Traduções Crédulas: A Doutrina Arminiana da Concorrência Divina

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Mais uma tradução em ritmo recorde! Mas bem-feita (para os padrões do blogueiro, claro).

Um pequeno texto, acerca da visão arminiana da soberania, providência e interferência divinas.

Espero que apreciem!

A Doutrina Arminiana da Concorrência Divina

por William W. Birch

Tradução: Credulo from this WordPress Blog

Concorrência é a cooperação de agentes ou causas – um ação ou esforço combinado. Quando falamos da doutrina da concorrência, queremos dizer a cooperação de Deus e uma pessoa em um esforço conjunto para produzir uma ação. (Arminianos clássicos creem que o Espírito Santo opera monergisticamente no ato da regeneração, e Ele o faz quando a pessoa confia em Jesus Cristo como Senhor: a fé não causa regeneração, nem pode uma pessoa efetuar a sua própria regeneração.)

A doutrina da concorrência é de vital significância na teologia arminiana clássica, tanto quanto no calvinismo. Entretanto, a negação do determinismo exaustivo é inerente à doutrina arminiana. Isto tem causado muitos calvinistas a afirmar que arminianos negam a soberania de Deus. Roger Olson escreve: “Se começamos definindo soberania deterministicamente, a questão já está resolvida; neste caso, arminianos não creem em soberania divina. Porém, quem é que diz que soberania necessariamente inclui controle absoluto ou governança meticulosa com a exclusão de reais contingências e livre arbítrio?”[1]

Não existe nenhuma definição direta de soberania para a qual se pode apontar na Escritura. O que se deve fazer é coletar evidências de várias fontes na Escritura para definir corretamente o conceito ou palavra. Mas como foi descoberto no post Determinismo Exaustivo e o Antigo Testamento, a definição calvinista de soberania é completamente injustificada.

Deus exerce Sua soberania? Sim, Ele absolutamente exerce, a cada momento. Isto implica que Deus deve controlar, via Seu decreto preordenado de todas as coisas, cada palavra que alguém fala, cada ação que alguém toma, cada decisão que alguém faz? Cremos que não. Mas como nossa doutrina de concorrência concorda com a doutrina da soberania de Deus? Roger Olson realça as doutrinas da soberania, providência e concorrência de Deus em Arminius:

A própria teologia de Arminius claramente ensina que Deus tem o direito e o poder de dispor de Sua criação, incluindo Suas criaturas, da maneira que ele achar melhor. O teólogo holandês não permitia limitações inerentes a Deus pela criação mas apenas pelo próprio caráter de Deus, que é amor e justiça. “Deus de fato faz o que Ele deseja com Sua criação; mas Ele não pode desejar fazer com Sua criação o que Ele não pode fazer de maneira justa, pois Sua vontade é circunscrita nos limites de Sua justiça”[2].

Arminius cria que o amor de Deus pela justiça (ou retidão) era primário, e Seu amor pelas criaturas era secundário. William den Boer explica:

Arminius identifica a dupla natureza do amor de Deus como a fundação da religião em geral, e do cristianismo em particular. O primeiro e mais importante amor é o pela justiça, o segundo e subordinado amor é pela humanidade. O último é subordinado porque existe algo que o limita: o amor de Deus pela justiça. Em outras palavras, Deus pode amar uma pessoa apenas quando Sua justiça for satisfeita em respeito àquela pessoa. E quando este é de fato o caso, Deus irá também amar aquela pessoa. Arminius vai ao ponto de afirmar que toda e qualquer forma de religião é impossível se não mantiver o duplo amor de Deus, nesta ordem, e com tal relacionamento mútuo.[3]

Eis algumas palavras de Arminius:

Mas a Religião Cristã também tem sua superestrutura construída neste duplo amor como fundação. Este amor, porém, deve ser  considerado de uma maneira um tanto diferente, em consequência da mudança na condição do homem, que, quando fora criado à imagem de Deus e em Seu favor, tornou-se por sua própria falha um pecador e inimigo de Deus.

(1) O amor de Deus pela retidão [ou justiça] na qual a Religião Cristã repousa, é, Primeiro, que a justiça que ele declarou apenas uma vez, que foi em Jesus Cristo; porque foi Sua vontade que o pecado não deve ser expiado de qualquer outra forma que pelo sangue e pela morte de Seu Filho, e que Cristo não devia ser admitido diante dEle como Advogado, Deprecador e Intercessor, exceto quando aspergido com Seu próprio sangue.

Mas este amor pela retidão é, secundariamente, aquele que Ele diariamente manifesta na pregação do Evangelho, no qual Ele declara ser a Sua vontade conceder uma comunicação de Cristo e Seus benefícios a ninguém, exceto para aquele que se converte e crê em Cristo.[4]

Deus ama Suas criaturas, as quais Ele criou à Sua imagem, de tal modo não somente porque Ele ama justiça e retidão, mas também por Ele ser reto e justo (Sl 145:17). Por causa de Seu amor pela justiça e retidão (para não dizer nada de Seu ódio pelo pecado, veja Pv 6:16-19), Deus é incapaz de efetivar o mal de e por Si Mesmo. E mesmo assim Deus é soberano. Ele dá vida ou fôlego a cada criatura vivente (At 17:28). Arminius afirma (como também o faz o arminianismo clássico) a soberania de Deus. Novamente, Olson explica:

A abordagem de Arminius da providência divina dificilmente pode ser maior ou mais forte sem ser idêntica ao determinismo divino calvinista. Para ele, Deus está intimamente envolvido em tudo que acontece sem ser autor do pecado e malignidade, ou sem infingir a liberdade moral dos seres humanos…

Arminius foi mal-interpretado acerca da acusação que ele mantinha opiniões corruptas a respeito da providência de Deus, porque ele seguiu a sua maneira de afirmá-la. Ele foi até o ponto de afirmar que todo pecado humano, incluso o pecado, é impossível sem a cooperação de Deus! Isto é apenas parte da divina concorrência, e Arminius não estava disposto a considerar Deus como mero espectador. Suas duas únicas exceções ao controle providencial de Deus foram afirmadas em sua carta a Hippolytus A. Collibus – que Deus não causa o pecado, e que a liberdade humana (para pecar) não é restringida. [5] 

Se Deus “coopera com o pecador”, como disse Arminius, quando ele livremente peca (não por uma vontade divina necessitária, mas por liberdade genuína de escolha), como Ele não é considerado pecador também? Olson, longamente citado, explica:

Que Arminius tinha uma forte visão da soberania divina e não caía num modo deísta de pensamento acerca da providência é demonstrado em sua abordagem da concorrência divina. De acordo com ela, Deus não permite o pecado como mero espectador; Deus jamais está no modo de espectador. De fato, Deus não apenas permite o pecado e o mal de acordo com seu propósito e vontade, apesar de não aprová-lo ou eficazmente determiná-lo, mas ele coopera com a criatura em pecado sem ser maculado pela culpa do pecado.

Deus tanto permite quanto efetua um ato pecaminoso, como a rebelião de Adão, porque nenhuma criatura pode agir à parte do auxílio de Deus. Em muitos dos seus escritos, Arminius explica cuidadosamente a concorrência divina, que é sem dúvida o aspecto mais sutil da sua doutrina da soberania e providência. Por ela Deus é a causa primeira de tudo que acontece; mesmo um ato pecaminoso não pode ocorrer sem Deus como sua causa primeira, porque criaturas não têm a capacidade de agir sem seu Criador, o qual é a sua causa suprema de existência…

Arminius argumentava que quando Deus permite um ato, Deus jamais nega a concorrência para uma criatura racional e livre, pois isto seria contraditório. Em outras palavras, uma vez que Deus permite um ato, mesmo um ato pecaminoso, ele não pode consistentemente reter o poder de cometer tal ato. Porém, no caso dos atos pecaminosos ou malignos, ao passo que o mesmo evento é causado por Deus e o homem, a culpa do pecado não é transferida para Deus, porque Deus é o efetivador do ato mas somente o permissor do pecado em si.

É por causa disso que a Escritura algumas vezes atribui maldades a Deus; porque Deus concorre com elas. Deus coopera com os pecadores que cometem tais ações. Mas isto não demonstra que Deus é a causa eficaz delas ou que as deseje, exceto de acordo com sua “vontade consequente”. Deus permite e coopera com eles a contragosto, a fim de preservar a liberdade do pecador, sem a qual pecadores não seriam responsáveis e pessoas arrependidas não adentrariam uma legítima relação pessoal e amorosa com Deus.[6]

Isto difere significativamente da noção calvinista da soberania divina. Wayne Grudem, em sua doutrina da concorrência divina, afirma: “Deus influencia os desejos e decisões das pessoas, pois ele olha para todos os habitantes da terra e forma os seus corações (Sl 33:14,15)”[7]. Grudem vai além do que o arminianismo clássico está disposto a ir. Sim, Deus olha todos os habitantes da terra. Sim, Deus forma os corações de todas as pessoas. Mas o que esta última noção significa? Significa que Deus forma alguns corações para serem mais perversos que outros? Significa que Deus preordenou tudo que uma pessoa dirá, pensará, fará, e escolherá meramente por um decreto?

Em vez de ser uma assertiva de que o SENHOR “fabricou” cada pessoa para dizer, pensar, fazer e escolher aquilo que Deus preordenou, o salmista está simplesmente afirmando que o SENHOR é o Criador de todas as almas humanas – nada mais, nada menos. A NET Bible anota: “O ponto parece ser que o SENHOR é o criador de cada ser humano.”[8] Grudem, porém, ensina que a palavra se refere a Deus influenciando os desejos e decisões de todas as pessoas. Nós discordamos exegética e filosoficamente desta conclusão. Tal conceito desafia a natureza e caráter santos de Deus. E cremos que a lógica calvinista da soberania divina acaba por fazer o mesmo.

_______________________

1 Roger E. Olson, Arminian Theology: Myths and Realities (Downers Grove: IVP Academic, 2006), 116.

2 Ibid., 119-20.

3 William den Boer, “Jacobus Arminius: Theologian of God’s Twofold Love,” in Arminius, Arminianism, and Europe, eds. Th. Marius van Leeuwen, Keith D. Stanglin and Marijke Tolsma (Leiden: Brill Publishing, 2009), 40.

4 James Arminius, “The Declaration of Sentiments,” in The Works of Arminius, three volumes, trans. James and William Nichols (Grand Rapids: Baker Book House, 1986), 1:636.

5 Olson, 121.

6 Ibid., 122-23.

7 Wayne A. Grudem, Bible Doctrine: Essential Teachings of the Christian Faith, ed. Jeff Purswell (Grand Rapids: Zondervan, 1999), 146.

8 The NET Bible, eds. W. Hall Harris III, Michael H. Burer, Robert B. Chisholm, and Daniel B. Wallace (www.bible.org, Biblical Studies Press, L.L.C., 2005), 944.

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5 comentários sobre “Traduções Crédulas: A Doutrina Arminiana da Concorrência Divina

  1. Pingback: Traduções Crédulas: Uma Breve Explicação da doutrina da Dupla Vontade de Deus em Jacobus Arminius | credulo

  2. “Arminianos clássicos creem que o Espírito Santo opera monergisticamente no ato da regeneração, e Ele o faz quando a pessoa confia em Jesus Cristo como Senhor: a fé não causa regeneração, nem pode uma pessoa efetuar a sua própria regeneração”

    Mas para alguém confiar em Jesus Cristo como Senhor é necessário ter a disposição do coração mudada (regeneração).

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