Traduções Crédulas: A Ordem da Fé e Eleição no Evangelho de João: Vós não credes pois não sois das minhas ovelhas – I.C

Padrão

C. A Resposta Arminiana

Em contraste à resposta reformada calvinista de eleição e salvação no Evangelho de João rascunhada acima, aqueles que seguem a tradição liderada pelo reformador holandês Jacobus Arminius argumentam que a eleição divina é condicionada ao livre exercício da fé por parte do crente. Como se poderia esperar, as passagens do Evangelho de João citadas acima têm apresentado um desafio formidável à teologia arminiana. Para avaliar propriamente a significância deste desafio, é importante que dividamos primeiro as afirmativas condicionais encontradas nestas passagens em duas categorias principais.

Primeiro, há as condições necessárias para ser “habilitado” a vir a Cristo e ser “trazido” a Ele pelo Pai (6:44,65). Condições necessárias são assinaladas nas passagens acima pela estrutura gramatical “Ninguém pode …. exceto se …” (no grego, oudeis dunatai . . . ean me). Tais condições indicam o que necessariamente deve ocorrer antes do resultado em questão que se possa obter (o resultado aqui sendo a pessoa vir à fé em Cristo). Pela sua própria natureza, condições necessárias (em contraste com condições suficientes – veja abaixo) não implicam logicamente que toda pessoa que preencher as condições experimentará o resultado feito possível por tais condições. Quer dizer, afirmar que ninguém pode vir à fé em Cristo sem ser trazido ou habilitado pelo Pai não implica por si só que toda pessoa habilitada/trazida vem a Cristo, mas em vez disso apenas que todos os que vêm a Cristo necessariamente terão experimentado este trazer/capacitação.

Segundo, encontramos nas passagens acima as condições suficientes de ser dados a Jesus pelo Pai, de ouvir e aprender do Pai, pertencer de Deus (isto é, ser Seu filho, conforme o contraste com filhos do diabo em 8:44), e ser das ovelhas de Jesus (6:37, 45; 8:47; 10:26,29; 17:6,9,25). Condições suficientes são geralmente assinaladas por frases como “todo aquele que…” (6:45; grego pas ho…) ou “tudo que…” (6:37; grego pan ho…), indicando que toda pessoa sem exceção que preencher as condições relevantes experimentará o resultado implicado por tais condições. Este é claramente o caso acerca daqueles que o Pai dá a Jesus, e os que ouviram e aprenderam do Pai, todos os quais são ditos explicitamente virem à fé em Cristo (6:37,45). Também parece ser implicado das duas condições que poderíamos caracterizar como condições de identidade, a saber, aquelas de pertencer ou ser um filho do Pai, bem como ser uma ovelha de Cristo. Note que em 8:42 Jesus diz “Se Deus fosse vosso Pai, verdadeiramente me amaríeis” e em 8:47, “Quem é de Deus, ouve as palavras de Deus”. Ambas as afirmativas sugerem que todos os que pertencem à família de Deus amarão Jesus e ouvirão (isto é, neste contexto, crerão) no que Deus diz acerca de Jesus. Semelhantemente, em 10:27 Jesus diz, “Minhas ovelhas ouvem minha voz, e eu as conheço, e elas me seguem”. Novamente, esta afirmação implica que todos os identificados com as ovelhas de Jesus o ouvirão e seguirão quando ele entrar no pasto. Estas condições de pertencer à família de Deus e ser ovelha de Jesus, então, parecem cair na categoria de condições suficientes determinando aqueles que virão à fé em Cristo.

Qual é, então, a resposta arminiana a estes dois tipos de afirmativas condicionais apresentadas no Evangelho de João? Falando em geral, a existência de condições necessárias para vir à fé em Cristo iniciadas por Deus têm colocado menos desafio ao pensamento arminiano que as condições suficientes encontradas no Evangelho de João. Acerca daquelas, arminianos tradicionalmente têm explicado a necessidade do trazer e capacitação do Pai apelando para a noção de graça preveniente (lit. graça precedente ou antecipatória), que, para os presentes propósitos, pode ser caracterizada como a graça de Deus anterior à salvação (i.e., anterior à dispensação divina da graça salvífica, pela qual a pessoa é justificada e regenerada). Graça preveniente serve tanto para trazer uma pessoa à fé e arrependimento e habilitar tal pessoa a exercer tal fé e arrependimento, pela qual ela pode ser salva. Sem a ajuda da graça preveniente, arminianos têm tradicionalmente argumentado, é impossível para o homem natural, não regenerado, exercer uma autêntica decisão de fé em direção a Deus. Deste modo, arminianos podem abordar as afirmações de Jesus em João 6:44 e 6:65 (veja também 15:5) sem negar a autenticidade do livre arbítrio humano em escolher exercer ou não fé e arrependimento. Isto é, arminianos argumentam que nem todos que são trazidos/habilitados pelo Pai a exercer fé e arrependimento de fato em última análise escolhem fazê-lo (i.e. a graça preveniente é resistível), ainda que seja igualmente verdadeiro que sem tal trazer/capacitação nenhuma pessoa de si mesma terá o desejo ou capacidade de vir a Cristo em fé. Arminianos são capazes de adotar esta posição precisamente porque o trazer e capacitação do Pai são apresentados como condições necessárias, não suficientes, ao vir à fé em Cristo. Em contraste, as condições suficientes para vir à fé que são apresentadas no Evangelho de João, francamente, têm se provado intratáveis para os arminianos. Isto pode não ser algo que a maioria dos arminianos gostaria de admitir, é claro, mas me parece ser uma estimativa justa da situação corrente da teologia arminiana. Isto não quer dizer que não há tentativas de arminianos em lidar com as afirmações relevantes de Jesus no Evangelho de João. Porém, as tentativas das quais estou informado, apesar de suas muitas outras importantes contribuições ao assunto, me parecem atingir conclusões insatisfatórias quando chegam às condições suficientes colocadas por Jesus acerca de quem virá à fé nEle.

Grant Osborne (“Soteriology in the Gospel of John,” in The Grace of God and the Will of Man, ed. by Clark Pinnock, Minneapolis, MN: Bethany House, 1989, pp. 243-260), por exemplo, reconhece a ênfase na soberania divina em passagens como João 10:26, mas tenta balancear isto e chega em uma interpretação essencialmente arminiana dos escritos de João meramente apelando a muitas passagens do Evangelho de João que implicam um papel pivotal no exercício do livre arbítrio humano (p.ex. versos como 5:24 que enfatizam a oferta universal da salvação). Osborne conclui que nenhuma ênfase, seja da soberania divina ou da liberdade humana, é absoluta no Evangelho de João, mas que “o texto várias e várias vezes coloca soberania e decisão em fé juntas em uma unidade teológica sem tentar resolver o dilema. Ele assume o balanceamento sem defini-lo para o leitor” (pg. 256). Criticando o ensaio de Osborne, Yarbrough comenta corretamente, porém, que

“de um ponto de vista puramente lógico, eleição divina e livre arbítrio humano não podem se situar no mesmo nível, como Osborne crê que pode fazer, a não ser que estejamos contentes em encontrar ou uma antinomia (contradição aparente mas não necessariamente real) ou discrepância material (contradição tanto aparente quanto real) no centro do Evangelho de João.

Mas Osborne não opta por nenhuma destas posições. Então, enquanto ele mantém que a eleição divina e o livre arbítrio humano têm posições formais iguais, o último é definitivamente determinativo sobre o primeiro. O recurso prático de Osborne à primazia da vontade humana demonstra a dificuldade lógica de sua alegação formal e mina a viabilidade de seu argumento como um todo” (Robert Yarbrough, “Divine Election in the Gospel of John,” in Still Sovereign: Contemporary Perspectives on Election, Foreknowledge, and Grace, ed. by Thomas Schreiner & Bruce Ware, Grand Rapids, MI: Baker Books, 1995, 2000, p. 58)

Como Osborne, Robert Shank também tenta defender a posição arminiana balanceando as afirmações aparentemente pró-calvinismo de Jesus em João 8:47 e 10:26 com afirmações pró-arminianismo no Evangelho de João. Então, quando abordando a afirmação de Jesus em 8:47 (i.e. que os judeus não ouvem as palavras de Deus porque não são de Deus), em vez de tentar uma exegese da passagem crítica em questão, Shank meramente desvia a atenção do leitor para a possível informação qualificadora encontrada depois no capítulo: “Mas Jesus tratava sua perdição como sendo ainda contingente: ‘se não credes que eu sou, morrereis em vossos pecados’ (verso 24)” (Elect in the Son, Minneapolis, MN: Bethany House Publishers, 1970, 1989, p. 179). Semelhantemente, acerca da assertiva de Jesus em 10:26 que os judeus não criam porque não eram Suas ovelhas, Shank tenta contra-atacar o óbvio significado calvinista da afirmação de Jesus direcionando a atenção do leitor para outro ponto, desta vez para uma afirmação separada de Jesus encontrada depois no capítulo dez: “Que tal descrença não deriva de algum decreto eterno e irrevogável de Deus é evidente do fato que para os mesmos homens Jesus apela, ‘crede nas obras; para que conheçais que o Pai está em mim e eu nele” (verso 38) (ibid., p. 179).

Ainda que eu concorde com Shank que João 8:24, 10:38, e outros versos como este forneçam importante apoio para a visão arminiana que a salvação é contingente ao livre exercício da fé humana, o apelo de Shank a tais versos não nos ajuda por si só a resolver a aparente tensão entre estas passagens e as passagens que calvinistas comumente apelam (p.ex., 8:47; 10:26). Não é suficiente simplesmente tentar desviar a força de um conjunto de versos problemáticos dirigindo a atenção para um conjunto separado de versos mais aprazíveis. Se de fato viesse a questão de de quais versos contém a melhor evidência, calvinistas poderiam aparentar em face a isto terem um caso mais forte pela sua posição, dada a forte lógica nos versos tais como 8:47 e 10:26 implicando uma decisiva iniciativa divina na salvação. Bem como Yarbrough e outros calvinistas apontaram, a relação entre ser de Deus e vir à fé é certeira nestes verso: a primeira situa-se logicamente antes da segunda, não o contrário. Ser do Pai é condição suficiente para vir em fé ao Filho. Ademais, calvinistas podem prontamente responder aos apelos de Shank (e Osborne) indicando uma papel central da decisão humana em fé na salvação argumentando que fé como condição para salvação é em si mesma produto da iniciativa divina. Como Piper nota, “é verdade que somos incluídos ou excluídos da salvação pela condição de fé. Mas isto não explica como uma pessoa vem em fé e outra não” (John Piper, “Are There Two Wills in God?” in Still Sovereign: Contemporary Perspectives on Election, Foreknowledge, and Grace, ed. by Thomas Schreiner & Bruce Ware, Grand Rapids, MI: Baker Books, 1995, 2000, footnote 28, p. 122). Calvinistas argumentam que somente os eleitos vêm à fé em Cristo porque é apenas a eles que Deus providencia sua graça irresistível para gerar tal fé. As respostas de Shank e Osborne a João 8:47 e 10:26 não reconciliam adequadamente o todo do Evangelho de João de modo a prover uma alternativa viável a esta interpretação calvinista dos eventos.

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