Traduções Crédulas: Quem é o autor do crime?

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Diretamente do blog mais lento da galáxia, mais uma peça de humor reflexivo!

Aqui, o blogueiro JC Thibodaux responde a uma objeção comum: a presciência divina é uma causa dos atos livres? Este é um argumento fatalista, tipicamente utilizado por calvinistas, para sustentar a ideia de uma ‘presciência pelo decreto’. Só que, para responder a esta objeção, ele constrói uma história no mínimo inusitada: o Sequestro da Gufinita!

Leiam, divirtam-se e reflitam!

 Quem foi o autor do crime?

Por J.C. Thibodaux

Tradução: Credulo from this WordPress Blog

CASO 1

A situação foi cruel para o chefe da Polícia, Capitão Everett Justus. O mais poderoso e astuto chefe do crime em toda a cidade, Moriarty Norton, tem constantemente escapado das capturas, e tem recentemente intensificado suas atividades criminosas. Isto já era suficientemente ruim normalmente, mas um despacho com notícias potencialmente piores havia chegado ao escritório. Parece que um envio de Gufinita, um flebótino cerebral de poder irresistível, estava sendo transportado pela sua cidade e seria colocado em um galpão seguro. Justus sabia que este era um desastre anunciado. Norton, anteriormente um novato que ele tinha tomado como pupilo, virou sua genialidade e talentos consideráveis para a vida do crime; e uma substância que pode controlar a mente humana poderia fazê-lo o homem mais poderoso da nação caso colocasse as mãos nela. Justus sabia como seu ambicioso ex-protégé pensava, e sabia que ele jamais deixaria uma oportunidade dessas passar. Mais tarde naquela noite, suas suspeitas se confirmaram quando a vigilância de dois dos associados do Norton revelou que eles planejavam um assalto à Gufinita bem na próxima noite! Se existia alguma possibilidade de capturar o material, Norton estaria disposto a pegá-lo. Na manhã seguinte, Capitão Justus implementou um ousado plano: em vez de aumentar o efetivo de guarda do transporte de Gufinita, ele colocou suas forças em posições estratégicas em volta da cidade e as deixou em espera.

Como esperado, Norton e seus homens colocaram seu plano em ação naquela noite. Eles tinham posicionado diversos carros idênticos ao redor da área e esperaram por sua oportunidade. Guardas foram postos em frente do galpão, com um vigia dentro. Quando o espião de Norton o viu sair do galpão para uma pausa pro cigarro, eles realizaram seu movimento. Sorrateiramente arrombando a entrada dos fundos, ele estavam entrando e saindo com o container metálico em um flash. O vigia deu um passo atrás, apenas a tempo de ver a porta dos fundos se fechando atrás deles, e soou o alarme.

Como o carro de fuga saiu em disparada, Norton deu a ordem, e os outros carros idênticos formaram um comboio em torno dele. Ao sinal da ordem do chefe, algumas viaturas perseguiram os assaltantes, mas num cruzamento Norton deu outra ordem, e os carros idênticos se espalharam todos em diferentes direções, sem nenhuma maneira de os oficiais saberem qual estava trazendo a carga roubada para o esconderijo!

Norton estava satisfeito com sua boa sorte. O assalto tinha sido muito fácil, é claro; mas ele tinha montado a armadilha para uma fuga limpa. Enquanto seu carro se aproximava do esconderijo, ele abriu a caixa metálica para dar aquela boa olhada em seu prêmio. Ligando o equipamento de alta tecnologia utilizado para guardar a Gufinita, ele abriu a câmara para observar – somente para descobrir que fora tapeado! Não era a Gufinita! Era semelhante à primeira vista, mas seu olho treinado reconheceu a fraude. Ele arrancou o isolamento do container e confirmou a presença do que ele temia que também estivesse anexo: um dispositivo de rastreamento. Norton olhou pela janela e viu viaturas e veículos da SWAT abordando seu esconderijo de todas as direções. Era o fim. Seu mentor venceu.

Semanas depois, no julgamento, o advogado de Moriarty Norton, com o nome de Petey Foggery, começou a interrogar o Chefe Justus…

Petey Foggery: … Então, chegamos à real questão: quem foi o autor do crime? Você nos dirá, capitão?

Everett Justus: Seu cliente, obviamente.

PF: Mas capitão, foi de fato você que arranjou a situação na qual ele alegadamente roubou o item, não foi?

EJ: Você quer dizer colocar uma guarda mínima no item roubado?

PF: Sim, você colocou uma guarda mínima no item em questão, criando portanto uma situação na qual meu cliente seria capaz de roubá-lo?

EJ: Sim, eu o fizera.

PF: Então você confessa que é o autor do crime?

EJ: Eu somente permiti ao Sr. Norton a oportunidade de roubar se ele quisesse. A oportunidade em si não configura o crime. O autor do ato maligno é aquele que o realiza, não o que deixa a oportunidade para que se realize.

PF: Mas desde que você arranjou a oportunidade, você deveria querer que ele roubasse, certo?

EJ: Eu não quis que ele cometesse crime algum. Eu odeio o mal e amo a justiça; mas se alguém escolhe seguir o mal, eu terei certeza de que irei impedi-lo.

PF: Então você preparou uma armadilha! Isto foi uma arapuca!

EJ: Eu não o perguntei nem o induzi a cometer este crime, eu simplesmente estava a postos quando ele fizesse seu movimento.

PF: Agora, Chefe Justus, desde que você tinha os recursos à disposição, você poderia ter evitado meu cliente de roubar, em primeira instância, certo?

EJ: Sim, eu poderia.

PF: Então sua falha em evitar o crime de fato implica que você é o autor!

EJ: O que é que você tá falando? Como o fato de eu não ter posto mais guardas no item implica eu ter planejado o assalto?

PF: Por… Eh, por… Por não ter impedido, você é pelo menos parcialmente culpado!

EJ: Meu trabalho é fazer cumprir a lei, não fazê-lo incapaz de violá-la. Não estou obrigado a prevenir o crime se eu tiver poder para acertar as coisas e trazer o transgressor à justiça! E eu estou em meu direito de montar uma operação policial.

PF: Mas sua vigilância confirma que você sabia que ele roubaria o material. Você sabia de antemão que ele tentaria, não é mesmo?

EJ: Sim, eu sabia.

PF: E porque você conhecia que ele tentaria e roubaria, e arranjou as coisas de modo que fosse possível que ele roubasse, então não é justo dizer que você foi o autor do crime?

EJ: Exatamente como o meu conhecimento de que ele iria cometer o crime, implica que eu sou o mentor do crime?

PF: Hum… Você saber sobre isto causa isto acontecer, não é? Porque, quero dizer, se você sabe algo sobre um fato, então as coisas não podem ser diferentes do que você sabia se o seu conhecimento é, de fato, factual… então o que significa que seu conhecimento de fato causou o fato a ser…

EJ: Não sei o que você andou bebendo, mas não! Eu vim com um plano para prender um criminoso, deixei algo aberto para que ele roubasse sabendo que ele tentaria roubar e assim pudesse pegá-lo em flagrante. Eu não o sugeri a roubar, não o coagi a roubar, e não tomei por ele a decisão de roubar, e sequer vim com a ideia de que ele roubasse! Ele que realizou a tomada de decisão, planejamento e ação por si mesmo. Ele é o autor do seu próprio crime, e a justiça exige que ele seja condenado!

PF: Não, não! É você o autor! É você o autor! O autor é aquele que sabe e permite, e desde que você sabia e não impediu, isto implica que é você o autor!!! É isto! É isto que ‘autoria’ significa! Não é, Meritíssimo? Não é?? Hein? Porque está meneando a cabeça? Não é esta a conclusão, Meritíssimo???

Juiz: Meirinho! {Apontando para o Sr. Foggery}, prenda este homem!

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CASO 2

Após a condenação de Moriarty Norton, Everett Justus foi saudado como herói nacional. Enquanto isto, em outra cidade, o Chefe Preston Tenser observava com inveja. Tenser não era tão bom como detetive assim como Justus. Enquanto este poderia juntar as peças e realizar deduções avançadas para prever o comportamento de uma mente criminosa, Tenser não tinha realmente nenhuma ideia do que as pessoas fariam a seguir, a menos que ele fizesse as pessoas fazerem (e ele era consequentemente um micro-gerenciador natural).

Quando o conselho da cidade foi convocado, Chefe Tenser estava informado secretamente que a Gufinita seria transportada pela sua cidade, mas devido aos recentes eventos, a informação sobre seu paradeiro era bem mais controlada. Ao Chefe Tenser fora confiada a chave do compartimento e ele fora nomeado guardião-chefe da Gufinita. Tenser decidiu que ele desejava ser um campeão da justiça como seu colega, então ele usou sua chave para abrir a unidade em que a Gufinita fora secretamente armazenada e preencheu algumas seringas com este produto. Ele virou-se para seu assessor, o Tenente Byron Stander, e então injetou rapidamente a Gufinita nele. Stander levantou-se e seguiu o Chefe Tenser. O chefe então foi-se para a cidade e igualmente injetou Gufinita outras duas pessoas, de nomes Dee Creed e Deuce Causington.

Chefe Tenser observou as três pessoas agora em seu controle. “Não posso falar a uma pessoa para cometer um crime… eu terei que ter mais alguém para fazer isto!” Então Tenser começou a brincar de telefone-sem-fio com seus cativos, e disse: “Sra. Creed, fale ao Sr. Causington para falar ao Tenente Stander para ir ao laboratório e roubar a Gufinita”. Sra. Creed obedientemente virou e falou ao Sr. Causington: “Fale ao Tenente Stander para ir ao laboratório e roubar a Gufinita”. Sr. Causington virou para o Sr. Stander e disse: “Vá ao laboratório e roube a Gufinita”. Chefe Stander acrescentou: “Stander, roubar é contra a lei, não faça isso”. Tenente Stander ficou paralisado pelas ordens contraditórias. Tenser retransmitiu outra mensagem no estilo telefone-sem-fio: “Ignore as advertências e roube a Gufinita”. Tenente Stander obedeceu e seguiu seu caminho.

Tenente Stander adentrou o laboratório, o qual Tenser deixou aberto, e fugiu com o container de Gufinita. Enquanto ele entrou no carro e fez seu caminho de volta para o apartamento, diversas viaturas tornaram seus flashes e o puxaram para fora. Capitão Tenser saiu de um dos veículos, sacou sua arma, mostrou o distintivo e ordenou seu assistente a sair do carro. Tenente Stander obedeceu, foi algemado e conduzido enquanto o Chefe Tenser sorria para as câmeras.

Semanas depois, no julgamento, o laboratório confirmou a análise de que traços de Gufinita foram encontrados não apenas no sangue do Tenente Stander, mas também no de Sra. Creed e Sr. Causington. O advogado de Stander, Rahm Ifikeishun, chamou o Chefe Preston Tenser à bancada…

Rahm Ifikeishun: …Então, vamos à real questão: quem é o autor do crime? Você nos dirá, Capitão?

Preston Tenser: Não fui eu.

RI: Você era o único com acesso à Gufinita… Não a usou?

PT: Sim, e daí?

RI: E meu cliente cometeu o crime de assalto como resultado de você ter usado Gufinita?

PT: Ahn-ham. Ele definitivamente fez isto – que é o porquê de ele merecer a punição em toda a extensão da lei!

RI: Então… Você de fato detesta o crime que fora perpetrado?

PT: Eu detesto isto de todo meu ser, e por isso eu digo para trancafiar este moleque! O crime que ele cometeu é absolutamente desprezível!

RI: Pode-se então dizer corretamente que não há nada em poder de meu cliente que poderia ser feito para que resistisse a este efeito?

PT: Você acertou. Esta coisa é invencível. Mas ele quis roubar, então ele ainda é responsável.

RI: Ele fez o que fez devido a Gufinita tê-lo feito o que fez?

PT: Claro, Mas ele ainda é responsável. Ademais, não é como se eu não o houvesse alertado para não fazer e não o tivesse impedido…

RI: Você tentou impedi-lo? Então… Ele poderia ter escolhido não cometer o crime?

PT: Sim, se ele quisesse me ouvir, mas porque eu tinha todo o poder sobre ele, eu o fiz ignorar tal aviso de modo que eu pudesse puni-lo justamente por sua teimosia e motivos criminosos!

RI: Mas… não foram estes motivos algo que você implantou nele?

PT: Definitivamente. E é por isso que eu posso declará-lo como responsável!

RI: Então… Se você odeia este crime tanto, e não foi a mente por trás dele, então quem foi?

PT: O perpetrador, claro. Ele é o que fez isto!

RI: Mas ele não é o autor do crime. Ele estava irresistivelmente seguindo o plano alheio.

PT: Sim, ele estava seguindo as ordens de Sr. Causington.

RI: E claro, a análise forense confirma que o Sr. Causington e a alegada conspiradora Sra. Creed foram injetadas com Gufinita também. Se todos foram injetados, e portanto estavam sendo controlados, então quem é o mentor deste crime?

PT: Um ou mais deles. Não eu, obviamente.

RI: Mas não foi você que realizou as injeções?

PT: E que há de errado? Existe alguma lei em algum lugar que especificamente diz que eu não possa injetar Gufinita nas pessoas? Sou o guardião-chefe da Gufinita! Quem é você para me retrucar?!?!?

RI: Não é este o ponto, estamos falando da autoria deste crime. Então você fez todos eles agirem exatamente como você havia orientado?

PT: Certamente.

RI: E fazendo exatamente como você orientou resultou no ato do Tenente Stander de roubar, certo?

PT: É por isso que estamos aqui. Para condenar Stander por suas maléficas atitudes…

RI: E aquele que os orientou a fazê-lo, na verdade, foi você, não foi?

PT: Claro. Quem mais você pensa ter feito isto?

RI: Então você é o mentor do crime!

PT: Mas veja, não sou responsável, porque eu fui apenas a causa remota que os fez cometer este ato, é a pessoa mais próxima da causa que cometeu o crime e deve ser punida.

RI: Se você veio com isto e fê-los fazer isto, então como não é você o autor??!!?

PT: Bem, veja, ser aquele que vem com o plano não me faz o autor, desde que ele o fez porque outras pessoas o orientaram a fazer isto..-

RI: ..-estas outras pessoas sendo também deixadas sem escolha além de seguir suas ordens para tal finalidade!

PT: Você simplesmente não entende o que é justiça de verdade, né? Isto não é desculpa! Ele cometeu o crime, ele é culpado! Sem desculpas! Você não pode me culpar por isso, porque eu não fiz nada de errado, eu sequer estava perto do laboratório quando ele fora roubado! O fato de ele estar agindo apesar de completamente controlado pela minha vontade não muda nada! Esta é a verdadeira justiça! Ele fez isto, não eu! Eu não sou o autor! Eu sou a justiça!

RI: A defesa encerra, Senhor Meritíssimo.

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Perguntas:

  1. Qual destes homens (se algum) é um herói?
  2. Qual deles executou justiça?
  3. Qual deles estava apenas brincando com palavras?
  4. Qual deles corretamente julgou seu subordinando que se tornou vilão?
  5. Qual o autor dos crimes?
  6. Qual destes homens tem um senso de justiça digno de ser seguido?

 

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3 comentários sobre “Traduções Crédulas: Quem é o autor do crime?

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