Traduções Crédulas: Perseverança dos Santos (9 de 13)

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Mais um texto sobre este horrendo e temível assunto: deserção da fé. E da carta mais polêmica, a Missiva aos Hebreus.

Como um dos próximos posts é uma citação de diversos textos-prova, pretendo fazer dele uma sub-série e prosseguir paralelamente com os últimos posts desta série. Ademais, isto servirá como uma maneira mais leve e didática de terminar a série.

Enfim, leia o post que finaliza a análise dos apóstatas de Hebreus!

Perseverança dos Santos Parte 9: Hebreus 10:32-39

por kangaroodort from ArminianPerspectives
Tradução: Credulo from this WordPress Blog

Vamos finalizar nosso exame exegético da passagem de advertência em Hebreus 10 com os versos 32-39:

Lembrai-vos porém dos dias passados, em que, depois de terdes sido iluminados, suportastes grande combate de aflições;
Quando na verdade, em parte, fostes feitos espetáculo público tanto em insultos, como em tribulações; e em parte, fostes tornados companheiros daqueles que assim estavam sendo tratados.
Pois também vos compadecestes das minhas prisões, e com alegria aceitastes a espoliação dos vossos bens, sabendo em vós mesmos que tendes nos Céus um bem melhor e que permanece.
Portanto não rejeiteis a vossa confiança, que tem grande remuneração de recompensa;
Porque tendes necessidade de paciência, a fim de que, quando tiverdes feito a vontade de Deus, recebais a promessa.
Porque ainda um pouquinho de tempo, e aquele que vem, virá, e não tardará.
Mas o justo viverá da fé; e se alguém se retirar, a minha alma não tem prazer nele.
Mas nós não somos dos que se retiram para perdição, mas sim dos que têm fé para a salvação da alma.
{Hebreus 10:32-39 BLIVRE}

Verso 32: Lembrai-vos porém dos dias passados, em que, depois de terdes sido iluminados, suportastes grande combate de aflições;

Aqui encontramos a palavra “iluminados” de novo. Grudem argumentou que o termo foi usado apenas para o ouvir do Evangelho em Hb 6:4, e portanto não tinha referência a nenhuma experiência salvífica. O verso 32, porém, sugere fortemente o contrário. Aqui o escritor de Hebreus usa a mesma palavra para descrever aqueles que foram verdadeiramente salvos e o fato de que eles foram “iluminados” parece ter referência à conversão em vez de apenas ouvir a mensagem do Evangelho. Sua audiência é instruída a lembrar que após terem sido “iluminados” eles “suportaram grande combate de aflições”. Os versos 33 e 34 nos dão mais informações acerca do que estes sofrimentos incluíam. Eles sofreram o serem “feitos espetáculo público tanto em insultos, como em tribulações” e aceitaram com alegria o espólio de seus bens, “sabendo em vós mesmos que tendes nos Céus um bem melhor e que permanece”.

Eles sofreram alegremente pelo bem do Evangelho e ainda assim temos que crer que esta iluminação se refere somente a ouvir o Evangelho. Tal conceito raso de “iluminação” simplesmente não se encaixa com a descrição que imediatamente se segue. Não faz sentido dizer que como resultado de meramente “ouvir o Evangelho” eles suportaram tão grande sofrimento. Muitos ouvem o Evangelho, rejeitam-no, e não sofrem nada por ele. São apenas aqueles que abraçam e se apropriam do Evangelho pela fé que são desejosos de sofrer por ele.

Deve estar claro, baseado no contexto, que “iluminados” significa bem mais que apenas “ouvir o Evangelho” para o escritor inspirado de Hebreus. Tem referência à própria conversão que apenas reforça a argumentação que os “iluminados” apóstatas de Hb 6:4 eram de fato salvos antes de terem caído. Também encontramos que estes “iluminados” alegremente sofreram o espólio de suas propriedades porque eles sabiam que tinham uma melhor e permanente possessão (verso 34). Isto só pode dizer que eles avistavam as recompensas celestiais de sua fé e prova que eles de fato estavam na fé desde que “fé é o firme fundamento das coisas que se esperam, e a prova das coisas que não se veem”{Hebreus 11:1 BLIVRE}. Eles já haviam passado o teste da fé e agora estavam sendo chamados para passar mais um. O lembrete de seu anterior sucesso é para o propósito de fortalecer sua resolução de que eles não viessem a retroceder da fé com a qual começaram (veja comentários abaixo no verso 38).

Versos 35, 36: “Portanto não rejeiteis a vossa confiança, que tem grande remuneração de recompensa;
Porque tendes necessidade de paciência, a fim de que, quando tiverdes feito a vontade de Deus, recebais a promessa. Porque ainda um pouquinho de tempo, e aquele que vem, virá, e não tardará.”

Note que o escritor inspirado não está admoestando-os para ganhar confidência (i.e. crer no Evangelho e serem convertidos), mas para manter a confiança que já tinham. Eles estão sendo chamados a permanecer em sua fé, o que claramente assume que sua presente fé é genuína. De fato, sua fé já foi assim provada dado o que responderam aos testes anteriores. Porém, eles não podem descansar em como eles agiram no passado mas devem continuar a perseverar em face das presentes provas para ganhar a prometida recompensa da salvação final. Eles precisam ser firmes. O escritor inspirado nunca questiona se seus leitores têm ou não fé genuína. Ele apenas questiona se tal fé perdurará ou não. Esta é a preocupação de toda a epístola. Os versos 37 a 39 decisivamente corroboram esta verdade:

Porque ainda um pouquinho de tempo, e aquele que vem, virá, e não tardará. Mas o justo viverá da fé; e se alguém se retirar, a minha alma não tem prazer nele. Mas nós não somos dos que se retiram para perdição, mas sim dos que têm fé para a salvação da alma.

Bem como Hebreus 6:7-8 conclui com uma descrição adicional dos apóstatas nos versos 6:4-6, assim os versos 10:37-38 concluem com uma descrição adicional do apóstata descrito nos versos 26-31. O ponto que é bem importante aqui é que o servo que retrocede no fim do verso 38 não é um servo diferente daquele que vive pela fé no início do mesmo verso. É o mesmo servo, “e se alguém [que vive pela fé] se retirar [da fé que o fez reto], a minha alma não tem prazer nele”. Robert Shank cita Franz Delitzsch:

O sujeito de ambas as cláusulas é o mesmo – o homem justo, o homem que foi justificado pela fé; e no sentido que hupostellesthai é aqui usada é o de não manter a fé, vacilar na fé, abandonar o caminho da fé e a comunhão dos fiéis. O homem justo, o homem aceito diante de Deus, vive pela fé; mas se ele perde sua fé, e perversamente retrocede do bom caminho, sua aceitação é errônea. Que tal apostasia é possível mesmo para aqueles que foram verdadeiramente justificados, i.e., cristãos que tinham mais que uma experiência superficial da graça divina, é um dos principais pontos de instrução nesta epístola. [Life in The Son, 163]

Não pode ser subestimado que o servo é descrito no verso 38 como justo pelo próprio Deus. Não se diz que o servo parece apenas reto, pois o próprio Senhor confirma a justificação do servo. Esta retidão é devida a uma vida de fé. Porém, se o mesmo servo fiel retrocedeu da fé que o justificava, então o Senhor não mais se compraz nele. E por que não? Porque sem fé é impossível agradar a Deus (Hb 11:6). O que acontece com aqueles que retrocedem? O verso 39 aforma que eles retrocedem para a destruição.

Adam Clarke é ainda mais incisivo em seus comentários acerca do servo mencionado nesta passagem, bem como a tradução errônea da King James:

Mas se qualquer homem retroceder] kai ean uposteilhtai. Mas se ele retroceder; ele, o homem que é justificado pela fé; porque é este o homem, e não outro, do qual o texto fala. A inserção das palavras ‘se qualquer homem’, se feita para servir o propósito de um credo particular, é uma perversão maligna das palavras de Deus. Eles estão evidentemente intencionados em afastar o relativo do antecedente, em favor de salvar a doutrina da salvação final e incondicional; doutrina esta, que o texto destrói. (Commentary: Hebrews pg. 209, Wesleyan Heritage Collection CD)

Isto é danoso à exegese de Grudem. Se Hb 10:37-38 fala do mesmo servo, então temos mais razões ainda para crer que Hb 6:7-8 se refere à mesma terra. O servo de 10:37-38 retrocedeu da fé que o fazia reto, e a terra que uma vez deu vegetação frutífera em 6:7-8 depois brotou espinhos e abrolhos por cair da fé. Estas não são descrições de reprovados irrevogáveis que rejeitaram o Evangelho ao ouvi-lo; estas são descrições de verdadeiros crentes que retrocederam da verdade que uma vez adotaram plenamente.

É significativo que o escritor de Hebreus alterou o texto do qual ele traçou esta advertência. A referência da LXX na qual Habacuque fala de alguém quem se ensoberbece com o orgulho e recua, contrastado com o justo que vive pela fé, “Veja, ele se ensoberbece; seus desejos não são retos – [Septuaginta: E se ele recuar não irei me comprazer nele.] mas o reto viverá pela fé” (Simon J. Kistemaker, Hebrews, pg. 302).

Donald A. Hagner explica o significado da referência alterada:

O autor também transpõe a cláusula de Hc 2:4 (que na Septuaginta começa com as palavras ‘se qualquer deles recua’) tal que é o reto que deve confrontar diretamente a possibilidade de desertar de experimentar o desgosto do Senhor. O autor aceita então o entendimento messiânico da passagem (assim como na LXX) mas aplica Hc 2:4 ao crente cristão (apesar do singular, o meu justo). (NIBC Hebrews, pg. 176, ênfase dele)

Se o escritor de Hebreus está tentando expressar o que Grudem crê que ele estava tentando expressar (que o apóstata jamais teve fé salvífica) então o texto de Habacuque serviria melhor o propósito do autor se deixado como originalmente estava escrito. Em vez disso, o autor de Hebreus deliberadamente mudou [inverteu] a referência para descrever o particular servo que recua da fé que anteriormente o justificava diante de Deus. O fato que o escritor de Hebreus mudou a referência desta maneira adicionalmente demonstra que ele entende e define apostasia como um decisivo repúdio da fé justificadora dantes mantida.

No verso 39 o autor expressa confiança de que sua audiência não tem presentemente abandonado a fé e é dado como um encorajamento positivo, a fim de complementar o estímulo negativo das advertências anteriores. O autor inspirado não está expressando confiança infalível de que eles perseverarão desde que até mesmo no calvinismo tal segurança infalível não pode ser dada a outrem. Enquanto ele está supremamente esperançoso de que estes “servos justificados” não retrocederão, ele não pode ter certeza. Tal incerteza é a base das terríveis advertências e urgentes encorajamentos que precedem o verso 39.

Conclusão:

Encontramos nos versos 32-39 confirmação adicional de que nossa exegese de Hebreus 10:26-31 estava precisa. Aquele que é justificado pela fé e santificado pelo sangue de Cristo pode ainda retroceder da fé e encarar punição eterna como inimigo de Deus. Obtivemos também uma compreensão adicional das advertências expressas em Hebreus 6:4-8 confirmando que “iluminados” se refere a uma experiência de conversão e não apenas exposição da mensagem do Evangelho.

Também descobrimos que a metáfora da terra em Hebreus 6:7-8 paraleliza com a descrição do servo reto que recua da fé em Hebreus 10:38. Isto destrói a tese principal de Grudem, a qual foi construída na pressuposição errônea de que a metáfora em 6:7-8 se referencia a duas terras em vez de uma. Bem como foi o mesmo servo justificado que retrocedeu da fé salvífica em Hb 10:38, assim é a mesma terra produtiva que deixou de dar vegetação frutífera e em vez disso deu abrolhos e espinhos ao cair da fé. O servo (10:28) e a terra (6:7-8) são ambos destruídos e incinerados como resultado de desertarem da fé que um dia lhes foi dada.

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