Traduções Crédulas: Uma Breve Explicação da Doutrina da Dupla Vontade de Deus em Jacobus Arminius

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Duas vontades? Muitas vezes os calvinistas dizem que Deus ordena uma coisa como lei (não matarás) mas no fundo deseja outra coisa por decreto. Normalmente, isto é  tomado como um argumento de vontades contraditórias pelos arminianos. Mas, ainda assim, como é possível que Deus tenha duas vontades – por exemplo, se arrepender do mal que iria fazer a uma cidade? O paradigma da dupla vontade, aqui exposto, dá uma resposta esperta, concisa e com bom apoio escritural.

Uma Breve Explicação da Doutrina da Dupla Vontade de Deus em Jacobus Arminius

por B.P. Burnett
Tradução: Credulo from this WordPress Blog

O calvinismo postula que em Deus existe uma distinção de vontades; a vontade da revelação e a vontade da soberania (isto é, a vontade revelada e a vontade secreta ou soberana). Porém, arminianos postulam que o problema com tal teoria das duas vontades é que quando uma delas é levada a efeito a outra é deixada de lado. Vou dar um exemplo.

Calvinistas costumam afirmar em Gênesis 50:20 que Deus comandou que é ilegal fazer o mal para a família de alguém (neste exemplo, raptar). Esta é a dita vontade revelada de Deus. E ainda assim, alegadamente, que nessa circunstância, calvinistas creem que também é possível discernir a operação da vontade secreta ou soberana de Deus trabalhando nos pecados dos irmãos de José para um bom e santo propósito.

Agora, o que é bem interessante acerca disso é que Jacobus Arminius como teólogo reformado não nega a possibilidade que existam provavelmente algumas coisas que Deus não nos revelou. Revelação, afinal, é de prerrogativa divina. E ainda assim Arminius desejou que a hipótese das “duas vontades de Deus” fosse rigorosamente descrita a fim de não anular uma vontade sobre a outra. Arminius cria que falhar nisto formaria uma contrariedade em Deus; ou seja, uma literal auto-contradição, em que Deus ao mesmo tempo deseja e não deseja uma mesma coisa ao mesmo tempo. Arminius também desejava que a vontade de Deus fosse de tal forma explicada de modo a não torná-lo autor do pecado. E ainda afirmar que Deus secreta ou soberanamente deseja que o ser humano peque, mesmo que comande o contrário enquanto, no entanto, decreta o que ele deve fazer (para que a vontade soberana seja sempre cumprida), então isto seria fraudulento e portanto alheio ao caráter de Deus. Isto também tornaria Deus o autor do pecado, o que Arminius sempre quis evitar.

Portanto, Arminius postulou, em oposição à hipótese das duas vontades, a sua própria hipótese da dupla vontade de Deus. A dupla vontade de Deus pode ser brevemente sumarizada como uma vontade em várias dimensões multifacetadas trabalhando dentro de um paradigma condicional: ((A&R) => C) = “Se A e R então C”. Este paradigma se divide em vontade antecedente (A), resposta humana livre (R) e vontade consequente (C).

Arminius discernia esta distinção dupla em passagens como Jeremias 18:6-10, em que existe uma demonstração ativa da dupla vontade de Deus, duas vezes: nos versos 7-8 demonstra-se um paradigma condicional (“se/então”) e a distinção entre as duas partes da vontade. Deus explica a Israel que se Deus desejasse primeiro que uma nação e/ou povo seja “arrancada, destronada e destruída” (A – vontade antecedente) mas de acordo com com uma escolha contingente “esta nação que eu alertar se arrepender de seu mal” (R – resposta humana), então Deus diz “eu irei me arrepender e não infligir nela a calamidade que havia planejado” (C – vontade consequente). Esta sequência se repete nos versos 9-10.

Note que as vontades antecedente (A) e consequente (C) são contrárias entre si de acordo com ambas as proposições desta sequência; primeiro Deus irá destruir a nação, então Ele não irá destruir (D&~D), o que é obviamente contraditório. E mesmo assim, dada a distinção de Arminius que tanto A quanto C seguem a respeito de sua própria ordem e modo temporal em relação à resposta humana (R), elas não formam de fato uma contradição.

É por isso que a vontade é uma só em uma dupla distinção; é uma proposição com duas partes – a antecedente (A) e a consequente (C) em {(A&R => C)}, que é o mesmo que dizer “se A e R então C” – e é esta a linguagem de Jeremias 18.

Se aplicarmos esta dupla distinção em Gn 50:20 por exemplo, podemos chegar a algumas interessantes conclusões que excluem – ao contrário das duas vontades – a possibilidade de contrariedade em Deus:

De acordo com a vontade antecedente, Deus deseja que ninguém abuse de um membro da família. Mesmo assim, quando os irmãos de José livremente escolheram desobedecer este comando moral de Deus, Deus escolheu permitir que eles livremente O desobedecessem, e unindo Sua vontade à vontade deles para habilitar a ação do pecado (em um ato chamado Concorrência Divina), Deus desejou de acordo com Sua vontade consequente enviar José ao Egito, por meio do instrumento de seus irmãos para um bom propósito o qual Deus havia planejado pela permissão do pecado dos irmãos de José.

Então, na visão de Arminius, esta dupla distinção é tanto lógica quanto biblicamente superior à distinção das duas vontades, porque ela evita a possibilidade de uma contrariedade (e portanto imperfeição) em Deus, e portanto preserva a volição livre humana para o pecado (se e somente se Deus permitir), portanto livrando Deus da acusação de ser o autor do pecado e da incoerência lógica inerente ao paradigma das duas vontades.

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