Traduções Crédulas: Jesus Ensinou que Regeneração Precede a Fé em João 3:3,6?

Padrão

Enfim, neste repetitivo e batido assunto, mais uma vez um versículo bem interessante acerca de fé e regeneração. E o mais divertido é que para explicá-lo, se usa a expiação ilimitada!

Esta é a famosa conversa de Jesus com Nicodemos. Boa Leitura!

Jesus Ensinou que Regeneração Precede a Fé em João 3:3,6?

por kangaroodort from ArminianPerspectives
Tradução: Credulo from this WordPress Blog

Provavelmente o texto-prova calvinista favorito para a doutrina de regeneração irresistível é João 3:3,6. Aqui Jesus aborda diretamente a doutrina do novo nascimento. Calvinistas e a maior parte dos teólogos bíblicos associam o novo nascimento com a regeneração. Jesus afirma a Nicodemos que ninguém pode ver ou entrar no Reino de Deus a não ser que seja primeiro “nascido de novo”. Calvinistas veem nas palavras de Jesus o ensino de que regeneração precede a fé. Eles apontam para dois aspectos do que Jesus disse a Nicodemos que eles acreditam demonstrar que Jesus estava ensinando que o novo nascimento precede fé.

Primeiro, calvinistas imprimem grande ênfase no paralelo entre nascimento espiritual e nascimento físico. Eles geralmente argumentarão que um pecador não pode decidir quando ele renascerá mais que uma criança pode decidir quando nascerá fisicamente. O problema com essa abordagem é que Jesus não disse de maneira alguma que devemos entender Suas palavras desta maneira. E sobre as dores de parto? E a passagem pelo canal vaginal? E a concepção? Devemos também buscar traçar paralelos entre estes aspectos do nascimento físico? Se não, então, por que não? Como devemos saber que paralelos devem ser traçados e quais não devem? A melhor abordagem é deixar que Jesus nos instrua.

A ênfase de Cristo nestas passagens é a necessidade de nova vida e não lida com o assunto de como essa vida é obtida até depois no capítulo. Se seguirmos o discurso de Jesus descobriremos que Jesus responde à questão de se devemos traçar tal paralelo com o nascimento físico. Tudo o que podemos corretamente deduzir de Jo 3:3,6 é que ninguém pode ver ou adentrar o Reino de Deus até que seja nascido de novo. Ele não nos informa como alguém se torna nascido de novo até outro ponto na passagem. Precisamos ser cuidadosos para não ler nossos vícios doutrinários nas palavras de Cristo antes de ter uma oportunidade de explicá-las mais.

Segundo, calvinistas imprimem grande ênfase na palavra “ver”. Eles argumentam que não se pode crer em Cristo até que se “veja” o Reino. Eles creem que o “ver” deve preceder o “crer”. Desde que não se pode “ver” o Reino de Deus até se nascer de novo, então parece lógico que não se pode crer o que se “vê” até nascer-se de novo. Este é o argumento calvinista mais significativo. Mas ele resiste ao escrutínio?

Existem alguns problemas neste argumento. Primeiro, “ver” o Reino de Deus não necessariamente significa “enxergar” a necessidade de redenção oferecida na expiação de Jesus Cristo. Não se precisa necessariamente entender completamente a natureza do Reino de Deus para reconhecer a necessidade de um redentor. Esta é uma falsa correlação que não é apoiada pelo pelo texto. Segundo, parece melhor entender o ver e entrar como metáforas de uma experiência completa. A palavra grega para “ver” nesta passagem é também usada com o significado de “experimentar” algo em outras passagens. Em At 2:27,31;13:35 e Hb 11:5 a palavra é usada para experimentar morte ou corrupção. Ela é usada em 1Pe 3:10 para experimentar os bons dias. Ela é usada para experimentar tristeza em Rv 18:7 (especialmente, note como João usa “ver” em Jo 3:36 e 8:51 para experimentar vida eterna).

O TDNT (Edição Volume Único) afirma de eidon [que é usada em Jo 3 e outras passagens já mencionadas] e horao [outra palavra para ver] que:

Às vezes os verbos significam “perceber” em tais sentidos como “experimentar”, “notar”, “estabelecer”, “cogitar”, “conhecer”, “julgar”, “marcar”, “notar” (pg. 710)

Calvinista D.A. Carson diz sobre o “ver” em Jo 3:3:

Para um judeu com a vivência e convicções de Nicodemus, “ver o Reino de Deus” era participar do reino no fim das eras, experimentar a vida eterna ressurreta. A mesma equivalência é encontrada nos Evangelhos Sinóticos (conf. Mc 9:43,45, ‘entrar na vida’, paralelo a 9:47, ‘entrar no Reino de Deus’); isto é particularmente forte no Quarto Evangelho, onde a linguagem do reino ocorre apenas aqui (3:3,5) e no julgamento de Jesus (18:36) enquanto a linguagem da vida predomina. Uma das mais surpreendentes características do reino anunciado nos Sinóticos é que ele não é exclusivamente futuro. O reino, o reinado salvífico e transformador, foi em certo sentido já inaugurado nas obras pessoais e mensagens de Jesus. (D.A. Carson, The Gospel According To John, P. 188)

Desde que Jesus usa “entrar” para descrever “ver” parece irracional concluir que Jesus está falando de outra coisa que não experimentar completamente o Reino de Deus. Ele está descrevendo a transição de uma esfera de existência para outra.

Isto era especialmente relevante à luz do entendimento judaico que eles experimentariam o Reino de Deus na base de serem descendência de Abraão. Nicodemos deve ter se aproximado de Jesus crendo que ele já estava qualificado a compartilhar do Reino de Deus na base das promessas dadas a Abraão em Gn 13:14,5 e Gn 17:18. Os judeus criam que quando o Messias viesse eles simplesmente se moveriam até o Seu Reino pelos méritos da obediência à Lei Mosaica. Enquanto os judeus criam que poderiam merecer o paraíso pelos méritos de suas obras, eles pareciam crer primariamente que para eles foi prometida incondicionalmente a eterna herança simplesmente por serem judeus circuncidados. F. Leroy Forlines descreve este importante entendimento judeu da salvação.

Somos confrontados com dois conceitos aparentemente contraditórios no Novo Testamento acerca do ponto de vista judaico de sua própria salvação. O primeiro era o conceito de eleição incondicional de todos os judeus como semente de Abraão. Este era o ponto que causou João Batista a dizer ‘não presumais, de vós mesmos, dizendo: Temos por pai a Abraão; porque eu vos digo que, mesmo destas pedras, Deus pode suscitar filhos a Abraão‘ (Mt 3:9, Veja também Jo 8:33-40). O outro ponto de vista era é que eles eram dependentes de suas próprias obras. Este ponto de vista é exposto por Paulo quando ele diz ‘ Mas Israel, que buscava a Lei da justiça, não chegou à Lei da justiça? Por quê? Porque a buscavam não pela fé, mas como que pelas obras da Lei; porque tropeçaram na pedra de tropeço.’ {Romanos 9:31,32 BLIVRE} (Quest for Truth pg. 347-ênfase dele)

Forlines então prossegue a argumentar que mesmo a visão judaica de justificação pelas obras estava no contexto de retidão corporativa de Israel. os judeus não viam salvação como individual mas corporativa, baseada nas promessas feitas a Abraão e na retidão corporativa de Israel. Ele explica,

Parece que estas duas observações sobre salvação entre os judeus são mutuamente exclusivas. Porém, de tudo que eu pude reunir, judeus não são muito preocupados com harmonização da mesma maneira que alguns de nós somos. Eles eram mais satisfeitos em deixar algumas pontas soltas em seu pensamento. E.P. Sanders observa astutamente, ‘Rabis não estavam preocupados com o relacionamento sistemático interno de suas afirmações’. (ibid. 348)

Ele então conclui com

Seu conceito de eleição incondicional corporativa de todos os judeus era de longe o mais básico dos dois pensamentos. Todo o restante de seus pensamentos deveria ser pesado à luz desta verdade fundamental. (ibid. 348)

Este é o contexto cultural em que este diálogo entre um líder judeu e Jesus toma lugar. Jesus está corrigindo dois equívocos do entendimento judaico da salvação. Eles não herdam o Reino de Deus incondicionalmente. Eles devem ser mudados. Devem nascer de novo. Tal mudança não ocorre corporativamente mas individualmente, “Ninguém [nenhum indivíduo] pode ver ou adentrar o Reino de Deus sem primeiro nascer de novo”. O Reino de Deus não lhes é incondicionalmente garantido. Eles não podem entrar no Reino até que seu pecado seja tratado, porque o Reino de Deus é um Reino Santo. Há a necessidade de real expiação antes que alguém possa adentrar na vida do Reino de Deus. Desde que o pecado traz morte é necessário voltar a nascer. Como isto ocorre? Nicodemos faz a mesma pergunta a Jesus no verso 9, “Como isto pode acontecer?”.

Jesus rapidamente guia Nicodemus com a necessidade de expiação. à necessidade de expiação. Ele diz, nos versos 14 e 15, “E como Moisés levantou a serpente no deserto, assim deve o Filho do homem ser levantado, Para que todo aquele que nele crer, não pereça, mas tenha a vida eterna.” Então como obter a vida eterna necessária para ver e entrar no Reino de Deus? Temos que olhar o Messias levantado e crer nEle. Enquanto calvinistas colocam grande ênfase na analogia entre morte física e morte espiritual, eles virtualmente ignoram as implicações envolvidas na analogia da serpente de bronze que Jesus especificamente usou para responder a pergunta de Nicodemus de como se tornar nascido de novo (verso 9).

Os israelitas no deserto estavam a morrer do veneno mortal das mordidas de serpentes. A única maneira pela qual eles podiam escapar da morte certa era olhando a serpente de bronze que Deus providenciara para sua cura. Aqueles israelitas estavam morrendo até que fixaram seu olhar na serpente de bronze. Jesus correlaciona este “olhar” a serpente ao “crer”. Quando alguém crê em Cristo o sangue da expiação é aplicado, a maldição do pecado e morte é quebrada, e nova vida se inicia. Se a interpretação calvinista de Jo 3:3,6 está correta então Jesus escolheu uma péssima analogia para explicar a Nicodemos como a nova vida começa. Se a visão deles estiver correta então devemos também crer que os israelitas no deserto não receberam vida como resultado de fixar o olhar na serpente de bronze, mas de fato foi primeiro dado vida a eles para que eles pudessem olhar a serpente. Nesta visão eles olharam para a serpente porque já foram curados dos efeitos mortíferos do veneno. Eles não teriam olhado para a serpente para assegurar vida; eles olharam para a serpente porque já tinham recebido vida. Eu me arriscaria a dizer que nenhum calvinista crê que os israelitas olharam para a serpente de bronze porque eles já tinham sido curados e lhes fora dado vida. Desde que é esta a ilustração que Cristo escolheu para explicar a natureza da Sua expiação e os meios pelos quais obtemos vida, é um absurdo crer que Jesus estava ensinando que o novo nascimento precede a fé em Jo 3:3-6. Considere os paralelos:

A Serpente de Bronze:

Os israelitas tinham que olhar a serpente de bronze para escapar dos efeitos mortais do veneno e experimentar vida, “Fez, pois, Moisés uma serpente de bronze, e pô-la sobre uma haste; e sucedia que, tendo uma serpente mordido a alguém, quando esse olhava para a serpente de bronze, vivia.”{Números 21:9 Almeida Recebida}

O Messias Crucificado:

Apenas aqueles que olham para a expiação do Messias pela fé em Seu sangue escaparão dos efeitos mortais do pecado e experimentar nova vida, “E como Moisés levantou a serpente no deserto, assim deve o Filho do homem ser levantado, Para que todo aquele que nele crer, não pereça, mas tenha a vida eterna. Porque Deus amou ao mundo de tal maneira, que deu o seu Filho unigênito [como expiação necessária]; para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna.{João 3:14-16 BLIVRE}”

Em vez de permitir que Jesus explique seus próprios ensinos, o calvinista quer “explicar” o que Jesus quis dizer antes mesmo de Ele o fazer. Se queremos entender o que Jesus quis dizer com Seus comentários em Jo 3:3,6, precisamos apenas manter a leitura. Se pudermos resistir a tentação de ler nossa teologia nos Seus comentários logo descobriremos que se nasce de novo crendo em Cristo e portanto apropriando-se dos benefícios de Sua expiação. Apenas após o sangue do Messias levantado ser aplicado mediante a fé é que se pode começar a experimentar a vida eterna que se inicia no novo nascimento.

Quando Jesus disse que ninguém pode ver ou entrar no Reino de Deus a não ser que a pessoa nasça de novo, Ele estava ensinando a necessidade de aplicação de sua obra expiatória. Apenas quando o pecado é tratado na vida do indivíduo é que tal pessoa pode experimentar vida e mover-se para a esfera do Santo Reino de Deus. Jesus deixou claro que os benefícios de purificação da alma pela Sua obra salvífica são dados apenas aos que nele creem.

Nicodemos pode ter se despedido confuso e frustrado mas Jesus explicou perfeitamente a ele por que a visão judaica de salvação era inadequada. A única maneira para que alguém, judeu ou gentio, alcançar a vida do Reino Messiânico é colocar pessoalmente fé na obra expiatória do Messias. Enquanto Jo 3:3,6, lidos no contexto de todo o capítulo, dão mais peso à visão arminiana, ele falha como texto-prova da doutrina calvinista de regeneração antecedente à fé.

Um comentário sobre “Traduções Crédulas: Jesus Ensinou que Regeneração Precede a Fé em João 3:3,6?

  1. Pingback: Traduções Crédulas: O que Mortos em Pecados Podem Fazer? « credulo

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s