé em Cristo, o Santo Espírito colocou o crente no corpo de Cristo (1Co 12:13). Se o crente renuncia sua fé, Deus o arrancará (Jo 15:2,6). Não há contradição entre as afirmações ‘Homem nenhum pode nos arrancar de Cristo’ e ‘Deus pai arranca de Cristo as pessoas que se viram contra Cristo em descrença’. (pg 275)

A passagem não estabelece que fé não pode ser renunciada e nem estabelece que qualquer promessa semelhante de segurança é dada a descrentes. A promessa de segurança em Cristo descrita em Jo 10:27-29 é para crentes que continuam a crer e para eles somente. A questão então se torna, “Podem crentes deixar de crer?” A resposta a esta questão não pode ser resolvida em Jo 10:27-29 e por esta razão falha como texto-prova da perseverança inevitável.

Considerações Textuais Especiais para João 10:27-29

O calvinista pode objetar que o verso 25 não está em harmonia com a interpretação acima devido ao fato que Jesus fala aos judeus que eles não criam porque não eram de Suas ovelhas. Pode ser argumentado que o verso 25 se refere a uma eleição predeterminada e incondicional: as ovelhas são aqueles eleitos por Deus antes da criação e então dado fé a eles para crerem em Cristo. O problema com essa sugestão é que não há nada no texto que indique que Jesus esteja descrevendo uma eleição pré-temporal de certos indivíduos para salvação. Tal decreto eterno deve ser primeiro pressuposto para daí ser lido no texto.

Uma interpretação mais plausível é entender as palavras de Jesus em Jo 10:27-29 no contexto da situação histórica única tomando lugar no tempo de Seu ministério acerca da transição da antiga para a nova dispensação. A passagem tem uma aplicação secundária a crentes de todas as eras (como descrita acima) mas a aplicação primária concerne somente os judeus vivos durante o ministério de Cristo e estavam especialmente sendo abordados neste e outros capítulos semelhantes em João (Jo 5:24-27; 6:37, 40-44, 65; 8:12-59). As “ovelhas” neste contexto são os judeus que atualmente estão vivendo em correta relação de aliança com o Pai durante o tempo do ministério de Jesus. Os judeus que Jesus está abordando nesse discurso e outros como esse por todo o Evangelho de João não estão num relacionamento correto com o Pai durante o tempo do ministério de Cristo. Desde que eles não conheciam o Pai (não são de Deus) ele não podiam reconhecer a revelação perfeita do Pai no Filho (Jo 7:16-17, 8:19,42-47). Eles rejeitaram o Filho e recusaram crer nEle porque eles rejeitaram o Pai. Portanto, eles não são ovelhas de Cristo e não podem ser dados ao Filho (Jo 6:37). Se eles conhecessem o Pai eles teriam reconhecido o Filho como seu Messias e teriam sido dados a Ele.

Então a aplicação primária ainda aborda o fato da fé mas não da mesma maneira que nós tendemos aplicá-lo hoje em dia desde que nossa situação é diferente da dos judeus e não estamos vivendo em um tempo crítico da história no qual os judeus fiéis estavam sendo dados, pelo Pai, para seu Pastor e Messias. Para eles primariamente se envolveu a transição de uma esfera de crença (no Pai) para outra (no Filho). Aqueles judeus fiéis reconheceram o pai no Filho e como resultado ouviram-No e seguiram-No como seu tão esperado Messias. Em todo caso as “ovelhas” são aqueles que estão “ouvindo” e “seguindo” e a passagem não dá indicação de que alguém possa deixar ser uma das ovelhas de Cristo pela recusa posterior em ouvir e seguir.

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Um comentário sobre “Traduções Crédulas: Perseverança dos Santos (12 de 13) – João 10:27-29

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