Traduções Crédulas: A Ordem da Fé e Eleição no Evangelho de João: Vós não credes pois não sois das minhas ovelhas – I.B

Padrão

B. A Visão Reformada Calvinista da Eleição e Salvação em Relação ao Evangelho de João

Como aludido acima, o Evangelho de João é largamente percebido como contendo alguns dos mais fortes apoios encontrados na Escritura a favor da doutrina calvinista reformada da eleição incondicional particular para salvação e doutrinas correlatas de chamado eficaz e graça irresistível. Isto é porque o Evangelho de João contém muitas passagens que enfatizam fortemente a agência divina no processo de salvação individual, incluindo diversas passagens (p.ex. 8:47, 10:26) sugerindo que a fé individual em Cristo para salvação segue de – em vez de preceder – certas condições (por exemplo, “pertencer” a Deus como Seu filho; ser uma das “ovelhas” de Cristo). Calvinistas têm geralmente identificado tais condições prévias como com a noção reformada calvinista de uma eleição pré-temporal, incondicional, particular para salvação.

Por “eleição incondicional, particular para salvação” eu refiro ao ensino calvinista reformado que Deus tem, “de acordo com o mais livre bom prazer de Sua vontade, de simples graça, escolheu em Cristo para salvação um certo número de homens específicos” (Canons of Dort, I.7). Estes eleitos são “particular e imutavelmente designados, e seu número é tão certo e definido que nãopode ser aumentado ou diminuído” (Westminster
Confession of Faith, III.4). Na visão reformada calvinista, esta eleição divina não é baseada “em fator determinante algum oriundo da vontade humana” (John Murray, “The Plan of Salvation,” in Collected Writings of John Murray, Edinburgh: Banner of Truth, 1977, p. 127) e especificamente “não depende de forma alguma de fé prevista ou boas obras do homem … mas exclusivamente do bom e soberano prazer de Deus” (Louis Berkhof, Systematic Theology: New Edition, Grand Rapids, MI: Eerdmans, 1996, p. 115).

Os termos “chamada eficaz” e “graça irresistível” se referem ao ensino reformado calvinista de que “pela obra regeneradora do Santo Espírito, Deus Pai irresistivelmente invoca … o pecador eleito para união com, e adentrar o reino de, Seu Filho Jesus Cristo. Esta chamada é tornada eficaz pela obra regeneradora do Espírito de Deus Pai e Deus Filho nos corações dos eleitos” (Walter Reymond, A New Systematic Theology of the Christian Faith, Thomas Nelson Publishers, Nashville, 1998, p. 718, emphasis added). No ponto da regeneração e chamada eficaz, é importante entender que, na visão reformada calvinista, o recipiente da regeneração é “apesar de tudo, passivo nisto, até que, sendo regenerado e renovado pelo Santo Espírito, ele é por causa disto habilitado a responder a este chamado [eficaz], e abraçar a graça oferecida e comunicada” (Westminster Confession of Faith, X/ii). Até tal chamada eficaz ser liberada e a regeneração ocorrer, o pecador eleito é inteiramente averso e incapaz de realizar qualquer movimento positivo volicional em direção a Deus, incluindo movimentos em direção à fé (conforme as doutrinas da depravação e incapacidade total). Deve ser enfatizado que esta chamada eficaz e regeneração são ditas como se estendendo apenas aos eleitos (conforme o comentário acima de Reymonds).

Como já mencionado, calvinistas encontram amplo suporte aparente para as doutrinas acima no Evangelho de João. Apesar de calvinistas apontarem para vários elementos do livro em apoio de sua doutrina (os outros mais importantes eu abordarei na Parte III deste ensaio), a evidência mais convincente do ensino calvinista reformado no Evangelho de João vem de uma série de afirmações de Jesus a efeito de que todos os que vêm à fé em Cristo o fazem porque eles foram habilitados por Deus Pai e, ainda mais convincente, porque eles em algum sentido já pertenciam ao Pai antes de exercerem fé em Cristo.

Tudo o que o Pai me dá virá a mim; e ao que vem a mim, em maneira nenhuma o lançarei fora. {João 6:37 BLIVRE}

Ninguém pode vir a mim se o Pai que me enviou não o trouxer; e eu o ressuscitarei no último dia. Escrito está nos profetas: E todos serão ensinados por Deus. Portanto todo aquele que do Pai ouviu e aprendeu, esse vem a mim. {João 6:44-45 BLIVRE}

E dizia: Por isso tenho vos dito que ninguém pode vir a mim, se não lhe for concedido por meu Pai. {João 6:65 BLIVRE}

Por que não entendeis meu discurso? Porque não podeis ouvir minha palavra. Vós sois filhos de vosso pai, o Diabo, e quereis fazer os desejos de vosso pai; ele foi homicida desde o princípio, e não permaneceu na verdade, porque nele não há verdade; quando fala mentira, fala do seu próprio; porque é mentiroso, e pai da mentira. […] Quem é de Deus, ouve as palavras de Deus; portanto vós não as ouvis porque não sois de Deus. {João 8:43-44,47 BLIVRE}

Mas vós não credes, porque não sois de minhas ovelhas, como já vos tenho dito. Minhas ovelhas ouvem minha voz, e eu as conheço, e elas me seguem. E eu lhes dou a vida eterna, e para sempre não perecerão, e ninguém as arrancará de minha mão. Meu Pai, que as deu para mim, é maior que todos; e ninguém pode arrancá-las da mão de meu Pai. {João 10:26-29 BLIVRE}

Jesus falou estas coisas, levantou seus olhos ao céu, e disse: Pai, chegada é a hora; glorifica a teu Filho, para que também teu Filho glorifique a ti. Assim como lhe deste poder sobre toda carne, para que a todos quantos lhe deste, lhes dê a vida eterna.[…] Manifestei teu nome aos seres humanos que me deste do mundo. Eles eram teus, e tu os deste a mim; e eles guardaram tua palavra.[…] Eu rogo por eles; não rogo pelo mundo, mas sim por aqueles que tu me deste, porque são teus. […] Pai, aqueles que tens me dado, quero que onde eu estiver, eles também estejam comigo; para que vejam minha glória, que tens me dado, pois tu me amaste desde antes da fundação do mundo. {João 17:1-2, 6, 9, 24 BLIVRE}

Mantendo em mente que Jesus em outros momentos no Evangelho de João iguala o vir a Ele com o crer nEle (6:35; note a estrutura paralela neste verso), é claro das passagens acima que existem condições estritas em quem de fato virá a Cristo em fé. Estas condições podem ser prontamente interpretadas como fornecendo suporte à contestação que são apenas os eleitos (igualados pelos calvinistas com o conjunto das “ovelhas” de Cristo, os que “são” do Pai e são “dados, trazidos, concedidos” a vir a Cristo) que recebem a graça irresistível e eficaz de Deus pela qual a fé salvífica é gerada neles.

Destas afirmações de Jesus colocando restrições em quem pode vir a Ele em fé, os dois que provavelmente oferecem o mais forte apoio aparente para o calvinismo são aqueles em 8:47, “[…]vós não as ouvis porque não sois de Deus” e 10:26, “Mas vós não credes, porque não sois de minhas ovelhas[…]”. Em seu ensaio “Divine Election in the Gospel of John”, Robert Yarbrough sumariza o valor destas afirmações para a visão reformada calvinista de eleição (in Still Sovereign: Contemporary Perspectives on Election, Foreknowledge, and Grace, ed. by Thomas Schreiner & Bruce Ware, Grand Rapids, MI: Baker Books, 1995, 2000, pp. 47-62):

[ref. 8:47] “De um ponto de vista que enfatiza a autonomia da vontade humana esta lógica é revertida; Jesus deveria ter dito: A razão pela qual vocês não pertencem a Deus é que vocês não ouvem e creem. Mas Jesus promove o tema, por ora bem estabelecido no Evangelho de João, que a resposta humana a Deus é devida em sua última origem à graça eletiva de Deus…”

[ref. 10:26] “Note que Jesus não diz “vocês não são minhas ovelhas porque não creem”. Sem dúvida isto é verdadeiro, mas não é o que Jesus diz. Ele fala de fato em um nível mais profundo que o superficial de aparente causa e efeito, onde a fé humana visível em Cristo resulta em ostensiva participação no corpo de Cristo. Jesus lida com o assunto de por que certos ouvintes falham em crer em primeiro lugar, não por que eles não são suas ovelhas. A resposta: eles falham em crer porque não são membros de Seu rebanho.”

A conclusão que Yarbrough traça destes versos e outras passagens que ele estuda no Evangelho de João é clara: “eleição divina assenta e traz fé salvífica, não vice-versa” (ibid., p. 60; cf. D. A. Carson, Divine Sovereignty and Human Responsibility: Biblical Perspectives in Tension, Atlanta: John Knox, 1981, pp. 181-182,
190).

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