Traduções Crédulas: Erwin Lutzer Oferece Falsa Esperança a Pais Calvinistas?

Padrão

Em minha opinião, um dos pontos menos debatidos no calvinismo TULIP é o último, a perseverança dos santos. Neste post, Ben Henshaw faz um comentário acerca de algo semelhante: a segurança de que os filhos de uma família calvinista serão ou não eleitos de Deus.

Erwin Lutzer Oferece Falsa Esperança a Pais Calvinistas?

por kangaroodort from ArminianPerspectives
Tradiução: Credulo from this WordPress Blog

Espero fazer alguns posts sobre o livro de Erwin Lutzer[1], The Doctrines That Divide: A Fresh Look at the Historic Doctrines That Separate Christians. Poderíamos esperar que tal livro focaria em diminuir divisões e aliviar a tensão entre cristãos, mas parece que o propósito de Lutzer é mais apresentar certas doutrinas divisivas e explicar por que sua visão das doutrinas é correta. Muitas das questões centram nas discordâncias doutrinárias entre católicos e não-católicos, e como não-católico eu concordo com o julgamento geral de Lutzer contra o dogma católico. Porém, o livro de Lutzer não está limitado a divisões entre católicos e não-católicos. Lutzer também examina controvérsias doutrinárias entre a cristandade protestante e uma dessas controvérsias principais centra-se no debate acerca do calvinismo e arminianismo. Infelizmente, Lutzer não se põe à parte de muitos autores calvinistas que adulteram o arminianismo e a história da controvérsia dentro da controvérsia em uma aparente tentativa de enquadrar o calvinismo como ortodoxia e o arminianismo como uma espécie de heresia desafortunada restante da quebra protestante com o catolicismo. Eu espero dar uma olhada mais próxima em muitos dos argumentos e afirmações em uma série de posts. Este post, porém, irá simplesmente examinar uma dificuldade importante no calvinismo que Lutzer corretamente identifica, junto com sua proposta solução.

Lidando com a doutrina da eleição incondicional, Lutzer pondera o problema do evangelismo no calvinismo. Ele conclui que arminianos não estão numa posição melhor os calvinistas acerca da eficácia (ou ineficácia) do evangelismo em seu sistema teológico (mais sobre isto num futuro post), assim como por que alguém pode supostamente ter confiança em sua situação como eleito no calvinismo ainda que o decreto da eleição é secreto (para sérios problemas acerca da segurança da salvação no calvinismo, veja este post [perseverança dos santos]). Ele então desvia para uma questão interessante e leva apenas um parágrafo para encerrar com o que ele parece pensar que é uma solução suficiente. Ele escreve,

A escolha de Deus por aqueles que serão salvos não parece ser nem aleatória nem arbitrária. Ele planejou o contexto no qual seríamos convertidos. Este é o porquê de eu jamais ter me questionado se meus filhos estão entre os eleitos. Desde que eles nasceram num lar cristão, podemos crer que os meios para sua salvação serão o ensino fiel da palavra de Deus. As decisões de Deus em nos salvar envolveram planejar onde nós nasceríamos e as circunstâncias que nos levariam a Cristo. Eleição é parte de uma figura total. (The Doctrines that Divide, pg. 217, ênfase dele)

A pessoa de quem peguei emprestado este livro escreveu “bem reconfortante” na margem próxima a este parágrafo. Mas a solução de Lutzer realmente oferece certeza suficiente para fornecer o calvinista de qualquer conforto acerca do eterno destino de suias crianças? Não vejo como isso pode ser, dadas as pressuposições calvinistas fundamentais e a maneira que eles tradicionalmente lidam com certas passagens da Escritura para oferecer suporte à eleição incondicional.

Lutzer parece sugerir que se alguém é nascido em um lar cristão, tal pessoa crescerá ouvindo o Evangelho e será convertida. É realmente isso o que ele pensa? Certamente ele está informado de casos em que crianças cresceram em lares cristãos debaixo de piedoso ensino bíblico e ainda assim rejeitaram Deus e viveram e morreram como descrentes. Me parece que há muitos ateus que cresceram como filhos de ministros[2]. De fato, no calvinismo os “meios” e o “contexto” não são suficientes. O reprovado pode ouvir o Evangelho milhares de vezes e jamais crerá nele. De fato, Deus fez impossível para ele ou ela crer. Enquanto os meios e contexto próprios podem ser um ingrediente necessário no calvinismo, sem um ato irresistível de regeneração de Deus nenhum montante de meios ou contexto irá ajudar. Como pode Lutzer assumir que porque seus filhos foram colocados em um contexto em que elas podem receber os meios de conversão, tal conversão necessariamente seguirá? Ele não pode se o calvinismo for verdadeiro. Tristemente, se um de seus filhos está entre os reprovados, nenhum montante de de contexto ou meios pode ajudar tal criança. Contexto e meios não podem mudar um decreto que foi feito por Deus desde a eternidade. Contexto e meios não podem ajudar um reprovado para quem irá eternamente ser negada a graça regeneradora de Deus de acordo com um decreto eterno imutável.

Para ser perfeitamente franco, que direito Lutzer tem de mesmo esperar que seus filhos são eleitos quando a reprovação supostamente magnifica a glória de Deus? E se Deus quiser magnificar Sua glória reprovando um dos filhos de Lutzer? Em tal caso as esperanças de Lutzer estão em contraste claro com o desejo de Deus em magnificar-Se a Si Mesmo e Sua glória mediante a reprovação de um dos filhos de Lutzer. Talvez Deus queira mostrar Sua “graça” e “amor” em uma criança contrastando Seu amor eletivo a uma criança com Sua ira reprovadora na outra criança. Talvez esta reprovação ajudará a criança eleita a melhor reconhecer e revelar na misericórdia e graça de Deus e portanto magnificar a graça e misericórdia na criança eleita de tal forma que não seria possível com a outra criança sendo eleita (ou talvez esta reprovação sirva para ajudar Lutzer a melhor apreciar Sua própria eleição também). Tais pensamentos são difíceis até mesmo de escrever, ainda que estas sejam as implicações inevitáveis de como os calvinistas regularmente ensinam acerca da graça de Deus e supostas razões para reprovar a maior parte da humanidade[3]. Mas mesmo além disto temos um texto-prova calvinista tradicional que plenamente contradiz as assertivas de Lutzer,

E não somente esta, mas também Rebeca, quando ficou grávida de um, o nosso pai Isaque. Porque não sendo ainda [eles] nascidos, tendo feito nem bem nem mal, para que o propósito de Deus, segundo a eleição, continuasse; não pelas obras, mas por causa daquele que chama. Foi dito a ela, [Rebeca]: O maior servirá ao menor. Assim como está escrito: Eu amei a Jacó, e odiei a Esaú.{Romanos 9:10-13 BLIVRE}

Este é o texto-prova primário calvinista para eleição incondicional e esta passagem mina completamente as assertivas de Lutzer. Esaú e Jacó nasceram na quase certamente mais piedosa família do planeta naquele tempo. Eles cresceram debaixo de instrução e ensino piedosos. Ainda assim, apesar de tudo isso, de acordo com o calvinismo, Esaú foi odiado por Deus desde o útero e este ódio é supostamente igualado com o decreto eterno de reprovação. Se o primogênito de Isaque pode ser um reprovado sem esperança (não importando o amor de seu pai por acima do seu suposto filho incondicionalmente “eleito”), então por que não poderia um dos filhos de Erwin Lutzer igualmente ser um reprovado sem esperança não importando o contexto e os meios de ser posto em um ambiente piedoso? De fato, se podemos aprender alguma coisa disto, Deus pode muito bem reprovar o filho favorito do pai para Seu bel prazer e para o bem de alguma maneira magnificar Sua graça e misericórdia nos eleitos. Novamente, tais coisas são difíceis até mesmo de contemplar, ainda assim são pressuposições implícitas da doutrina calvinista da eleição incondicional.

Outro exemplo poderia ser os filhos de Eli o sacerdote. Não apenas estes filhos cresceram em um lar piedoso (provavelmente um dos mais piedosos homens de Israel naquele tempo), mas eles também foram postos no ministério. Apesar disso, ambos os filhos de Eli se tornaram tão malignos que Deus os destinou à morte[4]. Que melhor contexto e meios poderiam eles esperar do que serem filhos de um pai que era devotado a servir Deus diariamente? Pode-se argumentar que a falha estava nas falhas de Eli como pai, mas quem dentre pais cristãos não tem falhado? Se os “meios” e o “contexto” incluem perfeito traquejo parental, estamos todos em problemas, incluindo Erwin Lutzer.

O simples fato é que o calvinismo não pode fornecer tal conforto a Lutzer ou a nenhum outro pai cristão. Nem pode Lutzer realmente explicar como a escolha de Deus de um sobre o outro não é em última análise “arbitrária” ou “aleatória”. Simplesmente falar sobre meios e contexto não explica como a escolha de Deus em eleger e salvar alguns de uma massa de humanidade igualmente depravada não é arbitrário.

Calvinistas tipicamente afirmam que a escolha de Deus não é arbitrária ainda que não haja nada para diferenciar aquele que é escolhido daquele que é reprovado. Ao final de tudo, ambos são depravados inimigos de Deus antes da escolha de Deus (de acordo com o calvinismo infralapsário tradicional). É por isso que a escolha é considerada incondicional. Nada na pessoa ou sobre a pessoa (como fé) condiciona a escolha de Deus. Calvinistas podem tentar resolver este problema afirmando que a razão está escondida em Deus e não podemos conhecê-la. Parece aleatório e arbitrário para nós mas podemos supostamente estar certos que Deus tem uma boa razão para escolher um e reprovar o outro, mesmo se não houver nada em ou sobre qualquer pessoa para condicionar a escolha[5]. Talvez isto forneça a chave para o único conforto possível que pais calvinistas podem ter. Enquanto pais calvinistas não podem ter conforto de que todos os seus filhos (ou mesmo qualquer um deles) sejam eleitos, estes pais podem pelo menos se confortar no fato de que se Deus reprovar qualquer um de seus filhos (ou todos eles), Ele deve ter uma boa razão secreta para fazer assim[6].

—————-

[1] Erwin Lutzer é pastor sênior na histórica Moody Church em Chicago

[2] Precisa-se apenas conferir alguns poucos sites ateístas para encontrar diversos deles que vieram de lares cristãos.

[3] Se tornou cada vez mais popular para calvinistas afirmar que Deus só pode ser glorificado em última análise e Seus atributos completamente exibidos por meio da reprovação da maior parte da humanidade para auxiliar os eleitos a apreciar mais completamente e entender a misericórdia e graça de Deus para com eles. Em tal abordagem o tormento eterno dos reprovados é em um grande grau para o fim de que os eleitos vejam Deus em uma luz maior e amem-O mais. Este conceito foi popularizado por calvinistas como Johnatan Edwards e tem sido reintroduzido com grande apoio de calvinistas contemporâneos como John Piper. Tal esquema também faz parecer o pecado e a reprovação necessárias para que os atributos de Deus sejam completamente demonstrados, obscurecendo Sua santidade e muito possivelmente Sua asseidade também.

[4] 1 Sm 2:12-34

[5] Igualmente, Peterson e Williams asseguram que a eleição incondicional não deve ser considerada arbitrária enquanto falham em explicar por que ela deveria assim ser, preferindo em vez disso jogar para o mistério: “Mas por que deveria a decisão soberana de Deus de amar alguns ser considerada arbitrária? Todos merecem a ira; ninguém merece sua graça [que é precisamente por que ela parece arbitrária]. Ele livremente escolhe conferir graça salvífica em bilhões de pecadores não-merecedores. Isto não é arbitrário; a própria Bíblia ensina que eleição é o resultado do amor e da vontade de Deus [mas isto apenas suscita a questão de o amor e a vontade de Deus não serem arbitrários na eleição, justamente o assunto em disputa]. Sua graciosa escolha em última análise transcende nossa razão, mas não é arbitrária.” (Why I am Not an Arminian, pp. 65, 66- ênfases e colchetes meus)

[6] O típico calvinista retorna tais coisas como afirmar que o sistema arminiano tem as mesmas dificuldades. Mesmo se fosse este o caso, não muda o fato que calvinistas como Erwin Lutzer estão oferecendo esperança e certeza que os dogmas fundamentais do calvinismo não podem fornecer (e plenamente contradizem). Ainda assim, o arminianismo faz bem melhor, já que os pais podem estar seguros que Deus de fato ama todos os seus filhos e verdadeiramente deseja a sua salvação, ouvindo preces e continuamente revelando a Si Mesmo de acordo com tais preces e Seu desejo de que elas sejam salvas. Enquanto arminianos não creem que Deus faça tais coisas de uma maneira que garanta resultados (isto é, Deus trabalha resistivelmente e não irresistivelmente), arminianos estão numa posição bem mais privilegiada para revelar o amor de Deus aos seus filhos, desde que não há dúvidas de que Deus verdadeiramente deseja sua salvação e Cristo certamente morreu como provisão de expiação para eles. Em contraste, calvinistas consistentes não podem sequer fielmente afirmar aos seus filhos que Jesus os ama de qualquer maneira significativa e ou que Cristo mostrou Seu grande amor morrendo por eles. De fato, Deus talvez os odeie bem como Ele odiou Esaú e não ter desejo algum de salvá-los. Igualmente, Cristo pode não ter morrido por eles afinal.

Anúncios

Um comentário sobre “Traduções Crédulas: Erwin Lutzer Oferece Falsa Esperança a Pais Calvinistas?

  1. Pingback: Traduções Crédulas: 1Coríntios 15 e as Alegações do Calvinismo « credulo

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s