Traduções Crédulas: Eleição em Romanos 9 – O Contexto Precedendo Romanos 9

Padrão

Eleição em Romanos 9

O Contexto Precedendo Romanos 9

Com os conceitos anteriores em mente, podemos agora iniciar a base preparatória para uma exegese de Romanos capítulo nove considerando o contexto relevante que precede este capítulo. paulo começa nos primeiros dois capítulos de Romanos explorando a base da revelação da ira de Deus “contra toda maldade e injustiça dos seres humanos, que detêm a verdade por causa da injustiça.”{Rm 1:18}. Paulo argumenta que isto é verdade não apenas para os para os gentios como também para os judeus igualmente, porque todos falharam em manter os termos da Lei de Deus (seja a Lei externa, escrita, ou a Lei interna testemunhada pela consciência; 2:12,14-15) caem igualmente debaixo da ira de Deus, seja judeu ou gentio. Disto segue-se que o relacionamento espiritual de alguém com Deus é baseado não em ritos externos ou linhagem física, mas sim na condição interna do coração: “Porque ele não é judeu na aparência, nem é circunciso na carne; Mas ele é judeu no interior, e circunciso de coração, em espírito, e não na letra; cujo louvor não vem dos seres humanos, mas sim de Deus”{2:28-29} É esta radical clarificação aqui em 2:28-29 do que significa ser um “judeu espiritual”, uma definição potencialmente abrangendo ambos judeus e gentios físicos, o que provoca nos versos de abertura do capítulo três certas questões que se tornarão depois o foco central de Romanos capítulo nove até onze. Especificamente, a asserção de Paulo de que gentios e judeus igualmente podem participar em uma verdadeira linhagem judaica espiritual levanta questões acerca da situação dos judeus físicos e seu lugar no plano divino de salvação para a humanidade. Se a linhagem que conta é espiritual em natureza, então não há vantagem nenhuma afinal em em ser descendente físico de Israel? (3:1) A falha de alguns fisicamente judeus em participar da linhagem judaica da qual Paulo fala significa que Deus tem falhado em manter suas promessas aos patriarcas judeus (3:3)?

Paulo oferece apenas uma resposta superficial a estas questões na primeira parte do capítulo três (veja 3:2,4) por causa de sua avidez em prosseguir rapidamente em uma discussão mais completa da fé em Jesus Cristo como sendo a base da verdadeira linhagem judaica espiritual. O assunto urgente desta seção de Romanos é mostrar que é fé, não quaisquer obras de mérito baseadas na manutenção da Lei, que resulta em nossa justificação diante de Deus e consequente participação na verdadeira linhagem espiritual (3:28, 4:2-5). Esta discussão de fé como base toma a maior parte dos capítulos três até cinco, após os quais Paulo discute nos capítulos seis até oito como nossa identificação com Cristo mediante fé resulta não apenas uma liberdade legal da penalidade do pecado, mas também uma liberdade ativa do poder e tirania do pecado em nossas vidas. A chave para essa vitória ativa sobre o pecado é dependência do Santo Espírito, o qual Deus dá a todos os Seus verdadeiros filhos (8:12-14).

Nesta discussão dos privilégios aos filhos de Deus (8:14f), Paulo está inevitavelmente prosseguindo na consideração do fim e propósito último de seus filhos, a saber, sua participação na glória de Cristo (8:17). Em um sentido, os filhos de Deus já possuem uma medida desta glória, ainda que no presente está escondida e não de todo revelada (8:19; cf. 2Co 4:6-11; 5:1-5; veja meu devocional “Glória Escondida”). A revelação completa desta glória espera o futuro dia da adoção quando os filhos de Deus receberem a redenção de seus corpos (8:23). É dentro desta consideração do propósito último de Deus que Paulo pela primeira vez nesta missiva toca no conceito de eleição em 8:28-30:

[28] E sabemos que todas as coisas contribuem para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito.
[29] Porque os que previamente conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos.
[30] E aos que predestinou, a estes também chamou; e aos que chamou, a estes também justificou; e aos que justificou, a estes também glorificou.{Romanos 8:28-30 Almeida Recebida}

Paulo deixa claro aqui que a glorificação dos filhos dele é realizada por eles serem conformes à imagem de Cristo, seu irmão mais velho. Este “propósito” de Deus (8:28) surge apenas mediante a intencional intervenção de Deus. Falando daqueles “que amam Deus” (8:28), Paulo afirma que Deus já os “dantes conhecera” (isto é, amou e escolheu de antemão), “predestinou-os” (isto é, agiu com o objetivo previamente arranjado de conformá-los à imagem de Cristo), “chamou-os” (isto é, convidou-os para participação na aliança da salvação), “justificou-os” (isto é, declarou-os irrepreensíveis e santos mediante a obra redentora de Cristo), e finalmente “glorificou-os” (isto é, em referência à sua presente e futura participação na glória de Cristo mediante sua união nEle e conformação à Sua imagem). Esta extensão da ação intencional de Deus para o propósito de trazer a salvação e glória aos seus amados filhos leva Paulo a rejubilar na sua segurança e vitória em Cristo. Nenhuma acusação pode ser levantada contra estes “eleitos” (8:33) e nenhum poder externo pode separá-los do amor de Deus em Cristo (8:38-39).

A efusão de Paulo em graça e rejúbilo em 8:31-19 nos leva ao próximo passo no capítulo nove, aonde Paulo dramaticamente muda de direção e retorna ao assunto originalmente iniciada em 3:1f, uma questão que se tornou mais urgente agora em vista de tudo que Paulo havia dito no ínterim acerca do estado glorioso dos crentes em Cristo, os verdadeiros “judeus espirituais” que conhecer “o amor de Deus, que está em Cristo Jesus Nosso Senhor” (8:39). Esta questão, a saber, é “Aonde isso tudo deixa os judeus físicos, a quem Deus fez promessas mediante os patriarcas? Deus abandonou inteiramente seus acordos com os descendentes físicos de Israel?” (conf. 9:1-6a). Antes de começarmos considerando a resposta completa de Paulo a esta questão no capítulo nove, porém, precisamos parar primeiro e olhar mais de perto as afirmações de Paulo em 8:29-30. Muitos intérpretes têm visto nestes versos apoio substancial à doutrina calvinista de eleição incondicional particular de indivíduos para salvação, dado que Deus é dito “pré-conhecer” e “predestinar” Seus filhos, todos os quais são igualmente “chamados”, “justificados” e “glorificados”. Isto pode parecer se referir a um certo número e identidade dos indivíduos os quais Deus têm eleito de antemão para participar na salvação.

Existe uma alternativa viável, porém, que não acarreta a conclusão acima. A saber, podemos ver a eleição aqui em Romanos 8:28-29 como corporativa em vez de individual em natureza. Da perspectiva corporativa, eleição não tem em vista a seleção de indivíduos per se (nem mesmo um agregado de indivíduos na medida que são tratados como indivíduos). Em vez disso, do ponto de vista corporativo a eleição tem em vista o estabelecimento de um Corpo, família, nação ou outro grupo cuja identidade corporativa é determinada estritamente em relação a uma dita Cabeça, patriarca, ou outro antecedente. A eleição dos israelitas para uma posição privilegiada na economia divina pode ser vista dessa luz. A identidade corporativa dos israelitas foi estabelecida na base de sua descendência física do patriarca Jacó (Israel), a quem as promessas de eleição foram feitas. No caso da Igreja (que é quem está em vista aqui em Romanos 8:28-29), o Cabeça de quem a Igreja ganha sua identidade corporativa é Cristo, e Seu corpo é composto de todos que estão em união espiritual com Ele mediante a fé (Ef 1:4-6, 22-23; Jo 15; 1Pe 2:9-10). Considerado deste ponto de vista corporativo, a eleição não determina em si mesma a identidade específica dos indivíduos que participarão do corpo corporativo; em vez disso, a eleição estabelece apenas as bases nas quais o Corpo será formado em relação à Cabeça (isto é, mediante a descendência física no caso de Israel, mediante união espiritual contingente à fé do indivíduo no caso da igreja; veja as discussões de Romanos capítulo quatro e onze abaixo).

É neste nível corporativo que Deus é dito decretar eleição de antemão, desde toda a eternidade. Isto é verdade tanto da eleição mediante Jacó para o Israel físico (que são ditos “dantes conhecidos” como povo; isto é, corporativamente escolhidos de antemão por Deus; Romanos 11:2) e da eleição mediante Cristo de Seu Corpo, que são semelhantemente ditos serem “dantes conhecidos” aqui em Romanos 8:29 e “escolhidos nEle [isto é, em Cristo], desde a fundação do mundo” em Efésios 1:4. Note que esta eleição anterior de crentes é dita ser “nEle” (isto é, em Cristo). Como argumentado acima, isto não é uma eleição primária de indivíduos em si, mas de fato aplica-se a indivíduos apenas enquanto eles são considerados em união a Cristo, como membros de um Corpo corporativo (cf. Robert Shank, Elect in the Son: A Study of the Doctrine of Election, Minneapolis, MN: Bethany House, 1970,1989, pp. 45-55). Existe uma ênfase corporativa semelhante em outro termo escritural referente a uma determinação prioritária acerca dos crentes: predestinação. Crentes são ditos a ser “predestinados para ser conformes à imagem do Filho de Deus” (Romanos 8:29). Enquanto o termo “pré-conhecido” enfatiza a escolha anterior ou eleição de crentes corporativamente para ser aqueles que irão participar das bênçãos de Cristo, o termo “predestinado” reforça esta determinação anterior do objetivo da eleição, a saber, que crentes virão a corporativamente compartilhar o caráter de Cristo em amor, santidade, e verdade (serem “conformes à Sua imagem”). Esta natureza corporativa da eleição, geralmente ignorada em discussões teológicas, pode ser claramente vista em Efésios 4:11-16, em que é o “corpo de Cristo” considerado como um todo (isto é, não meramente crentes individuais) é dito crescer “em homem maduro, à medida da estatura da plenitude de Cristo”. A “plenitude de Cristo” aqui mencionada é a mesma conformidade a Cristo mencionada em Romanos 8:29 como sendo o objetivo da predestinação. (Espero explorar mais completamente esta natureza corporativa da predestinação à imagem de Cristo em um futuro ensaio.)

Meu ponto, então, acerca de Romanos 8:28-30 é que a passagem inteira faz referência ao Corpo Eleito de Cristo da perspectiva corporativa acima descrita, não de uma perspectiva individual. Paulo não diz que Deus determinou de antemão os indivíduos específicos que seguirão os estágios descritos nos versos 29-30. Em vez disso, Paulo está enfatizando a fidelidade de Deus em intencionalmente realizar Seu propósito de estabelecer um Corpo glorificado de crentes assumindo a imagem de Seu Filho. Paulo não aborda nestes versos a questão de em que base a participação em tal Corpo se constitui, ou se esta base para participação pode ser relacionada a fatores contingentes ao exercício do livre arbítrio humano. Estas questões Paulo responde em outros locais no capítulo quatro e novamente no capítulo onze; a saber, que a união com Cristo para qualquer dado indivíduo é contingente ao exercício livre do indivíduo e perseverança em fé (veja discussão dessas passagens abaixo).

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