Traduções Crédulas: Falácias da Apologética Calvinista IV

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Mais uma no post de falácias! Eis aqui uma falácia não tão incomum, mas que revela uma desonestidade ou ignorância tremendas acerca da soteriologia arminiana: afirmar que livre arbítrio é o poder de fazer qualquer coisa.

Falácias da Apologética Calvinista
Falácia IV – “Livre arbítrio é o poder de realizar qualquer coisa!”

Por J.C. Thibodaux from ArminianPerspectives
Tradução: Credulo from this WordPress Blog

Falácias Relacionadas:
Super-simplificação
Espantalho
Falso Dilema

Um dos mais persuasivos sinais do raciocínio falacioso da apologética calvinista é sua pesada confiança em caricaturas e distorções das crenças de outros cristãos. Existem poucas coisas mais frustrantes que tentar explicar um conceito a alguém que simplesmente toma uma prévia concepção do que está sendo dito, e prossegue de uma maneira maluca em disprová-la, sem prestar atenção em quaisquer detalhes ou qualificações, e mesmo assim esta tática é algo como um grampo entre os seus mais loquazes proponentes.

Postei anteriormente sobre uma descrição cristã do livre arbítrio libertário, bem como outros numerosos autores já fizeram. É digno de nota o fato que o livre-arbítrio libertário, no contexto da teologia ortodoxa cristã, permite ao indivíduo escolher livremente entre uma gama de opções disponíveis. Portanto, dependendo dos contextos individuais, as escolhas possíveis podem ser limitadas, e algumas das opções podem nem mesmo serem possíveis. Este conceito deve ser bastante óbvio a qualquer um possuindo mesmo uma ligeira familiaridade com a teologia arminiana, desde que uma das suas distinções primárias é que o homem não possui a capacidade natural de vir a Cristo à parte da obra graciosa de Deus (a graça preveniente).

Mesmo assim, não importa quantas vezes ou quão claramente se repita, muitos escritores calvinistas ou não compreendem o conceito ou simplesmente continuam a distorcê-lo desonestamente. Uma das táticas mais comuns é emoldurar o livre arbítrio libertário como algum poder imaginário que te permite fazer o que quiser, quando quiser, sem nenhuma restrição que seja.

John Hendryx, em seu ensaio “Onze razões para rejeitar o livre arbítrio libertário”, tenta negar que Deus tenha poder de escolha
contrária usando esta mesma caricatura batida:

De fato, Suas escolhas estão tão ligadas em Sua natureza e essência que Ele não poderia fazer de outra maneira. Mas a liberdade de Deus é a real liberdade definida na Bíblia – uma liberdade do pecado, não uma liberdade de fazer de outra maneira. Deus é livre no sentido compatibilista de que Ele sempre age de acordo com Sua natureza, nunca contra. Deus não tem a ‘liberdade’ de fazer o que é contrário à Sua natureza, então Ele não é livre no sentido libertário (de fato, ninguém realmente é).

Problemas com esta lógica

Nós admitimos facilmente que as escolhas de Deus são restritas pela Sua natureza. O poder divino de escolha contrária (que, como já mostramos, é essencial para Sua soberania na eleição) não impõe que Ele seja capaz de violar a Sua própria santidade, desde que isto está além do que o poder de escolha contrária permite. O ‘livre arbítrio libertário’ com o qual Hendryx compara a vontade de Deus não reflete acuradamente a visão cristã de livre arbítrio, isto é, poder de escolha contrária dentro de certos limites; mas é de fato uma caricatura na linha de ‘habilidade de escolher absolutamente qualquer coisa sem limitações’ – nada além de um espantalho supersimsplista.

Ademais, as conclusões de Hendryx aqui não seguem: as escolhas divinas serem limitadas pela Sua natureza não significa que Suas escolhas são 100% determinadas pela Sua natureza. A diferença entre restrições e determinismo pode ser descrita num caso mais físico: a proteção do ombro limita o quão longe e em que direções o braço de alguém podem se mover (sem realmente se machucar, de qualquer modo), mas seria insano dizer que a proteção em si ‘determinou’ em que direções o braço se moveu e quando, desde que a articulação se move livremente dentro dos limites da proteção. Do mesmo modo, a limitação de que Deus não pode mentir não o impede de ter outras opções, já que as escolha não vêm sempre em apenas duas opções do gênero ‘ser ou não honesto;’ existem mais opções nos limites da honestidade e santidade. Como afirmei no último post, não é essencial à natureza de Deus ter me criado, nem ser mais ou menos santo do que Ele é. Deus tem poder de escolha contrária, uma vez que ambas as opções estejam nos limites da Sua santidade; Ele portanto é livre no sentido libertário, dado que como visto na analogia da proteção de ombro, liberdade dentro de uma faixa de escolhas ainda é liberdade.

Obviamente, este dilema calvinista de ‘determinismo ou livre arbítrio ilimitado’ é espúrio, desde que podemos ter livre arbítrio dentro de alguns limites. Mas, de todo jeito, isto não os impede de usar esta falácia para tentar atacar o livre arbítrio libertário. Alguns calvinistas vão tão longe nesta ideia absurda de ‘livre arbítrio te permite fazer qualquer coisa’ que chegam até mesmo ao extremo do ridículo em perguntar coisas como “Se você tem livre arbítrio, então porque não ‘escolhe’ bater asas e sair voando?” (um óbvio non sequitur, já que nossa tomada de escolhas não necessariamente afeta qualquer condição externa; ou em português bem claro: é livre arbítrio libertário, e não superpoderes libertários). Tal insanidade é dificilmente digna de comentários – exceto pelo fato de que eu realmente confronto calvinistas educados que simpatizam com este tipo de sofisma como se fosse um argumento realmente sério!

Nada disso deveria ser uma surpresa. O caso escritural a favor da realidade do livre arbítrio libertário é tão forte, que a única ‘opção viável’ deixada na mão dos compatibilistas é queimar espantalhos.

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Um comentário sobre “Traduções Crédulas: Falácias da Apologética Calvinista IV

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