Traduções Crédulas: Perseverança dos Santos (10 de 13)

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Olá, leitores!

Eu quase ia pular este post da série, quando notei que estava traduzindo a parte 11 em vez da 10! De todo modo, este post fecha uma ponta solta bem interessante. Outra argumentação calvinista um pouco mais elaborada é aquela que o texto é comparado com a geração peregrina dos israelitas no tempo de Números. Assim sendo, se coloca a dúvida se os peregrinos eram de fato fiéis a Deus (e aí se joga toda aquela conversa de ‘parece santo mas não é’, ‘nunca foram santos para começo de conversa’ etc.) – e por associação se lança dúvida sobre o caráter dos leitores da carta.

O mais incrível é que este argumento, na verdade, dá uma dupla confirmação à perseverança condicional. Primeiro, porque o paralelo incentiva a interpretação de verdadeiros crentes regenerados e em iminência de queda. Segundo, porque de fato os israelitas não se encaixam na teoria do ‘jamais teve fé de verdade’.

Enfim, leiam e reflitam!

Perseverança dos Santos Parte 10: Examinando a Tipologia do Deserto em Hebreus

por kangaroodort from ArminianPerspctives
Tradução: Credulo from this WordPress Blog

Alguns calvinistas têm argumentado que as frequentes referências aos israelitas em peregrinação no deserto sugere que o escritor de Hebreus não está abordando apostasia da verdadeira fé. É assumido que a geração errante que falhou em entrar na Terra Prometida jamais teve um relacionamento de fé salvífica com o Senhor. Desde que o escritor de Hebreus usa a geração peregrina como exemplo ou objeto de lição para a situação sendo abordada entre seus leitores, é argumentado que isto indica que ele não considera aqueles que ele alerta de apostasia como sendo crentes verdadeiramente regenerados. Em outras palavras, se temos boas razões para duvidar que a geração dos israelitas do deserto que falhou em entrar na Terra Prometida era salva, então temos razões para duvidar que aqueles que o escritor de Hebreus alerta, enquanto mantendo tais israelitas como exemplo, era de fato salva afinal. Creio que esta abordagem falha pelas seguintes razões:

Que Corações Estavam Em Perigo de Serem Endurecidos?

O escritor de Hebreus vê apostasia como o resultado final de um coração endurecido. Isto é especialmente enfatizado em Hebreus capítulo 3, que é também o capítulo primário que faz frequentes referências à geração peregrina dos israelitas. Quem então está sendo alertado para não endurecer o coração e ouvir a voz de Deus no capítulo 3? No primeiro verso de Hebreus 3 o escritor inspirado deixa claro que seu alerta é dirigido aos “santos irmãos, participantes de uma vocação celestial” que têm confessado Cristo. Já havemos determinado que o escritor de Hebreus vê santidade em termos dos benefícios de purificação da alma mediante expiação, e não temos razão alguma para crer que ele imagina sua confissão de Cristo como sendo qualquer coisa menos que genuína. Portanto, temos boas razões para concluir que o escritor de Hebreus vê os mesmos a quem ele havia determinado a advertência, enquanto usando a ilustração dos israelitas peregrinos, como verdadeiramente salvos. Não há indicação de que ele mudou a sua atenção daqueles santos irmãos, para alguns potenciais convertidos, que ainda não haviam adotado o Evangelho, nas admoestações que diretamente seguem. No verso 12 ele anexa o alerta diretamente aos mesmos irmãos:

[12] Olhai, irmãos, para que nunca haja em algum de vós um coração mau de incredulidade, que se aparte do Deus vivo.
[13] Mas exortai-vos uns aos outros a cada dia, durante o que é chamado Hoje; para que nenhum de vós se endureça pelo engano do pecado.
{Hebreus 3:12-13 BLIVRE}

Que sentido faria dizer a descrentes, “Olhai… para que nunca haja em algum de vós um coração mau de incredulidade, que se aparte do Deus vivo”? Por que descrentes deveriam ter um um coração mau e incrédulo? Faria sentido advertir descrentes contra o apartar-se de Deus? Esta não é uma chamada à conversão, mas um alerta àqueles que já são convertidos. Podemos ver isto plenamente no fato que o escritor de Hebreus os chama então a “exortarem uns aos outros a cada dia … para que nenhum de vós se endureça pelo engano do pecado”. Descrentes encorajam-se uns aos outros? Eles encorajam-se entre si em descrença ou em uma fé que jamais possuíram? Verso 16 então retorna ao exemplo da geração peregrina, “Porque alguns que ouviram, provocaram-no à ira, mas não todos aqueles que saíram do Egito por meio de Moisés;[?]”. Seria sábio de nossa parte cogitar cuidadosamente por que o escritor de Hebreus realizou tal asserção. Creio que é uma dica importante o como devemos entender o paralelo intencionado entre a geração peregrina e aqueles sendo abordados nesta missiva, o que nos leva ao segundo problema com o apelo calvinista a este paralelo no AT:

O Paralelo Entre Libertação e Redenção

Precisamos notar duas coisas que o escritor de Hebreus quer que foquemos no verso 16 (acima). Primeiro, vemos que estes israelitas “vieram do Egito”. Como isto se relaciona à presente audiência? Parece bem claro no decorrer da epístola que o escritor de Hebreus vê sua audiência como aqueles que, bem como os israelitas no deserto, vieram do Egito. Eles experimentaram uma bem real libertação. Os israelitas experimentaram libertação do cativeiro do Egito e a audiência intendida de Hebreus experimentara libertação do cativeiro do pecado (e talvez do ritual judaico bem como se nós mantivermos a visão que são judeus que estão sendo primariamente abordados). Outra característica importante desta passagem, é que aqueles israelitas foram guiados por Moisés. Bem como os israelitas de Êxodo seguiram Moisés para além do cativeiro do Egito, assim estes presentes crentes escaparam do cativeiro do pecado e da lei tornando-se seguidores de Jesus Cristo, Aquele que foi proclamado superior a Moisés de todas as maneiras (3:1-6).

O escritor de Hebreus jamais questiona a inicial libertação de sua audiência; mais que isso, ele a assume plenamente durante toda sua epístola. Sua principal preocupação é se eles continuarão a seguir e obedecer Cristo tal que não falhem em entrar naquele eterno repouso que pertencem apenas àqueles que perseveram até o fim em fé salvífica (3:6,14). A lição que precisa ser aprendida é que a libertação inicial dos israelitas não lhes garantiu o repouso da terra prometida, e a libertação inicial destes crentes não lhes garante o repouso eterno no Reino Messiânico. Se esses crentes cessarem de ouvir as voz de Deus e começarem a dar vazão ao pecado e desobediência então eles estão em perigo de perder o objetivo de sua fé. É assim que o paralelo foi intencionado ser entendido. Vemos adicional confirmação disto no Capítulo 11 em que os heróis da fé são arrolados como exemplos para estes crentes emularem:

[13] Todos estes morreram na fé, sem receberem as promessas, mas as viram de longe, creram nelas, e as abraçaram, confessando que eram estrangeiros e peregrinos na terra.
[14] Pois os que dizem tais coisas mostram claramente que buscam a sua própria pátria.
[15] E, de fato, se se lembrassem daquela de onde saíram, tinham oportunidade para retornar.
[16] Mas agora desejam uma melhor, isto é, a celestial; por isso também Deus não se envergonha deles, de ser chamado seu Deus; porque já lhes preparou uma cidade.
{Hebreus 11:13-16 BLIVRE}

Eles foram recomendados por morrerem na fé mesmo que sem receber completamente a promessa e por não retornarem ao país que deixaram para trás (o que parece significar somente que eles não retrocederam para a descrença mas mantiveram as promessas de Deus pela fé). Pela fé eles continuaram rumo ao objetivo e se recusaram a retornar em seus corações ao “país” do qual eles foram trazidos. Nós vemos novamente que o assunto não é se eles experimentaram ou não fé inicial mas se eles continuaram ou não em sua jornada de fé em direção ao objetivo final de sua fé. Este era o caso da geração peregrina dos israelitas também. Eles deixaram o Egito em fé mas mais tarde retrocederam ao Egito em seus corações. Foram estes mesmos israelitas libertos que mais tarde provocaram a ira de Deus no deserto mediante a desobediência e portanto tiveram seu acesso à Terra Prometida negado (3:17-19). Há uma grande promessa para os crentes que o escritor de Hebreus está dirigindo o foco, mas eles também falharão em receber a promessa se, após serem libertos, retornarem ao Egito (judaísmo?) em seus corações. Bem como os israelitas peregrinos, eles estão em um estado “entre” a libertação inicial e o repouso final (que em seu caso é a recepção de um repouso eterno em vez de uma possessão temporal de uma terra prometida). Por esta razão eles estão sendo encorajados a continuar em sua fé e continuar a manter a promessa porque eles ainda não chegaram, e, como os israelitas do passado, tragicamente falharam em chegar ao repouso prometido que lhes esperava (4:1). Como crentes em Jesus Cristo ele estão no processo de adentrar esse repouso, mas tal processo pode falhar em alcançar realização se a fé não for mantida até o fim (4:2-11). Grant R. Osborne nos dá um sumário conciso de como a tipologia do deserto está sendo utilizada pelo escritor de Hebreus:

A tipologia do deserto era bastante prevalente na antiga igreja como um ilustrativo tanto de julgamento quanto de recompensa. Ambos 1Co 10:1-13 e Jd 1:4-6 a tornam uma advertência contra os perigos do pecado. A inferência óbvia em todas as três passagens é que não se pode confiar na sua original “libertação” do pecado e lapso para apatia, mas deve-se perseverar em sua caminhada com Cristo. Sl 95:7-11, usado pelo escritor como base para sua esplêndida midrash aqui, era cantada pelos judeus como parte de sua adoração sabática no templo. Os leitores provavelmente entendiam dessa forma, especialmente desde que versos 1-7 do Salmo são um chamado à adoração. A inferência óbvia é que se deve ouvir Deus – “Se hoje ouvirdes a voz dele” – e tal ouvir inclui obediência. (Grace Unlimited, ed. Clark H. Pinnock)

Exatamente. Apatia em direção ao pecado, imaturidade, desobediência, estão todos fortemente conectados e eventualmente levarão a uma definitiva descrença e rejeição (2:1-4; 3:17-19; 4:6, 11; 6:1-8; 10:26; 121-2, 15-17, 25). Hebreus 5:11 estabelece que seus leitores haviam se tornado tardios em ouvir e o verso 12 os censura fortemente pela falta de maturidade que os leva ao macabro alerta de Hb 6:4-8 acerca dos que caíram. Então o repetitivo imperativo: “Hoje, se ouvirdes a sua voz, Não endureçais os vossos corações” (3:7,8,13,15; 4:7) Esta é a mesma coisa expressa pela metáfora do campo (6:7,8). A terra que está sendo descrita não começou em um estado endurecido mas começou em um estado macio e adubado que podia absorver a chuva e dar bons frutos, e é portanto descritiva daqueles que já foram crentes (verso 7). Porém se a terra se torna endurecida (devido à apatia rumo ao pecado e contínua desobediência), então este campo não pode mais sorver água suficiente para produzir vegetação útil (verso 8). Em vez disso ela só pode produzir cardos e abrolhos. A terra endurecida representa aqueles crentes que têm endurecido seus corações à voz de Deus ao ponto de se apartarem do Deus Vivo. os cardos e abrolhos são a evidência da apostasia e evocam a maldição de Deus. Existe um grave perigo para o crente em se tornar apático em direção ao pecado porque isto pode levar às mais horríveis de todas consequências espirituais. Este é um dos temas principais de toda a epístola.

Os Peregrinos Israelitas Experimentaram Fé Verdadeira

Precisamos notar também que há forte evidência bíblica de que os israelitas que foram libertos do Egito de fato adentraram uma aliança de relacionamento com Deus mediante fé (ainda que a ilustração não apresente dificuldade para a visão arminiana acaso se possa mostrar que toda aquela geração jamais experimentou fé salvífica). Seria bastante forçado pensar que os israelitas pondo sangue nas ombreiras de suas portas em obediência ao comendo de Moisés tivesse sido qualquer coisa menos que um ato de fé (Ex 12:28, conf. Hb 11:28). Eles confiaram que Deus estava em vias de libertá-los e Ele lhes proveria desde que eles não fizeram provisões para o seu êxodo do Egito (Ex 12:39). Devemos realmente crer que os israelitas observaram a Páscoa em descrença (especialmente desde que descrença é correlacionada com desobediência em Hb 3:18-19)? Eles foram obedientes e confiaram em Deus, e Deus os redimiu como resultado (note especialmente que em Hb 11:29 somos informados que eles “atravessaram o Mar Vermelho como que por terra seca…”).

Então nós vemos que os israelitas começaram sua jornada em fé; mas existe alguma razão para crer que eles exerceram fé novamente após sua libertação primordial? Após Deus ter destruído os egípcios no Mar vermelho, lemos:

E viu Israel a grande obra que o Senhor operara contra os egípcios; pelo que o povo temeu ao Senhor, e creu no Senhor e em Moisés, seu servo.{Êxodo 14:31 BLIVRE}

E na canção de Moisés e Israel lemos: O Senhor é a minha força, e o meu cântico; ele se tem tornado a minha salvação; é ele o meu Deus, portanto o louvarei; é o Deus de meu pai, por isso o exaltarei.{Êxodo 15:2 BLIVRE}

Encontramos também que o povo afirmou seu compromisso com o Senhor e Sua Aliança em Ex 19:7-9, 24:3,7,8. O que fazemos então de Hebreus 3:10,11?

{10} Por isso me indignei contra esta geração, e disse: Eles sempre erram no coração, e eles não conheceram os meus caminhos;
{11} Então jurei na minha ira que não entrarão no meu repouso.
{Hebreus 3:10,11 BLIVRE}

Parece que o Senhor está falando de um padrão geral de rebelião que endureceu os corações dos israelitas ao ponto da completa descrença. Eles se recusaram a crer que Deus lhes daria a terra de Canaã porque havia gigantes nela (Nm 13:26-14:10). Lhes foi portanto negado o acesso àquela terra. Isto não significa que os israelitas jamais exerceram genuína fé em Cristo. Pelo contrário, isto ilustra a importância de resistir ao engano do pecado e continuamente ouvir a voz de Deus. Se continuarmos a rejeitar a sua voz iremos endurecer nossos corações e tornar cada vez mais difícil para nós crer e obedecer a Deus ao ponto da descrença e apostasia. É disto que o escritor de Hebreus está alertando seus leitores sobre. Precisamos ser cuidadosos em não ir exageradamente além do exemplo da geração peregrina desde que, ainda que foi negado a eles o acesso à Terra Prometida e morreram no deserto (Nm 14:30-35), mesmo assim eles foram perdoados (Nm 14:20). A falha em adentrar a Terra Prometida não necessariamente constitui perda de salvação (desde que a ambos Moisés e Arão foi negado acesso), enquanto a falha em adentrar o repouso eterno de Deus certamente o faz.

Conclusão: o uso do paralelo do AT entre a geração peregrina dos israelitas e a audiência intencionada da epístola aos hebreus não coloca perigo à interpretação arminiana. De fato, a posição arminiana é apoiada pela maneira específica que o escritor de Hebreus usa o exemplo da geração errante. A audiência intencionada da epístola foi redimida do pecado bem como os israelitas do Êxodo foram redimidos do Egito. Eles, como a geração do deserto, são considerados o povo da aliança escolhido por Deus que ouviu e respondeu à voz de Deus mas deve continuar a e responder à voz de Deus a fim de chegar ao objetivo final de sua fé: repouso eterno no Reino de Deus.

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